Love Hurts!
36 Baby boop!
Notas iniciais
“You have so many relationships in this life;
Only one or two will last;
You go through all the pain and strife;
Then you turn your back and they’re gone so fast;
And they’re gone so fast;
Oh so hold on the ones who really care;
In the end they’ll be the only ones there;
When you get old and start losing your hair;
Can you tell me who will still care;
Can you tell me who still care, oh care....”
MMMBop
Hanson
Apartamento Connor e Sarah (sábado, 20/10 – 15:35 p.m)
Connor
Entro em nosso quarto, parando junto a cama, bandeja em mãos, indeciso se deveria ou não acordar Sarah.
Desde a morte do pai ela havia dormido muito pouco, preocupada em auxiliar a viúva nos trâmites legais para o enterro e posterior leitura do testamento (que se realizaria em Delaware, aonde residiam antes de vir para Chicago) e mesmo Benny tendo as ajudado, foi uma situação bastante extenuante para ambas.
Miss Goodwin ofereceu licença de alguns dias, mas declinou, alegando que retornar ao trabalho seria a melhor coisa no momento, no que concordo. Em parte. Mesmo ela não tendo convivido com o pai durante todos estes anos, não vivenciar o luto pode ser algo perigoso. Sei bem disto.
Durante toda a cerimônia no cemitério manteve-se calma, recebendo as condolências ao lado da atual família do pai. Havia sido tudo muito simples, conforme desejo de meu falecido sogro. Benny e eu providenciamos uma sepultura no Mount Olivet Cemetery e apesar da garoa fina, todos os nossos amigos se fizeram presentes. Até meu pai nos surpreendeu ao aparecer perto do final, prestando suas condolências e saindo tão discretamente quanto chegara.
Quando estávamos na metade da cerimônia, notei a presença de uma mulher em uma cadeira de rodas acompanhada de uma jovem. As duas ficaram o tempo inteiro distantes e não fosse a discreta aproximação delas ao término, quando já nos retirávamos, diria estarem visitando algum túmulo do lugar.
Na hora, a primeira coisa que me veio à mente foram as últimas palavras de meu falecido sogro ditas a mim em sigilo. De imediato ficara tenso e sob a desculpa de haver esquecido meu sobretudo, deixara minha esposa no carro e retornara a fim de verificar estar ou não enganado....
**** Flashback on ****
—Senhora Haywood? – chamo, me corrigindo logo em seguida – Digo, senhora Reese? – Sarah contara-me que a mãe deixara de usar o sobrenome do pai tão logo a separação legal fora assinada.
—Doutor Rhodes – responde, tocando a mão da garota que a acompanhava, fazendo com que parasse de empurrar sua cadeira de rodas.
—Sabe quem sou? — inquiro, enrugando o cenho.
—Connor Rhodes, filho de Cornélius, sobrinho de Frederick – enumera, me causando espanto – O considera como tio ainda? – inquere e confirmo.
—Sim, muito embora tenhamos perdido o contato a alguns anos – explico, mantendo meu olhar sobre ela – Como sabe...- paro, a ficha caindo, por assim dizer — Roberto lhe falou sobre nós — presumo.
—Não apenas falou como conseguiu fotos para mim. Estava com saudade de minhas meninas e louca para ver a carinha de meu neto — diz, sorrindo fraco.
—Não vou perguntar como ele conseguiu tais fotos, mas gostaria de lhe pedir que mantivesse distância de nós. Ao menos até que eu tenha chance de conversar com minha esposa a seu respeito — peço — Não me entenda mal, mas Sarah acaba de perder o pai quando estavam se reconectando e não acho esteja preparada para saber de seu regresso — argumento, recebendo mais um sorriso fraco.
—Meu caro genro, não sei se Bob teve tempo de lhe falar, mas não tenho a menor intenção de interagir com minhas filhas novamente. Nem com meu netinho, por mais que isto me doa — revela, me surpreendendo já que Bob dera-me a entender o contrário — Fiz uma escolha anos atrás. Errônea. A pior de toda minha vida e isto custará a mim manter distância das coisas mais preciosas que já tive — declara, inclinando-se levemente — Melhor ir andando. Estão a sua procura — avisa e me volto, vendo Jay e Will junto ao túmulo recém fechado — Se puder, vá me visitar e lhe explicarei minha real situação — pede e a encaro novamente, tristeza e dor evidentes em seu rosto pálido — Meu endereço — diz, acenando a jovem me entregar uma folha dobrada — Não precisa ligar antes. Estarei em casa. Não costumo sair salvo sob a proteção da noite. Hoje foi uma exceção. Tinha de me despedir de Bob — declara, enxugando uma lágrima discreta antes de girar a cadeira, empurrando-a — Até qualquer hora doutor Rhodes — despede-se sem me olhar, a garota auxiliando-a subir o declive acentuado.
Sigo-as com o olhar até entrarem na minivan discretamente estacionada sob uma das muitas árvores do lugar , aguardando o veículo partir para somente então ir ao encontro de meus amigos.
**** Flashback off *****
-Connor? — o chamado me desperta e pisco algumas vezes, sorrindo para minha esposa — Quantas horas? Eu dormir? Max, onde está? — bombardeia, sentando-se ainda sonolenta, esfregando os olhos.
—Dormiu pouco mais que duas horas, nosso menino está bem e é cedo – respondi, colocando a bandeja cuidadosamente sobre o colchão, sentando-me a seu lado — Sente-se melhor? — quero saber acariciando seu rosto.
—Sim — diz, espreguiçando-se graciosamente, e me pego admirando-a com ar de bobo — É para mim? — pergunta, apontando a bandeja.
—Achei que estaria com fome já que não comeu nada desde que chegamos do cemitério – digo, puxando o objeto para mais perto dela– Eu e as meninas comemos algo a pouco, antes de Jay, Claire e outros amigos chegarem. Estão na sala, com elas — conto, erguendo a tampa da bandeja — Fiz torradas francesas, salada de frutas, suco de limão com gengibre, pus alguns brioches que Jay trouxe e claro, café — enumero, vendo-a sorrir fraco.
—Que maridinho prendado arranjei!! — brinca, me dando um selinho – Adrianne deu notícias? — quer saber, tomando um pouco do café, suspirando — Como algo tão simples pode ser tão prazeroso!? — questiona e rio.
—Descobri que as coisas mais simples são, via de regra, as melhores e mais prazerosas — comento, ainda a admirando — Sua madrasta ligou avisando que tinha chegado bem e que só vai conseguir resolver tudo na segunda. Perguntou se sua irmã poderia ficar conosco até lá e concordei — conto.
Adrianne, umas das viúvas de meu falecido sogro (era estranho dizer isso!) saíra direto do cemitério para o aeroporto. Tinha resolvido algumas coisas por telefone, mas precisaria ir a Delaware não somente pela leitura do testamento, mas para resolver questões pessoais. Serena não quis ir junto e Sarah e eu prontamente nos oferecemos para hospedá-la. Minha esposa também havia-lhe entregue uma procuração (Benny providenciou) autorizando Adrianne dispor do que quer que o pai lhe tivesse deixado. Não queria receber nada. Estava irredutível quanto a isto.
—Tudo bem — sorri tranquila, aspirando o cheiro da refeição — Hummm! Que cheiro bom! — elogia, pegando os talheres e sorrio, satisfeito, ao vê-la devorando a refeição.
Amava cozinhar para Sarah pois mesmo sendo vegetariana assumida, não era enjoada nem recusava-se quando eu inovava a fim de não limitar nosso cardápio diário (sim, eu também havia reduzido bastante a ingestão de carne. Não retirara por completo, mas reduzira sensivelmente desde que ela e as meninas tinham vindo morar comigo)
—Humm!! Se continuar preparando refeições assim, vou rolar de tão gorda! — exclama, não me dando chance retrucar — Mas serei uma bola redonda e feliz! — acresce, me dando um beijo com frescor de limão.
—Queria poder colocar esse sabor em tudo que faço!! — digo, lambendo meus lábios — Pensando bem, melhor não ou teria uma fila que daria a dobra no quarteirão e sou egoísta demais pra dividir você com mais alguém da meninas e nosso menino! — assumo, roubando beijos seguidos, fazendo-a rir, a brincadeira ganhando contornos sérios quando envolve meu pescoço com os braços, me prendendo, aprofundando o contato, o limpar de garganta quebrando a magia do momento.
—Ham-ham!! Desculpem interromper, mas será que posso roubar minha cunhadinha um segundo? — Claire pergunta e sopro, rolando os olhos.
—Não! — respondo, tentando beijar Sarah novamente, ela afastando-me com delicadeza.
—Acho que vou querer um pouco mais de suco — pede e sopro outra vez — Não seja tão egoísta! — ralha baixinho.
—Ok — resmungo, recolhendo a bandeja, me levantando com relutância — Se veio encher a cabeça dela com bobagens, te esgano maninha! — ameaço propositadamente alto ao passar por Claire, ganhando um estirão de língua em resposta.
Sigo direto para a sala, aonde as meninas e Serena brincavam com Max sobre o tapete enquanto Kimberly, Jay e Will conversavam sentados junto a bancada da cozinha.
—Connor, quem era a mulher com quem estava falando lá no cemitério? — Jay pergunta, direto, Will estapeando sua nuca com força.
—Jay, você sabe aquela coisa sobre a qual conversávamos a pouco? A tal da discrição?? — Kim questiona, atirando um enfeite de mesa contra ele e rio.
—Tudo bem Kim. Eu pretendia falar com vocês mesmo — admito, pondo a louça dentro da pia, me voltando para eles, dando uma olhada rápida a fim de verificar se as meninas prestavam atenção a nós — Aquela era a mãe de Sarah — digo de uma vez, o espanto tomando-os.
—Kathy está em Chicago? Desde quando? — Kim é a primeira a se recuperar.
—Robert a trouxe, só não me perguntem o porquê de ter escondido essa informação de todos até o dia de sua morte — peço, erguendo as mãos, me corrigindo em seguida — Bem, quase todos já que penso sua esposa atual sabia sobre a presença dela — pondero -Tudo que sei é o que me disse pouco antes de morrer — digo — Avisou-me da presença dela e pediu que a mantivesse longe de Sarah. Nem mesmo o endereço tinha até hoje — revelo.
—Ela te deu o endereço? — Will pergunta.
— Sim e pediu que a procurasse assim que possível, para conversarmos. Quer explicar porque não procurou nem pediu a Bob que levasse Sarah até ela, e Jay, acho que você e Kim poderiam ir comigo porque, a julgar pelo pouco que me disse, ela se envolveu com gente perigosa — comento.
—Neste caso, poderíamos ir hoje. Agora — Kimberly sugere — Aproveitamos a presença da Claire e do Will, damos alguma desculpa e vamos falar com ela porque eu não vou conseguir dormir sem ter essa conversa — declara.
—Digo o mesmo, mas não dá para sair sem mais nem menos e todos sabemos o quanto Sarah é desconfiada — Jay comenta.
—Quanto a isso tenho a desculpa perfeita: preciso ir comprar umas coisas que estão faltando. Estava esperando apenas Sarah acordar para sair, caso estivesse melhor — explico.
—Resolvido — Jay decide, tencionando sair, Will o detendo.
—Acha mesmo uma boa idéia ir hoje? Ela acabou de enterrar o marido. Ex marido — corrige-se — Mesmo estando separados a tantos anos, o fato de talvez ter vindo com ele prova que tinham feito as pazes — observa.
—Pode até ser Will, mas neste caso concordo com Jay e Kim. Quanto mais cedo tiver essa conversa melhor. Assim saberei com o que estou lidando — argumento, sinalizando mudarmos de assunto ao ver Sarah e Claire se aproximarem.
—E aí, sente-se melhor? — Jay pergunta assim que ela para a meu lado.
—Sim — responde, me abraçando — Obrigada pelo apoio- agradece.
—Não por isso. Sabe que pode contar conosco sempre que precisar — Kim diz, sorrindo pequeno.
—E por falar em contar, Claire, se importariam em fazer companhia a Sarah e as meninas mais um pouco? Preciso ir ao mercado — aproveito a deixa.
—Claro — prontifica-se minha irmã e sorrio satisfeito.
—Tem de ser hoje amor? Não pode esperar? — ela protesta.
—Infelizmente não. Algumas coisas estão faltando, incluindo aquele chá milagroso que cura todas as dores do Max, nos deixando dormir! — lembro, provocando risos.
—Se é assim ..- dá de ombros, enrugando o nariz em uma careta graciosa — Tenta não demorar — pede.
—Ok — digo, deixando um beijo em seu rosto ao passar, indo buscar minha carteira e as chaves, retornando rapidamente.
—Connor, traz sorvete! — Marina pede, animada — E pipoca. E doce. E….
—E mais nada! — Sarah a corta, dedo em riste — Anda comendo doces demais, senhorita — ralha, me dando atenção — Traga algumas fraldas tamanho M. As pequenas estão começando ficar apertadas em Max — pede.
—Trarei. Quer mais alguma coisa? Algum creme ou shampoo? — pergunto, verificando se tinha tudo que iria precisar dentro da carteira (especialmente o endereço da senhora Reese).
—Shampoo e hidratante. Sabe quais gosto, não sabe? — pergunta e anuo com a cabeça — Serena, quer que te traga algo? Algum produto de uso pessoal, ou algo que goste de comer? — quer saber, a garota ficando vermelha como um pimentão quando a encaro.
—Não preciso de nada não — diz de maneira quase inaudível.
—Não fique acanhada meu bem. Pode ser que sua mãe demore e com nossos horários é sempre bom ter reserva de tudo em casa — Sarah aconselha e sorrio. Praticidade era algo bem típico dela — E não se preocupe com gastos — pede, a garota corando ainda mais.
—Gosta de sorvete? Doce? Chocolate? — quero saber, notando, pelo canto do olho, Jay e Kim aproximarem-se.
—Chocolate e jujubas são meus favoritos. Sorvete de morango ou creme — enumera, abaixando o olhar — E shampoo neutro — acresce.
—Trarei — aviso, me voltando para os amigos de Sarah, ela fazendo o mesmo.
—Sarah, temos de dar um pulo no distrito. Coisa rápida — Jay avisa.
—Ok. Não precisam voltar, se não quiserem. Estou bem — reitera, sorrindo para ambos.
—Volta para me levar em casa? — Claire pede, melosa, enlaçando seu braço ao do irmão de Will e arqueio a sobrancelha — Meu carro tá na revisão — justifica-se.
—Posso te levar quando voltar — ofereço.
—Se eu quisesse que Você me levasse, pediria! — tasca e abro a boca para protestar, Jay adiantando-se.
— Ok, essa é minha deixa! — exclama — Volto sim, se seu irmão não me operar enquanto descemos no elevador! — me provoca, fazendo aspas no ar e ergo um lado da boca em resposta.
—E eu pensando que já tinham superado a fase das ameaças!! — Will exclama, estapeando a nuca do irmão — Me dá carona. Nat ficou com meu carro porque o dela quebrou — pede, se voltando para nós — Connor, Sarah, se precisarem de algo basta ligar — prontifica-se.
—Obrigada Will — ela responde por nós dois.
—Melhor ir andando. Quanto mais cedo for, mais cedo volto — digo, caminhando para a porta juntamente com Sarah, eles nos acompanhando — Volto o mais rápido possível amor — aviso, lhe dando um selinho.
—Até mais Sarah, Claire, meninas — Kimberly despede-se, acenando para as elas, que acenando de volta.
—Até já — Jay despede-se, beijando minha irmã, Will o empurrando, propositadamente, porta afora
—Vaza Romeu!! — provoca, acenando a Claire e Sarah — Vou com vocês visitar a mãe de Sara — avisa quando paramos à espera do elevador — Fiquei curioso — justifica quando o olhamos.
—Ok — me limito dizer, entrando antes deles quando o mesmo para em nosso andar.
—Na volta te ajudamos com as compras — Will oferece.
—No seu lugar não aceitaria Connor. Já fiz compras com estes dois e garanto que Marina dá bem menos trabalho!! — Kim aconselha, rindo divertida.
—Qualquer coisa esqueço os dois em algum corredor!! — digo, novamente saindo do elevador antes que eles — Me sigam — peço, caminhando direto para um carro esporte estacionado a minha frente, parando de cenho enrugado quando tento destravá-lo e nada acontece — Mas o que…??? — nova tentativa, a minivan estacionada alguns metros depois dele destravando e me volto para o veículo.
—Esqueceu qual é o seu carro foi, meu filho??? — escuto Will perguntar, e rolo os olhos.
—Não — minto, bufando ao ouvi-los rirem — Os deixaria para trás...se tivesse velocidade para isso!! — resmungo, entrando no carro.
Depois que voltamos de nossa curta lua de mel, Sarah me convenceu que precisaríamos de uma minivan, mais adequada a uma família grande, como a nossa, e sugeriu vender o carro dela, mas optei vender o meu por ser um modelo esportivo onde cabem apenas duas pessoas. O dela era um utilitário e embora não fosse top de linha, seria bem mais útil caso decidíssemos fazer uma viagem de curta ou média distância. Ainda não havia me acostumado a mudança.
Retiro o papel com o endereço, digitando-o no gps para não precisar me preocupar em ficar lendo. Travo o percurso, exibindo o dedo do meio quando Will aciona a buzina acintosamente, me provocando.
Dou a partida, manobro, repetindo o gesto ao passar por eles, tomando a frente ao deixarmos a garagem. Trinta minutos depois, estaciono em frente a uma casa simples, logo no começo de Canarylle, aguardando-os fazerem o mesmo recostado ao veículo.
—Me corrijam se estiver enganado, mas não era aqui que moravam até bem pouco tempo? — interrogo assim que o trio se aproxima.
—Yep! Duas quadras abaixo, sendo mais preciso — Will específica — E sabe o que é mais engraçado? A senhora Reese sempre detestou o bairro! — relembra, tomando a dianteira em direção a entrada da casa.
—Pois eu gostei — murmuro, olhando em volta — Moraria aqui de boa! — exclamo, emparelhando com Kim no exato momento em que a mesma jovem que acompanhava a mãe de Sarah no cemitério abria a porta, atendendo o toque da campainha — Boa tarde, lembra de mim? — pergunto, ela acenando afirmativamente — Eu e meus amigos viemos falar com a senhora Reese. Ela os conhece. São amigos da Sarah. Será que ela pode nos receber? — inquiro.
—Um momento — pede, fechando a porta.
—Não parece que ela está meio que, se escondendo? — Will questiona, a resposta ficando perdida posto a jovem retornar, abrindo a porta e sinalizando que entrássemos — Definitivamente, ela está se escondendo!!- sussurra ao notarmos a jovem olhando em volta antes de fechá-la, nos conduzindo a um quarto nos fundos do lugar aonde minha sogra se encontrava. Não fazia a menor idéia de como era sua aparência na época em que morava no bairro, mas a julgar pela reação de meus amigos, deveria ser bem diferente de agora.
—Olá Kimberly, William, Jay — cumprimenta-os com um sorriso franco — Bom saber que minhas filhas contam com amigos fiéis — diz, se inclinando minimamente — Doutor Rhodes...Connor, posso chamá-lo assim? — pergunta e anuo com um gesto de cabeça — Fico feliz que tenha decidido vir ainda hoje. Sendo bastante honesta, não sei quanto tempo poderei permanecer na cidade — declara, nos fazendo, todos, enrugarmos o cenho.
—É tão grave assim? — pergunto antes que pudesse me controlar.
—Infelizmente sim — responde, me causando preocupação.
—Tem a ver com o tal sujeito com quem partiu, não tem? — Jay quer saber, encarando-a, sério.
—Sim, e se puderem sentar irei direto ao assunto — convida, indicando duas cadeiras próximas, a jovem entrando no quarto com uma terceira, Jay recusando quando avisa traria outra para ele — Helen, por favor, traga uma bandeja com café, água e meus remédios — pede, de maneira polida e me pego comparando o que havia escutado a seu respeito com o que via.
Sarah e as meninas mal falavam sobre a mãe. Quando o faziam, não percebia rancor em suas vozes. Apenas um misto de tristeza e saudade. Já seus amigos não eram tão condescendentes. De modo geral, era descrita como arrogante, prepotente e mesquinha, descrição essa que seus atos confirmavam. Também recebia elogios. Poucos. Segundo o pai de Will, era muito bonita e classuda. A mulher a nossa frente em nada lembrava tais adjetivos. Estava magra, abatida, os cabelos quase que totalmente brancos, sem viço assim como sua pele. Certos tipos de doenças causavam este estrago. Câncer era um deles.
—Senhora Reese, perdoe-me a curiosidade, mas qual o seu problema? — quero saber, frustrado pela jovem ter-lhe trazido somente os comprimidos, sem embalagem — De saúde, quero dizer — me apresso em corrigir temendo ser mal interpretado.
—Não tenho câncer ou qualquer doença degenerativa. Meu estado e aparência são devidos, primeiramente às muitas noites mal dormidas e um a pequeno acidente automobilístico do qual fui vítima alguns meses atrás — revela, entristecendo — Não corro risco de morte, mas não voltarei a andar outra vez. A lesão em minha coluna é irreversível — informa — Tudo que veem diante de seus olhos é fruto da má escolha que fiz e que custará bem mais do que essa limitação, que por mais dolorosa e incômoda que seja, fiz por merecer — declara, suspirando, tomando sua medicação antes de prosseguir — Não sei o que Sarah lhe contou sobre minha partida Connor, mas quero que saiba ter-me arrependido já nos primeiros dias — afirma, voltando-se para os três — Eu me arrependi, de coração, em tê-las abandonado, acreditem — implora, não lhes dando oportunidade retrucar — Mas então já era tarde demais! — exclama, suspirando mais uma vez — Entendam, mesmo não sendo cativa, não possuía recursos para voltar. Entreguei, na época, todo meu dinheiro nas mãos de Jacob. Cada centavo. Apenas a conta de Sarah foi poupada. Deixei minhas filhas a míngua, iludida pela promessa de prosperidade e felicidade acenada por ele — reconhece, enxugando uma lágrima — Jacob não era, nem de longe, o homem que dizia e fingia ser…
—Ele a espancou? — interrompi, revoltado.
—Nunca encostou um dedo sequer em mim — garante, me deixando confuso — Há outras maneiras de se aterrorizar uma pessoa meu rapaz. Bem mais eficientes — sorri fraco e sinto um calafrio percorrer minha espinha ante a revelação seguinte — O homem elegante e sofisticado escondia um ser frio, perverso, sem menor receio em ferir inocentes, se me entendem — insinua.
—Ameaçou Sarah e as meninas? — Kim questiona — Mas como se estavam do outro lado do planeta? — inquere ao vê-la confirma com um aceno.
—Organizações como a dele tem ramificações em diversos lugares, Kim. Inclusive aqui, em Chicago — é Jay quem responde.
—Sabe quem ele é? — minha sogra pergunta e o olhei, intrigado.
—Mais ou menos — assume, massageando o pescoço — Uns quatro meses depois que partiu, o FBI veio a cidade. Estavam investigando um tipo de cartel com negócios em várias partes do planeta que envolviam desde tráfico de drogas a humano. Mulheres e crianças em especial. Soube da investigação por Erin. Ela me procurou, preocupada, querendo saber o que eu sabia a respeito de seu namorado. Me contou como as coisas funcionavam e manifestou preocupação em relação a suas filhas, especialmente quando disse não saber muito sobre ele, nem mesmo qual aparência tinha — revela, encolhendo-se ao ser estapeado por Kim.
—Por que não me disse nada? — reclama.
—Porque sabia que iria surtar e principalmente porque era sigiloso. Erin se arriscou por estar preocupada, mas me pediu sigilo absoluto — justifica-se — Depois disso, ainda nos falamos algumas vezes, mas com o passar dos dias, a coisa caiu no esquecimento. Quando ela veio para o Natal perguntei como andava a investigação e falou que o caso fora passado para a CIA em conjunto com a Interpol. Foi somente aí que percebi o tamanho da coisa — reconhece — Tenho me mantido alerta, desde então, e Erin, dentro do possível, tem feito o mesmo — conta, se voltando para mim — Quando as levou para morar com você, mesmo estando com raiva, me senti mais tranquilo pois sabia que o acesso a elas ficaria mais restrito — me surpreende ao dizer.
—Quem é esse cara afinal? Um fantasma? — Will dá voz meu pensamento.
—Mais ou menos — minha sogra diz, deixando os ombros caírem — Jacob se blinda de todos os lados, de todas as formas possíveis. É ardiloso e extremamente desconfiado. Sou a prova disso — aponta a si mesma — Fiz a bobagem de ligar para Sarah no Natal passado e mesmo ele tendo escutado toda a conversa, me manteve isolada por dias — conta.
—Por que ligou? Por que voltou se me disse mais cedo não ter intenção de se reaproximar delas? — quero saber, tenso.
—Liguei porque estava sensibilizada por conta de quase ter morrido no acidente — revela — Estava me recuperando e senti o peso da distância, a falta que o carinho de minhas meninas me fazia — novo e profundo suspiro do qual leva alguns segundos para recuperar-se — E não voltei. Eu fugi! — diz e retenho o ar — A jovem que me acompanha, Helen, trabalha para a Interpol. Fui procurada por eles e pela CIA, alguns dias após o acidente. Eles me garantiram não o ter sido, que a ordem teria partido de Jacob, mas não deveria ser eu a morrer e sim o irmão dele. Para minha infelicidade, sai da festa na qual estávamos o acompanhando — relembra, perdendo-se por um segundo — Mesmo tendo conhecimento disto, Jacob não cancelou a ordem. Nikos morreu na hora. Eu fiquei ainda agonizando antes de os seguranças dele me resgatarem e levarem ao hospital. Na época, estranhei terem chego tão rápido ao local, mas jamais pensei que estavam nos seguindo para ter certeza de que ele não escaparia. Eu fui, como ele mesmo assumiu ao confrontá-lo, dano colateral — conta, amarga — Decidi aceitar a proposta feita pelas agências e desde então venho repassando dados e informações sobre o cartel, mas como falei, Jacob não confia plenamente em ninguém. Ele não descobriu o que estava fazendo ou estaria morta, mas em nossa última conversa revelou estar desconfiado de traição e lembrou que poderia chegar às minhas filhas com facilidade. Me apavorei. Quis desistir do acordo, mas não foi possível. Foi quando o destino interveio — lembra, sorrindo triste — Soube de um congresso na área de atuação de Bob e pedi a Helen me ajudar a descobrir se estaria presente e para minha sorte a resposta foi positiva. Até então não sabia o quão doente ele estava. Apenas quando conversamos, usando o telefone que me fora dado pela CIA, soube de sua doença. E ainda assim se dispôs me ajudar — nova pausa curta — Formulamos um plano simples e talvez por isso tenha dado certo — pondera — No dia e horas marcados, nos encontramos e ele conseguiu, com ajuda de Helen, me trazer para casa, porém não poderei permanecer na cidade por muito mais tempo e esta é uma das razões pela qual não pretendo encontrar minhas filhas. Além de não querer expô-las ao perigo desnecessariamente, as faria sofre com uma nova partida — justifica-se, suspirando — Partiremos em três dias, no máximo — anuncia — Estou mais aliviada agora que sei estarem bem, felizes e protegidas. Tudo que desejava era vê-las, de longe, e o fiz hoje cedo. Também consegui algumas fotos de meu netinho — indica quatro porta retratos sobre a cômoda — Minha outra missão era alertá-los sobre Jacob e seus homens, o que estou fazendo...
—Sabia que Connor me traria junto — Jay elucida, estalando os dedos.
—Bob contou que ficaram amigos — comenta — Peço que tenham cuidado e não menosprezem o cartel. Estão sendo investigados, muitas de suas pequenas operações, seus braços, já foram destruídos, mas o principal ainda está solto. Fiquem atentos. Se preciso revelem o que lhes contei a quem possa ajudar, como Erin, mas nunca se mostrem. Não deixem que saibam que vocês sabem — aconselha, me pegando de surpresa ao segurar minhas mãos — Connor, sei que Cornélius deve ter-lhe dito horrores a meu respeito e reconheço merecer cada um deles. Era uma pessoa horrível, hoje vejo. Mas minhas filhas, nenhuma delas, tem culpa de nada. Cuide delas por favor — pede com lágrimas nos olhos.
—Cuidarei — tranquilizo-a, sorrindo gentil.
Por mais dez minutos conversamos, a jovem, Helen, entregando a Jay e Kim pastas com informações que seriam úteis caso os homens de Jacob aparecessem. Logo nos despedimos, Kimberly indo para casa enquanto sigo para o mercado, Will e Jay cumprindo o prometido, para meu desespero.
A noite já caíra quando finalmente voltei para casa e nessa hora agradeci a companhia irritante dos dois patetas a meu lado para justificar a demora!!
……………………………………….
Apartamento Sarah e Connor (segunda, 14/1/19- 6:00 a.m)
Sarah
—Tudo bem, eu entendo. Obrigada por retornar — agradeço, desligando, me sentando na poltrona, desanimada.
Era a quinta babá que avisava não poder vir. As três primeiras, incluindo a que costumava nos atender, estavam de cama, acometidas pela virose que se abatia sobre toda Chicago desde antes do Natal. Emma e Marina haviam contraído logo no começo das férias de final de ano e por conta disso tivemos de cancelar a viagem que tínhamos programado. As duas se recuperaram com relativa rapidez. Max tivera apenas sintomas leves, graças a Deus e eu também me recuperei rápido. Serena, que ficava conosco sempre que Adrianne viajava (ela decidira manter a sociedade na loja por mais algum tempo visto que o pouco deixado a elas por meu pai fora suficiente apenas para quitar as dívidas que tinham com hospitais e outras despesas), escapara ilesa até agora, o que não tinha acontecido a meu marido.
Connor caíra de cama, literalmente, dois dias atrás. Ele até que resistiu bastante após ter contraído a virose, mas no final de semana foi vencido. Desde sábado tinha ondas constantes de febre alta, dores pelo corpo, nariz escorrendo e todo o pacote trazido pela doença.
Voltando as babás, as outras duas com as quais havia falado não estavam disponíveis… pelos próximos quatro dias, o que me traria um problema sério.
—Sarah, posso entrar? — Serena pergunta, batendo na porta do quarto.
—Pode — libero, sorrindo quando a vejo.
—Conseguiu a babá?- pergunta em tom baixo, evitando olhar em direção a cama.
Mesmo estando frequentando nossa casa com regularidade, ainda sentia-se envergonhada diante dele.
—Não. Nada até agora — respondo — Acho melhor ligar para Maggie avisando que não poderei ir — pondero, mordendo o lábio inferior. Seria um baque pois a equipe já estava bastante reduzida — Não vejo outra alternativa — lamento.
—Eu posso cuidar de tudo hoje — se prontifica e a olho, surpresa — Já trabalhei de babá algumas vezes e as meninas não dão trabalho nenhum — diz, olhando de esguelha em direção a meu marido — Quanto ao Connor, basta deixar anotado os horários dos remédios e o que devo fazer caso tenha febre. Já te vi usando o termômetro digital para medir a temperatura do Max e das meninas. Sei como usar — simplifica e sorrio.
—Agradeço meu bem, mas não acho que seja uma boa idéia — pondero — Cuidar de duas crianças, um bebê e um adulto não é tarefa fácil. Ainda mais o adulto estando doente — argumento.
—Uma criança Sarah — ouvimos, ambas olhando em direção a porta — Tenho dez anos e sei me cuidar sozinha — Emma afirma, vindo até nós — Posso ajudar Sersi a cuidar da Marina e do Max. Até do Connor posso ajudar cuidar — garante, segura e espremo os lábios para não rir — Você deixou comida pronta que vi, a casa não tá bagunçada, é só pôr o Max no quadrado ou no andajá e pronto. A Mama fica de olho nele enquanto Sersi e eu tomamos conta dela, do Connor e uma da outra — conclui, me olhando séria.
—Confia na gente mana. Somos capazes — Serena acresce, apoiando-se ao ombro de Emma, tão confiante quanto.
Mordo o lábio, olhando delas para Connor por um tempo impreciso, sobressaltando-me ante o alarme de meu celular. Desligo-o, suspirando, refletindo mais um pouco. Estava no limite do atraso. Precisava tomar uma decisão.
—Pode ir amor — a voz rouca e arrastada libera e me levanto, indo até ele — Pode ir. Estou melhor. Posso cuidar de mim e se precisar, ligo para o médico! — brinca, tossindo um pouco quando rir.
—Tem certeza amor? — pergunto, insegura, tocando sua testa e pescoço.
—Tenho. Vai lá. Caso me sinta mal ligo para Ethan ou Latham. Ou Ava — me provoca.
—Ligue para Bekker que vai ficar mais doente quando eu chegar! — ameaço, fazendo-o rir — Está bem, eu vou — decido, me voltando para as meninas ao escutar a comemoração — Mas se tiverem qualquer problema, por menor que seja, me liguem e volto correndo — condiciono.
—Pode deixar
—Ligamos sim — prometem juntas.
—Certo. Agora deixem me arrumar — peço, elas saindo felizes.
Sacudo a cabeça negativamente, indo ao banheiro após verificar a temperatura de Connor, com o termômetro dessa vez. Tomo um banho rápido, me troco, pego minha mochila, vejo meu marido uma vez mais ( ele adormecera enquanto me banhava), deixando um beijo rápido em seus lábios antes de sair.
Dou uma passada no quarto de nosso filho, sorrindo ao ver que dormia tranquilo. Na sala, me surpreendo ao encontrar Marina sentada no sofá, comportada, tomando seu café da manhã.
—Bom dia meu anjo — saúdo, beijando o topo de sua cabeça ao passar.
—Preparamos torradas, ovos com bacon, temos pão, queijo suco e fatiamos o bolo. Também fizemos café — Serena enumera enquanto Emma prepara uma bandeja.
—Se é para o Connor, não precisa agora. Leve depois — aviso, me servindo de café, ovos, torrada e bolo, comendo em silêncio, elas fazendo o mesmo — Deixei os horários e dosagens de medicamentos que Connor precisa tomar. Está preso ao espelho na cômoda — aviso tão logo terminamos a refeição — Caso tenha febre, a dosagem do antipirético está anotada lá também. Emma, sabe onde os telefones de emergência estão anotados, mas a primeira pessoa para quem devem ligar caso algo dê errado, sou eu — determino, me levantando — Não hesitem ligar. Não deixem Max muito tempo no andajá, melhor no quadrado e se forem deixar fora dele, lembrem de ficar sempre de olho. Portas e janelas fechadas, não atendam ninguém que não tenha sido anunciado pela portaria — oriento, já a porta, respirando fundo — Vou ligar sempre que puder para saber como estão — alerto — Prometam que vão ligar caso algo dê errado — imploro.
—Nada vai dar errado Sarah. Vai lá — Serena garante, segura, Emma sorrindo a seu lado.
—Certo — digo, sorrindo sem convicção — Certo. Até logo mais — me despeço, girando nos calcanhares, caminhando apressada , sem olhar para trás ou me arrependeria, rezando para tudo dar certo — Estão em casa, seguras. Ninguém entra sem ser anunciado, Emma já me provou mais de uma vez ser responsável...Que pode dar errado? — me pergunto, acenando a elas antes de as portas do elevador fecharem.
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Quatro horas e meia depois
Narrador
—Sem pânico. A gente consegue consertar isso! — Emma declara, fazendo cara de nojo ao ver o molho pingando do balcão para o chão, escorrendo pelo piso da cozinha — Ou talvez não!
—Agora que vamos ligar pra Sarah? — Marina pergunta, batendo palmas, partículas de farinha voando pelo ambiente.
—Não vamos ligar para ela Marina. Não por causa disso! — Serena diz, apontando a bagunça e sujeira espalhada pela sala e cozinha — Juro que se soubesse como fazer slime era nojento, não teria deixado!! — admite, fazendo careta ao olhar o bebê no andajá, a mistura colorida de cola, amido, marshmallows, tinta guache entre outros, espalhada por todo corpinho, unindo-se aos restos de molho sob os pezinhos dele, formando um grude.
—Desculpa ter esquecido de avisar que tinha posto a lasanha no microondas. Quis ajudar e acabei atrapalhando mais! — Emma lamenta-se, suspirando.
—Ao menos não atrasamos a medicação do Connor — Serena comemora, respirando fundo — Ok, vamos nos organizar, limpar essa bagunça toda e depois vemos algo para comer. Modéstia a parte, me viro bem na cozinha — diz a garota, beijando um ombro, fazendo as outras duas rirem — Vamos fazer assim: primeiro, damos um banho nesses dois, preparamos um lanche reforçado, pomos eles no tapete e ligamos a televisão. Feito isso, nós duas limpamos essa bagunça toda e depois cuidamos do almoço. O que acha? — se volta para Emma.
—Acho um bom plano — diz a garotinha, erguendo a mão no ar — Vamos nessa?- convida.
—Vamos! — a adolescente anui, tocando a mão da outra — Venha aqui rapazinho. Vamos tirar esse grude de você!! — exclama, pegando o bebê no colo.
—Vem Marina, hora do banho — Emma chama, segurando a mão da irmã menor, acompanhando Serena ao quarto que ocupavam.
No banheiro, as garotas banham os menores, trocando-os, aproveitando para arrumar o quarto. A seguir, levam-nos de volta a sala, Marina sentando-se sobre o tapete enquanto Max é posto dentro do cercadinho. Após prepararem lanche para ambos, oferecer uma grande quantidade de brinquedos, ligar a televisão, Emma e Serena se preparam para limpar a bagunça feita pelos pequenas anteriormente.
—Prepara tudo que vou dar uma olhada no Connor antes de começar — Serena pede, indo ao quarto, descobrindo que o cirurgião estava febril.
Seguindo as instruções deixadas por Sarah, oferece a ele o medicamento, cobrindo-o e deixando água ao alcance. Retorna a sala, encontrando Emma já na limpeza, Marina ajudando-a.
—Ela insistiu em ajudar e quando Mama enfia uma coisa na cabeça, ninguém tira! — justifica — Além do mais, três pares de mãos trabalham mais rápido do que duas — argumenta.
—Verdade! — anui a jovem, pegando vassoura e esfregão — Mãos a obra! — convoca, estancando ao pedido de Marina.
—Espera. Tá faltando só uma coisinha — diz a menina, correndo até a estante, usando o remoto para selecionar o canal musical, escolhendo uma trilha sonora — Agora sim! — exclama aos primeiros acordes.
—Põe o som baixinho pra não incomodar o Connor — Emma pede, a menina obedecendo — Yes! Limpar com música é bem mais divertido! — comemora, dançando enquanto varre, Serena e Marina imitando-a.
Na hora e meia seguinte, entre danças e cantorias, sempre em tom moderado, limpam tudo, sala, cozinha e varanda (um pouco tinha sido levado para lá pelo vento), avaliando, ao final, orgulhosas, o resultado de seu trabalho.
—Agora vamos preparar algo para comer — Serena diz, esfregando as mãos — Marina, dá uma olhada no Connor por favor, enquanto esquento a mamadeira do …- cala-se, olhando em volta, assustada — Cadê o Max? — pergunta, olhando as meninas.
—Ele estava no cercadinho da última vez que o vi — Emma diz, começando a procurar o menino.
—Como ele saiu daqui? — questiona a adolescente, franzindo o cenho, procurando brechas na tela do cercado.
—Max não tá em nenhum dos quartos — Emma retorna, aflita, indo em direção a varanda.
—Aí não está ou o estaríamos vendo — Serena a detém — E como ele saiu do cercadinho afinal? — questiona, respondendo a si mesma — Isso não importa. Temos de encontrá-lo. Vou olhar a área enquanto vocês procuram por aqui. De repente ele deitou em algum cantinho e adormeceu — pondera, fazendo menção sair, estancando ao ouvir a voz de Marina.
—Vocês vão ficar bravas comigo?! — questiona a pequena, fazendo cara de choro, apontando a porta do apartamento.
—Marina, o que você fez? — Emma pergunta, olhando naquela direção.
—Eu fui levar o lixo lá fora e acho que esqueci de trancar quando entrei e o Max tava tão tristinho no cercado que fiquei com dó e deixei ele sair só um pouqui ….
Antes que a menina terminasse de falar, Emma e Serena já corriam para fora do apartamento, olhando a volta.
—Eu vou para a esquerda e você para a direita. Marina, fica aqui na porta. Não sai daqui — ordena, correndo para o lado esquerdo, Emma para o direito, ambas indo até o final do corredor, retornando sem o bebê — Nada? — pergunta quando se encontram em frente a porta.
—Nada — confirma, apertando as mãos — Talvez devamos ligar para Sarah — pondera.
—E dizer o que? Que deixamos o filho dela sair porta afora sozinho? — inquere a jovem, abrindo os braços exasperada.
—Vocês o que? — a voz feminina chama atenção do trio fazendo-as se voltar — O que aconteceu ao Max? — Lívia pergunta, encarando-as, seu namorado, Scoth e dois rapazes parando ao lado dela.
—É que...nós nos distraímos e….- Serena começa, Marina a interrompendo.
—A culpa é toda minha!! — declara, fungando — Ele tava tristinho, eu tirei ele e esqueci a porta aberta quando vim jogar o lixo e agora não sabemos onde ele tá e o Connor tá doente e vai ficar bravo comigo e Sarah também!! — culpa-se, começando a chorar.
—Hei, venha aqui pequenina — Scoth agacha-se tomando-a nos braços, acalentando-a carinhosamente.
—Alguém me conta o que aconteceu, por favor! — Lívia pede, Emma e Serena revezando-se em contar tudo que acontecera algumas horas após Sarah haver saído para o trabalho — Certo. Em primeiro lugar, Marina meu anjo, não se culpe. Qualquer um poderia ter esquecido a porta aberta. Eu fiz isso uma dezena de vezes — diz, afagando os cabelos da garota — Em segundo lugar, para onde um bebê de sete meses poderia ir? — questiona, o elevador parando no andar, abrindo e fechando as portas, seguindo seu trajeto vertical — Scoth…
—É normal ele fazer isso? — um dos rapazes pergunta.
—E se ele engatinhou até o elevador? — Emma supõe.
—Temos de procurar em todos os andares! — Serena e o outro rapaz dizem juntos, movendo-se antes que alguém pudesse impedir.
—Esperem — Scoth ordena, fazendo-os estancar — Melhor nos organizarmos. A Marina vai comigo. Vamos descer até o mezanino, só por precaução. Emma você vai com a Lívia. Desçam três andares acima e vocês três, subam até o salão no último andar- determina.
—E quem fica com o Connor? Ele tá doente, não pode ficar sozinho — Emma lembra, olhando os adultos.
—O ideal seria todos procurarmos, assim vai mais rápido — argumenta o rapaz.
—Esperem, tive uma idéia! — Serena pede, correndo para dentro do apartamento, retornando segundos depois com a babá eletrônica e seu celular — Coloquei perto da cama do Connor. Tá no último volume, se ele suspirar ouvirei. Estou levando meu celular para ligar caso isso aconteça — explica, fechando a porta atrás de si.
—Resolvido. Vamos nessa — Lívia convida, batendo palmas, o grupo se dividindo conforme Scoth sugerira.
—A propósito, meu nome é Dylan. Temos aula de Química juntos — apresenta-se o garoto loiro.
—É , eu sei — Serena diz, encabulada, apressando o passo.
—Oi, eu sou Sidney e já vi que tô sobrando aqui! — o outro jovem exclama, seguindo-os.
Logo a busca pelo pequeno se espalha entre os andares, o grupo tentando não chamar muita atenção. Scoth, após certificar-se que o bebê não estava no mezanino, decide subir andar por andar, levando Marina consigo, até encontrar a namorada e Emma, as duas informando também não terem encontrado o menino.
—Vamos continuar subindo até encontrarmos os outros. Max não pode ter ido longe. Aqui é um prédio e ele só um bebê. Para onde poderia ir?!? — Lívia questiona enquanto entram no elevador novamente, apertando o andar seguinte ao que estavam.
—Vocês já assistiram Ninguém segura esse bebê!?! — Emma pergunta de repente, ambos acenando afirmativamente — Se o Max fosse nascido na época em que foi produzido, seria ele a estrela do filme!! — exclama, enrugando o nariz ao fazer careta.
Enquanto isso, Serena, Dylan e Sidney chegam ao último andar, aonde, além de apartamentos, localiza-se o segundo salão de festa do condomínio.
—Se ele não estiver aqui, juro que vou ter uma síncope! — garante a jovem, roendo as unhas em aflição.
—Vai estar — Dylan diz, segurando sua mão.
—Tem que estar. não tem mais para onde ele ir. Aliás, como é que esse moleque conseguiu o feito de não ser visto por ninguém? — Sidney questiona enquanto entram no salão, estancando e fazendo os dois estancar repentinamente, quase os derrubando.
—Aii!! — exclamam — O que foi?? — Dylan pergunta, olhando na direção indicada pelo irmão.
—Graças a Deus!! — Serena agradece, correndo ao encontro do casal que brincava com o bebê — Max!! Graças a Deus!! — repete, tomando-o nos braços.
—Então é mesmo o menino Rhodes! — o senhor comenta, sorridente.
—Falei para você que era, Donnie — a mulher diz, dando dois tapinhas na mão dele.
—Senhor e senhora Nichols, muito obrigada — Serena agradece, quase chorando — Uma das meninas esqueceu a porta aberta enquanto estava limpando a casa e esse rapazinho resolveu dar uma volta. Estava quase enfartando já! — admite, o casal rindo divertido.
—Bem que desconfiei se tratar de uma saída não autorizada — Nichols brinca — O vimos no elevador quando parou em nosso andar. Amanda o reconheceu, mas fiquei na dúvida. Não o levamos para casa de imediato porque tínhamos marcado com a organizadora aqui e não dava para perder o horário, mas já havia até enviado mensagem ao Connor porque vi quando a Sarah saiu — revela.
—Ah, o senhor enviou. Que bom. Ele estava preocupado. Todos estávamos — a jovem diz, sorrindo amarelo — Vou levar esse danadinho para casa. Mais uma vez obrigada — reitera — Dá tchau Max — segura a mão do menino, acenando ao casal enquanto se afasta com os dois rapazes.
—Se souber a senha do celular dele, consigo apagar a mensagem — Dylan oferece.
—Eu mesma farei isso, mas obrigada por se oferece — Serena diz, sorrindo pequeno, sobressaltando-se ao dar de cara com Emma e os demais quando as portas do elevador se abrem.
—Max!! — as meninas exclamam, aliviadas.
—Como ele veio parar aqui? — Lívia quer saber.
—Os Nichols o encontraram no elevador — Serena revela, entrando no cubículo — Obrigada pela ajuda — agradece, sorrindo sem graça.
—Por nada — Lívia diz, segurando a mão do menino — E quanto a você, baby boo, vê se não apronta . Quase nos matou de susto — ralha, prendendo-a entre seus lábios, fazendo-o rir — Precisam de ajuda em mais alguma coisa? Para contar ao Connor, por exemplo — prontifica-se quando param no andar delas, retendo o elevador.
—Não, não. Tá tranquilo. Daqui pra frente cuidamos de tudo, não é meninas? — Serena declina, Emma e Marina anuindo com gestos de cabeça.
—Neste caso vamos indo — Scoth avisa — Um conselho: não mintam ou escondam o que houve dos pais. É bem pior saber por terceiros — aconselha, piscando para elas antes de as portas fecharem.
=A gente vai contar? — Marina pergunta, encarando a adolescente.
—Vamos sim, mas quando Sarah chegar do plantão. Não tem porque deixá-la preocupada no trabalho — argumenta a jovem — Agora vamos entrar. Ainda temos que preparar algo para comer — lembra, abrindo a porta, entrando com as meninas, parando, surpresa, ao se deparar com o homem de pé em meio a sala — Ai, merda! — solta, fazendo-o arquear a sobrancelha — Quero dizer, oi…. senhor Rhodes!!
……………………………..
Cornélius Rhodes (13:55 p.m)
—Bom que resolveram aparecer — ironizo, olhando as três garotas — Poderiam me explicar por que saíram com meu neto, deixando Connor sozinho? — questiono, não esperando resposta — Ainda por cima deixaram a porta destrancada — acresço, a adolescente irmã de minha nora empalidecendo de imediato.
—Eu fechei a porta quando sai. Tenho certeza disso — afirma, olhando em volta — Connor…
—Meu filho está em seu quarto e a julgar pelo estado que se encontra não deve ter-se levantado, se é o que pretendia insinuar — a corto, levemente irritado — Vai me dizer o que houve de verdade, ou tentar ludibriar-me? Já aviso que não engulo qualquer lorota — alerto, a pequena Marina adiantando-se com lágrimas nos olhos.
—Eu deixei a porta aberta e Max saiu, por isso a gente não tava aqui. Fomos caçar ele pelo prédio todo! — revela, e abro a boca, surpreso — Fica bravo comigo não vô! — implora, correndo até mim, abraçando-me — Desculpa eu, vai!!
—A culpa é minha senhor Rhodes — a jovem, Serena, se não me engano, acusa-se — Connor está de cama, a Sarah não conseguia babá e eu falei pra ela que tomaria conta de tudo, mas fiz besteira — diz, abaixando a vista — Me descuidei e Max saiu sem que visse. Por sorte um casal que mora no andar de cima o encontrou — revela.
—E como raios ele foi parar no andar de cima? — questiono, o toque do celular dela atrasando a resposta.
—É a Sarah — diz, mordendo o lábio, me encarando enquanto atende — Oi Sarah… tá tudo bem sim. Agora tá tudo bem — diz, suspirando — É que … queimei a lasanha e tive de preparar outra coisa pra gente comer — conta e enrugo o cenho — Pois é… Connor tá bem. Teve um pouco de febre. Dei o remédio e melhorou um pouco…. to de olho nele sim...Max tá aqui, no meu colo, Marina e Emma estão me ajudando com o almoço — enumera — Tá certo. … tá...faço sim. Até mais tarde — despede-se, desligando com um suspiro — Sarah vai se atrasar um pouco. A diretora pediu para ela estender o turno em mais duas horas — conta, um gemido sofrido ecoando de algum canto.
—Que raios é isso? — pergunto, percebendo que o gemido saia da babá eletrônica pendurada em sua cintura.
—Connor!!! — exclama, praticamente correndo em direção aos quartos, as duas meninas logo atrás dela.
Suspiro alto, seguindo-as após trancar a porta. Quando chego ao quarto, encontro-a de pé ao lado da cama aonde meu filho se encontrava.
—O que há? — pergunto, fazendo-a voltar-se.
—Ele tá com febre alta. Muito alta — mostra-me o visor do termômetro — Quase quarenta!! — exclama, assustada — Não sei o que fazer. Tenho medo de aumentar a dose da medicação — assume.
—Liga pra Sarah, Sersi — a pequena sugere, brincando com meu neto, que fora posto na segurança do berço.
—E acabei de dizer que estava tudo bem! — suspira a jovem, sacando o celular, desanimada.
—Ok, sem drama — digo, assustando-a quando seguro sua mão, evitando a ligação — Minha nora não precisa se arriscar correndo para casa quando estou aqui — decreto, despindo meu terno, dobrando as mangas da camisa social — Encha a banheira com água ao natural e vocês mocinhas, troquem a roupa de cama quando eu o levar para o banheiro — ordeno, apontando uma a uma — Depois de trocarem, separem uma roupa para ele. Algo confortável e não muito quente — recomendo — Depois que encher a banheira, veja meu neto. Acho que precisa trocar a fralda — aconselho, indo até Connor, puxando as cobertas que, conforme presumi, estavam molhadas de suor, ajudando-o levantar — O que está esperando mocinha? — inquiro, a jovem saindo da inércia num piscar de olhos, correndo ao banheiro enquanto as menores já desforravam a cama.
—Pai?? — Connor pergunta de forma torpe — Não quero ir com você! Não vou deixar o Zach sozinho! — delira, relembrando o incidente de sua prisão na juventude.
—E não vai. Seu amigo será levado em pouco — digo, o conduzindo ao banheiro.
—Tá quase cheia — a garota avisa, pondo-se de lado.
—Ótimo. Cuido do resto. Ajuda as outras com a cama e não esqueça meu neto — cobro, ela sendo mais rápida desta feita — Agora somos nós! — exclamo, fazendo Connor sentar-se na borda da banheira, pondo a mão sobre sua fronte. Suspiro, fechando a água, despi-lo do pijama completamente molhado, fazendo com que entrasse na banheira com cuidado — Qualquer semelhança não é mera coincidência!! — sopro, relembrando automaticamente todas as vezes em que fiz este mesmo procedimento quando meu filho era criança — Como nos velhos tempos, não é mesmo? — sussurro, usando um pote vazio que encontro para banhá-lo.
—Por que quer me derrubar pai? Eu nunca tentei te derrubar!! Por que não é como minha mãe!? vai embora! Não quero você aqui. Cadê a Sarah!? — Connor delira, tentando me afastar, mas o sustento com firmeza, conseguindo aquietá-lo após um tempo.
Durante aproximadamente vinte minutos o mantenho dentro d’água, banhando-o constantemente. Ao sentir a temperatura baixar sensivelmente, faço-o sair, secando-o bem, vestindo um robe atoalhado antes de o levar de voltar para o quarto, sorrindo ao encontrar os lençóis trocados.
—Tá tudo novo vô! — a pequena avisa, sorridente.
—Agora vocês duas. Tomem um banho, troquem de roupa e me esperem na sala — ordeno, franzindo o cenho — Onde está meu neto?
—Serena levou ele para banhar e comer — a maior avisa, segurando a irmã pela mão — Vamos Marina. Vamos deixar seu Cornélius vestir o Connor — chama, deixando o quarto.
—Parece que conseguiu uma família numerosa e que o ama — murmuro, sentando-o na cama, enxugando-o com vigor antes de usar o termômetro — Bom — comemoro ao ver que sua temperatura abaixara — Isso sempre funcionou — digo, secando seu cabelo, dorso e braços, vestindo a camisa do pijama, terminando de enxugá-lo e vesti-lo.
A seguir, vejo a dosagem anotada por minha nora, separando os comprimidos, fazendo Connor tomá-los, deitando-o em seguida. Ligo o ar em temperatura mediana, cobrindo-o parcialmente antes de sair do quarto.
Na sala, encontro meu neto dentro do cercado enquanto as meninas se encontravam na cozinha.
—Vamos fazer o almoço — a jovem diz, corando quando a encaro.
—Minha querida, qual seu nome? — pergunto, indo até elas após afagar meu neto.
—Serena Haywood — apresenta-se, sorrindo timidamente.
—Marina e … — aponto as pequenas.
—Emma — elucida a cópia em tamanho menor de minha nora e sorrio.
—Serena, Marina e Emma, deixem-me cuidar de mais este probleminha — peço, afastando-as com delicadeza.
—Vai cozinhar?!? — admira-se Serena, olhando-me.
—Minha querida, saiba que os Rhodes tem muito talento com panelas e temperos — me gabo.
—Isso é verdade porque o Connor cozinha mil vezes melhor do que a Sarah! — Emma declara e rio — Mas queremos ajudar — oferece.
—E vou precisar já que não sei aonde sua irmã guarda as coisas por aqui — pondero.
—É só dizer o que precisa que pegamos — diz, ligeira.
—Panelas, mantimentos, temperos… — enumero, Serena e Emma movendo-se rápido, providenciando tudo que pedia.
—Que vai fazer? — quer saber a pequena Marina.
—Para vocês, um macarrão a Carbonara daqui! — aperto o lóbulo da orelha dela, fazendo-a rir gostoso — Para meu filho um creme de legumes. Torradas com creme de queijo e para meu netinho, uma sopa com pedacinhos de legumes — enumero, vendo-as sorrir — Se querem ajudar, descasquem as verduras enquanto me contam mais detalhadamente o que aconteceu hoje — sugiro, dando início ao preparo das refeições, as três ajudando-me em cada passo, contando-me as desventuras e peraltices de meu neto e da pequena Marina.
Quando termino de preparar as refeições, sirvo-as, trago meu neto para a cadeirinha, servindo-lhe a sopa, que come com gosto. A seguir, deixo-as limpando a cozinha (ao que parece é hábito ajudarem no serviço de casa), levando a refeição a Connor, sentindo-me aliviado por não estar mais febril, embora duvide estar completamente consciente de minha presença ali ( a febre cedeu, mas estava um pouco alheio a tudo em sua volta).
Como havia suado muito mais uma vez, o ajudo trocar de roupa mais uma vez, trocando também alguns lençóis, o acomodando antes de retornar a sala, encontrando as garotas jogando na televisão. Passo por elas, indo lavar o prato e talher de Connor. Ao terminar, apoio as mãos a bancada, observando-as um tempo impreciso, refletindo se deveria permanecer até minha nora chegar ou ir embora, a primeira opção vencendo ao escutar os gritinhos de meu neto.
—Quando terei outra chance de ficar com meu neto? — murmuro, indo ao encontro delas e dele, sentando-me sobre o tapete.
Pego meu neto no colo, brincando com ele enquanto elas continuam jogando mais algum tempo, a pequena Marina cansando-se, vindo sentar-se a meu lado. Logo estou fazendo algo que a muito não fazia: brincando.
Por mais de duas horas, interagi com as meninas e meu neto, intercalando com idas ao quarto verificar se meu filho estava bem. Apenas quando anoitece paramos, elas indo banhar-se e a meu neto enquanto preparo a refeição noturna, me incluindo e a minha nora.
Deixo-as tomando a refeição e vou novamente até Connor, ficando aliviado ao verificar estar sem febre. Como dormia, prefiro não o acordar, deixando para minha nora a tarefa de o alimentar.
Retorno a sala, tomando a refeição enquanto Serena oferece a meu neto a mamadeira. Novamente as ajudo arrumar a cozinha, indo sentar-nos todos juntos no sofá, assistindo a um desenho. Logo meu neto adormece. Levo-o ao quarto, pondo- cuidadosamente no berço. Apoio os braços na grade, observando-o durante um longo tempo, deixando um beijo em sua testa antes de sair, ligando o ar e a babá eletrônica, deixando a porta entreaberta.
Na sala, sento-me com as meninas outra vez, vendo outro desenho. Quando este está na metade, minha nora chega, surpreendendo-se ao me vê.
—Boa noite Sarah- cumprimento — Desculpe-me a invasão. Não foi intencional ou planejado, acredite — adianto-me em explicar, vestindo meu terno — As meninas e eu jantamos algum tempo atrás, Connor ainda não. Está dormindo. Não teve febre após a hora em que ligou, Meu neto dormiu a pouco — digo, parando de frente para ela — Quero me desculpar com você pela forma como a tratei na última vez em que nos encontramos. Estava enganado a seu respeito — reconheço, vendo-a abrir a boca, surpresa — Suas irmãs a aguardavam para conversar. Se me permite um conselho, ouça-as com calma e não se zangue com elas. Dê um crédito pelo esforço e dedicação — aconselho, piscando para as meninas — Diga a Connor que ligarei outro dia. Ou ele pode me ligar, se quiser — peço, pegando meu casaco, passando por ela a caminho da porta estancando — Tomei a liberdade de pegar um foto de meu neto, que aliás, é um lindo garoto. Parabéns — elogio, saindo sem esperar resposta, uma mistura de sentimentos reverberando em meu ser após essa tarde tão...atípica.
“....Plant a seed, plant a flower, plant a rose;
You can plant any one of those;
Keep planting to find out which one grows;
It’s a secret no one knows;
It’s a secret no one knows….”
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