Love Live

2 Strange Girl - Hasuike An X Nagumo Haruya


Notas iniciais
Waaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaooo! Depois de 2 semanas sofridas sem internet... Cá estou de volta. Nossa nem sei o que dizer, só espero que não aconteça de novo >.<' Enfim... Postando o segundo cap dessa minha nova coletânea. Com um casal não muito conhecido (talvez até discriminado kkk). Ah esse aborda um tema sério sobre doença (não posso dizer qual), então se preparem para um pouco de drama. E como faz um ano que terminei ele, muitas partes do enredo estão forçadas (na verdade o enredo todo), mas optei por não alterá-las :P Enjoy! Título: Garota estranha. Sinopse: Aquela garota, tão só e misteriosa... Que opta por se ''esconder'' na escuridão e ser invisível para todos ... Por que ela continua a ser assim mesmo sofrendo com isso? Culpa dela ou das pessoas que a ''rejeitam''?

Me dirigia lentamente ao ponto de ônibus, desanimado em ter de ir para a escola. Afinal, era sempre o mesmo cotidiano, lições nada interessantes; mesmos amigos; as costumeiras conversas; mesmas pessoas e até a mesma comida. E na saída apenas voltar para casa.

Ao chegar no local avistei uma garota. Madeixas laranjas curtas e olhos azuis safira; vestida com o uniforme da mesma escola que eu. Era ela... Onde quer que fosse, eu a avistava. Também morava no orfanato, mas quase nunca nos falamos. Uma garota quieta, tímida e um pouco anti-social.

— Ohayou... Rean. — Cumprimentei-a.

— O-ohayou, Nagumo-san. — Ela me responde num tom meio baixo.

E bem, essas eram as únicas palavras que trocávamos um com o outro. Realmente não tinha ânimo para dialogar com ela. Rean era meio estranha. Quando alguém tentava conversar normalmente, a garota somente respondia o necessário e de vez em quando puxava assunto. Não faço ideia de como conseguia ficar o tempo todo calada, só sei que todo esse silêncio era incômodo para mim e decidi botar meus fones de ouvido para escutar uma boa música. O ônibus veio pra finalmente nos levar à escola.

Na sala de aula vejo meu grupo de amigos: Hiroto, Midorikawa, Suzuno e Aphrodi. Cumprimentei-os como sempre e vi que conversavam.

— E aí caras. Tão falando do quê? — Perguntei curioso.

— Das garotas da sala. — Responde Suzuno.

— Com quem você namoraria? — Dessa vez fala Hiroto.

— Hã? Ah sei lá. — Coço a cabeça e observo as garotas da sala procurando alguma que me interessasse. Avistei uma de cabelos lisos e roxos junto de mais três. — Que tal a Fuyuka?

— Fuyuka? A filha do técnico Kudou? — Pergunta Aphrodi.

— É, ela parece ser aquelas garotas inocentes e fofas.

— Seria o casal mais estranho da face da Terra. — Hiroto zomba.

— Foi só um palpite. As garotas daqui não chamam muito a minha atenção. — Argumento pra me defender. — E vocês?

— Ficaria com a Ulvida. — Hiroto reponde se referindo à uma bela garota de cabelo azul e olhos da mesma cor. — Ela é uma gata.

— E durona também. Provavelmente você ia virar o saco de pancadas dela. — Midorikawa diz fazendo o ruivo bufar. — Eu não escolho nenhuma, não tenho interesse. — Dá de ombros.

— O mesmo pra mim. — Concorda Suzuno que parecia estar entediado.

— Bom, eu não sei o que vocês têm contra elas. São todas bonitas e legais. — Falou Aphrodi, o certinho do grupo.

Hiroto insistia em continuar com o assunto. Sendo assim falamos de várias garotas quais achávamos bonitas, as qualidades e outros tópicos. A única que não havia sido mencionada era Hasuike An ou mais conhecida como Rean. Virando a cabeça em sua direção, percebi que ela se encontrava sentada em sua mesa, muda e sozinha como sempre. Sua expressão parecia de tristeza ou talvez tédio. Outra coisa que lembrei é que ninguém a notava, quase não sabiam seu nome. Rean era somente a garota estranha.

— E aquela ali? — Meneei a cabeça na direção de Rean.

— O que tem? — Hiroto pergunta.

— Está sempre sozinha... Já tentaram falar com ela? — Três dos garotos disseram não.

— Eu já. Tentei fazê-la se soltar mais, só que não adianta, ou ela é muito tímida ou não quer se socializar. — Dissera Aphrodi.

— Qual é o nome dela mesmo? — Midorikawa pergunta tentando se lembrar.

— Hasuike An, mas a chamam de Rean. — Respondi.

— Disse Rean? — Suzuno me pergunta parecendo saber algo. Apenas fiz sim. — Ela não era um membro do seu time Nagumo? A prominence?

— Hum... — Vasculhei minhas lembranças dos tempos da Arya Gakuen e me recordei. — Ah, é mesmo, ela era sim. Mas por que a pergunta?

— Acho que desde aqueles tempos ela gosta de você. — Fiquei confuso com a nova informação.

— Sério? E como sabe? — Continuo perguntando, surpreso por não notar antes.

— Pelo jeito que ela age quanto tá perto de você. Começa a gaguejar, não te olha nos olhos e parece que sempre te evita para não ficar constrangida. Qualquer um ia perceber isso. Só você que é lesado, cabeça de tulipa. — Suzuno dizia na maior calma e frieza do mundo, enquanto eu fervi de raiva. De todos os apelidos que me dão, cabeça de tulipa é o que mais detesto!

— Você ficaria com ela Nagumo? — Pergunta Aphrodi fazendo todos me olharem.

— Bem... — Olhei para Rean e ainda não via nada que me interessasse. — Não.

— Tive uma ideia! — Hiroto chama nossa atenção. — Que tal uma aposta, Nagumo?

— Que aposta? — Acho a ideia suspeita.

— Aposto mil yenes que você não fica três meses namorando uma garota. — O ruivo diz com um sorriso de provocação.

— De que garota você tá falando? — Me interessei.

— A que acabamos de falar, Rean. Namore três meses com ela e ganha o dinheiro. Ah o namoro inclui tudo, beijos, abraços...

— Até sexo? — Perguntei atônito. Se incluísse sexo eu não toparia.

— Não cara, só o básico mesmo. — Hiroto explica me deixando aliviado.

— Ei, ei, ei. Vocês não podem fazer isso! Vai acabar machucando os sentimentos dela! — O bom senso da equipe, Aphrodi, discorda com a ideia.

— É só não deixar ela perceber! Além disso essa vai ser a regra da aposta. Então, o que me diz? — Hiroto insiste.

— Vai mesmo fazer isso com ela, Nagumo? — Pergunta Aphrodi. — Não se brinca com o coração das pessoas. — Ele tenta me impedir.

— Esse assunto não é da sua conta, senhor certinho! — Hiroto fala estupidamente. — Você topa ou não topa? — Pela última vez me perguntou.

Olhei para Rean novamente e me virei dando por fim, a resposta.

...

— Ohayou Rean. — Cumprimentei-a com um pequeno sorriso.

— O-ohayou. — Seu olhar vai para o chão e um leve rubor aparece em seu rosto. Então fiz uma coisa que geralmente não faço. Sentei-me do seu lado. Ela pareceu muito surpresa pela aproximação.

— Tudo bem? — Começo puxando assunto.

— T-tudo e você? — Ela demora uns segundos para responder.

— Estou bem. Ano, você tem a matéria de matemática da aula passada?

— Hai.

— Pode me emprestar e amanhã eu te devolvo?

— C-claro. — A garota me entrega um caderno e mostra a matéria. Na verdade, eu não precisava de nada disso, era apenas pro assunto não morrer.

— Você é bem estudiosa não? — Elogio e ela me olha de canto. — Sempre com as lições em dia. — Digo reparando o caderno.

— A-arigatou. — Quase não a ouvi de tão baixo que disse. Com a chegada do ônibus, novamente sentei ao seu lado.

— Posso te fazer uma pergunta? — Ela apenas acena com a cabeça. — Por que você é assim, quero dizer, tímida e sozinha? — Vi que seu olhar se desviou para a janela. — Se não quiser responder, tudo bem.

— Eu... Não quero que... As pessoas sintam pena de mim. — A voz se tornou melancólica. Vontade de perguntar o que aquela frase queria dizer eu tinha. Mas algo dentro de mim dizia que não seria boa ideia.

Na sala meus amigos me avistaram de longe e me chamaram.

— E aí? Já pediu em namoro? — Hiroto veio me pressionando.

— Claro que não né, eu mal conheço ela!

— É brincadeira cara. — Ele deu um tapinha nas minhas costas.

...

Três semanas se passaram desde o dia da aposta. Eu me esforçava para ficar mais próximo de Rean e estava dando certo. No começo foi um desafio para mim, pois ela falava pouco e só respondia perguntas com sim ou não. Aos poucos consegui fazê-la dizer mais palavras e saber mais coisas sobre ela. Muitos a chamavam de estranha, mas no fim, Rean era uma garota comum. Apesar de ser anti-social e tímida, parecia gostar de conversar. Tudo era apenas uma questão de saber usar as palavras certas para deixá-la mais à vontade.

— Ohayou. — Fiz a costumeira rotina de dizer bom dia e sentar ao seu lado.

— Ohayou Nagumo-san. — Esqueci de mencionar três fatos importantes: ela não gaguejava mais; segundo: olhava em meus olhos ao falar; e terceiro: Rean parecia sorrir bem mais do que antes de nosso primeiro diálogo. Nesse mesmo instante ela sorriu para mim, e até seus olhos brilharam.

— Já disse, não precisa adicionar "san". Apenas me chame de Nagumo. — Esse era o hábito que não havia mudado nela.

— Estou acostumada com esse jeito.

— Percebi. Bem, alguma novidade?

— Nenhuma como sempre. — Rean dá um suspiro de tédio. — E você?

— Ontem saí com meus amigos, fomos pro karaokê.

— Legal. — Mostrou um pouco de entusiasmo na voz. — E, como foi?

— Foi muito da hora. Tirando a parte que tive que cantar, e digamos que... Não foi muito agradável. — Eu me recordava da noite passada, onde todos reclamaram que minha voz era um fiasco.

— Vergonha? — Rean pergunta curiosa.

— Não. É que eu canto mal. — Cocei a cabeça meio envergonhado.

— Eu queria... Ter visto você cantar. — Ela diz tímida.

— Acredite você jamais vai querer isso.

— Bem, contanto que sua voz não quebre nada... Por mim ok. — Falou dando risadinhas.

— Hã? — Digamos que eu me assustei com este ato. Rean zombando de mim? Acho que tivemos outro progresso. — Ha ha ha, engraçadinha. — Falei irônico.

— Gomen.

— Não peça desculpas. — Outro hábito chato, se desculpar por tudo. — E você, gosta de cantar?

— Muito. Mas...

— Mas? — A encorajei a continuar.

— Se eu for cantar em público... Terei que gritar. — Sua expressão mudou para uma de desânimo. Tive uma ideia.

— Quer ir ao karaokê comigo então? — Ela me olha confusa e explicou. — Assim você aprende a não ter medo de cantar e falar mais alto. E então?

— Não sei... — Sempre indecisa.

— Vai ser divertido, Rean. Vamos. — Insisti.

— Ok, mas... Vai ter mais alguém? — Entendi. Ia ficar insegura perto dos outros.

— Não, só nós dois.

— Então, eu vou. — Notei que ela tentou esconder inutilmente o rosto vermelho. Com isso vi que o que Suzuno disse era verdade, ela gostava de mim.

...

Marcamos de nos encontrar no ponto de ônibus às sete da noite. Só tive que esperar alguns minutos antes de Rean aparecer. Fiquei surpreso ao vê-la vestindo uma roupa diferente. Um vestido tomara que caia com uma jaqueta curta e nos pés uma simples sapatilha.

— Está muito bonita. — Fiz questão de elogiar.

— Arigatou, você também. — Ela retribui com outro elogio. Eu sabia que não estava bonito, minhas roupas eram simples.

Pegamos um ônibus e chegando ao local, que era bem iluminado e colorido, haviam várias salas privadas para se cantar com seus amigos e claro, não perturbar os outros. Entramos em uma e nos acomodamos.

— Então, quem vai cantar primeiro? — Pergunto com um sorriso. Admito, estava ansioso pra saber como ela se sairia e como era sua voz.

— Primeiro você! — Agora fiquei envergonhado.

— Tem certeza? Minha voz é horrível. — Ela acena um sim e dou um suspiro. — Ok, mas só um pouco. — Assim selecionei uma música conhecida. Infelizmente digo que foi a pior performance de toda a minha vida. Cantar para os meus amigos era normal, eles já conheciam minha voz, mas Rean não. Gaguejei e pulei algumas palavras. Por fim cantei a música inteira. — Finalmente acabou! — Comemoro aliviado.

— Ano... Você foi bem... — Ela bate palmas, dando uma risadinha.

— Gomen, mas não acredito. Agora é sua vez! — Entreguei o microfone a ela que pela expressão, estava nervosa.

— Ah, eu... Não sei não Nagumo. — Seu olhar desviou para o chão.

— Eu não vou rir, não se preocupe. — Falei encorajando-a.

— Eu nunca cantei pra ninguém.

— Se continuar com medo então nunca vai. — Ela olha para mim surpresa. Me sentei a seu lado. — Olha, você é como se fosse uma lagarta... Enquanto ficar presa nesse casulo que te prende você não vai voar, entendeu? — Ela diz sim. — Um dia vai ter que parar de ter medo do que os outros vão pensar ou falar. Senão nunca vai ser forte pra enfrentá-los... Você me entendeu né? — Concluí meu discurso incentivador. Rean ficou uns minutos pensando em silêncio até me olhar novamente. Com um grande sorriso me disse.

— Eu entendi. Arigatou gozaimasu Nagumo. — Pude jurar que seus olhos brilhavam.

— Ah, que bom. Acho que não ia conseguir dizer tudo aquilo de novo. Na verdade, nunca imaginei que pudesse dizer algo tão filosófico.

— Nem eu. — Zombou de mim e antes que eu protestasse, ela pegou o microfone e colocou uma música.

Primeiro veio a parte instrumental e enfim, pude ver Rean cantar. Sua voz era suave e calma com uma pitada de nervosismo pelo momento, mas nada tão notável. Ela cantava cada palavra perfeitamente, sem erros, sem pular nada e acompanhando o ritmo. Seu corpo se movia pouco e seu olhar evitava me olhar. Mas quem diria que a garota mais anti-social e tímida que vi, tinha uma voz boa.

— Ei, isso é injusto! — Falei levantando-me enquanto ela ficou meio assustada pelo meu tom de voz. — Uma pessoa ter uma voz tão bonita e não usá-la. Você foi incrível! — Seu rosto se tornou mais vermelho que um tomate. — Mas não pense que acabou. Ainda é a primeira música. — Pude ver que a ideia não havia agradado Rean, pois ela pareceu mais nervosa e corada.

...

Me ofereci para levá-la em sua casa. No caminho vi que ela estava feliz.

— Então... Gostou de sair comigo? — Perguntei expulsando o silêncio.

— A-adorei. — Mesmo não demonstrando muito em palavras, eu sabia que ela tinha gostado bastante. — Geralmente... Quase nunca saio de casa. Obrigada. — Me surpreendi novamente. Era raro a garota falar mais do que cinco palavras.

— Sendo assim precisamos fazer isso mais vezes certo? Digo, sair juntos.

— Sim. Ah, chegamos. — Paramos em frente a uma casa.

— Então nos vemos amanhã? — Pergunto olhando seus olhos azuis safira.

— No mesmo lugar. — Ela afirma dando um sorriso.

— Ok, konbawa, até amanhã. — Sorrio de volta e começo a andar para meu lar. De repente sinto uma mão em meu ombro.

— Ano Nagumo-san... Eh... Poderia me dar seu número? — Diz referindo-se ao meu celular.

— Claro, mas vou querer o seu também ok? — Ambos trocamos os números.

— Konbawa. — Ela me diz antes de eu recomeçar a andar.

...

Cada dia que passava, Rean se expressava mais. Vezes com palavras ou gestos. Eu não dava mais importância para aquela aposta, afinal eram apenas mil yenes. Na verdade, desde o início não aceitei pelo dinheiro. Eu tinha um pequeno interesse na garota. Agora que já nos conhecíamos melhor, comecei a querer saber mais sobre ela. Seus gostos; sua história; defeitos e qualidades, mas principalmente o porquê de ser tão solitária.

No momento eu estava deitado na cama com o celular em mãos. Liguei para a garota de meus pensamentos.

— Moshi-Moshi. — Ela atende com sua voz baixa.

— Konnichiwa Rean, tudo bem?

— Mais o menos e você?

— Bem, aconteceu alguma coisa? — Perguntei em tom preocupado. Não era normal ela dizer que não estava bem.

— Não, apenas estou muito entediada... Nada para fazer aqui... — Era possível ver o tédio presente em sua voz.

— Aqui tá a mesma coisa.

— Mas e seus amigos, Nagumo-san? — Ela se referia à Hiroto, Suzuno, Midorikawa e Aphrodi.

— Ocupados com suas próprias coisas. — Uma dúvida surgiu em minha mente e pensei antes de comentá-la. — E os seus amigos Rean?

— Ah bem, ultimamente eu não tenho nenhum. — Fez pausa antes de recomeçar. — Quer dizer... Eu tinha, mas, eles se afastaram.

— Entendo. — Ambos ficaram em silêncio uns segundos.

— Ano Nagumo-san, vai estar ocupado hoje?

— Ahn, não. Ficarei sem fazer nada o dia todo. Por quê?

— É que tem um pequeno campo perto aqui de casa. Eu estava pensando... Se a gente poderia jogar futebol juntos, como antes.

— Ok. — Me lembro dos tempos antes da Arya Gakuen. Apesar de sermos do mesmo orfanato, não jogávamos muito.

Ficamos a tarde toda jogando até nos cansarmos. Eu consegui vencer, o que a fez ficar emburrada. Na volta tomamos um sorvete por causa do calor.

— Ei, tem sangue na sua perna. — Avisei vendo o machucado, provavelmente feito no campo. Peguei um pano guardado em meu bolso e aproximei da ferida.

— NÃO! — Ela grita se afastando. — Não toque em mim. — Rean tirou um pano de seu próprio bolso e limpou o sangue. — Gomen Nagumo-san eu tenho que ir. — Ela diz antes de sair correndo.

— Ei, espera! — Tentei impedi-la, mas já era tarde. — Ok, isso é estranho.

...

Depois do incidente nos falamos normalmente. Perguntei o que acontecera e ela apenas me disse que tinha um tipo de fobia de sangue. Não acreditei e creio que ela esconde algo.

— Gomenasai por ter agido daquele jeito Nagumo-san. — Ela se desculpa.

— Tudo bem, mas, aquilo foi meio estranho, até levei um susto. — Disse rindo. Ela riu um pouco constrangida.

Hoje decidi fazer-lhe companhia no intervalo. Rean sempre ficava sozinha neste momento.

— Ahn Rean? — Ao ouvir seu nome, murmura apenas um "Hum". — Você podia tentar fazer amigos.

— Eu já tentei, mas, parece que as pessoas se sentem entediadas do meu lado. — Ela se justifica tristemente.

— O que você precisa é ser segura e ter autoconfiança, e aí vai conseguir se soltar e falar abertamente. — Falei como algo normal.

— Impossível. Quando falo com alguém, sempre falta assunto, além de ficar nervosa e em pânico.

— Mas você está falando comigo agora.

— Sim, mas é diferente! Nós já nos conhecíamos um pouco no orfanato. Com um desconhecido completo, muda. — Sua expressão parecia de derrota.

— Você mesma disse que não gostava de ser assim. Se não fizer nada pra mudar, vai perder bastante coisa legal. — Tentei levantar seus ânimos.

— Eu sei, mas... É tão difícil, principalmente quando tenho que fazer isso sozinha.

— Você não tá sozinha Rean. Estou do seu lado. — Coloquei uma mão em seu ombro reforçando minhas palavras.

...

Mais um dia eu estava em casa entediado. Minha vida não era muito agitada como alguns pensam. Meus amigos nem sempre ficam sem fazer nada como eu, então acabo sozinho. Felizmente agora eu podia contar com a companhia de Rean, o que se tornava algo agradável. Ela podia não ser louca ou agitada como gente que conheço. Ela tinha seu próprio jeito. Dependendo da situação, ela agia como boba inocente ou garota travessa. O que achava engraçado era quando fazia piada consigo mesma.

— Não acho uma boa ideia ir comigo pra uma balada... A não ser que você queira passar vergonha alheia. — Nos falávamos no celular. Havia perguntado se ela iria a uma balada.

— O importante é se divertir. Todo mundo dança mal. — Como sempre eu tentava fazê-la ser mais positiva.

— É muito diferente quando se tem um graveto dançando no meio.

— Um o quê? — Perguntei dando risadas.

— No meu caso, um graveto de vestido. Sou muito magra. — Ela dava risadas também.

— Pra mim você é normal. Vocês mulheres sempre são assim? As vezes se acham gordas, as vezes se acham magras...

— Claro, pra gente sempre tem um defeitinho. E vocês homens? Se acham perfeitos?

— Eu pelo menos acho que estou bom. — Analisei meu corpo rapidamente.

— Dá pra ver. Um monte de garotas desejam você. — O que era verdade. Não que eu seja metido, mas dá pra perceber as mulheres me paquerando, flertando, etc.

— Inclusive você né? — Provoquei-a brincando.

— N-n-nani? — Ela gagueja. — C-claro que não.

— Aposto que está toda vermelhinha... — Continuo provocando.

— Vou desligar, tchau.

— Tá bom, eu paro. — Ela costuma fazer isso sempre que eu brinco com sua cara. — Ei, vai fazer alguma coisa hoje?

— A única coisa que tenho pra fazer é dormir o dia todo. — Seu tom, completamente de tédio.

— Quer vir aqui em casa? — Ela disse um breve Ahn? — Estou sozinho fazendo nada também. Podemos ver um filme juntos. — Sugeri.

— E-eu posso? — Havia um certo ânimo agora.

— Se estou te chamando, é claro que pode boba! Estarei te esperando ok?

— Hai.

...

Ouço a campainha tocar meia hora depois, me dirijo à porta sabendo de quem se trata.

— Pode entrar, fique à vontade.

— Vou tentar. — Sabia que ela diria isso, Rean já veio aqui umas duas vezes e sempre ficava "comportada", sem mexer absolutamente um músculo.

— Pare com isso. Sente-se, tire os sapatos e relaxe. — Falei como se fosse uma ordem. — Vou pegar alguma coisa pra comer.

Voltei para a sala trazendo petiscos e guloseimas encontrando a garota paralisada. Havia tirado os sapatos e sentado no sofá, mas parecia meio tensa. Fico em sua frente com as mãos na cintura. Balanço a cabeça em negação enquanto ela me olha sem entender. Em seguida pego suas pernas esticando-as no móvel.

— O-o que está fazendo? — Pergunta aflita por eu estar tocando-a.

— Se solte mais, você parece um cachorrinho obediente. Se estique aí. — Sentei-me junto com ela no sofá após colocar um filme de comédia.

Vimos filmes quase o dia todo até o pôr-do-sol. O último era de romance. Uma garota tímida, anti-social e brega se apaixona pelo cara mais popular do colégio. Para conquistá-lo, ela pede ajuda a seu melhor amigo que sempre a amou. Assim ele a transforma em uma garota linda e popular. No final ela decide ficar com seu melhor amigo em vez do popular, pois ele só a queria por interesse.

— An se parecia um pouco com você, não acha? — Digo referindo-me à protagonista cujo nome é parecido com o de Rean.

— Mais o menos. Eu não mudaria minha aparência para ficar com alguém. — Argumenta. — Eu... Prefiro que me amem pelo que sou.

— Tem razão... — Digo mudando minha opinião. — Prefiro que continue sendo essa garota chata e teimosa.

— Por que chata? — Ela pergunta meio ofendida eu diria.

— Porque sim! — Jogo uma almofada a provocando. Ela revida me tacando outra na cara.

— Você gosta de me provocar, Nagumo. — Ela afirma como se quisesse uma explicação.

— Gosto de te ver com outras personalidades, além da quietinha. — Sorrio jogando outra almofada.

— Se quer uma Rean alterada então terá! — Começamos uma guerra de almofadas até ficarmos ofegantes.

— Ok, já chega. Você venceu. — Decido me render e paramos pra respirar. Depois de uma pequena pausa. Sinto Rean chegando perto de mim devagar com uma expressão séria. Sua aproximação me deixa nervoso, à medida que ela chega mais e mais. Sinto uma leve quentura no rosto. No momento em que ia perguntar o que fazia, ela começa a me fazer cócegas.

— Você disse que queria me ver assim, agora aguente. — Disse sorrindo. Apesar dos meus protestos e pedidos pra parar, ela não me ouve. Então simplesmente resolvi segurar seus braços.

— Se é assim então vai ter que me aguentar também. — Comecei a fazer cócegas em suas regiões sensíveis da barriga, causando vários risos por parte de Rean. Numa tentativa de se livrar de mim, acabamos perdendo o equilíbrio. Acabei caindo e ficando por cima dela, numa posição bem constrangedora. — Ahn... E-er... — Gaguejo pelo nervosismo. Nunca tínhamos ficado tão perto assim. Ficamos um tempo assim encarando um ao outro com os rostos corados.

— A-a-no N-n-agumo-s-san pode s-sair de cima de mim? — Rean fala. Percebendo a situação, me ajeitei rapidamente.

— G-gomen n-nasai. — Me desculpo.

— Ahn, já está ficando tarde. Eu preciso ir. — Ela diz se levantando do sofá.

— Eu te levo. — Juntos saímos andando pelas ruas cobertas pela luz celeste.

O caminho todo foi puro silêncio. Nenhum de nós se atrevia a dar uma palavra. Talvez pelo constrangimento de antes. Esse podia ser o pensamento de Rean. Enquanto os meus estavam em outro lugar. Por que diabos aceitei aquela aposta idiota do Hiroto? Pelo dinheiro sei que não foi. Achei o valor baixo e, fora que não faria tanta coisa com mil yenes. Não sei ao certo, mas sempre fiquei curioso sobre Rean. Por que ela era tão solitária? Por que não fazia esforço algum para fazer amigos ou pelo menos falar com alguém? Como conseguia viver em seu próprio mundo, alheia e indiferente com as pessoas a seu redor?

Poderia dizer que a culpa é da timidez e insegurança, mas ainda sim algo me incomoda. Sinto que há outro motivo. Talvez fora isso que me fez aceitar a proposta do ruivo, ou talvez não. Rean é chamada de estranha por suas atitudes e personalidade. Eu também concordava com isso, porém, hoje vejo que não é bem assim. Ela apenas é alguém "normal."

Apesar de conhecê-la há pouco tempo, pude observar algumas de suas faces as quais adorei. Jamais imaginei a garota expressando raiva ou dando um sorriso. Por falar nele, é um dos mais lindos que vi. Radiante e brilhante como o sol, combinando com seus cabelos, que são da mesma cor deste belo astro. É impossível para mim não se aquecer sempre que ela faz este gesto.

Ah! Devo mencionar que o sorriso não é tudo. Sua voz pode ser baixa, quase inaudível, contudo para compensar era doce e agradável. Ao falar, seus olhos transmitiam sinceridade. Ela sabia ser uma boa companhia, mesmo não percebendo. Ela não precisava fingir ser outra pessoa. Rean me fazia gostar dela pelo que é.

Olho de relance para seu rosto e vejo uma expressão alegre nel. Me pergunto o porquê de não reparar estas coisas antes. Talvez seja característica do ser humano ignorar e deixar de lado algo que não chame muita atenção.

— Chegamos. — Meu raciocínio é interrompido por ela.

— Ah... Nem percebi. — Saio lentamente de meu transe mental. Rean olha fixamente em meus olhos ficando corada, instintivamente meu rosto fica quente e sinto um leve desconforto em meu corpo. De repente meu coração acelera sem controle. Junto dele veio um enorme nervosismo.

— A-arigatou, a-arigatou gozaimasu Nagumo. Gosto muito de passar meu tempo... C-com v-você... — Agradece timidamente sem desviar o olhar.

— D-de nada, também gosto de passar tempo contigo... E... Vê-la sorrir feliz. — Falei meio baixo a última parte.

— Ultimamente... Você é o único que está me fazendo feliz... — As sensações de antes ficaram mais fortes, além de me sentir surpreso e com uma estranha felicidade. Sou o único que a faz feliz... — Por isso eu tenho que agradecer muito. — Numa fração se segundos que eu nem pude contar, Rean chegou perto de mim e me deu um beijo na bochecha. Fiquei paralisado, meio que em choque pelo ato repentino e só consegui dizer boa noite a ela antes de entrar em sua casa.

— O que... Foi isso? — Pergunto a mim mesmo confuso.

No caminho de volta para casa, no jantar e até eu me deitar não consegui evitar pensar no que ocorreu. O tempo todo tentava me convencer de que fora só um beijo nas maçãs do rosto, ou seja, beijo de amigo. Mas no interior de meu cérebro algo dizia o contrário. Não pude dormir direito pois sempre que a cena se repetia em minha mente, aquelas sensações voltavam.

...

Hiroto começou a me questionar sobre Rean. Na verdade me "cobrando". É como se ele quisesse que eu namorasse com a garota; ganhando a aposta.

— Você ainda nem beijou ela? — Hiroto gritou abismado. Dei um soco em sua cabeça ruiva.

— Cala a boca retardado! Quer que ela escute? — Olhei para Rean que parecia não ter escutado.

— Foi mal cara. — Ele massageia o local dolorido. — Mas, isso não é bem o seu tipo né? Pra um cara popular como você...

— Sei, mas, é complicado. — Tentei justificar.

— Por causa da estranheza dela? — Essas palavras me deixaram meio com raiva.

— Não. Não é nada, esquece. — Cortei o assunto.

— Ainda acho que isso vai acabar mal. — Infelizmente tinha que concordar com Aphrodi. Não imagino o quanto Rean vai ficar magoada se descobrir que tinha uma aposta envolvida entre nós. Me sentiria péssimo se a fizesse chorar, ainda mais sabendo de seus sentimentos por mim.

E agora? Será que é melhor eu acabar com essa bobagem antes que tudo se arruinasse? Não... Estamos bem próximos agora. O que ela iria pensar se eu simplesmente me afastasse? De todo jeito vou decepcioná-la, fora que nem seria possível evitá-la. Rean era expert em me seguir e sempre sabia onde estava. Minha última opção seria cancelar a aposta idiota e continuar com o relacionamento.

E mais, admito que eu sentiria falta dela.

...

— Verdade. — Responde Rean. — Estávamos em minha casa novamente, jogando verdade ou desafio. Não é muito divertido jogar a dois, mas pelo menos não passaria tanto constrangimento. Até agora Rean só havia escolhido verdade e quando me desafiava, eram coisas simples demais.

— Okay. — Suspirei meio entediado. — É verdade que você nunca namorou? — Estava indeciso de fazer a pergunta.

— Não, eu já namorei sim. — Fiquei abismado com a resposta. Esperava um não. Isto me deixou curioso. — Verdade ou desafio?

— Desafio. — Escolhi. — Mas me desafie pra valer tá? — Pedi deixando-a confusa. — Seus desafios são... Fracos Rean, e você só disse verdade, tá com medo é? — Provoquei.

— Medo? Por quê?

— Ora, de ter fazer alguma coisa constrangedora. — Dei uma risadinha.

— C-claro que n-não! — Ela cora e fica emburrada.

— Então prove. — Provoquei mais.

— Ok, te desafio a ficar sem camisa até o jogo acabar. — Olhei-a com uma cara confusa. — F-foi a única coisa q-que consegui pensar...

— Hum... — Disse com um toque de malícia. — Apesar de estar curioso não vou perguntar o porquê disso. — Apressei-me tirando a peça de roupa. Como não estou acostumado, me senti incomodado em ficar com o peitoral de fora. Pude notar que a garota havia corado.

— Sua vez. — Ela pede pra prosseguir.

— Verdade de novo né? — Fiz a pergunta voltando a provocar.

— Desafio. — Finalmente ela teve coragem! Agora deixe-me ver qual será o desafio... Hum... Já sei!

— Te desafio a mostrar seu sutiã. — Eu não estava falando sério, apenas zoando. O estranho é que ela não ficou corada ou surpresa.

— Tudo bem. — Rean concorda me deixando abismado e antes que eu pudesse dizer que era brincadeira ela desabotoa todos os botões de sua camiseta e a abre em seguida, mostrando seu sutiã de rendas rosa.

— AH! — Dei um grito de surpresa. Meu rosto esquentou na hora. Virei para o lado enquanto Rean abotoava a camisa.

— Pronto. — Disse após se ajeitar. — E aí, gostou? Não esperava ver isso de mim né? — O que mais me espantou foi o sorriso de deboche e o tom meio sedutor de sua voz.

— Quem é você? Nem parece mais a Rean que conheci! — Ainda sentia meu rosto quente, provavelmente corado também. Realmente não esperava que ela fosse fazer isso, fiquei desconcertado.

— Você só conheceu algumas de minhas faces. Haruya. — A simples menção do meu primeiro nome saindo de seus lábios fez minhas sensações aumentarem. Decidi continuar antes que ela percebesse.

— Certo garota de várias faces. Vamos continuar.

— Verdade ou desafio? — Gostaria de poder responder desafio, afinal eu estava achando aquilo engraçado e interessante, mas o rumo que as coisas tomavam era perigoso e agora estou com medo dela tentar fazer algo mais ousado. Por outro lado, eu queria continuar.

— Desafio. — Respondo com total certeza.

— Você parece com medo, Nagumo. — Dessa vez ela me provoca.

— Sinceramente, estou. Com medo de você. — Ela ri.

— Então vai querer verdade?

— Claro que não! Manda aí o desafio. — Pedi confiante.

— ... — Rean fez uma pausa, ficando com um rosto sério. — Me beije.

— ... — Ambos ficamos calados olhando um para o outro num silêncio incômodo. Eu, sem saber o que fazer. Para mim, beijar uma garota não faz diferença, digo, uma coisa completamente normal em meu cotidiano. Mas fiquei em dúvidas agora, afinal Rean gosta de mim mais do que um amigo. Penso que talvez ela tenha proposto esse desafio como um jeito de conseguir um beijo de mim. Acho que isso iria deixá-la feliz.

— Ahn... É b-brincadeira. E-estou apenas b-brincando Nagumo. Vamos continuar. — Ela diz nervosamente. Vejo seu olhar se tornar triste e constrangido.

— Mentira. — Recebi seu olhar, agora de surpresa e nervosismo. — Você não disse de brincadeira certo?

— Hã? Eh, não! Digo, foi sim. A-apenas esqueça.

— Não... Não vou esquecer.

Comecei a me mover para perto de Rean lentamente, olhando fixamente em suas orbes azuis safira. Ela nada disse, apenas retribuía o olhar, o rosto visivelmente corado. À medida que eu chegava mais e mais perto, a distância encurtava, até o ponto em que sentíamos a respiração um do outro. Estava prestes a finalmente quebrá-la quando pude sentir o toque de suas mãos macias em meu tórax, o que me causou um grande arrepio além de me deixar nervoso e vermelho. Delicadamente Rean me empurrava ao mesmo tempo se separando de mim, olhei-a confuso.

— É melhor... Não fazer isso. — Ela ficou melancólica e cabisbaixa. — Você vai se arrepender.

— Por que eu iria? — Estava perplexo com a resposta. — Estou fazendo isso porque quero.

— Nagumo, eu preciso te dizer uma coisa... — Esperei-a continuar. — Mesmo que a nossa relação possa mudar, ou que você não queira mais ser meu amigo, e mesmo que você me trate diferente... Sinto que preciso te falar. — Estava me assustando com o rumo da conversa.

— Então diga. O que quer que seja eu vou continuar sendo o mesmo com você. — Admito, falei meio hesitante pois temia ser algo muito sério.

— Eu... E-eu... Ahn. — Rean deu um suspiro e respirou fundo para tirar o nervosismo. — Eu sou soropositivo. — Disse de uma vez. Ao ouvir essas palavras foi uma grande surpresa para mim, mas não me importei muito. Na verdade pensei em algo pior.

— Por que está dizendo isso pra mim agora? — Pergunto curioso por ela ter escolhido falar em um certo momento. — Digo, um pouco antes de eu te... Beijar.

— Eu achei que... Você pudesse ficar com raiva, ou nojo de mim se eu contasse depois. — Ela dizia com muita tristeza.

— Mas é claro que não! — Falei meio indignado por tais palavras. — Não me importo se você tem alguma doença, eu ainda vou continuar do seu lado.

— Nagumo... — Vi seus olhos brilharem. Em seguida lágrimas rolaram por seu rosto. — Arigatou Gozaimasu. — Cheguei perto e abracei seu pequeno corpo.

...

Os dias se passaram normalmente. Mesmo depois de Rean me contar seu "segredo", continuei a tratá-la como antes. De vez em quando a curiosidade vinha à tona e eu fazia uma ou outra pergunta a respeito de sua doença. Quanto a aposta, eu simplesmente perdi. Não me importei muito, porém meus amigos pareceram bem surpresos.

— Ha, quem diria. Nagumo Haruya, o pegador, falhando miseravelmente. — Hiroto zombava de mim como sempre.

— Tá tá, eu perdi essa aposta idiota, toma o seu dinheiro e cala a boca.

— Arigatou! — Agradeceu feliz guardando a nota de mil yen.

— Mas e como foi com a garota? — Pergunta Aphrodi.

— Normal, só amizade mesmo, não rolou nada. — Respondo indiferente.

— Sério!? Nenhum beijo? — Hiroto fala exaltado.

— Não. — Dei de ombros.

— Eh?! Então o que diabos vocês fizeram todo esse tempo?

— Nada... — O ruivo faz uma expressão confusa. — Que seja da sua conta.

— Então vocês fizeram alguma coisa! — Hiroto me provoca e dou um soco em sua cabeça.

...

Faz quatro dias que não tenho notícias de Rean, o que comecei a estranhar. Não ia para a escola nem respondia às mensagens e ligações, não a via pelas ruas. Era como se resolvesse sumir de repente ou talvez, fugir de mim, pois a garota agia de modo estranho há dias antes.

— Caixa de mensagens. — Mais uma vez eu tentava discar seu número, mas só caía na maldita caixa de mensagens. Finalizei a chamada e desisti. Quando pensei que ia ser em vão, meu celular começa a tocar. —An?

— O-oi. — Sua voz parecia abatida e desanimada. — Já faz um tempinho.

— Eu quase achei que você tivesse morrido. Por que sumiu assim?

— Nada, apenas... Anh... Apenas um resfriado. — Não me convenci com essa desculpa.

— Mas faz dias! Sei que você anda estranha por algum motivo, mas pode pelo menos dizer a verdade?

— Certo. Eu não menti totalmente. Na verdade peguei uma gripe e meu sistema imunológico não conseguiu aguentá-la. Aí... — Ela faz uma pausa longa. — Tive que ser internada.

— Internada?! — Ao ouvir, senti a preocupação me dominar. — E você tá bem?

— É... Anh... Mais ou menos. Quero dizer, ainda estou no hospital. A gripe não foi embora cem por cento. — Sua voz ficava mais desanimada.

— E quando vai sair daí?

— Isso te importa tanto? — An pergunta com frieza, me assustando um pouco.

— O quê? Claro que importa. Por que a pergunta?

— E-eu só não esperava tudo isso de você. As mensagens, ligações, a preocupação... — Fiquei confuso com esse papo. — Não achei que ia se importar comigo mais. — Nada do que ela dizia fazia sentido pra mim, mas antes que eu perguntasse... — Afinal, a aposta já acabou há uma semana atrás.

— O quê? — Pergunto pra saber se ouvi direito.

— É isso mesmo, a aposta que fez com seus amigos. Me conquistar em três meses. Algo do tipo. — Congelei. Ela sabia? Mas como? Bem, não ligo pra isso. o que me preocupa agora é o que vou falar e explicar.

— ... — Devo ter ficado quase um minuto em silêncio pensando no que dizer, provavelmente ela está magoada, decepcionada e não queria piorar as coisas falando merda, então... Eu disse a primeira coisa que passou pela minha cabeça. — Me desculpe. — De tudo que pensei acho que essa foi a melhor escolha, visto que nada do que eu dissesse ia adiantar pra consertar essa besteira. Esperei ser chingado de vários palavrões, ameaçado ou o que quer que podia acontecer, mas não esperava aquilo.

— Não peça desculpas, Nagumo. Desde o começo eu sabia, mas decidi não falar nada e deixar acontecer... Na verdade fiquei feliz, muito feliz por isso. — Surpreso vi sua voz mudar para alegre. — Passar três meses juntinho de você, dando toda atenção somente pra mim... E-eu nem sei como descrever! Senti tantas emoções que não costumava ter, fiz coisas que nem pensava em fazer... Ah! Sem falar que até parei de gaguejar e ser muda. — An deu uma risada que eu gostava de ouvir. Inevitavelmente eu ri também. — E mesmo sabendo que você só estava do meu lado todo esse tempo por uma aposta, eu continuei feliz. E você sabe o porquê, Nagumo.

— Não, não sei. Por quê? — Eu sabia, mas queria ouvi-la dizer.

— Porque... — An fez pausa me deixando ansioso. — Eu te amo. — Eu esperava ouvir essas três palavras, e foi exatamente o que ela disse. Mesmo assim não pude evitar ficar surpreso. Um nervosismo me atingiu. Em seguida uma série de outras pequenas sensações. O conhecido calor nas maçãs do rosto; o frio na espinha; um leve suor; entre outras. Mas a mais forte era o coração acelerado juntamente com um sentimento de prazer. Não soube distinguir ao certo o que sentia, porém naquele momento nada importava.

— An... — Novamente fiquei sem palavras, apenas em silêncio com meus pensamentos.

— B-bem, era só o que eu queria dizer. — Sua voz se transformou em um fraco choro. — E t-também... O-obrigada, por tudo. — A voz chorosa aumentou. — Eu te amo Haruya. — An disse de novo. Antes que eu pudesse dizer também, ela encerrou a chamada. Tentei ligar infinitas vezes, mas desta vez foi em vão.

Daí em diante não conseguir fazer mais nada. Me limitava apenas a repassar tudo o que aconteceu ali. De vez em quando tentava ligar novamente para ela, mas não adiantou. Sem poder sair de meu atual transe cerebral recordando cada imagem e momento, vasculhei os arquivos de meu celular e encontrei uma foto de An. Estava distraída olhando para o horizonte quando resolvi pegá-la de surpresa. No momento que se virou pra me ver consegui a proeza de tirar a foto, e não era a única. Havia outras, mas de todas era a que mais gostava. Seus olhos safira brilhavam inocentemente, o cabelo laranja se mesclava com a cor do pôr do sol ficando meio dourados, mas seu rosto se destacava. Traços finos e delicados junto do sorriso que me cativava. Aquela foto era perfeita.

Observando-a, percebi as sensações um pouco incômodas voltarem. Depois de um tempo, a maioria delas se foi. Apenas uma teimava em ficar, o coração forte e acelerado. E ele, em conjunto com a foto não me permitiram dormir. Desse modo eu passei a noite. Não conseguindo tirar da cabeça as três últimas palavras de An.

...

Parado em frente a porta, eu pensava em dar leves batidas. Pensava no que fazer ou falar, afinal somente fui até o hospital movido por meus sentimentos e não sabia ao certo o que a garota do outro lado ia pensar. Mas eu precisava dizer aquilo para ela. Por fim, dei três batidas e esperei. Ouvi uma voz dizendo 'entre' e assim fiz. Ao me reconhecer, vi uma expressão de pura surpresa em seu rosto junto de um rubor. Típico dela.

— C-como?! — Ela abria e fechava a boca procurando o que dizer. — Como você...

— Inazuma só tem três hospitais, então... Não foi tão difícil te achar. — Cortei-a.

— Mas, por quê? — Novamente ela ficou sem palavras.

— Desculpa. — Me aproximei da cama e me sentei. — Toda essa história de aposta, foi ridículo. Na verdade fui um idiota. Ahn... No começo eu... Realmente não ligava pra você, mas depois... — Com dificuldade eu caçava as palavras mas desisti. — Ah! — Disse um pouco alto assustando-a. — An, você sabe que não sou bom nesse tipo de coisa. Um gesto vale mais que palavras certo?

— O que você quer dizer?

Antes dela sequer pensar, eu a beijei. E de repente todas as baboseiras que as pessoas diziam quando se beijavam fizeram sentido. No meu caso era como se choques elétricos passassem pelo meu corpo. Não demorei a perceber que ela não correspondia ao beijo, e por um instante me entristeci. Fiz menção de separar quando timidamente An retribui o gesto, de um modo lento e suave. Assim se seguiu até o ar faltar.

— Você é louco. — Fiquei confuso. — Beijar uma pessoa doente!? Não tem medo?

— Não. — Respondi simplesmente.

— Por que fez isso? — Ela pergunta perplexa.

— Porque Eu Te Amo. — An pareceu ainda mais surpresa, mas ficou cabisbaixa.

— Não... Você não pode amar alguém que tem HIV. Vai se prejudicar.

— Eu já disse. Não me importo se você tem alguma doença, vou continuar do seu lado.

Vi que An parecia confusa, emocionada, feliz. Novamente ia protestar e falar mais alguma coisa, só que desta vez não deixei. Juntei nossos lábios de novo fazendo-a esquecer do mundo.

Notas finais
Até a próxima :) PS: Não esperava ficar tão gigante assim kkkkk Não foi à toa que demorei tanto na época pra escrever e finalizar.