Notas iniciais
E como prometido aqui está o encerramento dessa bela história.

Foi tudo rápido demais.

Em um momento, Pérola estava explodindo em êxtase por finalmente ter sua Ametista de volta. Em outro...

Pérola estava segurando a mão de Ametista que se contorcia no leito enquanto Steven e Jasper se ausentaram. Preocupação definia bem o que Pérola estava sentindo, seu “coração”(?) apertava em ver Ametista neste estado. Não era como Steven ou Rose, que tinham instrução sobre a saúde gem. Afinal, a única coisa que a maioria das gems sabiam sobre sua própria saúde era que se quebrassem elas morriam.

Ametista finalmente se aquietou um pouco e relaxou no leito, talvez tivesse caído no sono pelo cansaço proveniente de sua regeneração trabalhosa.

Little Rose se aproximou.

— Uau... Então ela é a Ametista?

Garnet e Lápis riram do comentário da pequena.

— É ela, sim. -Respondeu Lápis com toda a paciência do mundo.

— Ela se parece com a Tia Jasper.

— É sim. Porque as duas são quartzos.

— Todos os quartzos são assim?

— Assim como?

— Parrudos e fortes?

— Claro! Seu pai é meio quartzo. Porque você acha que ele é tão alto e forte?

— Eu vou ficar assim também? – Perguntou a pequena com estrelas nos olhos.

Lápis riu com sua característica risada de porquinho da índia e bagunçou os cabelos da pequena.

— Um dia, talvez.

— Tecnicamente as chances dela são de 25%. – Intrometeu Peridot.

Lápis pisou no pé da esverdeada que logo entendeu o recado e tratou de fechar a matraca.

Pérola se manteve alheia a conversa das outras e não largava a mão de Ametista. Garnet se moveu e foi para o lado dela.

— Hey! O pior já passou. Lembre-se do que Little Rose disse, e chega de lagrimas, a partir de agora.

— Falando em líquidos, em preciso me aliviar — falou Rose – Alguém sabe onde é o banheiro?

— Eu te levo lá.

E assim Lápis e Rose saem do quarto. Garnet se afasta de Pérola e se apoia na parede com os braços cruzados. De repente, luzes vermelhas piscam no teto e uma sirene começa a ser tocada. Pérola e Garnet olham prontamente para Peridot que sacou seu tablet.

— Estranho... — A esverdeada comentou ao olhar em seu visor – Alarme código 12. Gem corrompida na Ala. Estranho, só estamos nós aqui. Vou desligar essa porcaria.

E assim Peridot saiu do quarto.

Garnet faz um movimento, como se tivesse levado um choque. Safira teve uma visão.

— Pérola — Garnet falou calmamente – se afaste dela.

— O quê?!

Pérola sentiu Ametista apertar mais forte sua mão. Ela se virou para encara-la, achando que tinha finalmente acordado. Ledo engano.

Garnet sacou suas manoplas. A forma de Ametista oscilava entre a dela e... algo. Algo grande. Mesmo assim Pérola não soltou sua mão. Até que o aperto se tornou insuportável ao ponto de sua forma física oscilar. Garnet dá um soco certeiro no rosto de Ametista, que solta Pérola e cai da cama. A fusão colocou Pérola atrás de si.

— Pérola, vá. Agora. – Garnet disse.

Ametista estava encolhida em um dos cantos do quarto com sua forma física oscilando. Estava ficando maior. Os cabelos pareciam crescer junto e tomarem uma coloração negra, de forma que só um olho purpuro ficava visível. Apesar do comando de Garnet, Pérola não se moveu. Garnet a empurrou para longe quando Ametista deu um bote repentino.

A quartzo estava de quatro em cima de Garnet e sua mandíbula se deformara drasticamente deixando a boca enorme e cheia de dentes que babavam nos óculos de Garnet que ficara encurralada entre a boca do mostro em que Ametista se transformara e o chão.

Garnet acerta um chute certeiro na gema de Ametista, que recua. Pérola sai do quarto com o intuito de chamar Steven. Nisso dentro do quarto Garnet levanta suas manoplas e fica em posição defensiva. Enquanto Ametista crescia e tomava dimensões que sua cabeça batia no teto do quarto.

Só foi preciso um golpe.

Garnet tentou bloquear o soco com suas manoplas, mas foi rápido demais, foi forte demais, foi grande demais. Garnet foi lançada de uma maneira tal que destruiu a parede do quarto, que já era reforçada pelo fato dos pacientes serem gems.

Rubi e Sapphire quicaram no chão em um suave tilintar de cristal.

Peridot volta, mas fica estática ao ver a situação.

Pérola parou e encarou Ametista de maneira estupefata. E pelo único olho purpuro que a perola simplória conseguiu ver, ela enxergou lagrimas. Ametista estava com dor. Ametista estava sofrendo. E talvez pelo efeito hipnótico que aqueles olhos púrpuros possuíam sobre Pérola, ela não percebeu quando a enorme mão de Ametista circundou seu pescoço e a elevou. Pérola ouviu um zumbido ao fundo, seria Steven e Jasper? Ela não conseguia se mexer para ter certeza, apenas se debatia em meio ao agarre.

Peridot tomou as rédeas e abriu a jaqueta verde que usava, revelando as várias laminas de aço que levava junto ao corpo, e com sua metacinese investiu uma das laminas contra o rosto de Ametista. Foi em cheio, e a lamia rasgou o rosto de Ametista ao meio e deixou mexas de sua juba espalhadas pelo chão junto com um liquido negro que expurgava da ferida. Ametista soltou Pérola, e a mão que antes segurava a perolada foi ao rosto. Ametista rugiu.

Ela se debateu de forma que arrombou o teto e a parede que levava ao externo, por onde fugiu.

— Código 12! Gem corrompida à solta! Peguem-na! – Steven berrou à Jasper e as enfermeiras.

O grupo passou pelo mesmo buraco imenso na parede e passaram por Lápis que abraçava Little Rose e a forçava a olhar para ela e somente para ela, visto aos traumas que aquela confusão podia causar na mente da garota.

Ametista corria, e sua forma se deformava ainda mais. Começou a correr de quatro. Suas mãos tornaram-se patas. Seu cabelo branco tornou-se uma juba negra. E seu queixo se projetou para frente parecendo um focinho quadrado. Ela não via aonde ia. Só sabia que estava com dor. E que queria que a dor parasse.

— AMETISTA! – Steven berrou.

Em um relapso de consciência ela reconheceu a voz do irmão de criação, parou e se virou para ele.

Steven tentava se mostrar calmo, ele levantava as mãos e mostrava as palmas.

— Calma... calma... está tudo bem. Estamos aqui. Só queremos o seu bem. Eu sei que dói, mas pra te ajudarmos você tem que nos ajudar. O que você acha de vir para cá para darmos mais uma olhada na sua gema, hein?

Ametista balançava a cabeça de forma tremula, ela reconhecia os sons mas não conseguia distinguir as palavras. Ela levantou a pata para ir até Steven.

Ela caiu no chão com um baque que ecoou. Algo puxava sua pata de trás. Ametista tinha pisado no teleportador da Ala Branca, que a sugava.

— AMETIS....!!!! – Foi a última coisa que Steven tentou gritar antes que ela fosse sugada de vez.

+++§§§+++

Ônix andava de lá e pra cá na sua sala. O dia tinha começado tão bem! Por que não podia ter continuado assim?!

A negra alisava suas longas presas que se projetavam para fora de sua boca enquanto matutava em seu cérebro diminuto o que poderia dizer nessa reunião que salvasse seu cargo.

Uma pequena Peridot amarelada apareceu na porta com uma prancheta na mão.

— Todos os aparatos tecnológicos já foram reparados?

— Sim. – A Peridot respondeu prontamente. – Mas eu ficaria mais preocupada com o código 12 lá na praça.

— O que?

— Tem uma gem corrompida na praça central e vindo direto pra cá. Talvez se pufa-la seus créditos com Garnet aumentem. Ou pelo menos não diminuam tanto. – A Peridot secretaria falou pragmaticamente enquanto digitava algo distraidamente na prancheta.

Ela não estranhou quando Ônix passou correndo pela porta com sua foice em mãos.

A grande gem negra fazia seus passos pesados ecoarem por todo o prédio. Ela correu pelos corredores, arrombou o fosso do elevador e se jogou. Caiu no térreo instantaneamente e arrombou a outra porta do elevador, e saiu correndo para frente do prédio.

Mirou o horizonte e viu uma grande gem corrompida correr desgovernada em sua direção e atropelando várias gems no processo.

Ônix sorriu.

— Finalmente, um pouco de diversão.

Ela fez sua foice desaparecer e elevou um dos punhos na altura do rosto e o outro rente ao flanco. A gem corrompida se aproximava.

E quando estavam a centímetros de distância, Ônix sacou o segundo punho e socou o pescoço de Ametista que foi lançada para a esquerda. Ônix ria de maneira sádica e soberba e foi caminhando lentamente até Ametista que tinha destruído uma lanchonete e agora estava deitada em cima dos destroços.

Ônix agarra Ametista pelo pescoço e estapeia seu rosto.

— ANDA CACHORRA! EU QUERO MAIS! – Ao ver que a corrupta não reagia, a negra a soltou – Bah! Só isso? É inútil ao ponto de não servir como saco de pancadas.

Ônix invocou sua foice e mirou bem na gema. Flexionou sua coluna em arco para dar o golpe certeiro.

De repente, outra gem corrupta surge pela lateral e enxota Ônix de cima de Ametista.

Ônix voa longe e vai para dentro de um prédio que teve sua recepção destruída.

A outra gem corrompida circundava o corpo de Ametista sem tirar os olhos de Ônix. Estava protegendo Ametista. Essa gem tinha a juba branca, pele alaranjada com faixas mais escuras e manchas verde água pipocando pelo corpo, compactando com chifres de carneiro também azuis na lateral da cabeça.

Era Jasper.

Steven chega logo depois com Peridot, Lápis e as enfermeiras. Steven e as enfermeiras trataram de vistoriar Ametista e ceda-la. Peridot tirou do bolso da jaqueta as gemas de Ruby e Sapphire, que brilhavam. Logo Garnet estava de volta. A fusão parece tonta e instável. Rubis não demoram muito para se regenerar por serem gems simples, mas Safiras por outro lado... Garnet tonteia e se senta nos destroços da lanchonete enquanto vê seu mundo girar.

Jasper rosna ao ver Ônix se levantar. Peridot prepara suas laminas e Lápis levanta águas vindas de hidrômetros e projeta ondas por trás de si.

Ônix sai dos escombros e aponta para Jasper com sua foice.

— A SUA GEMA... É MINHA!

Ela avança e antes que pudessem revidar ela tinha prendido o pescoço de Jasper com o bastão da foice e dava cabeçadas tentando acertar a gema de Jasper.

Garnet simplesmente não estava com paciência pra isso. Ela levantou o indicador ao alto.

— Army... -Ela chamou.

Uma rubi, não me perguntem de onde saiu, apareceu prontamente batendo continência para Garnet. O que não combinava com sua roupa de quem estava de férias.

Army era uma rubi cabeça quente integrante da Ruby Squad original antes de evoluírem e se tornarem A Facção Vermelha. Tentou arrancar os braços de Steven na segunda vez que o viu, o que a rendeu uma passagem só de ida para o espaço. Sorte que anos depois Steven as achou boiando pelo espaço e as salvou. Garnet sentia uma inexplicável simpatia pela rubi soldado, e a treinou. Posteriormente Army se tornou sua fiel escudeira, estando sempre alerta as ordens de sua ama. No atual momento ela estava tirando férias forçadas, mas não era exatamente como se a rubi militar soubesse tirar férias. Ela estava aparentemente tomando uma casquinha que menta com flocos quanto bateu continência, o que a rendeu um chifre de casquinha no meio da testa. Estava de camisa social branca, uma bermuda caqui e crocs amarelos fluorescentes berrantes.

“Anotação mental: Ajudar Army a redefinir seu conceito de férias”

— Army, faça um favor para mim. Tira aquela ridícula de cima de Jasper e esfrega a cara dela no cimento.

Tão alerta quanto um bulldog raivoso, a rubi voa em uma velocidade surpreendente e vai parar em cima das costas de Ônix. Ela trava um mata-leão no pescoço da negra e joga o peso do corpo para trás, fazendo com que Ônix saísse de cima de Jasper.

Ônix cai em cima de Army, que não se abala e aproveita a brecha de peso de um lado e sai para depois fechar uma chave de braço, que faz Ônix largar a foice. A gema de Ônix se encontrava na clavícula, e Army aproveita que estava com o pé próximo e chuta com o calcanhar a gema negra.

Ônix sente o folego faltar ao sentir sua gema ser acertada em cheio pelos crocs da rubi raivosa.

Army sai e vê Ônix se estrebuchando no chão. A negra se vira para o chão e vomita o conteúdo do estomago. A rubra permanece olhando com as mãos nos bolsos como quem estava vendo tv, até se lembrar de um detalhe.

Ela sentou nas costas de Ônix, imobilizou os dois braços com uma mão e com a outro agarrou os longos cabelos negros dela, e com brutalidade tamanha ficou batendo o com a face de Ônix no asfalto vomitado. Não era exatamente esfregar a cara no cimento, mas servia.

— Chega. – Garnet ditou.

Army largou a cabeça de Ônix como um cachorro larga um brinquedo da qual enjoou, e sai de cima dela e vai para perto de Garnet.

— Peridot. – Garnet chama e a esverdeada vai prontamente atende-la – Prepare uma reunião geral para daqui a 16 horas. Sem imprensa. Notas oficiais apenas depois da reunião. Garanta que Jade vai estar lá. Nesse momento a única coisa que eu quero fazer é dormir.

E assim Garnet sai. Deixando alguns sem resposta, outros sem chão, e uma sem sorvete.

+++§§§+++

10 horas depois...

E lá estava Lápis de novo, nas areias da praia de Beach City. O mar era sua casa, e o mar muitas vezes refletia os seus sentimentos. As ondas estavam turbulentas e a maré alta por conta da Lua cheia. Lua essa que quase não aparecia, pois as nuvens tempestuosas a cobriam, de forma que Beach City foi engolida por um breu abissal.

Ao lado oposto da Casa da Praia, no extremo direito de Beach City, havia uma área da praia quase intocada. Onde pedras milenares se projetavam para fora das areia de maneira absurda, algumas chegavam a ter três metros de altura.

Em um curto intervalo, de paz armada, antes de Homeworld atacar com força total, aquele lugar tinha se tornado um santuário para as Crystal Gems. Que na época eram apenas Steven, Garnet, Pérola, Ametista, Peridot e Lápis. Jasper tinha se tornado quase um boneco de testes de Steven, que testava até onde seus poderes curativos iam. Jasper era curada e as Gems observavam até quando a “cura” iria durar. Às vezes horas, as vezes dias. A questão é que antes da criação da Ala Violeta, o máximo de tempo que Jasper passou sem se corromper foram três semanas. E Jasper, resignada por se considerar uma prisioneira de guerra, aceitava tudo sem muitas palavras. Mas isso não queria dizer que Steven tinha desistido de fazer a quartzo vir para o lado da Terra. Ele tentava constantemente, até que um dia Jasper se enfureceu e se deu por vencida. Não. Ela não tinha se tornado uma Crystal Gem. Apenas tinha aceitado que Steven era melhor do que ela. E não. Não era algo honrado. Não era algo bom. Era algo humilhante. Lápis se lembrava bem a dor que a quartzo mostrava quando se prostrou de joelhos perante Steven e cortou os próprios cabelos.

Steven não curou mais Jasper depois disso. Na verdade, aquilo abateu demais o pequeno mestiço. A ponto de Steven cogitar se não era melhor deixar Jasper embolhada ou até mesmo destruí-la. E em um ataque de pânico o mestiço jogou a pedra de Jasper no mar. O pânico tomou conta de Lápis que mergulhou para salvar a gema. Ela conseguiu, mas isso não desfez o trauma no jovem Steven. E Lápis, apesar de não ter perdoado Jasper completamente, sentia que a quartzo não merecia isso, e pediu para Steven para ambos fazerem uma última tentativa. Steven curou Jasper, mas a deixou sobre responsabilidade de Lápis; que a levou para As Rochas, aquele extremo da praia onde pedras enormes brotavam do chão.

Lápis passou a fazer companhia a Jasper. Ia todos os dias. Não faziam muita coisa. Apenas poucas palavras, com Lápis prestando atenção na estabilidade da quartzo para que ela não se corrompesse novamente.

Jasper ficou dez meses sem se corromper. Foi quando Steven e Lápis perceberam que a maior parte dos sintomas da corrupção provinha da estabilidade ou instabilidade psicológica da gem.

Aquele lugar havia marcado tanto Jasper quanto Lápis.

E Lápis sabia que se a gem amante entrasse em pânico ou ficasse com medo, era pra lá que ela fugiria.

Lápis olhava aleatoriamente atrás das pedras gigantes, sabendo que cedo ou tarde acharia a quartzo. Até que avistou uma, grande o suficiente para caber a quartzo. A pedra era afunilada, de modo que as areias a cortava ao meio e dividia sua altura, fazendo parecer uma caverna de pedra.

Lápis espiou. Ela não tinha enxergado nada, mas sabia que estava lá. Entrou. Viu os olhos de Jasper semicerrados no fundo da caverna. A quartzo escondia o rosto nos joelhos.

A azulada se aproximou até ficar a três passos da amante.

— Por que você não me contou? – A Lazulli perguntou tentando parecer calma.

Jasper ficou bons tempos na Ala Violeta. Demorou, mas saiu curada. Jasper não tinha mostrado nenhum indicio de corrupção desde que saiu da Ala. Lápis se lembrava muito bem do dia em que a quartzo teve alta e saiu. Steven tinha lhe dito claramente: “Está curada.”. E isso não descia a garganta da Lazulli.

Corruptas com Resquício e Tendência, ou CRT, eram muitas das vezes tidas como sujas na sociedade gem. Apesar de grande parte das gems da terra terem sido corrompidas em algum período, todas elas se curaram, mas as CRT’s eram gems que como o próprio nome dizia, já tinham tendências psicológicas à corrupção. E os resquícios de corrupção nas CRT’s estavam constantemente ativos, fazendo delas assim uma grande bomba relógio. Mas, Deuses, Jasper não era uma CRT! Não podia ser! Mas os últimos acontecimentos mostraram a Lápis o contrário. Jasper era uma CRT.

— Por que?! – Lápis perguntou novamente.

Lápis tremia levemente, por várias razões. Estava com raiva, Jasper e Steven tinham mentido para ela esse tempo todo. E o pior, corrupção era algo contagioso através de fusão. Lazulli havia perdido as contas de quantas vezes havia se fundido com a quartzo nos últimos anos. E Lápis tinha tendência, não tinha resquício, mas tinha tendência por conta de sua depressão. E se... E se ela tivesse se corrompido também?

— POR QUE?! – A azulada berrou.

— PORQUE EU NÃO QUERIA QUE VOCÊ FIZESSE O QUE ESTÁ FAZENDO AGORA! – A quartzo berrou em resposta.

Um trovão cortou os céus de Beach City. Começou a chover.

— Fazendo, o quê? – Lazulli tremia.

— ...Se afastando de mim.

Só então Lápis percebeu que Jasper estava chorando. Aquela imagem foi tão dolorosa quanto quando Jasper cortou os cabelos em humilhação. E Lápis foi o pivô disso.

A azulada se sentou ao lado da quartzo, que se encolheu.

— Me desculpe... – Pediu Lápis.

Jasper pareceu relaxar um pouco e deitou no colo da azulada.

— Você não pegou nada. – A quartzo falou.

— O quê?

— Corrupção só é contagiosa se eu estiver completamente corrupta na hora da fusão. Você não é CRT.

— Não estou preocupada com isso.

Está sim. ” Pensou Jasper.

— Sinto muito por eu não ter conseguido me curar completamente, Lápis. – Desabafou a quartzo.

— Não tem problema. Você é perfeita desse jeito; feita sobre medida pra mim.

Jasper já tinha escutado muito essa frase: “Você é perfeita do jeito que é. ”, mas sempre achou que não passasse de uma frase de para-choque de caminhão. Um quartzo deveria ser perfeito do jeito que um quartzo deve ser. Sem defeitos, uma rocha solida. Tanto é que desdenhou de Ametista anos antes quando ela lhe contou essa filosofia. Mas agora as coisas tinham mudado. A cabeça de Jasper tinha mudado.

Grossas lagrimas escorriam pelo rosto da quartzo e iam de encontro com o vestido da Lazulli.

— Shhh.... – A Lazulli acariciava os cabelos da amante – It’s okay. It’s okay. I’m here...

+++§§§+++

6 horas depois...

Garnet esperava impacientemente na sala principal da Torre Legislativa. Novamente Jade se atrasara. Ónix estava à esquerda. Ela tinha se trocado e posto um novo macacão branco, uma das suas presas tinha sido quebrada, e ela não gostou nada. Army estava prostrada ao lado de Garnet com seu uniforme de sargento, sua capa e sua boina, parecia uma versão miniatura do Bison ( do Street Figther, pra quem não conhece joga lá no google); a rubi marrenta estava sendo constantemente fuzilada pelos olhos de Ónix, mas Army estava pouco se lixando e continuava com sua cara de sono por ter tido que acordar às cinco da madrugada para comparecer à reunião, e sem sorvete ainda por cima.

Outra rubi entrou batendo as portas do salão. Qualquer uma com tal insolência levaria um chute de Ónix, mas como ela estava com pontos a menos ela preferiu ficar quieta, sem falar que a rubi que entrou não era qualquer rubi. Era Eyeball; a líder da Facção Vermelha.

Com a construção da cidadela, vários bairros surgiram. E muitas gems começaram a se agrupar nesses bairros. A Facção Vermelha era um bairro majoritariamente ocupado por rubis. Era um bairro bem simplório e vermelho, parecia até mesmo uma periferia italiana. E quem representava as rubis era Eyeball, o que a tornava a líder da Facção Vermelha. Uma vez por semana os líderes de todos os bairros faziam um encontro na Torre Civil, e a partir dali determinavam melhorias e alterações que deveriam ser feitas na Cidadela, e uma vez a cada duas semanas elas eram ouvidas por Garnet.

Entre os outros bairros da Cidadela estavam:

Core; um bairro formado apenas por quartzos, bismutos e topazios. Era um bairro rude e bruto, semelhante a bairros ocupados por hooligans na Inglaterra. A representante era Amish, uma ametista grande, parruda e extremamente saliente.

Erito; um bairro ocupado por gems aristocráticas de elite. Tais como Safiras, Pérolas e Agátas. Era um bairro repleto de eruditas, onde haviam faculdades e universidades em abundancia, assim como muitos quiosques do Starbucks (Com foram parar ali? Não me perguntem!). Era um bairro com um estilo que parecia o cruzamento de um bairro oriental com Londres, tinha grandes jardins, portais de madeira, templos de meditação, e muitas construções que imitavam catedrais góticas. A representante era Nila, a Jade, que também era a representante do poder Civil.

Farmer; não era exatamente um bairro, era o planalto onde ficavam as fazendas, e atualmente Jasper era a representante.

Também haviam muitos outros bairros que não seguiam o padrão de hierarquia, e eram ocupados com outros critérios.

Havia Wave, o bairro ocupado por gems aventureiras que adoravam pegar umas ondas na praia. Era um bairro estilo havaiano com gems bebendo água-de-coco e carregando pranchas pra todo o lado.

Tinha Norior; o bairro das gems musicais... e por aí ia. Somando ao total de 24 bairros dentro da Cidadela; com pelo menos 2400 gems em cada bairro.

Mas pegando o fio da meada novamente, Eyeball por ser a líder do maior bairro e com maior densidade populacional, tinha sempre uma cadeira a sua espera no Salão de Audiência.

Eyeball, assim como Army, tinha sido integrante do Ruby Squad original antes de serem jogadas no espaço e posteriormente salvas. Eyeball tinha um tom de pele menos vermelho que a maioria das rubis, também tinha acabado de voltar das férias, estava usando uma camisa polo estampada com varias palmeiras, uma bermuda caqui, chinelos e sua gema, localizada no que deveria ser o olho direito, estava coberta por um tapa olho.

— Vamos começar logo essa bagaça! Eu tenho pedicure pra daqui a três horas! E conhecendo o andar dessa carruagem é só daqui a três horas que a Jade vai chegar!

Eyeball se sentou na cadeira dela. As cadeiras se dispunham na seguinte forma: com Garnet na ponta, Army ficava em pé ao seu lado direito, Jade, que até então não tinha chegado, se sentava na primeira cadeira direita, Eyeball na segunda, e Amish na terceira. Do lado esquerdo se sentavam Ónix na primeira cadeira, Bismuth na segunda por ser que comandava o setor industrial, e Peridot na terceira por ser a capataz de todas as obras que ocorriam na Cidadela, e junto com ela Axel que ficava de pé. Todos já estavam presentes com exceção de.../

— CHEGAY CAMBADA! – Jade arromba a porta – PODEM APLAUDIR, EU MEREÇO!

— Você merece é uma porrada bem enfiada no meio da cara... – Resmungou Amish.

Jade era... bem... uma jade. De pele verde-água, moicano branco e várias tatuagens brancas de estilo tribal espalhadas pelo corpo esguio. Alta e magra, porém musculosa, trajava uma bermuda preta que vivia caindo, um top branco e um colar com um pingente de dente de sabe-se-lá-Deus-o-que. Ela era irmã da Jade que representava Erito, Nila, mas as duas não se pareciam em nada.

Jade foi tomar o seu lugar, mas preferiu ir contornar a mesa pela esquerda para assediar Axel. Ao parar do lado da axinite alvo foi logo cortada por Peridot.

— Jade, pele enésima vez esse mês, pare de assediar minha assistente. E pare de deixar mensagens na caixa postal dela também. Caso não saiba aquela é a caixa postal do escritório.

— Em primeiro lugar, não faço ideia do que é enésima, mas minha memória não falha, e eu só cantei essa belezinha aqui catorze vezes este mês! Falando nisso, que tal um cineminha mais tarde? Está passando Festa da Salsicha!

Axel não alterou sua postura altiva, mas ruborizou as bochechas.

— Não? Você tem cara de que gosta de um romance pastelão, estilo morango com chantili, então que tal Cinquenta Tons de Cinza?

As bochechas da gem assistente pareciam competir com um tomate.

— Quem sabe, mais tarde pode rolar até uns cinquenta tons de verde lá no meu apê...

O rosto da axinite pareceu entrar em combustão.

— SENHORA GARNET ME PERDOE POR FAVOR, MAS EU NÃO SOU OBRIGADA! ESTOU ME RETIRANDO! – Bradou Axel.

— Mas já?! – Perguntou Jade – Eu disse mais tarde pode rolar! Agora você me pegou desprevenida meu bem, mas não tem problema! Meu Jeep tá estacionado lá na porta e já já nóis vai fazer uma festinha particular!

— Está dispensada, Axel. – Suspirou Garnet penosamente.

Axel se virou para se retirar, ao dar dois passos de distância de Jade ela ditou:

— E tire os olhos do meu bumbum!

E Jade, para não perder a piada, deu um tapa estalado na bunda da gem mais baixa. Axel se virou pronta para despejar todo o seu vocabulário de palavrões em seis diferentes línguas.

— Você não disse nada sobre mãos, baby. – Jade falou com as mãos para o alto e um sorriso sacana no rosto.

Axel saiu pisando duro da sala. E Jade foi (finalmente!) tomar o seu lugar na mesa.

— Você é ridícula. – Disse Peridot.

Jade colocou os pés em cima da mesa e colocou os braços cruzados atrás da cabeça.

— Eu tento. – Ela respondeu.

Peridot rangeu os dentes, e em resposta, Jade lhe lançou um beijo no ar.

— Jade – Chamou Garnet – sem mais gracinhas. Axel podia muito bem lhe processar por assedio.

— Não tenho dúvidas, Major. E é por isso mesmo que sei que meu cortejo está funcionando, senão eu já estaria numa cela a muito tempo.

Garnet queria com todas as forças depor Jade do seu posto, assim como a maioria das gems daquela sala. Mas a competência da esverdeada em seu trabalho eram invejáveis. Ela não chegou a ser ministra do Poder Civil com todo aquele ar despojado. Jade era inclusive melhor do que sua irmã, a representante de Erito, no que diz respeito a linguagem. E não confunda, língua e linguagem, pois são coisas extremamente diferentes. Jade sabia desde como falar com um bêbado a como falar com o presidente da república. E essa língua afiada que lhe abriu portas para se sentar naquela cadeira que ocupava.

— Afinal, por que tanto atraso? – Perguntou Garnet.

— Já ouviu falar em “ressaca”?

No entanto, Garnet diria que sua honestidade era, digamos... impecável demais.

— Bom vamos começar essa reunião, novamente. Ónix, ontem seria o dia de sua audição, então você tem a palavra.

— Primeiramente, eu queria saber, Major— Ónix sibilou feito uma cobra. – O porquê de uma CORRUPTA ter sido regenerada fora da Ala Violeta, e sendo acobertada pela senhora, mais a CRT asquerosa da Jasper, que se mostrou ser outra ameaça a Cidadela, mais a esverdeada aqui e a Lazulli do setor 7R!

— Minina... – Jade abriu a boca – que babado!

— A Jasper é CRT? – Perguntou Amish

— Mas quem retirou uma gem corrupta da caixa forte da Ala Violeta, afinal de contas? – Perguntou Eyeball.

Garnet respirou fundo.

— Ela não veio da caixa forte. – Os presentes voltaram seus olhos para a Major — A gem corrompida em questão era a Ametista defeituosa do Jardim de Infância. Little Rose conseguiu curar a gema dela. Só não esperávamos que ela estivesse corrompida.

Houve alguns longos segundos de silencio.

— Aquela Ametista? A da Pérola? – Amish perguntou.

— Little Rose conseguiu curar uma gema quebrada? – Perguntou Eyeball.

— Aparentemente sim. – Garnet suspirou – Como Ametista não participou da Guerra pela Independência ela supostamente nunca teve contato com a corrupção. Ainda não sabemos como ela foi corrompida. Steven está trabalhando nisso.

Jade alterou subitamente sua postura despojada e se sentou conforme a situação requeria. Ela juntou as sobrancelhas, formando um vinco em sua testa, apoiou os cotovelos na mesa e o queixo foi apoiado nas mãos. Jade tinha mil faces, mas a face séria era algo que ninguém desejava ver.

— Primeiramente, vamos ignorar que a Major Garnet quebrou todos os protocolos em relação a medidas a serem tomadas com um código 12. Little Rose conseguiu curar uma gem quebrada, em outras palavras, morta?

Garnet assentiu solenemente.

— Essa é uma descoberta sem precedentes. Precisamos pesquisar isso mais a fundo.

Garnet bateu o punho na mesa.

— Não vou deixar que encostem um dedo em Little Rose! Ela é apenas uma criança!

— Steven também era quando lutou na guerra. – Amish alfinetou.

— E devo lembra-la, Major... que as suas decisões não devem ser feitas baseadas em sua ética moral, e sim as necessidades do povo. – Jade finalizou.

— QUERO QUE SE LASQUE ESSA LADAINHA TODA DE CURA! – Rugiu Ónix – ALGUÉM ME DEVE UMA SATISFAÇÃO SOBRE AQUELA CACHORRA CORRUPTA DE MERDA TER DESTRUÍDO A PRAÇA CENTRAL E AINDA POR CIMA COM O SEU APOIO! – Ela apontou o dedo para Garnet.

— Ametista é uma de nós.

— NÃO! NÃO É! ELA É UMA CORRUPTA COVARDE QUE FUGIU NO MEIO DA GUERRA! AQUELA IMUNDA É UMA VERGONHA PARA TODAS AS CRYSTAL GEMS!

Foi o estopim para Garnet. Ela calmamente se ergueu de sua cadeira.

— Você considera uma vergonha?

— CONSIDERO!

Garnet suspirou.

— Ametista foi mais Crystal Gem do que qualquer um nessa sala. Ela sempre foi a mais teimosa. Ela pouco se importava se a chamavam de fraca. E mesmo quando ela admitia ser mais fraca que alguém, ela sempre tentava se aprimorar. Ela sempre foi uma rocha, mesmo com várias rachaduras e remendos. Mas vocês a quebraram. Vocês corromperam Ametista. A única coisa que eu sempre achei que fosse uma vergonha, era deixar um companheiro para trás. Mas vocês não fizeram apenas isso... vocês pisaram nela como se ela fosse um empecilho. A única vergonha aqui sou eu por ter deixado isso acontecer. Eu esqueci que nem sempre o querer do povo é o certo a se seguir quando seu medo se sobrepõe a sua lógica. – Ela terminou deixando a última frase como uma indireta à Jade.

Garnet retirou a capa vermelha que usava, a colocou no descanso da cadeira e saiu andando pela porta da frente sendo seguida por Army. Deixando as Gems ali presentes estupefatas.

— Bom... – Jade tomou a frente – agora que nossa querida Major deu seu ataque de pelanca, vamos resolver as coisas por nós mesmas.

— EU AINDA QUERO UMA SATISFAÇÃO E/

— Ónix, faça um favor pro universo e cale a boca. Você hoje só não foi demitida porque Garnet está emotiva demais pra fazer qualquer coisa, mas quando ela voltar eu tenho certeza que ela vai tomar alguma providência ao seu respeito. Faremos o básico enquanto ela não volta. Peridot; organize uma empreitada para reconstruir a Praça Central. Ónix, é melhor você abaixar sua crista e torcer para Garnet não cobrar os relatórios agora porque eu tenho certeza que se ela te ver agora ela vai mandar Army colocar a sua gema num quadro de madeira para colocar em cima da lareira dela. Bismuth, prepare todos os materiais para a empreitada, Amish; arrume dez ou quinze gems para a obra. Se essa reconstrução não demorar mais que uma semana já saímos no lucro. Vou inventar alguma coisa para dizer a imprensa, até lá, todo mundo de boca fechada.

Geralmente a reunião terminava com um sonoro “Aye, Sir!”, mas Jade não era Garnet. Garnet tinha um dom de empatia com as pessoas, mesmo quando ela estava dando ordens as gems viam o carinho que ela sentia pela sociedade que elas construíram. Jade não. Ela só sentia um prazer imenso em mandar. E seu histórico não ajudava. Jade nunca foi corrompida, ela estava embolhada pois quando ainda fazia parte do exército de Rose Quartz, ela tinha quebrado uma gem aliada sem motivo algum e fora de batalha. E foi por essa e outras que Jade até hoje não pode sequer entrar na maioria dos bairros da cidadela, nem mesmo sua irmã representante de Erito a permitiu entrada.

E com isso, todas as gems da reunião se dispersaram. Mas Jade ficou. Com a mesma pose cética apoiada na mesa.

+++ Horas Depois +++

Quando as luzes começaram a ser apagadas, demonstrando que já era noite, ela levantou e se espreguiçou. Em suas costas havia uma tatuagem branca de uma serpente pronta pra dar o bote, e o único olho visível da serpente era uma brilhante gema verde. Jade foi até a cadeira de Garnet e se sentou ali. Colocou os pés sobre a mesa e aproveitou a sensação que o poder lhe trazia.

A porta se abriu, revelando Axel, a assistente de Peridot. A recém chegada levou um susto ao perceber que ainda tinha alguém ali e deixou cair alguns papeis.

— Não devia estar em casa ou coisa parecida? — Perguntou Axel.

— Nah. O bar da Jay não vai abrir hoje. Soube que uma parente dela sofreu um acidente ou coisa do tipo.

— E você não tem uma casa pra ir?

— Até tenho.

Se fez um silencio deveras constrangedor. Axel guardou os papeis e já ia se retirando.

— Posso te perguntar uma coisa? – Perguntou Axel.

— Até duas.

— Porque eu te vi dormindo no banco da praça semana passada?

Jade deu de ombros.

— Sei lá. Cachaça, vinho, preguiça... uma combinação de coisas.

— Sua irmã ainda não te perdoou, não é?

— Não é fácil perdoar uma assassina.

— O que vai fazer depois que sair daqui?

— Ainda tem vaga na sarjeta?

Axel passou a mão no rosto. “Eu não acredito no que eu vou fazer! ” Pensou ela.

— O convite para o cinema ainda está de pé?

Jade levantou uma sobrancelha maliciosamente.

— Sim.

Axel engoliu seco.

— Tá legal. Mas nenhum filme de sacanagem, hein?

Jade pulou da cadeira em uma animação subida.

— Claro, mademoiselle. – Jade se aproximou e beijou a mão da mais baixa – Até porque, sacanagem é o que faremos depois.

— COMO É?!

— Se for do seu desejo, claro.

Axel bufou e foi andando na frente, sendo seguida por uma Jade com segundas intenções.

+++§§§+++

Enquanto isso... Na Ala Violeta...

Pérola esperava do lado de fora do quarto onde Ametista estava. Junto com ela estavam Garnet e Army sentadas no chão escoradas na parede; Jasper que ainda demonstrava seus sintomas de corrupção tendo diversas manchas verdes pelo corpo, Lapís que estava sentada no colo de Jasper; e Peridot que estava cabisbaixa escorada na porta de Ametista.

Nenhuma delas sabiam ao certo pelo quê estavam esperando. Steven e Little Rose tinham sumido pelo meio daquele labirinto apático que era a Ala Violeta; A Ala das Gems Corrompidas. Jasper tinha fechado os olhos com força e tremia a cada grito que ecoava pelos corredores, e infelizmente, isso era recorrente.

Steven finalmente reapareceu no meio do branco nauseante dos corredores, Little Rose dormia em seus braços e ele mostrava sérios sinais de exaustão. Estava com olheiras profundas e seus dreads estavam tortos para todos os lados.

As gems que tinham aguardado fizeram menção em se levantar, mas Steven acenou para que continuassem sentadas. Ele se sentou entre Garnet e Pérola e soltou um longo suspiro de cansaço.

— Já temos o diagnóstico. – Começou pausadamente – É um caso raro, o primeiro que se tem notícia, aliais. – As gems aguçaram seus ouvidos – Ela teve uma Corrupção Espontânea.

Houve uma serie de caretas feitas pelas gems, algumas de confusão e outras de incredulidade.

— A Corrupção é uma doença psicológica acima de tudo, mas foi necessário um gatilho físico para inicializar o processo. Pelo o tanto de informações que eu pude obter dos amigos de Ametista, pelo menos os que eu consegui contatar, foi um processo lento que começou quando ela levou uma pancada na gema. A corrupção tinha começado, mas, nos dois meses em que Ametista ficou presa os sintomas eram de maioria psicológica e apenas na última semana dos dois meses ela começou com sintomas físicos. – Steven suspirou – Lebron, o amigo dela, disse que... assim que ela percebeu o que estava acontecendo... ela quebrou a própria gema.

Pérola levou a mão a boca, em choque. Jasper apertou os olhos com força e sentiu lagrimas descerem pelo rosto. Peridot agarrou Lápis e começou a chorar. Garnet começou a tremer. Sorte de Little Rose que não estava acordada para ver nada disso.

Steven enxugou suas lagrimas e tentou continuar.

— A situação ainda é crítica. A gema dela ainda está expurgando muito liquido que não pode entrar em contado com gems. Consegui fazer com que seu corpo voltasse a forma normal, mas ela ainda está com muitos hematomas a manchas. E... para ser sincero eu não sei quando ou se ela vai se curar. O melhor que podemos fazer hoje e ajuda-la. Ela tem pequenos lapsos de lucidez, mas esses lapsos fazem brechas para mais ataques, então ela está sendo mantida sedada.

“Bem... Estamos muito cansados. Little Rose foi quem fez essa suposição da Corrupção Espontânea. Eu também estou um caco. É melhor nó irmos para nossas casas e dormirmos um pouco. ”

A maior parte das gems assentiram e foram se levantando aos poucos e se recompondo da maneira que podiam. Garnet teve que ser praticamente carregada por Army. Lápis saiu carregando Jasper e Peridot ao seu encalço.

Connie apareceu no final do corredor com seu traje de combate todo esfarrapado e um olhar preocupado. Ela foi correndo até Steven.

— Meu Deus! O que foi que aconteceu?! Por quê a Praça Central está destruída?! Por que minha filha parece que voltou do Iraque?! Por que tem uma multidão de Ametistas fazendo baderna na recepção?!

Steven simplesmente acenou com a mão e se levantou com Little Rose no colo.

— Agora não, Connie. Foram muitas emoções. Amanhã eu te explico. – Connie resmungou alguma coisa, mas Steven não deu atenção – Você vem? – Perguntou a Pérola que continuava sentada.

Ela acenou negativamente com a cabeça.

E assim a família Universe sumiu pelo corredor. Deixando apenas Pérola encarando a porta.

E lá ficou por longas horas...

Encarando a porta que a levava aos erros e o pesar do passado e ao medo do futuro.

Se levantou depois de longas horas. E abriu a porta.

A cena lhe trazia dor, e sentia que tudo o que ocorrera com Ametista era sua culpa. A quartzo estava amarrada a cama, as tiras de couro em seus pulsos e tornozelos deixavam fortes marcas de hematomas, haviam trocado sua roupa pelo pijama de flanela hospitalar, algumas mexas de seu cabelo ainda estavam negras, seu rosto se contorcia em pura dor, mas seus olhos não abriam. A blusa do pijama estava desabotoada e uma grande gaze cobria sua pedra e seus seios, a gaze estava com manchas negras absorvendo o liquido negro que a gema ainda expurgava.

Pérola levou um susto quando a porta se abriu. Uma Peridot de jaqueta de couro vermelha e jeans entrou e começou a fuxicar na planilha de Ametista.

— Com licença, esse quarto é privado! – Reclamou Pérola

A Peridot, bem mais alta do que a pequena esverdeada, estourou um chiclete que estava mascando e deixou os óculos vermelhos escorregarem até o final do nariz, olhou cinicamente para Pérola e falou.

— Eu sou a enfermeira-chefe, meu bem.

Depois de tomar uma carteirada na cara (pra quem não sabe o que eu uma carteirada, é quando você “joga” sua ocupação na cara de outra pessoa) Pérola ficou vermelha e deixou a Peridot fazer o trabalho.

— Desculpe, achei que todos do hospital usassem jaleco.

— Eu não. Não gosto, me pinica, eu detesto, e eu estou no fim do meu turno, e se Steven tentar me forçar a usar aquela droga eu enfio aquele jaleco pela goela dele.

Pérola achou melhor ficar quieta de vez. Pelo o que os rumores diziam, aquela peridot era Shiny, uma grande amiga de Jade e também foi cumplice no assassinato da gem aliada, uma Holly Blue.

Shiny mexeu em algumas das maquinas e já ia se retirando.

— Alguma alteração? – Pérola perguntou.

Shiny já estava com a mão na maçaneta, mas se virou para encarar Pérola. Geralmente a peridot detestava falar com parentes dos pacientes, e ainda detestava, depois do BOOM que foi a notícia da Ametista Corrupta misteriosa repercutiu pelos quatro cantos da cidadela um batalhão de Ametistas começou a fazer baderna na recepção. Era a família Prime, a família de Ametista. Começaram a fazer baderna porque sabiam que era a irmã que estava no CTI. Shiny não pensou duas vezes antes de descer o cassete em todo mundo, mas não era fácil enxotar todo o Jardim de Infância Prime da recepção de uma vez só. O único lado bom foi que Shiny arranjou uma paquera, a ametista F5 I8XJ, mais conhecida como Jay (e sim, ela apareceu em That Will Be All). Shiny estourou outra bola de chiclete e revirou os olhos, não era obrigação dela fazer nada, afinal, seu expediente já tinha acabado e ela estava atrasada para seu encontro.

— Aff’s! – Ela bufou e voltou aos aparelhos de Ametista, mexeu em algo e virou-se para Pérola – Diminui a dosagem. É bem improvável que ela vá acordar mas é melhor que nada. Tchauzinho e até nunca.

E assim o peridoto saiu.

Pérola voltou novamente à Ametista. Um fio com uma substancia desconhecida, que Pérola desconfiava que era sedativo, se estendia até o braço de Ametista.

A quartzo começou a reagir e torcer o rosto. Ametista levou a mão a gema e virou na cama, deitando de lado.

— Dói... – A quartzo gemeu com os olhos fechados.

Pérola enxugou uma lágrima que tendeu a escorrer pela face pálida.

— Eu sei... – Pérola disse deitando ao lado de Ametista — ... mas vai passar. Eu prometo.

If I could begin to be

Half what you think of me

I could do about anything

I could even learn how to love

— Por que não pediu ajuda? – Pérola perguntou.

Amestista pareceu reagir a voz de Pérola. Os olhos se forçaram a abrir, mas logo voltaram a se serrar pela luz forte do lugar.

Em meio as doloridas golfadas de ar, Ametista conseguiu responder.

— O que... você... tá fazendo... aqui? – Ametista perguntou.

Pérola sentiu uma pontada do “coração”. Ametista não queria sua presença? Fora tão bruta e ingrata com ela ao ponto disso?

Pérola decidiu ignorar a pergunta da mais nova.

— Por quê foi embora? – Ela perguntou.

Ametista não respondeu.

— POR QUE? – Pérola insistiu com lagrimas brotando aos olhos.

Ametista abriu os olhos, mas ainda não tinha coragem de encarar a mais velha.

— Eu pensei que se eu me afastasse, — a mais nova começou — eu deixaria de ser um peso pra vocês. Steven poderia focar em curar as gems. Garnet poderia se concentrar na guerra. E você... poderia voltar a ser feliz.

— Mas eu era feliz!

— Não... não era.

When I see the way you act Wondering when I'm coming back I could do about anything I could even learn how to love Like you

Pérola chora.

— Senti tanto a sua falta. – A mais velha diz.

— Eu também. E se não fosse por Little Rose... eu não teria voltado. Sorte de vocês terem encontrado o Lebrac e mandado ele me chamar.

— Ele... – Pérola passa a mão por cima da gem de Ametista sentindo o relevo da cicatriz que traçava a gem ao meio – que fez isso?

Ametista ri.

— Foi uma boa festa aquela. Ele era líder dos Abutres e eu dos Tubarões. Dois integrantes dos nossos clubes de moto começaram a se estapear, e de tão bêbados os outros entraram na briga. Ele quebrou uma garrafa e partiu pra cima de mim. Ele me deixou essa cicatriz no peito, mas eu deixei outra bem bonita na cara dele. – Ametista ri sôfrega.

— Você podia ter morrido. – Pérola diz.

— P... você pode até não acreditar, mas eu não sou feita de vidro. Não vou quebra por causa de um soco.

— Mas quebrou por causa de palavras! – Pérola rebate se arremetendo ao bullyng que as outras Cristal Gems fizeram a Ametista antes dela fugir.

— Não... – Ametista disse – Não foi pelas palavras delas que eu quebrei... foi pelas suas.

Look at you go I just adore you I wish that I knew What makes you think I'm so special

Uma lágrima desceu pelo rosto de Pérola ao lembrar dos crimes que pecara contra Ametista. Tudo por causa de seu orgulho besta. Tudo porque queria se mostrar como superior para as outras gems. Tudo porque ela era A Pérola. A escolhida de Rose Quartz. Que seria eternamente de Rose Quartz e de ninguém mais, desprezando de repentemente todos os outros quartzos que se aproximavam dela, incluindo Ametista; numa vã tentativa de mostrar que era uma viuvinha puritana que não seria serviria a mais nenhum quartzo após a morte de Rose. E obviamente Pérola estava errada, e agora lidava com o preço de sua ignorância.

If I could begin to do Something that does right by you I would do about anything I would even learn how to love

— Por… favor… — Ametista ofegou – Não chore... Não chore mais... por minha causa...

Ametista se forçou a levantar a mão e tocar o rosto de Pérola. A mais velha abriu os olhos e olhou para Ametista que tinha os olhos opacos quase brancos que pareciam quase cegos e o aspecto dela lembrava o de um moribundo alucinando.

— Como posso não chorar sabendo que eu causei tudo isso á você.

Ametista riu.

— Você... tem sempre o mesmo... defeito.... sempre olha as coisas pelo pior lado. E esquece... de enxergar... o fruto positivo disso tudo.

— Você pode me fizer o que podemos tirar de bom disso tudo?!

Pérola ralhou e rapidamente se arrependeu por ter sido grosseira enquanto ao mesmo tempo sentiu uma nostalgia dentro de si do tempo em que Steven era criança e Ametista o levava para fazerem peripécias escondidos de Pérola.

Ametista ri fracamente, encolhe a cabeça, recolhe a mão e descansa a cabeça do tórax de Pérola.

— Eu mudei. Eu cresci. Eu amadureci. Levou tempo. Precisei entrar numa gangue, virar traficante, viajar meio mundo, testemunhar e ser vítima de eventos catastróficos da natureza e ficar soterrada mais de um ano junto com cadáveres apodrecendo. Fui presa, fui baleada, levei tiros, facadas, coronhadas... tenho cicatrizes que nem mesmo consigo contar e apesar de eu poder faze-las sumir eu prefiro que elas fiquem. Você pode não ter notado ou negar o fato... mas eu agora tenho orgulho do que me tornei.

When I see the way you look Shaken by how long it took I could do about anything I could even learn how to love like you

— Eu prometi que ia te ajudar. Eu prometi que quando eu voltasse ia ficar. – Ametista continuou – E eu irei. Mas parece que você não seguiu meu concelho de parar de se martirizar, não foi?

Pérola soluçou e agarrou a cabeça de Ametista contra o corpo.

“Está tudo bem.” Ametista pensou. Estava de volta, todos estavam bem e com o tempo tudo voltaria o normal.

Pérola soluçava e se debulhava molhando os cabelos de Ametista.

“No final de tudo...” – pensou Ametista – “parece que ela é que era defeituosa.” Mas não tinha problema. Cheia de defeitos ou sem nenhum Ametista ainda a amava de qualquer jeito, e com o tempo a ensinaria que a perfeição e a paz viriam da aceitação. E talvez com o passar dos anos Ametista a ensinaria a se amar como ela a amava.

Love me like you

Fim

Mª Vitória A. G. Fernandes

“Love Like You” 24/07/2016 – 30/12/2017

Notas finais
Espora que tenham gostado, muito obrigado pela sua audiência, pela sua audiência, pelos seus favoritos e seus comentários. Até a próxima, Titó.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!