Notas iniciais
Hello minhas borboletinhas, essa será uma one-fic Namjin bem fofinha. Tem alguns gatilhos presentes, então fiquem atentos. Aborto espontâneo, mpreg, ansiedade, medo, culpa, autorrecriminação, aborto espontâneo e divórcio.

O braço dele foi segurado, fazendo-o parar antes de deixar a casa. A mesma casa que eles haviam compartilhado por longos quinze anos, mas que agora se resumia a um lar sem conforto ou amor.

Namjoon engoliu em seco, enquanto sentia os dedos queimarem sua pele, como se aquele toque fosse corrosivo para o seu corpo. Ele queria poder dizer que ficaria, queria dizer que aquilo ainda tinha salvação, mas estaria terrivelmente enganado se o fizesse. Nada naquele casamento era viável.

— Não vá, por favor, vamos tentar mais uma vez — a voz do outro saiu cheia de súplica, de tristeza e ansiedade, desejando que o outro apenas voltasse, como sempre voltava.

— Não posso, Jin, me desculpa — com cuidado, ele se virou para o outro, segurou o pulso dele e o fez soltar, sem machucá-lo. A ironia que habitava suas vidas era que, ultimamente, ele tinha tantas cicatrizes que se quer poderia ser delicado, mas ali estava ele, gentil e doce como sempre fora. — Adeus.

E com simples palavras, deixou a casa de uma vez, levando consigo apenas uma mala. Ele não sabia se voltaria àquele lugar para buscar tudo que havia deixado ali, mas talvez não o fizesse, pois não queria nada que o lembrasse do quanto havia sofrido naquele casamento.

Kim Namjoon e Kim Seokjin haviam se conhecido no trabalho. Ambos eram advogados e trabalhavam em uma firma importante no centro de Seul. Com o tempo, foram se aproximando, mas não de uma maneira boa, é claro. Eles se provocavam o tempo inteiro em uma competição ridícula sobre quem era o melhor no seu ramo. E, claro, seus amigos já sabiam onde aquilo daria antes mesmo de se quer qualquer tipo de interesse surgir.

Foi em uma noite de setembro que, em um jantar da empresa, eles se provocaram tanto que foram parar no mesmo quarto, bêbados e nus. No dia seguinte, o constrangimento era visível, mas, ao invés de deixarem aquele quarto de hotel apressados, se afastarem e fingirem que nada havia acontecido, eles caíram em uma gargalhada gostosa e decidiram experimentar daquele prazer mais uma vez, sem qualquer tipo de receio e estando sãos.

A química era excelente e eles pareciam se encaixar perfeitamente enquanto sentiam o prazer dominar seus corpos. Duas semanas depois, voltaram a se encontrar naquele mesmo quarto de hotel, e então aquilo se tornou rotina, até finalmente entrarem em um relacionamento.

Namjoon dizia que ele e Seokjin foram feitos um para o outro e, mesmo contra tudo que a sociedade deles impunha, ainda assim mostravam a qualquer um o amor que tinham um pelo outro.

Depois de um ano de namoro, decidiram noivar e, em uma cerimônia simples na tão incrível Las Vegas, se casaram entre amigos e família. Meses depois, finalmente compraram a casa deles.

O toque na porta foi alto e o susto do habitante foi grande. Ele correu até a porta e a abriu, vendo o amigo com uma mala e o rosto banhado em lágrimas, enquanto os olhos ainda estavam vermelhos.

— Eu o deixei — as palavras saltaram de sua boca, fazendo-o cair em um choro sentido, enquanto era acolhido pelo ruivo que não se importou em ter a roupa molhada pelas lágrimas alheias.

Namjoon foi posto para dentro, e uma xícara de chá foi servida para ele, enquanto o trisal tentava não questionar de fato o motivo, já que nenhum deles entendia o que estava acontecendo com ambos nos últimos anos.

— Vou arrumar o quarto de hóspedes — Taehyung suspirou, deixando seus dois namorados na sala e indo em direção ao corredor.

Namjoon sentiu o celular vibrar no bolso e, quando o puxou, viu a foto dele brilhar. Seu marido era lindo, tinha cabelos pretos como a noite, lindas sobrancelhas grossas, um nariz fino e lábios cheios. Seus olhos tinham um tom de castanho médio que parecia brilhar sempre que colocava os olhos em si. Seu rosto parecia de porcelana, tão suave e delicado.

— Não vai atender? — Hoseok o despertou do breve devaneio, fazendo-o negar e desligar o aparelho. Ele não tinha mais nada a dizer a Seokjin e, até que pudesse ir aos Estados Unidos para dar entrada no pedido de divórcio, não queria nenhum contato com ele.

— Estou cansado de falar, Hobi — Namjoon murmurou, passando as mãos pelos cabelos e os jogando para trás. — Cansei de bancar o bobo com ele.

— O que exatamente aconteceu com vocês? — Yoongi questionou confuso, sem saber onde foi que seus dois amigos começaram a se desentender.

— Tem um tempo que não temos concordado com muitas coisas, e isso inclui tudo: trabalho, família, vida pessoal, sentimentos, tudo — era frustrante admitir aquilo, mas ele precisava. — Começamos a nos afastar por causa da rotina, e tudo entre a gente a gente ficou frio e superficial. Não conversávamos mais, não fazíamos mais planos, nem ao menos transávamos.

— E tentaram conversar sobre isso? — Hoseok questionou curioso. Era de se esperar que estivesse, já que Namjoon era o tipo de pessoa paciente e que sempre tentava resolver tudo com uma boa conversa.

— Várias vezes, Hobi. Eu tentei de tudo… tentei conversar, tentei me abrir, tentei até apimentar a relação, mas Seokjin sempre se esquivava e me deixava frustrado. Sempre que eu tentava ir embora, ele pedia para eu ficar, e eu ficava, porque era ele, porque eu queria que desse certo, queria por nós dois.

— Ele nunca se abriu pra você? — Yoongi franziu o cenho, Pelo que sabia de Seokjin, ele não fazia o tipo de pessoa que se escondia, e todos sabiam, mas como poderiam adivinhar o que se passava pela cabeça dele naquele momento?

— No máximo, desculpas — Namjoon deu de ombros e suspirou, frustrado. — Nosso relacionamento caiu em um buraco sem fim. Eu mal reconheço o cara com quem me casei. Depois de todos esses anos, eu nem sei se ainda nos amamos.

Os dois não disseram nada, afinal, o que poderiam dizer? Namjoon havia tomado uma decisão baseada em tudo que estava passando, e apenas ele sabia de tudo. Apenas ele podia dizer o que sentiam ou não.

— Eu prometo que vou embora amanhã, só precisava de um lugar para essa noite — Namjoon retomou, frustrado. Sua cabeça estava cheia, e ele teria mil coisas para resolver a partir dali.

— Não se apresse e fique o tempo que precisar — Taehyung disse, retornando à sala. Seus namorados diriam o mesmo, então apenas assentiram em concordância. — Você tem muito para resolver a partir daqui, mas antes... — ele se sentou ao lado do irmão e suspirou, passando o braço por seu ombro e o puxando para um abraço. — Eu sei que você já pensou muito e te apoiarei se for isso mesmo que você quer. Mas tenha certeza absoluta de que esse casamento não tem mais futuro, porque, quando decidir uma vez, não poderá voltar atrás. Não é justo com nenhum dos dois.

Namjoon apenas assentiu e deixou o abraço quente lhe acalentar.

Sua noite foi mal dormida, aliás, sequer pregou os olhos. Sua mente estava nele, no que ele estaria fazendo, se estava bem, se estava sofrendo, se havia comido ou mesmo tomado suas vitaminas antes de dormir. Era muito para digerir.

E Seokjin não estava tão diferente assim. Depois que Namjoon foi embora, ele apenas se deitou no sofá e chorou, chorou até não lhe restarem mais lágrimas. E, quando pensou que adormeceria, sua mente vagou pelas memórias que tinham em cada canto daquela casa.

A lareira em frente ao sofá, onde costumavam passar as noites de frio se amando. O cantinho de leitura, onde costumava ver Namjoon entretido em alguma leitura, enquanto lhe fazia carinho. O próprio sofá onde estava deitado lhe lembrava as noites em que passavam maratonando alguma série ou mesmo conversando sobre o dia a dia.

Aquelas eram memórias importantes, mas que Seokjin mal parava para apreciá-las, mal se lembrava do toque de Namjoon ou do sabor que o beijo dele tinha. Eles haviam caído não só na rotina, mas em um vale escuro, onde segredos começaram a separá-los, e as coisas começaram a ficar estranhas.

Seus olhos não se fecharam durante aquela noite e, quando o dia chegou, ele apenas se levantou e se arrumou para ir trabalhar. Não teve vontade de se alimentar, mas engoliu algo leve mesmo assim, tomou suas vitaminas, que havia esquecido de tomar no dia anterior, e foi para o trabalho. Não fazia ideia do que faria ou como agiria ao encarar Namjoon, se é que ele iria trabalhar naquele dia.

Assim que entrou na copa, viu Hoseok e Jimin cochichando. Ambos eram secretários executivos e trabalhavam com Seokjin e Namjoon na firma, já que os dois eram sócios majoritários da empresa, junto ao CEO Jeon.

— Bom dia — Seokjin murmurou, assustando a ambos, que o olharam como se tivessem sido pegos roubando. — Não precisam fingir que não sabem de nada. Eu sei que Namjoon dormiu na sua casa, Jung.

— Bom dia — Hoseok apenas respondeu com um suspiro, optando por não negar ou confirmar. Aquilo não era da sua conta.

— Bom dia, chefinho. Sua agenda do dia está livre até as nove — Jimin se pronunciou, já com o tablet aberto. Seokjin sabia daquilo, Jimin sempre o atualizava no final do expediente.

— Certo — assentiu, indo em direção à cafeteira, mas mudou de ideia e optou por um chá. — Onde estão o Jeon e o Kim?

— Ah… — Hoseok pigarreou. — O senhor Kim está em uma audiência, e o senhor Jeon está na sala dele. Disse que quer vê-lo.

— Obrigado — Seokjin terminou de preparar seu chá e deixou a copa, indo direto para a sala do Jeon.

Os dois restantes de entreolharam, e o olhar de Jimin dizia “viu, eu disse”. Mas Hoseok custava a acreditar que aquilo era mesmo verdade. Sabia que era possível, mas não imaginava que Seokjin esconderia algo assim.

O Kim caminhou até a sala do Jeon e bateu na porta com os nós dos dedos. Logo suspirou ao ouvir o “entre” e deixou seu corpo fazer o caminho por si, enquanto deixava a xícara aquecer-lhe as mãos.

— Que cara horrível — o moreno comentou, tirando a atenção dos papéis para mirar o amigo.

— Não soube da fofoca? — questionou, sarcástico, e viu o outro dar de ombros. — Namjoon e eu vamos nos separar.

— Já deram entrada nos papéis?

— Que insensível da sua parte, Jungkook-ah.

Ele fez uma careta e recostou-se na cadeira.

— O que quer que eu diga? Você causou isso, Seokjin. Eu te avisei dos riscos, e você tinha noção — Jeon apontou, voltando a focar nos papéis.

— Você poderia ser um pouco mais gentil com seu amigo que está sofrendo.

— Estou vendo pelas olheiras — debochou, fazendo o Kim revirar os olhos. Seu suspiro foi longo e de chateação, para então voltar a mirar o amigo que tinha os olhos vidrados na xícara. — Não é o fim do mundo, Jin. Se você deixasse seu marido saber, tudo seria mais fácil.

— Não vou correr o risco… e tem a probabilidade de acontecer o mesmo da outra vez.

— E ele continua não sabendo de nenhuma das duas situações. Não acha que é injusto com ele? — questionou, cruzando as mãos sobre os papéis e mirando o amigo seriamente, que também o encarava.

Seokjin sabia que era injusto, tinha certeza disso, mas não queria e nem iria admitir. Ele não dava o braço a torcer nunca, e não seria daquela vez.

— Certo… — assentiu frustrado com a falta de noção do outro. — Faça como bem entender, só saiba que o Namjoon vai embora e não pretende voltar.

— Pra onde? — seus olhos se arregalaram, e o coração disparou. O desespero subiu de 0 a 100 em um milésimo de segundo.

— Para a filial nos Estados Unidos — foi tudo o que Jeon disse antes de voltar a focar no trabalho, ignorando de uma vez a presença de Seokjin, que, não se manteve muito tempo ali, depois de absorver a situação, ele apenas deixou a sala e foi para a sua, que ficava ao lado da de Namjoon. Ainda estava vazia e provavelmente ficaria assim até as dez da manhã, quando a audiência terminasse e ele retornasse ao escritório.

Os dias que se seguiram foram tortuosos e lentos. Seokjin assistiu todo seu sofrimento passar por várias fases. Era como estar de luto, e cada fase nova lhe arrancava um pedaço de si, mas parecia que a fase da aceitação nunca iria chegar.

Numa noite, depois do expediente, a porta de sua casa foi aberta, e ele olhou com esperança, mas quem entrou foi Yoongi, e não seu marido, o que fez seu coração doer um pouco mais. Ele ainda tinha esperança de que Namjoon voltaria para si, de que ainda poderiam salvar o casamento, mas como poderiam salvar algo se ele mesmo não movia um dedo para fazê-lo?

— Desculpe, vim buscar o resto das roupas do Nam — murmurou o moreno, de maneira ressentida, desejando poder fazer algo a mais pelo amigo, mas sem poder.

— Tudo bem, pode levar o que quiser — Seokjin suspirou, voltando o olhar para a televisão.

Durante todos aqueles dias, ele havia visto Namjoon apenas de longe. Sempre que tentava se aproximar através da roda de amigos, o outro desviava e saía.

Yoongi pediu licença e foi até o quarto do casal. Ligou para Namjoon enquanto arrumava sua mala, procurando saber o que o outro queria que fosse levado. Quando terminou, mirou o quadro sobre o criado-mudo: uma foto do casamento, havia uma de cada lado, mas aquela era a favorita de Namjoon.

Ele pegou o quadro, fechou a mala e voltou a sala, vendo Seokjin sentado no mesmo lugar.

— Hmm, Jin-ssi? — Yoongi chamou, e o moreno se virou, confuso, vendo o amigo parado no meio da sala. — Será que posso levar esse quadro?

— Ele pediu? — apesar da sua face ter se mantido neutra, havia esperança em sua voz.

— Não… mas eu quero levá-la.

— Okay — deu de ombros.

Yoongi apenas suspirou e tomou o caminho da porta, mas parou quando ouviu o soluço de Seokjin e em seguida a corrida dele para o banheiro. Ele colocou os pertences de Namjoon no cantinho e seguiu atrás do amigo, para conferir se ele estava bem.

Ele não entrou, mas se manteve na porta, apenas para alguma emergência, já que era médico.

— Estou bem — Seokjin afirmou, depois de dar descarga e lavar o rosto e a boca. — Pode ir, Yoon.

— Ele sabe? — a pergunta o pegou de surpresa, fazendo-o arfar e comprimir os lábios. — Pela sua reação, vou dizer que é um não.

— Como você soube?

Yoongi apontou para as vitaminas sobre o mármore da pia e suspirou.

— Não deveria fazer isso, não com ele — apenas disse, e foi embora.

Seokjin ficou estatelado dentro do banheiro, enquanto Yoongi deixava sua casa. Aquela foi a última vez que o viu, por longos seis meses.

Namjoon partiu na manhã seguinte àquela noite. Eles não se despediram, nem ao menos se viram. Seokjin apenas soube que em breve teria que ir aos Estados Unidos para assinar os papéis do divórcio e comparecer à audiência.

Quando a intimação chegou por e-mail, ele teve uma crise de ansiedade. Não sabia o que faria para esconder o que precisava esconder, e mesmo que recebesse olhares tortos de seus amigos, ainda assim foi acolhido por um Jimin e um Hoseok preocupados. Ele havia tomado todas as decisões erradas possíveis, e agora estava diante das consequências.

No dia da viagem, teve certeza de que tudo estava perto de ter um fim definitivo para ele e seu marido. Era injusto que aquilo estivesse acontecendo; Namjoon estava lhe deixando, e Seokjin se recusava a torcer o braço para contar tudo.

Assim que pousou no país americano e chegou ao portão de desembarque, viu o Kim ali. Não esperava que o outro realmente fosse de fato recebê-lo, mas ali estava o loiro, pela primeira vez em meses. Bonito como sempre, mas agora mais forte do que antes.

— Oi — Seokjin murmurou acanhado, e o outro apenas deu um meio sorriso, devolvendo o cumprimento. — Não precisava vir me buscar.

— Tudo bem… mas porque veio dois dias antes? — Namjoon questionou, confuso.

— Dois? — Seokjin franziu o cenho e revirou os olhos. — Jeon Jungkook...

Namjoon soltou uma risada nasal e indicou o caminho. Ambos caminharam em silêncio até o estacionamento. O Kim estava morando no apartamento que o Jeon possuía nos Estados Unidos e, como não era utilizado de qualquer maneira, se manteria ali por mais algum tempo, até ter certeza de que deveria e queria permanecer. Seu coração ainda estava em Seul.

Seokjin ficaria no apartamento junto a ele. Apesar da discordância sobre o divórcio, nenhum dos dois desejava iniciar uma briga sobre o assunto. Eram civilizados demais para isso.

Assim que chegaram, Namjoon indicou o corredor dos quartos e o mostrou o que havia sido preparado para Seokjin. O telefone do loiro tocou e ele pediu licença, o deixando ali.

— Vocês se acham os engraçadinhos, não é? — Namjoon questionou assim que atendeu a vídeo chamada.

— Não sei do que está falando — o Jeon deu de ombros e sorriu largo. — Ele já chegou?

— Acabei de deixá-lo no quarto. Iremos ao tribunal daqui a dois dias — Namjoon retrucou, irritado.

— Quem sabe você descubra algo interessante nesses dois dias — Jimin piscou, divertido.

— Do que está falando, Park Jimin?

— Jeon Jimin, me respeita que eu casei com o chefe.

— Não desvie do assunto.

— Tchau, Nam — e a chamada foi encerrada na cara dele.

Aqueles dois definitivamente iriam enlouquecê-lo. Um suspiro escapou de seus lábios. Era uma sexta-feira, e ele só retornaria ao trabalho na segunda. Não tinha muito o que fazer ali, então pretendia relaxar no final de semana antes de ir ao tribunal com Seokjin, que deveria chegar apenas no domingo, mas ali estava ele.

Ao contrário de Namjoon, o outro Kim parecia diferente. Estava com roupas largas, algo que nunca costumava usar, o rosto um pouco inchado, e exibia olheiras profundas.

O loiro balançou a cabeça negando e se dirigiu a cozinha. Aquilo não era mais da sua conta, então não deveria estar se preocupando em excesso com o bem-estar do futuro ex-marido.

Como o horário do almoço estava próximo, Namjoon decidiu preparar algo rápido e leve. Seokjin provavelmente estava dormindo, por causa do Jet Lag, mas ele sabia que o outro acordaria com fome mais tarde.

Porém, contrariando todo o pensamento do loiro, Jin surgiu na cozinha, descalço, com os cabelos lavados e caindo sobre o rosto, vestido em um moletom folgado.

— O cheiro está ótimo — comentou casualmente, sentando-se no banco em frente ao balcão.

— Não está cansado? — Namjoon questionou, curioso, evitando deixar evidente que havia pensado sobre o assunto.

— Um pouco, mas eu prefiro dormir à noite. É melhor assim — suspirou e desviou o olhar. Sua mente martelava com coisas que queria dizer, mas não tinha coragem de dizer nenhuma delas.

— Vamos almoçar, então. Quer vinho? — Namjoon ofereceu, e o outro negou rapidamente, optando por um suco natural.

Os dois se sentaram à mesa e almoçaram em silêncio. Não havia necessidade de falar. Eles não tinham mais assuntos em comum e temiam confundir as coisas ao se comportarem como um casal.

Assim que terminaram de comer, Seokjin se ofereceu para colocar a louça na lavadora, e o loiro foi para a sala, optando por assistir algo. Estava começando a se sentir sufocado na presença do ex. Ainda havia coisas dentro de si que precisavam sair, mas sabia que Seokjin não o ouviria, então nem gastaria seu tempo.

Quando terminou na cozinha, Seokjin foi para a sala e sentou-se na outra ponta do sofá. O clima entre eles era estranho e desconfortável.

Ambos focaram no filme, mas vez ou outra se remexiam no sofá, ou até perdiam míseros segundos observando o outro.

Quando o filme acabou, Seokjin havia adormecido. Namjoon pensou em carregá-lo até a cama, mas aquilo parecia íntimo demais e despertava sentimentos que preferia evitar.

Ele deitou a cabeça no encosto e suspirou, mirando o rosto gordinho, bonito e delicado de Seokjin. Ele continuava lindo.

Os olhos castanhos de Jin se abriram e miraram os verdes de Namjoon. Ambos se mantiveram em silêncio, apenas se encarando, em uma conexão profunda que não podiam evitar.

Seokjin foi impulsivo ao se aproximar com rapidez e roubar um beijo de Namjoon, tirando-lhe o fôlego. No entanto, quando a mão de Namjoon apertou sua cintura, o moreno se afastou como se aquele toque o queimasse. A respiração descompassada denunciava o excesso de fôlego que havia depositado naquele beijo. O cenho de Namjoon estava franzido, confuso, entre o beijo e as perguntas em sua mente.

— Me desculpe — Seokjin levantou com rapidez e Namjoon o viu ajeitar o moletom em si, antes de deixar a sala.

Ele não havia interpretado errado, aquilo era real. De repente, as palavras de Jimin fizeram sentido para si. Sua mente girou até que seu corpo reagiu. Ele não alcançou Seokjin no corredor, mas esmurrou a porta do quarto até que ele a abrisse.

— Não é uma boa hora — o moreno evitava olhá-lo.

— Desde quando? — perguntou irritado.

— Namjoon…

— Desde quando, porra?!

O grito o fez estremecer. Ele mordeu o lábio, tentando conter as lágrimas. Era a primeira vez que Namjoon gritava consigo.

— Vinte e oito semanas — respondeu em um sussurro, mas o Kim entendeu perfeitamente. Um riso incrédulo deixou seus lábios, e ele passou as mãos pelos cabelos, frustrado demais.

— São basicamente sete meses, não é isso?

A resposta não veio, mas a cabeça assentindo era tudo o que precisava para fazê-lo enlouquecer com aquela notícia.

— Você pretendia me contar em algum momento? Ou só pretendia me deixar descobrir quando eu voltasse à Coreia, anos depois, e descobrisse que tenho a porra de um filho?!

— Eu não…

— Não o quê, Seokjin? Não pretendia esconder ou não pretendia me contar? Você é tão egoísta!

— Você não sabe nada sobre mim! — Seokjin gritou, com lágrimas escorrendo pelo rosto.

— Realmente, eu não sei nada sobre você, porque aparentemente estou muito surpreso ao descobrir que o cara com quem me casei engravidou e não teve coragem de me contar por meses, nem quando tentei muito salvar o nosso casamento.

— Não é bem assim… você não sabe pelo que eu passei.

— Você tem total razão, Seokjin. Eu não sei, mas sabe por que eu não sei? Porque você preferiu esconder ao invés de me contar. Você decidiu que não era importante comunicar ao seu marido que teríamos um bebê.

— Você nunca falou sobre filhos… sempre que eu tocava no assunto, você dizia que não queria filhos porque achava que não seria um bom pai.

— Achar que eu não seria um bom pai não é a mesma coisa que tentar ser um! — Namjoon parecia ultrajado com a acusação. Aquilo parecia irreal demais para si.

— O quê? Vai me dizer que vamos ficar juntos por causa desse bebê?

— Não, Seokjin, não iremos… porque eu seria incapaz de me manter casado com alguém que dúvida da minha integridade. Que acredita que eu preferia ser um babaca a assumir o filho que é meu.

Seokjin não teve resposta para aquilo, e só por isso Namjoon negou com a cabeça e murmurou as palavras que tanto rodavam em sua mente.

— E é por isso que estou me separando de você, porque não posso te amar no escuro.

Sem mais uma palavra, ele deixou o quarto. O moreno, parado ali, só conseguia pensar em tudo de errado que havia feito e em todas as suas falsas convicções que determinava como a maior verdade para si.

Namjoon deixou o apartamento para espairecer. Não precisava de bebida, nem de mulheres, homens ou qualquer coisa superficial para se distrair, ele só precisava respirar. Com um suspiro frustrado, tirou o celular do bolso e ligou para Jungkook, quando se sentou em uma praça quase vazia.

— Pela cara, você descobriu antes do esperado — o Jeon falou convicto, sorrindo do outro lado da tela.

— Não estou de bom humor, Jeon — Namjoon reclamou e suspirou, frustrado. — Você sabia?

— Eu e todo mundo. Descobri por acaso — suspirou e mirou a tela com seriedade. — Mas, Nam, você não gritou com ele, gritou?

A careta de desgosto de Namjoon fez Jungkook suspirar, frustrado. Ele sabia que eram emoções demais para lidar e não podia culpá-lo, mas também não podia evitar sentir-se mal por eles estarem tão desconectados.

— Você confia em mim? — perguntou seriamente para o amigo que apenas confirmou. — Então volta pra casa e ouve o lado dele.

— Jungkook…

— Por favor, Nam, tem mais coisas do que apenas isso — o moreno disse, frustrado. — Não quer saber como eu descobri?

Namjoon suspirou e assentiu, então ouviu Jungkook contar toda a história que ele nem sequer tinha noção de que havia de fato acontecido. Estava se sentindo um péssimo marido àquela altura, mas como poderia ter tentado ser melhor? Se não havia nem abertura para si, se Seokjin não permitia que ele se aproximasse e visse o que deveria ver.

Depois que encerrou a conversa com Jungkook, ele ficou mais um tempo ali, apenas absorvendo tudo o que tinha ouvido. Quando finalmente se deu por satisfeito, deixou a rua e seguiu o caminho de volta para casa. Só naquele momento percebeu que havia caminhado demais.

O apartamento estava silencioso, e ele duvidava que Seokjin quisesse falar com ele naquele momento, mas tudo bem. Ambos precisavam de espaço.

O final de semana se passou rápido. Eles não se viam no apartamento, e talvez fosse melhor daquela maneira. Porém, na madrugada de segunda-feira, Jin esgueirou-se pelo quarto, sentindo-se envergonhado e acanhado. Cutucou o homem e agachou-se ao seu lado, apoiando os joelhos no chão.

— Namjoon, acorda, por favor — Jin pediu baixinho, mas audível o suficiente para acordar o outro.

O homem abriu os olhos sonolento e franziu o cenho ao vê-lo ali, alarmando-se de repente ao pensar em tudo que Jungkook havia sido lhe contado e no estado de saúde de Seokjin.

— O que foi? Sente algo? — sentou-se na cama rapidamente, virando-se com pressa para mirar Seokjin na pouca luz que passava pelas cortinas.

— É meio constrangedor…

O cenho franzido de Namjoon mostrava que ele não estava entendendo nada.

— Eu... tô com desejo — Seokjin abaixou olhos e finalmente se levantou, sem saber se deveria sair do quarto ou esperava uma resposta.

Namjoon olhou para o rosto bonito e soltou um riso nasal. Nem estava mais bravo com ele, e quase esqueceu que precisavam ter uma conversa séria.

— O que quer comer, hmm? — Namjoon segurou as mãos juntas e assistiu as bochechas se avermelharem.

— Panquecas com doce de leite e pepino — Seokjin abaixou a cabeça, frustrado. Ele mesmo poderia fazer, mas queria as panquecas que Namjoon preparava, aquelas que lhe dava água na boca. — E suco de laranja.

Era um pedido meio estranho, mas Namjoon apenas assentiu e levantou-se por completo, tomando o caminho para a cozinha, enquanto o outro vinha logo atrás. Ele preparou tudo com calma e paciência, observando Seokjin degustar com ansiedade e sorrir assim que terminou.

— Não vai vomitar, vai? — Namjoon questionou ao vê-lo beber o suco com sede.

Ele negou com tranquilidade e suspirou ao depositar o copo na bancada. De fato, não colocou nada daquela mistura estranha para fora, mas bocejou sonolento, em seguida.

— Eh… obrigado — murmurou sem graça, coçando a cabeça.

— Não tem de quê — o loiro sorriu, recolheu os pratos e o colocou na lavadora. — Não vai dormir?

— Vou, vou sim — ele suspirou e levantou-se.

Os dois tomaram o caminho de volta para seus quartos e apagaram as luzes no processo. Mas, assim que deitou na cama quente, ouviu um toque na porta. Namjoon mirou a fresta enquanto Seokjin surgia ali novamente.

— Eu juro que ainda vamos nos divorciar amanhã, mas… será que eu posso dormir aqui? — pediu acanhado, nem parecia o homem cheio de opiniões e inflexível. — Eu prometo que não encosto em você, é só que…

— Pode — Namjoon o interrompeu.

Seokjin caminhou até a cama e deitou-se do outro lado. De fato, não encostou em Namjoon, pelo menos não conscientemente.

O loiro não voltou a dormir, apenas velou o sono tranquilo do outro, agarrado a si como um coala. Sua mente estava começando a se aquietar, e as coisas finalmente estavam fazendo sentido para ele. Sabia que era hora de tomar uma decisão.

No dia seguinte, quando Seokjin acordou, Namjoon já havia saído. Ele tinha ido à empresa resolver algumas questões e se encontrariam no tribunal.

Seu coração apertou-se e lágrimas caíram de seus olhos. Ele não desejava que as coisas tomassem aquele rumo, e ainda tinha esperança de que poderia consertar tudo, mesmo que aquela fosse sua última tentativa.

Quando finalmente chegou a hora, os dois entraram na sala e se sentaram em seus devidos lugares. Ambos eram advogados e não precisavam de ninguém para auxiliá-los. Fariam tudo de maneira civilizada e tranquila.

— Muito bem, senhores — disse o juiz. — Há alguma possibilidade de acordo entre as partes, sem necessidade de um divórcio?

Eles se encararam por um minuto que pareceram horas. Seus corações batiam frenéticos. Aquela era a última oportunidade de decidirem.

— Na verdade, meritíssimo, gostaria de adiar essa audiência — Namjoon pediu firme, sem desviar o olhar de Seokjin.

— Audiência adiada para daqui a três dias — o juiz bateu o martelo. — Próximo caso.

Os dois se levantaram e deixaram o gabinete. Retornando em silêncio para o apartamento, ambos tinham muito a dizer, mas precisavam organizar suas ideias.

Assim que chegaram no conforto, despiram as roupas pesadas de frio e foram tomar um banho rápido, cada um em seu quarto. Para só então retornarem à sala, meio acanhados e com os corações acelerados.

— Acho que precisamos conversar — Seokjin disse, sentando-se no sofá e suspirando.

— É, precisamos — Namjoon respirou fundo e dividiu o espaço com ele, sentando-se de lado para mirá-lo melhor. — Antes de tudo, quero pedir desculpas por ter gritado com você e por ter dito tantas coisas. Não vou dizer que não foi o que eu quis dizer, porque foi exatamente o que eu senti, mas, ainda assim, não deveria ter dito daquela forma.

— Está tudo bem, você teve seus motivos… eu entendo totalmente. Não foi legal o grito, mas, eu entendo que estava frustrado, eu também gritaria se fosse ao contrário.

— Não precisa ser compreensivo, apenas saiba que sinto muito.

Seokjin sorriu minimamente e cutucou as unhas, sentindo-se nervoso de repente.

— Nam, eu tive meus motivos para não te contar sobre a gravidez — Seokjin começou, voltando o olhar ao outro, que prestava atenção nele. — Dois anos atrás, eu descobri minha condição, sabe… sobre poder gerar um bebê e tudo mais. E foi justamente quando descobri que estava grávido pela primeira vez. Foi tudo muito assustador. Eu tinha acabado de descobrir sobre tudo, e quando finalmente aceitei o fato, tive um aborto espontâneo.

— E Jungkook te socorreu porque eu estava preso no tribunal — Namjoon disse, já sabendo desse fato.

Seokjin apenas confirmou. Sabia que Jungkook provavelmente havia contado ao outro recentemente, então não se importou com aquilo, apenas seguiu em frente.

— Eu menti pra você, e foi então que os segredos começaram a nos afastar… eu fui ficando recluso porque estava sofrendo pela perda do bebê e mentindo pra você, pois tive medo do que diria. E tudo só foi piorando, porque as mentiras não pararam por aí. Todos os exames que precisei fazer, o procedimento de coletagem e todas as outras coisas só me levaram a querer me afastar — seu suspiro foi doloroso. — Então, sete meses atrás, você insistiu para jantarmos fora, acho que já sabia que algo estranho estava acontecendo entre nós… e naquela noite, transamos, como sempre fazíamos. Na hora, eu não lembrei, mas, quando me dei conta, já era tarde demais pra pílula, e mais ainda pra esperar que eu não tivesse engravidado de novo. Algumas semanas depois, confirmei, e então fiquei com medo de perdê-lo novamente. Nosso casamento foi definhando pouco a pouco. Eu sei que a culpa é minha, mas eu não saberia agir de outra maneira, e sinto muito.

— Eu achei que não me amava mais… — Namjoon murmurou, depois de ouvir a versão completa de Jin. — Eu achei que estava sendo um péssimo marido, trabalhando demais, ou te dando atenção de menos. Mas então notei que era você quem estava se afastando — suspirou, cansado, e fechou os olhos.

O silêncio se estendeu, não era preciso dizer muito. Todas as informações estavam ali, bastavam processá-las e entender que ambos tinham seus motivos e, na verdade, aquilo não era culpa de ninguém.

— Deveria ter me contado — Namjoon murmurou minutos depois, agora mirando o rosto alheio e se aproximando com cuidado. — Será que eu posso?

As mãos dele de estenderam, e Seokjin entendeu perfeitamente o que ele queria: sentir o filho, se conectar com o bebê, como não pôde fazer no início.

Seokjin segurou as duas mãos grandes e as levou até sua barriga coberta pelo moletom. Mas Namjoon foi um pouco mais ousado, passando as mãos por debaixo da roupa, entrando em contato com a pele quente. O choque térmico fez Seokjin estremecer, mas sorrir. Aquilo era bom, não só pela sensação, mas por todo o sentimento que causava.

— É uma menina — Seokjin exclamou, apreciando o carinho que Namjoon deixava ali. — Desculpe por ter feito isso sem você.

— Tá tudo bem — Namjoon apenas negou com a cabeça e suspirou, encostando sua testa na dele.

— Você disse que não ficaria comigo por causa do bebê, mas eu não quero ficar sem você, Nam.

— Um filho não sustenta um casamento, Seokjin. Nós sim… — Namjoon murmurou com tranquilidade, aproximando seus lábios e, finalmente, deixando o beijo que tanto queria dar.

Aquele beijos demonstrava cuidado, carinho, companheirismo, admiração e, acima de tudo amor. Porque Namjoon jamais o amaria no escuro, mas isso não significava que não o amaria diante das luzes que agora iluminavam seus caminhos.

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