Love Live

4 Felicidade Inesperada - Shindou X Akane X Kirino X Okatsu


Notas iniciais
Sinopse do cap: Se o destino resolvesse te dar uma nova e inusitada chance, você agarraria? E vocé estaria preparado para deixar tudo por amor? Esse aqui é um quádruplo kkkkkkk já viram? Não quero revelar muitas coisas do enredo, apenas me inspirei numa tirinha bem triste :/ O plot eu inventei, o resto foi da artista.

Todos os dias vemos inúmeras pessoas, milhares de rostos. Alguns conhecidos e outros não, mas a maioria deles não dedicamos muito de nossa atenção, em especial os que conhecemos pouco. No meu caso, a vi pouco tempo atrás e estive com ela em um curtíssimo momento. Este, o qual me arrependo de não aproveitar direito. Como iria adivinhar? Naquele momento pensei que seria só mais uma garota.

Mas a vida adora nos testar. Tinha eu que me apaixonar por uma garota de outra era... Sabendo que é impossível esse amor dar certo mesmo que Okatsu corresponda? Eu tento não me lembrar dos detalhes de seu rosto delicado, ou de sua voz suave toda vez que meu primeiro nome.

— Takuto...

Porém, quando percebo, sua imagem já está cravada em minha mente quase como em modo automático e parece que nada é capaz de expulsá-la dali.

— Takuto...

Não tinha que ser assim, não com ela.

— Shindou!

Desperto num susto ao ouvir a voz de meu melhor amigo Kirino Ranmaru, provavelmente gritando meu nome várias vezes. Meus pensamentos se esvaem e me viro pra Kirino pedindo desculpas e perguntando o que ele queria dizer, ou o que estava gritando anteriormente.

— Okatsu de novo, não? — Ele me questiona. Permaneço calado. — Shindou, isso está te desgastando.

— Eu sei. — Respondo cabisbaixo enquanto andávamos rumo a escola.

— Então não adianta dizer para você esquecê-la. — Kirino diz com um fraco sorriso. O silêncio paira no ar. Eu, ando melancólico pensando em minha situação. Já Kirino parecia relutante em falar algo. Após uns segundos de tensão, ele por fim retoma a conversa. — Olha, se te ajudar, tem uma garota que é muito apaixonada por você.

— Akane? — Indago já sabendo de quem se trata.

— Quem sabe Akane não cura sua ferida? Ela é bonita, fofa e gentil. — Ele sugere sorridente. Continuo desanimado.

— Não sei. Mas por falar nela...

Kirino dirige o olhar na mesma direção em que eu apontava. Não pude deixar de notar meu amigo ficar nervoso, enquanto a Yamana caminhava timidamente de encontro a nós; um rubor em suas bochechas. A cumprimentamos, em seguida ela nos convida para ir num festival que ocorrerá daqui à alguns dias. Decidimos aceitar, visto também que nossos amigos estarão lá.

Entramos na escola e daí não prestei atenção em mais nada. Okatsu dominou-me novamente. Talvez Kirino tivesse razão. Eu devia dar uma chance para Akane, no entanto não quero iludi-la pois não consigo me interessar por ela, me sinto mal, mas não controlo meus sentimentos.

...

Estou tão feliz! Finalmente tive coragem pra convidar Shin-sama a ir comigo para o festival. Na hora quase desmaiei! Será que meu sonho está prestes a se tornar realidade? É o que parece. Mesmo assim... Sinto que tem algo errado. Depois que voltamos da era Feudal e Fey retornou ao futuro, Shin anda desanimado, eu diria até deprimido. Um rápido pensamento passa por minha mente e tenho quase certeza de que só uma coisa está o deixando assim...

Okatsu. Aquela garota que conquistou Shindou. Só de pensar naquela noite em que os dois acidentalmente se encontraram, me parte o coração. Os olhares de encanto que um direcionava ao outro. As palavras, apesar de não serem românticas eram proferidas delicadamente, como se a mera sílaba pronunciada de modo errado pudesse denunciar um segredo, ou constranger ambos.

Para minha sorte, talvez azar, descobriram que eu me encontrava ali, espionando a cena e no exato segundo o clima foi cortado. Quem sabe o que teria acontecido se eu não estivesse lá... Minha dedução é a de que certamente ia rolar um beijo.

Ah! Meu peito dói, me sinto deprimida e melancólica. É só uma dor de amor, já vai passar. Enquanto tento não ficar me lamentando em público, decido responder a uma cutucada frenética de Midori, que com toda certeza estava preocupada com meu estado de seriedade junto de Aoi.

— O que foi? — Minha voz saiu mais fria do que esperado, com estupidez eu diria. Me senti culpada por isso, mas não estava bem.

— Akane? Você está bem? — Midori indaga, surpreendida com minha atitude anterior. Aoi tinha um olhar preocupado.

— Sim, por que não estaria? — Dessa vez tratei de esbanjar um sorriso falso e uma doce voz só para disfarçar a tristeza e despreocupá-las.

— Porque você nem está tirando fotos do "Shin-sama". — Ela enfatiza a pronúncia do apelido e faz até aspas no ar. Pego minha câmera cor de rosa e a ajeito entre os olhos, em seguida me viro pra responder Midori.

— Melhor assim?

Começo a fazer minha habitual rotina de tirar fotografias. Ouço Midori suspirar e em seguida resmungar que não me compreende às vezes. Aoi apenas sorri sem jeito. Rapidamente sinto a melancolia se esvair totalmente. Um sorriso agora sincero, expulsa a expressão de indiferença em meu rosto. Nestes momentos é impossível isso não acontecer.

Com minha câmera eu tenho toda a liberdade que quero. Através daquelas lentes singelas eu encontro a felicidade. Apenas um resquício do que realmente desejo ter, mas não importa. Aquele aparelho tecnológico registra a alegria, o sorriso e qualquer detalhe de Shindou. Os melhores momentos, as melhores expressões. Todas são capturadas na mais pura perfeição e dadas de presente exclusivamente para mim, Akane Yamana. E aquelas belas recordações podem ser desfrutadas quantas vezes meus olhos quiserem.

A visão da câmera é minha visão, enquanto eu a tiver, Shindou pode ser só meu eternamente. Nessa minha ilusão, a palavra rejeição perde sua força contra meu coração.

De repente, ao bater mais um flash contra o Takuto, percebo que as lentes acabaram pegando mais outra pessoa em meu campo de visão. Um rosado de olhos azuis-turquesa, não dei muita importância e procurei focar em Shindou novamente.

— Kirino! O que tá fazendo plantado aí? Virou orquídea, é? — A voz escandalosa de Midori me chama atenção.

Olho o rosado de novo e o vejo negar à questão de Midori enquanto alguns dão risada do “trocadilho” que ela fez. Me junto a eles dando uns risinhos fracos.

...

Eu não teria me importado nem um pouco com aquela piadinha, mas não me importo porque estão dando risada de mim e sim, porque ela acabou percebendo que eu a fitava. E agora assim como os outros, ria também. Me conquistou por ser um gesto fofo vindo de sua parte. Isso é o suficiente para umas batidas descompassadas do meu coração me atormentarem.

Depois do treino, acabei pegando a mim mesmo com o olhar nela. É incrível como meus olhos automaticamente fazem isso várias vezes sem minha permissão. Eles sabem que não posso vê-la, que não devo na verdade, mas é claro que proibir e dizer não a si próprio é como se estivesse dizendo para o corpo: faça. E para a mente é a mesma coisa que nada, pois ela nunca liga. O amor é a praga mais traiçoeira e safada que tem. Não nos deixa saber como, quando ou por quem estamos apaixonados. Quando descobrimos, já queremos sequestrar a pessoa ou realizar outra loucura, a qual futuramente vamos nos arrepender.

É igual quando alguém vai no hospital por causa de uma leve dor e descobre ser uma hemorragia interna. O treino prossegue como de costume até seu término, e após todos se despedirem, caminho com Shindou o acompanhando a sua casa. Começo a refletir numa maneira de escapar desse triângulo amoroso que havia entrado.

— Parece que não sou o único a me perder em pensamentos. — Shindou me chama atenção. — Então, qual o problema?

— Nada demais. — Respondo tentando abafar o assunto.

— Não minta pra mim, Ranmaru. Sou seu melhor amigo.

— É sério, não é algo pra se preocupar. — Eu definitivamente não posso contar que estou apaixonado por Akane. Especialmente depois que Shindou aceitou o convite dela pela primeira vez em tantas que ela tentava chamar sua atenção. Se eu falar, Shindou provavelmente irá ignorá-la de forma educada é claro, e isso só vai partir mais o coração da Yamana, qual não sei como ainda está inteiro.

Quando o moreno estava prestes a retrucar minha resposta, o celular dele toca. Depois de atender o telefone e falar poucas frases com a outra pessoa, Shindou muda repentinamente sua expressão para de surpresa, logo após desligando o aparelho. Me ponho a ficar preocupado e curioso. Com um olhar de seriedade, ele revela o que tanto o havia assustado.

— Kirino, Fey está de volta à Inazuma.

Meus olhos se arregalam, de início pensei em mais uma ameaça relacionada ao mundo e ao futebol, mas Shindou explica em seguida, aliviando minha tensão.

— Não se preocupe, não é nenhuma ameaça. Aparentemente ele veio somente para nos visitar e vai ficar alguns dias na pensão da Aki, por conta do festival.

— Ah... Ainda bem então. — Agradeço internamente.

Após o ocorrido, ambos ficamos calados. Shindou voltava a ficar com a mesma feição cabisbaixa que estava esses dias. E eu sei o porquê. Ora, se Fey está aqui, provavelmente Wandaba o acompanhou e isso significa que os dois vieram caravana relâmpago, ou seja...

...

Eu tenho mais uma chance de ver Okatsu!

Não sei dizer se estava feliz, ansioso. Eu só queria correr para a pensão da Aki pra ver se por ventura, minha amada estava lá e foi o que fiz no outro dia.

Depois das aulas e do treino, a equipe toda se reunia na pensão para dar as boas-vindas à Fey e Wandaba. As conversas fluíam harmonicamente, risadas enchiam a casa de alegria. Somente eu era o único fora de sintonia, e apesar de minhas tentativas de se divertir com eles, eu não conseguia. Nada era capaz de me fazer esquecer a garota da era Feudal. Quando percebi que minha falta de ânimo atingiu meus amigos, optei por me isolar discretamente para os jardins. Kirino, como sempre ficou um bom tempo a meu lado conversando, preocupado com meu estado. Depois o dispensei, alegando que estava tudo bem comigo.

Aos poucos cada um ia embora. Combinando de irmos todos ao festival. Meu objetivo ali, na verdade é ficar a sós com Fey justamente para ter a chance de falar com ele em paz.

— Shindou! — Ouço o garoto de cabelos verdes-claros me chamando entusiasmado. — Você ainda está aqui. Achei que tinja ido para casa como os outros.

— Não, bem... Tem um assunto que queria tratar com você. — Ele faz uma careta confusa e seguimos para um lugar mais privado.

Decido contar sobre o que me deixava deprimido recentemente. Meus sentimentos profundos em relação à Okatsu e inclusive sobre a ideia que tive de vê-la novamente.

— Então é isso. — Fey diz em tom pensativo. — Hum... Não é impossível. Podemos te levar na caravana relâmpago, mas... Se você realmente quer ir Shindou, vai ter que decidir entre ficar para sempre com Okatsu na Era Feudal, ou continuar aqui no presente. — Ele fala tudo o que eu já esperava ouvir.

— Entendo.

— Está preparado para largar toda a sua vida aqui por amor? — A questão é lançada no ar. Como resposta apenas dei meu silêncio, pois é o que qualquer um iria fazer. Ninguém consegue decidir algo assim de imediato. Comigo não foi diferente.

— Olha, vou ficar e Inazuma essa semana e partirei no festival, use esse tempo para pensar com calma, Shindou.

Fey me consola com seu singelo sorriso, eu diria parecido com o de Tenma, e se despede de mim.

...

Uma semana. Parece muito injusto o destino me dar somente este mero período de tempo para tomar uma decisão extremamente significativa. Enfim, se passaram três dias e faltavam para mim, mais quatro.

Minha aflição só aumenta, não sei o que pensar, não sei o que fazer. Por enquanto a melhor ideia que tive foi de fazer uma análise com as coisas que ganharia e perderia se eu decidir morar na era feudal. Vejamos...

Caso eu diga sim, ficarei com Okatsu, o que sempre quis, entretanto não verei mais minha família e nem meus amigos. Terei que me ajustar a viver uma vida sem qualquer tipo de tecnologia, me habituar a utilizar instrumentos bem antiquados, mudar minha maneira de se vestir e comer. Sem mencionar a música! Com poderei seguir em frente sem meu adorado piano? Por outro lado, se eu disser não à oferta, terei o privilégio de ficar com tudo isto, exceto o amor de Okatsu.

Se for para pesar numa balança, o lado do “não” ganha sem sombra de dúvida, mas é claro que o “sim” é tentador ao meu coração. Um conselho que ouvi bem impactante por sinal, foi: "Quando estive apaixonado, fuja de todas as decisões possíveis. Nessas horas a coragem vem, a timidez se vai e você só percebe quando faz algo somente depois que faz."

Ah... Necessito de um pouco de ar fresco. Me isolar no quarto com essa dúvida, só vai fritar meu cérebro. Depois de sair de meu dormitório, através corredores e salões imensos. Cheguei ao jardim da frente. Chegando no portão, percebo que demoro em torno de dez minutos para sair de "casa."

Ao pisar os pés totalmente para fora da propriedade me sinto estranho. Por alguma ironia sem graça, aquele dia estava agradavelmente bom. O cheiro da natureza; a poluição diminuiu; as paisagens belas com a luz solar banhando-as. Até as pessoas estavam mais felizes. Não, não só hoje, mas esses dias tudo está assim, mais pacífico.

Observo ao meu redor, analiso novamente os ganhos e perdas. Sem mais prédios, construções ou arranha-céus, bicicletas e veículos nem pensar! Dou uma risada me imaginando ao ter que sair galopando a cavalo em todo o Japão feudal. Nas lojas de conveniência e supermercados avisto comidas variadas, ou seja, outra coisa que terei que abandonar. Adeus chocolate, adeus pizza e alimentos industrializados. Só arroz, peixe cru e sakê nas refeições. Volto para meu lar novamente, desanimando por ainda estar indeciso.

— Okaeri Takuto! Como vai meu pianista? — Outro detalhe anormal, meu pai, ou melhor meus pais estão mais presentes durante essa semana. Com trabalho e os negócios diminuídos, passamos muito tempo juntos.

— Ando ótimo. — Respondo entusiasmado me aproximando dele, que bagunça meus cabelos. — Chegou cedo, hein?

— Sabe como é, filho. Conseguimos uma folga também, sendo assim essa semana será só você, eu e sua mãe. Quem sabe quando vai acontecer de novo? Por isso tratei de chegar aqui logo pra passarmos um tempinho.

— Pai... — Acabei me comovendo um pouco, raramente temos tempo em família e meu pai sempre se culpa disso.

— Que tal jogarmos um pouquinho então? — Ele sugere apontando para o tabuleiro de xadrez na sala de estar. Aceito sua proposta.

Meu pai é o homem mais ocupado da família, no entanto é bem-humorado e gentil. Diferente das pessoas super ocupadas e que se estressam por causa do trabalho. Quase nunca para em casa e parece exausto. Mesmo assim, dá em jeito de interagir comigo; saber notícias minhas. Ele não é fã de música, mas não é contra eu gostar, pelo contrário, me apoia bastante em tudo o que faço. Também não é aquele pai apegado ao filho, porém o máximo de afeto que demonstra é com um gesto de acariciar meus cabelos castanhos.

Jogamos, conversamos e até toquei o piano para ele. Droga pai! Por que tem que ser mais legal comigo essa semana?

De repente, somos interrompidos pela voz de minha mãe anunciando que o jantar estava pronto. Aproveito para dizer que sempre quando tem oportunidade, ela prepara nossas refeições mesmo tendo empregados para isso. E como se adivinhasse, ela fez minha comida favorita e sobremesa também, o que só me incomodou ainda mais.

Retornando ao meu quarto, começo a repensar sobre minhas dúvidas, em especial a frase de Fey me veio à tona.

"Está preparado para largar toda a sua vida aqui por amor?"

Até que ouço a porta se abrir, era minha mãe. Ela entra sem bater só para checar se eu não estava fazendo nada errado.

— Takuto, podemos conversar? — Ela indaga e aceno positivamente. Depois de fechar a porta, ela senta-se ao meu lado na cama, seu olhar preocupado. Aguardei-a se pronunciar.

— Você está com algum problema, filho?

— Sim. — Não penso duas vezes antes de responder. Sei que posso contar com ela para tudo.

— O que é? Sabe que sempre pode contar comigo. — Não falei? Ela me abraça carinhosamente.

— Mãe... — Faço uma grande pausa, escolhendo bem as palavras. — Se eu tivesse que escolher entre ficar aqui e partir para ser feliz, o que você diria? — Sua expressão mudou de confusa para surpreendida.

Seus olhos se desviaram dos meus e se fixaram num ponto morto. Ela se calou uns instantes parecendo refletir bastante. Até que por fim, olhou-me seriamente.

— Você está falando sobre viajar no tempo e ficar com aquela garota?

— Eh? Como sabe?! — Indaguei num misto de várias reações.

— Eu sou sua mãe, Takuto. Sempre saberei o que acontece com você. — Antes que ele pedisse para que explicasse isso direito, ela me interrompe. — Agora quanto a pergunta anterior, o que eu te diria é: Não vá. — Fiquei surpreso, mas a esperei continuar. — Abandonar seu período de tempo e tudo o que conhece... É loucura. Eu jamais concordaria.

Senti-me envergonhado. Abaixei minha cabeça constrangido.

— Mas... Mesmo sendo sua mãe, não posso te impedir. Já é crescido o bastante para tomar suas decisões e saber as consequências delas. — Percebi uma mudança de voz, fria e melancólica, as palavras duras. — Porém... E-eu não posso simplesmente falar "vá e seja feliz" com o maior sorriso do mundo. — Aos poucos, minha mãe gaguejava. — Sei que não gostaria de ouvir isso... M-mas, nenhuma mãe quer ver seu filho longe.

— Mãe, não chore. — Não sabia o que fazer. Ela já estava soluçando, várias lágrimas rolavam por sua face. Me senti o pior filho do planeta.

— Gomen, Takuto. Sou muito egoísta pra te apoiar nessa decisão, eu seria muito hipócrita se dissesse o contrário.

Ao dormir, só pensava em tudo o que ocorreu. Se fosse em um conto de romance, obviamente os amantes abandonariam suas vidas em prol do amor do outro, mas isso não é uma história contada por fadas. Isto é a realidade.

Contudo, meu coração insiste em persistir na ideia do amor e a loucura, os quais andam juntos. Quanto mais eu tentava afastar, a imagem de Okatsu permanece ali, firme e forte. As lembranças, os breves momentos significativos, seu sorriso e sua doce voz.

"Não tome decisões enquanto está apaixonado." Chacoalhei a cabeça. É isso, já tomei minha decisão.

— Okatsu...

...

— Ele o quê?! — Gritei exaltado à Fey. Estávamos no centro da cidade. O dia do festival finalmente chegou e todos se divertiam alegremente. Não se importavam em esbanjar sorrisos, muito menos em economizar dinheiro, visto que as barracas de comida lucravam bastante. Roupas japonesas tradicionais, kimonos de várias cores reluziam em meio às lanternas de papel.

— Kirino, não podemos impedi-lo se ele quiser partir.

— O problema é que Shindou não está pensando direito! — Desesperado por saber que nunca mais poderia ver Shindou, corri procurando em qualquer canto daquela aglomeração. Desde que comecei a conversar com Fey, um incômodo sentimento de estar sendo observado me persegue, até que esbarro em alguém.

— Quando quiser procurar uma pessoa, use o celular ao invés de chamar atenção gritando aos quatro ventos. — Era Shindou. Ao parecer estava feliz, o olhei com a cara mais séria que eu tinha.

— Por que está com essa cara?

— Deve ser bem natural para você, senhor Takuto, decidir morar em outra era e não avisar aos amigos. — Cruzo os braços aumentando minha raiva. O vejo se espantar e logo em seguida suspirar, pois sabia que eu daria um sermão de horas.

— Kirino... — Antes de sequer começar, interrompi bruscamente.

— Nada de Kirino! Shindou, você tem uma vida inteira aqui, não pode simplesmente deixar tudo e partir para outro século!

— Kirino...

— O que seus pais vão dizer? O que os outros vão dizer?

— Kirino...

— Você vai conseguir superar essa decepção, você...

— Ranmaru! — Shindou esbraveja atraindo olhares de várias direções, nós dois coramos de vergonha. — Não importa o que diga, eu já me decidi. — Quando estava prestes a retrucar de novo, uma voz familiar nos chama.

— Shin-sama! Kirino-san! — Aquela voz baixa e com tom ameno que tanto me assolava. Era Akane.

Por um momento me esqueci que era com ela que marcamos de nos encontrar. Me virei pra vê-la e automaticamente corei enquanto a cumprimentava. Akane vestia um Kirino branco de estampa quadriculada, os detalhes variando em tons de rosa e roxo. Suas expressões meigas deram um toque singelo ao conjunto. Obviamente ela não é mais exuberante das moças ali, mas na minha visão, ou seja, a visão de um apaixonado, Akane estava suficientemente linda.

Seus olhos violáceos brilharam de emoção e a vejo exibir o sorriso mais humilde e sincero que existe, simples, mas belo. Entretanto trato logo de desfazer minha alegria ao vê-la porque nada daquilo é para mim.

De repente percebo Akane ficar surpresa, ao seguir a direção de seu olhar confuso, vejo que o motivo é por culpa de meu melhor amigo.

Shindou estava chorando.

...

Depois de escutar a conversa entre Kirino e Fey, meu mundo desabou. Shin-sama vai embora? Não entendo... Ele ama tanto assim aquela garota? Mas o que ela tem que eu não tinha? Shindou, você nunca vai dar valor aos meus sentimentos?

Vejo o rosado procurar o amigo, desesperado para impedi-lo. Os dois se esbarram, Kirino começa a dar um sermão e ambas quase discutem. Dou uma fraca risada da situação. Sempre admirei a amizade deles, até parecem irmãos, porém uma frase de Shindou me parte o coração.

— Não importa o que diga, eu já tomei minha decisão.

Não! Ele não pode partir para sempre. Shin-sama não ligo se você ignora meus sentimentos, mas por favor fique!

— Shin-sama! Kirino-san!

Antes que me desse conta, meu corpo age sem consentimento. Preciso fazê-lo mudar de ideia. Mas novamente, surgem ações inesperadas, um sorriso gigante contorna meu rosto. Porém... Exatamente quando isso aconteceu, vi ele se desmanchar em lágrimas. Me assustei, mas dando um passo à frente tomei coragem para perguntar.

— Shindou... Você vai embora? Digo, pra era feudal?

Em uns instantes silenciosos, eu e Kirino ansiamos sua resposta.

— Não. Eu vou ficar aqui, é o que decidi. — Ambos parecemos aliviados enquanto ele subitamente se aproximou de mim. Corei ao esperar qualquer tipo de coisa. — Akane... Gomen, mas não gosto de você do mesmo jeito que gosta de mim. Sinto muito não poder te retribuir.

Engoli o choro em seco, não queria ser fraca. Mesmo estando decepcionada procurei aceitar essas duas palavras.

— Entendo.

Shindou se despede de nós e sai correndo em uma direção qualquer. Eu só não esperava que Kirino continuasse ali do meu lado.

— Akane, você está bem? — Assenti positivamente em resposta. — Que dar uma volta?

De imediato aceito a proposta, pois não tenho nada melhor para fazer. Andamos sem rumo e meio ao festival. Meus olhos se fixaram em qualquer ponto e se concentraram naquilo com interesse. De vez em quando eu notava Kirino me observar de esguelha e logo em seguida disfarçar o ato à medida que eu percebia sua mirada. Apesar de ter me convidado para caminhar, até agora ele está em silêncio. O conhecendo um pouco, minha opinião é que provavelmente esteja respeitando meu sofrimento. O fato de não ter me deixado sozinha demonstra que ele é uma boa pessoa e um ótimo amigo igualmente.

Um sorriso brota em minha face. Para ser sincera, eu não me sentia triste pela rejeição. É como se eu já esperasse isso, portanto não me abalei tanto quanto esperava. Meus pensamentos são interrompidos ao sentir um braço rodear meus ombros, instintivamente me assustei com esta ação inesperada.

— Akane, você não está sozinha.

— Certo.

Respondo com um sorriso tímido, mas melancólico, sinto Kirino acariciar meus cabelos levemente num gesto consolador de amigo. Continuávamos caminhando, dessa vez conversando alegremente enquanto aproveitávamos aquela noite.

"Já estava na hora de acordar."

Observo a lua radiante no céu, me lembrando daquela mesma lua que contemplei com Okatsu um dia antes da partida contra o Protocol Ômega 2.0. Não tinha nenhum arrependimento de minha escolha. Fey e Wandaba já partiram de volta para o futuro e só os veremos de novo daqui há muito tempo. Antes de ir ele me perguntou se eu queria mandar uma mensagem à Okatsu. Eu respondi que não, ambos eu e ela temos que continuar nossas vidas sem relembrar do outro com tristeza.

— Gomen Okatsu... Eu não te amo o suficiente para abandonar tudo por você. Com certeza vai encontrar alguém que te mereça mais do que eu.

Sussurrei para mim mesmo e para aquele astro reluzente, enquanto algumas lágrimas teimosas escapavam de meus olhos.

...

Este dia estava anormalmente estranho, eu tinha um sentimento de melancolia tão grande... Só não sabia o porquê. Para tentar apaziguar este meu estado eu caminhei até a árvore onde haviam papéis com várias mensagens que as pessoas penduravam, pois o local me traz uma calma e paz relaxante. No entanto, quando finalmente chego, um pingo cai, em seguida outro e mais outros. Estranhei porque o sol raiava agora à pouco. De repente e sem um motivo aparente, me recordei de uma pessoa especial.

— Takuto-sama...

Notas finais
A tirinha que me inspirei foi essa : http://www.zerochan.net/1409737