Love Love
11 Mesmo na distancia
Notas iniciais
Mesmo na distancia.
Ela caminhava pelas calçadas cheias de neve, com sua roupa completamente escura e bem aconchegante, talvez até mesmo grande de mais para seu corpinho miúdo de criança. Um enorme casaco negro lhe tampava o corpo, chegando até a dobra de seus joelhos enquanto uma calça de moletom bem acolchoada lhe tampava as pernas, também negra, e em seus pés se encontrava um pequena bota que ia até metade de suas canelas, a protegendo da neve fofa e molhada, que não passava do tecido especial que era feita aquele calçado. Nas pequenas mãos da garota se encontravam pequenas luvas vermelhas que tampavam todos seus dedinhos e o deixavam bem quentes naquele forte frio.
Qualquer um que a visse saberia quem era, por morar em uma cidade pequena não era difícil saber quem era quem e com sua peculiar aparência não era de se impressionar que todos a reconhecessem. Seus olhos eram de uma peculiar mistura de vermelho com azul, não dando para saber qual realmente era o mais aparente, sua pele era morena, seus cabelos de um negro profundo, mas com mechas naturais da cor loira. Era pequena, miudinha, e apesar de ter seus cinco anos aparentava ser mais nova, mas se conversasse com ela, teria a impressão que se tratava de alguém bem mais velho. Um prodígio, uma menina esperta, mas com uma reputação não tão boa.
Todos que passavam a encaravam de uma maneira estranha, enquanto a garota caminhava calmamente pela neve com seu olhar sério e penetrante sempre focado para frente encarando o nada em especial. Não possuía nenhum amigo que o povo dali conhecesse, e morava com a mãe, a existência do pai era desconhecida para a pequena, ou pelo menos todos acreditavam nisso. Ela então parou de andar, na frente de uma loja de flores e com suas pequenas mãos empurrou a porta adentrando no recinto cheiroso e acolhedor.
Sem prestar atenção nas pessoas que a encaravam, surpresas e criticas, a garota caminhou por entre as prateleiras de flores, procurando as que queria pegar. Suas mãos adentraram em seu bolso roçando o pequeno objeto que tinha ali dentro. Seria uma surpresa e tento, sabia que ela iria gostar, porque ele lhe dissera que ela gostava dessas coisas. De repente ela parara de andar, como se alguém tivesse lhe chamado, e então olhou para o lado, inclinando o corpo ligeiramente para o local. Encarou as pequenas flores que tinham ali escondidas e então se aproximou com passos delicados e calmos. Um enorme sorriso surgiu em seu rosto, uma ação rara de sua pessoa, e então olhou para o lado, como se enxergasse naquele ponto vazio alguém.
— Essas? – questionou apontando para as pequenas flores e encarando o nada, mas ao mesmo tempo parecendo ver alguém. Esse era o motivo para que todos a encarassem de maneira tão estranha. A garota falava sozinha, em publico, mas não era para si mesma como a maioria das pessoas, era como se alguém estivesse a seu lado... Junto dela... As vezes ela discutia com o que parecia mais de uma pessoa, gritava nomes que ninguém conhecia e corria de um lado para o outro como se brincasse com pessoas que não estavam ali.
A garota pegara as pequenas flores em um buque delicado e pequeno e andara calmamente até o caixa, onde um homem velho e uma mulher jovem conversavam aos sussurros e olhavam para ela. A pobre garota nem mesmo ligava, permanecia com um enorme sorriso no rosto, alegre pelo o que estava fazendo e colocou as flores no balcão dizendo com gentileza. – Pode colocar um plástico nela como se fosse um presente?
- E você tem dinheiro para pagar isso pequena? – perguntou o velho pegando as penas flores e as direcionando para um canto onde pudesse colocar o “papel de presente”. A garota tirou de um dos bolsos da jaqueta a quantia certa das flores e com muita dificuldade por causa do seu tamanho e colocou as notas encima do balcão, bem no momento que o velho aparecia com as flores prontas. – E onde esta sua mãe pequena? Ela que lhe deu esse dinheiro?
— Mamãe ainda esta trabalhando, isso é uma surpresa para ela. Esse dinheiro é parte da minha mesada. – respondeu a garota passando seus bracinhos pelo buque com todo o cuidado que tinha e então se encaminhando na direção da porta. – Obrigada e tenham um bom dia!
Ela saiu saltitante do lugar caminhando com passos rápidos pelas ruas a caminho de casa, uma casinha simples que ficava em uma parte distante da cidade. Era incomum ver um sorriso tão grande no rosto da garota, mas quando ela passou para um pequeno bosque que tinha nas redondezas da cidade seu sorriso apenas aumentava e gargalhadas escapavam de sua boca, como se brincasse com alguém, como se tivessem pessoas a sua volta lhe fazendo rir. Era essa a atitude que ocasionavam a garota uma má reputação, a sentença de louca, de problemática... Era isso que lhe afastava das outras pessoas e ao mesmo tempo lhe aproximava de sua mãe.
Chegou em casa e abriu o pequeno portão que tinha na frente de sua casa correndo para dentro da mesma. Quase toda feita de vidro, com portas espalhadas ali e aqui, de dois andares e paredes brancas... Uma casa moderna e ao mesmo tempo simples, um doce lar para a garota e para sua mãe. Ela entrou com animação e correu até a sala, tirando o casaco e o jogando para um canto do lugar. Sua voz ecoava por toda a casa e quando finalmente chegou onde queria, em uma sala completamente branca, com sofás da mesma cor, mas com quadros coloridos, com flores de todas as cores encima dos moveis brancos. O piso de azulejos brancos refletia sua pessoa em uma imagem virtual enquanto se aproximava da pessoa sentada no sofá, que o mais rápido possível passou o braço pela região dos olhos e virou o rosto em sua direção.
— Isso é para você mamãe! – exclamou a pequena entregando o pequeno buque para a mulher que tinha a sua frente. Pequena, com curvas discretas e aparência jovem, estava uma bela moça de trinta e poucos anos, de cabelos loiros longos, olhos azuis celestes reluzentes, apesar de agora se encontrarem um pouco avermelhados, a pele alva e o rosto angelical e dócil. A pequena lhe entregou o buque e então tirou do bolso a pequena caixinha também lhe entregando. – Feliz aniversario mãe!!
— Minha pequena, isso é lindo! – exclamou a mulher pegando o buque e a caixinha sorrindo com alegria para a pequena. Mas então encarou a garota de maneira reprovativa e divertida. – Não me diga que gastara sua mesada comigo. – a garota riu denunciada e sua mãe lhe abraçou com carinho. – Você é meu mais precioso anjinho Yin. Minha filhinha querida... Te amo tanto...
— Também te amo muito mãe! – exclamou novamente a garota retribuindo o abraço da mãe. As duas eram muito próximas e apesar de aparentar felicidade, a mãe da pequena chorava em silencio, por um fato que ainda lhe incomodava e que não sabia que a filha conhecia...
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Era o dia seguinte do aniversario de sua mãe, estava no pequeno playground no centro da cidade. No momento ele estava deserto e gostava dele assim. Sentada no balanço ia e vinha, parecendo ser empurrada por alguém as suas costas enquanto pedia para que empurrasse com mais força, falando uma palavra que ninguém sabia que poderia pronunciar a alguém. Risos escapavam de sua boca e de repente, enquanto estava bem no alto, saltou do balanço, tendo a ligeira sensação que estava voando, até atingir o solo e rolar pela neve fofa e rala que tinha no chão.
Estendida em meio a neve ria sem parar, até que passou a se contorcer no mesmo, rindo cada vez mais, como se alguém lhe fizesse cócegas, e novamente voltava a pronunciar nomes que ninguém conhecia, nome que saía entre as risadas aloucadas. Mal sabia a garota que logo esses seus atos estranhos para os outros lhe causariam problemas, problemas que talvez não poderia resolver sozinha.
— Ei, maluca! – gritou o garoto. Deveria ser um pouco mais velha que ela e se aproximava de onde estava junto a mais três garotos. Quase que de imediato a garota parara de rir e se sentara no chão encarando os garotos atentamente, sem compreender o que acontecia. Sua mão parecia segurar a de outra pessoa, mas não havia ninguém perto dela. – Não deveria estar nesse parquinho.
— Ele é publico, qualquer um poderia estar aqui. – retrucou a garota calma, tentando manter apenas a conversa e não demonstrar o medo que sentia, apertando a mão de quem quer que fosse o ser invisível a seu lado. – Eu só estava me divertindo com meus amigos... Logo vou voltar para casa, mas se quiserem podem entrar na brincadeira também.
— E por que brincariam com você e seus amigos imaginários, garota estranha? – um dos garotos lhe acertara a mão no rosto, fazendo-o arder e ser empurrado para o lado. Lagrimas lhe encheram os olhos enquanto uma de suas mãos lhe apertava o lado atingido pela mão do garoto. – Deveria estar em um hospício e não aqui.
— É uma maluca, deveria ir embora! – um garoto lhe acertou um chuto que ferira sua boca, lhe fazendo sangrar e atingir o chão com força, provocando mais um machucado na testa. A neve antes branca se manchara de vermelho e sua visão ficara turva, seu corpo estremeceu e não conseguiu mais achar o equilíbrio para ficar de pé. As lágrimas começaram sair enquanto se encolhia levando uma mão uma pouco acima de sua cabeça, parecendo segurar alguma coisa ali.
De repente um dos garotos fora arremessado para trás, caindo na neve. Outro então fora atingido por uma bola de neve que ninguém em especifico tinha lançado. Outro caíra de bruços no chão, tendo a cabeça soterrada na neve e o braço torcido para trás. O ultimo tomara uma rasteira e sentira um forte tapa atingindo seu rosto, mas não havia ninguém ali a não ser ele e seus amigos e a garota que se encontrava deitada chorando no chão. Os quatro garotos se levantaram correndo e saíram de lá sem perder tempo, gritando pelas mãos e chorando desesperados.
A pequena foi levantada, parecendo ser amparada por alguém e seu corpo cambaleou para longe de lá. Ainda com o rosto sangrando se encaminhou até em casa, perdendo o equilíbrio algumas vezes, tendo a visão ainda turva e as pernas bambas. Só queria chegar em casa, encontrar sua mãe, chorar perto dela e sentir o doce carinho dela. Não precisava de mais nada além disso. Chegou em casa ainda cambaleando e se deixou cair no chão branco, manchando o mesmo com o sangue que ainda lhe escorria pela testa. Chegou a ouvir o grito de sua mãe, que a ergueu do chão e a levou até a sala, limpando com um pano seu ferimento na testa e na boca.
Seu rosto estava um caos. A testa com um corte e ligeiramente inchada, os olhos vermelhos pelo choro, um lado do rosto inchado e vermelho por causa do tapa que levara e o lábio inferior inchado e ligeiramente arroxeado. Ainda se sentia tonta, ainda se sentia desamparada, ainda queria apenas esquecer a dor que sentia.
— Por que te fizeram isso minha filha? O que aconteceu? – chorou sua mãe preocupada, limpando seus ferimentos e acariciando a cabeça. Via lágrimas escaparem dos olhos dela e sabia que era hora de ser direta, de contar a ela toda a verdade sem enigmas.
— Porque me chamam de louca mãe, porque me acham maluca por conversar com quem converso... Porque eles não os veem. – respondeu enquanto as lágrimas voltavam a sair de seus olhos. Sua mãe a mirou sem compreender e se sentou a seu lado passando um braço por seu ombro e a encarando atentamente.
— O que quer dizer com isso Yin? – questionou tentando engolir as lágrimas que escapavam de seus olhos. A garota lhe encarou com os olhos úmidos e então respirou fundo para continuar.
— Eu sei o que aconteceu, no dia de amanhã há cinco anos. – comentou enquanto sua mãe abria os olhos como nunca. – Sei que quando descobriu que estava grávida de mim aconteceu um acidente que tirou não apenas meu pai, mas como também todos seus outros amigos de você... Eu sei porque os vejo todo dia... Eu sei porque eles me contaram...
— Yin isso... – sua mãe tentou lhe interromper, mas a garota não permitira e continuara.
— Eles estão sempre a meu lado, são meus amigos. Tia Amy e Tio Sonic brigam de mais... Racer é até que engraçado apesar de ser irritante as vezes. Tia Blaze e Tio Silver são tão engraçados quanto Mitsuki... Tia Rouge e Tio Knuckles são ótimos para aconselhar ao igual que Ramon... E o papai... – engolindo as lágrimas a garota tentou continuar. – O papai é incrível mãe, é inteligente, carinhoso, o melhor pai que poderia pedir... – lágrimas voltaram a surgir nos olhos de sua mãe enquanto ela levava uma mão a boca tentando impedir os soluços de saírem. Yin sorriu e continuou. – Ele não quer que eu te conte, mas ele sente muito sua falta, todas as noites ele deita a seu lado tentando acreditar que novamente estão juntos, ele muitas vezes pede desculpas por não estar a nosso lado, por ter nos deixado... Eu já disse pra ele que tudo bem, que a culpa não foi dele, mas ele ainda se sente culpado... Ele sente falta de te ouvir tocando o violino mãe, por que não toca mais?
— Porque... – a mulher teve que segurar as lágrimas e respirar fundo algumas vezes para continuar. – Porque isso me faz lembrar dele. Lembra-me do dia que nos conhecemos... Do dia que ele me pediu em casamento, e no dia que... Que contei a ele que estava grávida de você...
— Ele quer te ouvir tocar mãe, ele diz que gosta de se lembrar desses dias por mais que machuquem. – voltou a dizer a pequena enquanto a mãe desatava a chorar. Por cima da mão dela uma mão espectral era colocada, uma mão que apenas a pequena ali conseguia ver. – Como vocês se conheceram mãe?
— E-eu... Fazia parte do coral da faculdade. – a mulher passou os braços sobre os olhos tentando limpar as lágrimas e voltar a falar. – Um dia estava treinando com meu violino e ele me ouviu tocar. Disse que tocava muito bem, que tinha um talento incrível e que deveria aproveitá-lo. Conversamos um pouco e nos tornamos amigos... Depois de um tempo isso virou algo mais até ele me pedir em namoro...
A pequena abraçou a mãe que chorava ainda mais, abraçando a pequena com todas as forças que tinha. Ao redor a pequena conseguia ver figuras espectrais aparecendo, de todos aqueles que mencionara, de todos seus amigos que lhes vigiavam com carinho, que apenas queria ajudar.
— Papai disse que sempre estará do nosso lado... Que nunca nos deixaria... – sussurrou a pequena com um delicado sorriso no rosto. A mãe assentiu, ainda chorando, tentando recuperar a força para falar.
— Eu sei... Eu sei...
Naquela noite era possível ouvir o som do violino tocando, melodioso e sinfônico, ecoando até mesmo para pessoas que nem mesmo vivas estavam mais, mas que escutavam aquilo com nostalgia e prazer, apenas esperando o verdadeiro reencontro. Dias depois um novo acidente, a casa pegara fogo e ambas, mãe e filha, não conseguiram escapar das chamas, morrendo ali mesmo, em sua própria casa. Mas poucos sabiam que agora elas se encontravam com quem realmente amavam, com as pessoas que antes haviam perdido e que agora tinham de volta...
A distancia tinha terminado e a espera chegara ao fim...
Notas finais
Bjsss!!
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