Notas iniciais
Quanto tempo, caramba! Desculpem, leitores. Eu sumi. Falta de tempo, depois falta de inspiração, depois voltou a inspiração mas veio a falta de tempo de novo... enfim, o fato é que não queria voltar antes de ter algo um pouco adiantado para não deixar vocês na espera de novo. Então, aqui vamos nós. Já tenho a ideia de como pretendo finalizar esta história. Temos mais alguns capítulos até o último, que espero fazer valer a pena para aqueles que ainda estiverem dispostos a acompanhar esta fanfiction. Agradeço antecipadamente quem estiver aí do outro lado.

Megan aperta os olhos, sem saber o que é pior: a dor de cabeça ou a surpresa que teve ao se levantar para tomar café da manhã e abrir a página de notícias em seu MarraPhone para encontrar a manchete de destaque nas colunas sociais:

A rebelde herdeira e o jovem presidente da Marra dão pega frenético em inauguração de badalada casa noturna no RJ

Shit!” ela murmura por baixo de um suspiro, ainda sem acreditar no que todos os sites e revistas eletrônicas de fofoca estão divulgando.

Alguém os viu se beijando... mas, como? Procurando freneticamente na rede, ela só encontra a repetição da notícia em outros portais. Olhando pelo lado positivo, se é que existe um, pelo menos não há nenhuma foto. Certamente quem os viu foi uma pessoa qualquer que vendeu a notícia para algum site de fofoca.

Deixando o celular de lado sobre a mesa, ela se pega suspirando e pensando em como vai ser agora. Sua situação com Davi está pior do que podia ter imaginado.

Deixando os cotovelos se apoiarem sobre a mesa, contrariando as normas de etiqueta aprendidas desde pequena, ela sustenta a cabeça com as mãos, os olhos ardendo por causa da ressaca. A situação em que se colocou na noite passada foi tudo o que tentou evitar. Uma recaída. Fraqueza.

Damn Davi!” ela exclama, empurrando a cadeira para trás e pondo-se de pé.

Caminha até a parede de vidro que dá vista para o jardim de inverno e contempla por alguns segundos o próprio reflexo, levando as mãos às têmporas.

A verdade é que Megan sente mais raiva de si mesma do que de Davi. Sim, raiva de si mesma por ter sucumbido. Podia tê-lo empurrado e lhe dado as costas, mas não. Não foi isso o que fez. Ao contrário. Cedeu. Não só a Davi, mas aos próprios impulsos. E isso a está enlouquecendo agora. Constatar que ainda sente mais por ele do que queria admitir.

*

Boss! Boss!” a voz afoita de Murphy chega aos ouvidos de Davi, que ergue os olhos dos relatórios do último balanço da empresa para ver o secretário apertando um Marra Tablet contra o peito.

“O que foi, Murphy? Algum incêndio na Marra?” pergunta, massageando a têmpora latejante, que só piorou com a entrada agitada do indiano.

Sorry, Boss. Eu não quis assustar o senhor…”

“Bom saber” Davi ironiza, abrindo uma gaveta do armário ao lado de sua mesa e retirando mais um comprido para dor de cabeça.

“Ótimo. É bom que o senhor tome o remédio antes de ouvir a notícia” Murphy diz.

Davi franze o cenho, começando a ficar realmente preocupado. “O que houve? Não me diga que as vendas do nosso último lançamento caíram?”

“Não” Murphy balança enfaticamente a cabeça. “Não é nada relacionado aos negócios, Boss. Pelo menos, não diretamente.”

“Menos mal, porque se tivermos mais algum abalo financeiro…” Davi suspira, levando o comprimido à boca e tomando um pouco da água que está em seu copo sobre a mesa. “Não sei como a coisa ia ficar. A Marra mal está começando a sair do vermelho.”

“Bem, o que acontece é mais de cunho pessoal, Boss” Murphy finalmente afasta o Marra Tablet do peito e o estende o bastante para que o jovem chefe consiga ver a manchete estampada na tela.

“Mas que porr-” Davi morde a língua, arrependendo-se de imediato. Ele se levanta, cerrando os punhos enquanto termina de praguejar mentalmente.

Sorry, Boss. Mas eu tinha que mostrar ao senhor. Está em todos os sites de fofocas de famosos e também nas colunas sociais.”

Por um instante, Davi fica sem palavras. Sua cabeça, que já doía o bastante pela ressaca, agora parece querer explodir.

“Mas como?” ele faz a pergunta mais para si mesmo do que para o assistente, mesmo assim, é Murphy quem responde.

“Nesses lugares sempre tem paparazzi de plantão esperando a oportunidade de um flagra. Mas, como não publicaram nenhuma foto comprometedora junto com a notícia, creio que alguém os viu e vendeu a notícia a algum veículo de fofocas de celebridade, e os demais republicaram a nota. Como o senhor e a Miss Marra foram fotografados juntos na entrada da festa, isto já serviu para dar embasamento a fofoca.”

Davi suspira, cerrando os olhos e apertando o vinco que se forma em sua testa.

“Droga, Murphy! Isso não podia ter acontecido!”

“O senhor se refere à publicação dessa fofoca? Ou ao fato de ter realmente acontecido?”

Só então Davi abre os olhos para ver a expressão incerta e curiosa do secretário. Recobrando a postura, senta-se novamente em sua cadeira da presidência.

Sorry, Boss” Muprhy murmura, percebendo sua inconveniência. “Bem, de qualquer maneira, talvez essa manchete venha a se mostrar útil.”

“Útil?” Davi questiona, como se o secretário tivesse enlouquecido. Está perdido de várias maneiras, primeiro por ter cometido aquela loucura partindo para cima de Megan, depois porque, diante desse escândalo, dificilmente ela vai olhar em sua cara outra vez.

“Sim, Boss. Normalmente esse tipo de nota mais ajuda do que atrapalha” Murphy aperta o Marra Tablet novamente contra o peito, a expressão tornando-se otimista. “As pessoas adoram uma fofoca sobre os ricos e poderosos. E essa sem dúvida vai chamar mais a atenção das pessoas para a Marra, o que pode aumentar nossas vendas.”

“O quê...?” Davi franze as sobrancelhas, achando a ideia absurda num primeiro instante, porém, em poucos segundos, as palavras do indiano fazem sentido. É totalmente contra seus princípios e valores, mas Murphy não deixa de ter uma certa razão. Por pior que sua situação com Megan esteja agora, talvez isso se reverta em prol da Marra.

Mas que merda está me passando pela cabeça? Davi se auto-critica no mesmo instante. Como posso sequer considerar uma coisa dessas?

“Murphy, saia, por favor” ele pede, sacudindo a cabeça. “Tenho muita coisa pra fazer. Não tenho tempo a perder com esse tipo de coisa.”

A expressão do secretário parece murchar. “Sim, Boss. Eu já vou.”

Davi sente-se meio mal por despachar o rapaz assim, mas precisa ficar sozinho. Suspira assim que Murphy fecha a porta ao sair, apoiando os cotovelos sobre o tampo de vidro da mesa.

Bem que havia estranhado os olhares que recebeu dos funcionários ao chegar para trabalhar de manhã. Olhavam para ele com sorrisos sugestivos e Davi não tinha entendido porquê. Agora sabe a razão.

Abrindo o navegador de seu computador, clica num site de buscas e, dentro de poucos segundos, os resultados aparecem em vários e diferentes endereços. A nota já se espalhou como fogo. Ele faz questão de ler o conteúdo de uma delas:

Parece que amor e prazer, sim, se misturam. Pelo menos nos negócios da família Marra. A estonteante Miss America, Megan Lily Parker-Marra, fruto da união da eterna Princesa Shelda (Pamela Parker) e do gênio da tecnologia (agora presidiário) Jonas Marra, e o jovem presidente da empresa que já foi a maior do ramo tecnológico, Davi Reis, parecem se entender muito bem, e não só no ramo profissional. Durante a inauguração da boate Blackout, os dois foram fotografados na entrada posando como dois bons amigos. E muito embora ambos tenham ido à festa acompanhados, seus respectivos parceiros, ao que tudo indica, foram só acompanhantes de fachada, ou então, foram passados para trás, pois a herdeira do império da tecnologia e o presidente prodígio foram flagrados por uma fonte nossa muito juntinhos no meio da balada. Com direito a beijo ardente, o par mostrou-se mais ligado do que meros parceiros de negócios.

Chegar com um e terminar a noite com outro já era algo de se esperar da garota problema da América, afinal, a patricinha gringa sempre trocou de parceiro como quem troca de figurino Chanel. O que ninguém sabia era que o sucessor de Jonas Marra, cuja vida pessoal até então era um verdadeiro mistério, tivesse uma tão agitada quanto a de seu antigo mentor. Resta adivinhar o que o Marra Man deve estar achando de sua filhinha unir os negócios ao prazer. Será que essa mistura vai dar certo? Ou o jovem presidente será apenas mais um passatempo para a pobre menina rica?

Davi geme baixinho, entredentes. Se antes de ler estava mal, agora se sente péssimo. O tom é de puro sensacionalismo barato, e não só, Megan é colocada como uma qualquer.

E a culpa é toda sua. Afinal, foi ele quem começou isso, quem a beijou no calor da emoção e provocou esse escândalo todo. Não era para haver repercussão alguma, porém, com a cabeça cheia de álcool e a raiva e o desejo falando em lugar da razão, não podia ter esperado um resultado melhor.

O que foi fazer? E, pior: como vai sair dessa agora?

*

Megan pensou mil vezes antes de decidir se deveria ou não ir à Marra. Havia muitos contras pesando na balança, porém, tinha um dever a cumprir. Veio da França com um propósito e não seria nada responsável de sua parte fugir do compromisso assumido com os negócios da família. Talvez, se fosse em outros tempos, pudesse usar a maldita ressaca como desculpa, mas não é mais o caso.

Ela mudou. E muito. Somente agora está se dando conta disso completamente. Mesmo que quisesse, seria incapaz de deixar as pessoas que direta ou indiretamente dependem dela na mão. A Marra está apenas começando a se reerguer, quer acompanhar de perto esse processo e colaborar como estiver ao seu alcance.

Portanto, seus problemas pessoais parecem menores se comparados à grandeza da situação que tem em mãos. Sua experiência é suficiente para lidar com os olhares e comentários mal disfarçados que rolam entre os funcionários da empresa. Se puder evitar esbarrar em Davi, já será suficiente.

No entanto, mal pisa no andar da presidência, a sorte acena em despedida... Megan sente a garganta seca no instante em que a porta da sala de Davi se abre e ninguém menos do que o próprio sai por ela.

Megan mal tem tempo de reagir ou continuar rumo a sala de sua mãe, como pretendia. Seus passos congelam quando ele chama seu nome.

“Megan!” ele ofega, parecendo surpreso por vê-la ali.

Tentando evitar qualquer diálogo para o qual não está preparada, ela recupera o controle das próprias pernas e começa a dar dois passos em frente.

“Desculpe, eu estou indo… well, tenho coisas a fazer.”

Davi, porém, é mais rápido e a alcança.

“Será que você pode me dar cinco minutos?”

Megan fecha os olhos por cinco segundos antes de liberar o ar que nem sabia estar prendendo. Quando torna a abri-los, se assusta com a força com que seu coração bate ao conectar o olhar com o dele.

“Eu realmente tenho coisas a fazer, Davi…” ela tenta, inutilmente, esquivar-se outra vez, a voz falhando.

“Eu também tenho. Mas nós precisamos conversar, não acha?”

Ela está prestes a responder que não, porém, algo a impede. Talvez a expressão no rosto de Davi. Ele parece… arrasado.

Okay” ela murmura, “Desde que seja rápido.”

“Obrigado” ele diz, aparentando sincera gratidão.

Megan desvia o olhar, tentando não se sentir tão fraca diante dele.

Assim que entram na sala da presidência, Davi fecha a porta. Megan sente o ar ficar mais rarefeito. Esfrega as palmas das mãos suadas discretamente na saia.

É Davi quem rompe o silêncio, indo direto ao assunto.

“Megan, acho que você já viu as notícias nos sites de hoje, certo?”

Ela dá as costas a ele, andando até janela, onde fica a espiar o movimento lá embaixo enquanto abraça o próprio corpo com os braços numa atitude que, não lhe passa despercebido, é uma tentativa de auto-proteção.

“Não é nenhuma novidade. Megan Parker-Marra, the bitch. Já vi essa manchete antes.”

“Mesmo assim, não está certo. Não é verdade. E eu me sinto ainda pior por saber que a culpa foi minha. Eu provoquei tudo isso.”

“Apesar de você ter sido um imbecil comigo ontem, você não beijou sozinho.”

“Mas comecei” ele enfatiza. “E eu não devia… não quando sabia que você estava acompanhada. E também quando você não me deu nenhum sinal de que queria isso.”

“Eu correspondi” ela admite antes que possa evitar.

Então, escuta os passos de Davi aproximando-se a suas costas. O corpo de Megan congela. E as palavras que ele profere a seguir quase são abafadas pelas batidas de seu coração ribombando dentro do peito.

“Megan… eu preciso saber… você ainda sente alguma coisa por mim?”