Notas iniciais
Sabendo disso... Enjoy!
23 de Fevereiro.
Hospital Psiquiátrico Saint Mary, Estados Unidos.
Estava a caminho de mais uma de minhas consultas psiquiátricas para com os pacientes de um manicômio qualquer. Sinceramente, essas minhas pesquisas já me cansavam. Só continuo fazendo isso pois quero conquistar um PhD decente.
Entrei na sala clara com várias enfermeiras andando por ali. Caminhei até a recepcionista.
-O que deseja? – perguntou ela.
-Bom dia, eu sou Gerard Way, estudante de psiquiatria. Vim observar alguns dos pacientes para fazer uma pesquisa... Se importa?
-Claro que não. – ela sorriu e destrancou a porta atrás de si.
A menina me guiou por vários corredores que continham quadrados de vidro nas portas, permitindo-me ver de longe o atual estado dos pacientes. Naturalmente, alguns olhavam de um lado para o outro, nervosamente, com medo de que algum tipo de espírito ou pessoa inexistente aparecesse novamente e o acusasse de algo injusto ou coisa parecida. Estes me entediam. Já havia visto outros parecidos em vários outros hospitais psiquiátricos. Porém, cada informação é valiosa, portanto, anoto o comportamento destes pacientes em meu caderno.
Vi alguns outros que, por estarem em um estágio um pouco mais avançado de loucura, estavam em um quarto acolchoado. Alguns olhavam fixamente para a parede, outros pareciam murmurar coisas sem sentido. A menina que me guiava abriu cuidadosamente uma das portas, sem que o paciente notasse, para que eu ouvisse o que ele gritava. Era algo do tipo “Dê-me! Dê-me a menina ou matarei-o, desgraçado!”.
Naturalmente, as pessoas ficariam chocadas ao ouvir esse tipo de coisa. Eu mesmo fiquei chocado das primeiras vezes. Porém, não me importo mais. Esse tipo de coisa não me toca mais o coração. É como ver um lindo quadro. Da primeira vez, demonstras interesse. Da segunda, já nem tanto. Da terceira, você passa despercebido pela obra de arte. Era exatamente assim que eu me sentia, trabalhando com diversos hospitais psiquiátricos: Sentia-me vendo uma mesma obra de arte diversas vezes, sem ficar chocado ou assustado com o que via.
-Será que, por acaso, você teria algum paciente em um caso extremo para que eu possa avaliá-lo?
-Bom... Sim... Mas ele é meio perigoso, se o senhor me entende.
-Não me importo. Já trabalhei com isso antes.
-Você que sabe... – ela me levou até um andar superior que, diferente dos outros, era um pouco menos iluminado. Nesse andar, havia várias portas, mas todas abertas e com os cômodos vazios. Apenas uma, a última do corredor, se mantia fechada.
-Espero que entenda que não poderei entrar. Um dos transtornos do paciente é TOC, transtorno obsessivo compulsivo. Precisamos manter tudo em pares em seu cômodo. Nada pode ser um trio ou um único objeto. Isso também se aplica ao número de pessoas presentes no mesmo cômodo que ele.
-Não, tudo bem, eu entendo perfeitamente.
Ela sorriu e abriu a porta, tomando o cuidado para não entrar no lugar.
Olhei em volta. O lugar era um pouco assustador. Havia duas camas (mesmo que apenas uma estivesse desarrumada), dois jarros de flores, duas cadeiras, duas janelas e assim vai. Tudo em dobro. Nem um único objeto em trio.
Em uma das cadeiras, havia uma figura sentada e acorrentada. O paciente tinha cabelos negros que escondiam seus olhos. Seu rosto estava direcionado para baixo. Sua pele era clara e era magro. Não magro do tipo “desnutrido”, mas magro o suficiente. Ao ouvir a porta se fechar, rapidamente, o homem levantou a cabeça. Seus olhos eram verdes e sem brilho. Obviamente, aquele quarto devia ter tirado todo o brilho de seus olhos e a cor de sua face.
-Quem é você? – disse ele, rispidamente.
-Meu nome é Gerard Way. Peço que perdoe minha intromissão. – falei, escolhendo as palavras com o maior cuidado do mundo. Quando se tratava de pessoas com doenças mentais, qualquer palavra poderia fazê-lo se matar ou matar o interlocutor.
Andei lentamente para o lado, onde vi, pregadas na parede, duas cadernetas com exatamente a mesma coisa escrita:
Paciente: Frank Anthony Thomas Jr. Iero
Idade: ?
Doenças: Transtorno Obsessivo Compulsivo em estágio avançado, Fobia Social caracterizada por medo de estar em cômodos cheios, Transtorno do pânico, Síndrome de Tourette leve.
Motivo de ter sido trazido: Assassinato de um menino de doze anos.
-Quer dizer que... Você matou um menino de doze anos. Algum motivo especial?
-As coisas não precisam de um motivo especial para acontecer. – respondeu ele com um sorriso sarcástico.
-Sábias palavras. – elogiei. Sabia que portadores de doenças mentais tinham a necessidade de se sentirem superiores, seja mental ou fisicamente.
Logo senti que, para poder fazer minhas anotações, teria que fazer o paciente sofrer um pouco. Não era a minha melhor opção, mas era necessário.
-Peço que me desculpe, mas terei de fazer uma pequena coisa.
-O quê? – perguntou ele, franzindo a testa. Tirei do bolso duas canetas. Até aí, nada demais. Porém, ao ver que eu tirei a terceira, ele começou a suar frio. Segurei levemente seu pulso, pois sabia que ele não podia fazer nada, já que estava acorrentado. Senti palpitações. Bem como eu esperava.
-O-o que est-tá faz-zendo exatam-mente? – perguntou ele, contendo a raiva em suas palavras.
Não respondi a sua pergunta. Levei a mão até seu peito. Seu coração batia descontrolado.
-T-tire a terc-ceira canet-ta... P-por f-favor...
Ainda não fiz nada. Sua cabeça começou a se movimentar levemente para o lado. Ele esperava que eu não percebesse, mas eu percebi.
-P-por fav-vor... – implorou ele. Ainda não fiz nada.
Ele soltou um grito de frustração. Já vi que tinha ido longe demais. Guardei a terceira longe de sua vista e ele soltou um suspiro de alívio, fechando os olhos para se acalmar.
-Peço que me desculpe. – sorri de lado. Subitamente, ele abriu os olhos e começou a encarar a janela. Franzi a testa. Não era um comportamento normal. Quer dizer, olhar pela janela era um comportamento normal, mas seu olhar não era distante ou obsessivo como a maioria dos pacientes. Estava mais para... Triste, ou desejoso.
-Está tudo bem? – perguntei, cautelosamente.
-Parece estar tudo bem? Toda a minha vida foi por água abaixo em questão de meses! Meses!
Mais uma vez, pessoas com vidas longe de hospitais psiquiátricos provavelmente ficariam chocadas em conseguir desenrolar uma conversa civilizada com um paciente. O que acontece é que elas esquecem de que, apesar de portadores de doenças mentais, eles continuam sendo seres humanos como nós que conseguem falar. É claro, dependendo do estado do paciente, será mais ou menos difícil dialogar sobre certos assuntos.
Pude sentir quase que imediatamente que Frank lutava contra seus transtornos, o que não era comum. Geralmente, os pacientes não se importavam com suas loucuras (a não ser com TOC) e não admitiam que qualquer um dissesse a eles que eram portadores de doenças mentais. Porém, Frank era diferente. Ele estava ciente de seus transtornos e, aparentemente, travava uma batalha consigo mesmo para não cair na loucura total.
Ele sabia que a loucura o levaria a morte.
-Quer me contar o que aconteceu?
-Digamos apenas que meus pais foram mortos por três tiros cada um. – foi daí que veio seu Transtorno Obsessivo Compulsivo. Este transtorno pode ser causado de várias formas, entre elas, algum evento marcante que envolvesse o, neste caso, número, ou, como no caso de Frank, um número maior ou menor que o número em questão.
-Sei... – assenti – Aonde isso ocorreu?
-Na rua, na hora do rush. – isso me ajudava a compreender sua fobia.
-Entendo... E depois?
-Depois, minha namorada terminou comigo.
-Você amava ela?
-Com todas as minhas forças...
-Ela era extrovertida?
-Muito. Ela começou a conversar demais com um colega de classe meu e acabaram virando amigos e... Um dia, eles dormiram juntos. – isso explica parcialmente sua fobia social.
-Você lembra do lugar onde terminaram?
-Uma cafeteria.
-Era um lugar cheio?
Ele fez que sim.
Isso explica totalmente sua fobia social. Lugares cheios o transmitiam uma sensação de perda.
Seu transtorno do pânico já estava explicado juntamente com o TOC. Meu caso estava encerrado por aqui.
Porém, aquele jovem realmente me intrigou. Por isso, me sentei no chão, na sua frente.
-Peço que me desculpe pela pergunta insensível mas... Por que você matou o menino?
-Ele me lembrava uma mistura dos meus pais com minha ex-namorada. Ele também estava no mesmo cômodo que eu. Ele era a... A terceira pessoa. – disse ele, com agonia na voz. Senti pena dele, o que também era incomum para mim.
-Entendo... Bom, acho melhor eu ir andando.
-Ei, obrigado.
-Pelo quê?
-Por me escutar. Você foi o único que fez isso. Por que fez isso?
-As coisas não precisam de um motivo especial para acontecer. – abri um sorrisinho enigmático. Na verdade, eu apenas me baseei em princípios básicos de psicologia. Quando uma pessoa sem doenças mentais possuem problemas, o primeiro pensamento delas é contar para alguém. Talvez este paciente não seja tão perigoso afinal de contas. Só precisa de um pouco de atenção.
-Você me lembra um pouco o meu pai... – comentou ele, distraidamente. Olhei-o com um olhar de dúvida – Mas eu não vou fazer nada com você. – disse ele, como se estivesse falando para si mesmo. Saí lentamente do quarto.
Desci as escadas, andando pelos mesmos corredores de onde eu tinha vindo, escrevendo tudo o que havia ocorrido no meu caderno. Agradeci timidamente à recepcionista, entrei no carro e fui embora.
Dentro do carro, comecei a refletir. Aquele havia sido o paciente mais intrigante que eu já tinha conhecido, com certeza. Comecei a pensar em suas palavras e, de alguma forma, meus pensamentos acabaram por parar em seus olhos, seus cabelos, sua boca...
Não, ele era só um paciente! Eu não podia pensar nele dessa forma! Era só uma ajudinha para a minha pesquisa!
Pena que só minha mente saiba disso. Meu coração não sabe a diferença entre um paciente e alguém que eu possa desejar.
Pela primeira vez na minha vida, deixei meu coração tomar o controle da situação. Virei o volante do carro, voltando mais uma vez para o hospital psiquiátrico. Menti para a recepcionista, dizendo que eu tinha deixado cair as minhas chaves de casa em algum lugar. Ela abriu a porta e me deixou entrar sozinho, pois aleguei que sabia onde tinha deixado cair. Corri até o andar superior e abri a porta que, por um milagre, estava destrancada.
-Você voltou... – ele abriu um sorriso infantil. Não era um sorriso sarcástico ou enigmático, como é de costume. De uma forma ou de outra, eu tinha ajudado um pouco na recuperação desse paciente.
-Sim... – foi tudo o que eu pude murmurar.
-O que veio fazer aqu... – silencei-o com um beijo.
Mais tarde eu provavelmente me arrependeria disso mas, naquela hora, apenas deixei meu coração tomar conta. O paciente nada fez, é claro, pois estava acorrentado, mas correspondeu meu beijo. Isso já foi uma surpresa. Quando nos separamos, ele me encarou.
-O que foi isso, afinal?
-Eu... Eu acho que estou na mesma situação que você...
-Como? – ele franziu a testa.
-Acho que também estou ficando louco...
-Por que diz isso?
-Eu... Eu me apaixonei por você.
Ele arqueou as sobrancelhas.
-Chegue mais perto, sim?
Cheguei alguns centímetros mais perto. Eu sabia que, nessa proximidade, minha vida ou minha morte estava nas mãos (mesmo que acorrentadas) dele. Fechei os olhos, me preparando para o pior. Porém, tudo o que senti, foram seus lábios nos meus.
-Eu... Eu... Não sei por que fiz isso... – confessou ele – Mas eu... Quero ficar com você.
Eu sabia que as palavras “Eu te amo” não sairíam de sua boca tão cedo. Sua decepção com o amor foi forte demais. Porém, aquilo já foi bom o suficiente para mim
-X-
Anos mais tarde...
Hoje era um dia ótimo. Frank finalmente sairía daquele hospital maldito. Eu e ele estávamos ansiosos.
Durante esses anos, eu acabei tratando dele pessoalmente, afinal, eu o conhecia melhor do que ninguém. Durante nossas sessões, nossas conversas e os remédios que eu o receitava foram o ajudando a manter o controle. Nós dois sabíamos que coisas como o TOC e a Síndrome de Tourette nunca iriam desaparecer por completo mas, pelo menos, conseguimos amenizar seus efeitos. Já a Síndrome do Pânico e sua fobia social foram curadas.
Esperei por Frank por uns dez minutos, até que vi-o saíndo do hospital, completamente feliz. Não era de se esperar, é claro.
Ele me abraçou com força.
-Whoah, é a primeira vez que você sai de lá e a primeira coisa que você quer fazer é me abraçar?
-Sim, algum problema?
-Não, imagina... – puxei seu rosto para perto do meu, selando nossos lábios. Após nos afastarmos, eu disse a ele:
-Melhor irmos andando, ainda temos que comemorar.
-Duas vezes? – disse ele, rindo.
-Duas vezes. – ri junto com ele.
-Gerard...
-Sim?
-Eu... Eu... – ele pareceu engolir em seco.
-O que foi, Frankie?
-Eu... Te... Amo. – disse ele, lentamente e baixinho.
Aquilo encheu meus olhos de lágrimas e tocou meu coração. Eu sabia que devia ter sido extremamente difícil para ele dizer isso. Simplesmente o abracei e beijei-o mais uma vez.
-Eu também te amo, meu pequeno lunático. Para sempre.
Notas finais
Não acho que foi uma das minhas melhores mas, mais uma vez, quando eu acho que está um lixo, as pessoas gostam, então nem vou comentar nada.
Well... Beijos.
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