A boate da Crypton era a mais badalada. Dificilmente você não tinha de esperar na fila para conseguir entrar e aproveitar um pouco do paraíso na Terra. Apenas aqueles que trabalhavam para a Crypton eram vips. E naquela noite de dia dos namorados, agradeci imensamente por ser capaz de ser uma das poucas vips.

Entenda, a boate não estava mais lotada que o normal apenas porque era a boate da Crypton, mas na cidade espalharam um boato de que qualquer solteiro que conseguisse entrar na boate no dia dos namorados, conseguiria arrumar alguém, e essa pessoa podia até ser o amor de sua vida.

É óbvio que eu não estava procurando o amor de minha vida, nem mesmo acreditava naquela história fajuta. O fato é que eu estava preparada dos pés a cabeça para encontrá-lo, e ele provavelmente estaria acompanhado.

Assim que entrei, a fumaça e a música alta me saudaram. Uma música minha tocava. Esquivei-me das várias pessoas que dançavam e fui até o bar, aonde encontrei Megurine Luka preparando um drink. Como sempre, ela se destacava. Seus cabelos cor de rosa eram incomuns, e seu corpo parecia desenhado. Usava um vestido vermelho sem alça, que dava destaque aos seios grandes. Instantaneamente olhei para minha camisa branca e percebi o quão injusto era o mundo.

Terminado o drink, ela o passou para mim. A aparência da bebida era muito bonita, com a cor verde-água, assim como o meu cabelo. Sorri e ela devolveu o sorriso. Saiu de trás do balcão e se sentou ao meu lado.

- Você não vai mais trabalhar? – perguntei, e tomei um gole da bebida. Era magnífica. Não sabia do que era feita, mas fosse o que fosse, era esplêndido.

- Não – Ela deu um sorriso inocente. – Hoje é o dia da Meiko. Se ela me pega, estou morta.

Assenti. Meiko não era uma pessoa simplesmente ciumenta, a não ser que se tratasse de bebidas. Aliás, de bebidas que eram responsabilidade dela.

- Pensei que fosse sair com o Takumi – começou ela. Afundei-me no banco de couro e encolhi os ombros. Era uma droga ser amiga de Luka, porque ela era mais inteligente do que deveria.

- Pois é, né? – Tomei mais dois goles do drink. “Por favor”, pensei, “não continue”.

- Mas pelo visto ele não está aqui. – Senti seus olhos azuis me analisando, porém, não virei a cabeça para olhá-la.

- Nós só ficamos algumas vezes. Não sou namorada dele. – Dessa vez, eu retribui o olhar.

Luka ficou em silêncio por alguns instantes.

- Ele te pediu em namoro, não foi? – falou. – Então por que não aceitou?

Era uma boa pergunta. Por que eu não tinha aceitado o pedido de Takumi, a nova estrela da música, de namoro? Bem, eu não precisava pensar duas vezes para responder a pergunta, mas não daria a resposta que ela queria.

- Nós não combinamos. Simplesmente isso. – Tentei soar o mais sincera que pude. – Não podia aceitar um pedido de namoro sendo que eu sei que terminaríamos em seguida. Ele beijava bem, foi divertido. Mas já acabou.

- Miku, você tem que superar – Luka fez uma cara triste.

Por um instante, eu pensei em começar uma discussão com Luka. Superar quem? Eu não tinha que superar ninguém. Não era porque eu não aceitei o pedido de namoro de alguém que signifique algo um pouco mais profundo. Nada disso.

No entanto, me calei. Ela estava falando o que eu sabia, é claro. O problema era: como superá-lo?

Afinal de contas, a culpa foi toda minha.

Senti as mãos de Luka mexendo no meu cabelo e deitei a cabeça no balcão. O que eu estava fazendo? Eu era uma perseguidora? Qual era meu problema? Não fui eu que pedi para que ele se afastasse?

- Foi chutada de novo? – perguntou uma voz familiar. Estirei a língua por reflexo.

- Meiko – foi o tom de alerta de Luka.

- Ela já está acostumada, relaxa. – Meiko estava claramente bêbada. Revirei os olhos.

- Meiko, o quanto você bebeu? – perguntei.

- O suficiente para dançar nua no balcão. – respondeu.

- Não faça isso! – Luka pediu, horrorizada.

Meiko gargalhou e depois me deu um tapa na cabeça.

- Levanta a cabeça do balcão, e vai dançar. – falou ela.

Levantei a cabeça, mas não sai do lugar. Procurei o drink, e só encontrei o copo vazio.

- MEIKO! – Bêbada descontrolada. Maldita Meiko.

- Estava uma delícia. – Ela lambeu os lábios.

Sai da cadeira com um pulo e olhei para Luka. Eu precisava de companhia. Ela me deu um sorriso sem graça.

- Desculpa, Miku. Eu tenho de acompanhar o Gakupo. Nós já vamos.

Eu não pude evitar de fazer a minha melhor cara de “Eu espero que ele morra”. Desde que minha melhor amiga começara a namorar, eu tinha ficado praticamente sozinha. E a culpa era daquele cara. A berinjela ambulante.

- Tudo bem. – dei de ombros, e me enfiei na multidão que gritava alucinada, antes que Luka pudesse falar mais alguma coisa.

Comecei a me mexer um pouco. As pessoas esbarravam em mim, e não me importava. Só escutei a música e dancei. Na quarta música eu já estava sentindo o lugar um pouco abafado. Esquivei-me das pessoas e saí, indo sentar em um dos vários bancos que a boate tinha.

Agradeci mentalmente por ter vindo com o short curto preto, e não com a calça que eu tinha comprado especialmente para esse dia. Assim, não estava sentindo o lugar tão quente.

Esperei sentada mais algumas músicas. Eu não o achava. E se ele não estava ali, significava apenas uma coisa: estava saindo com alguma outra garota. Imediatamente o lugar que estava animado ficou completamente entediante para mim. Quis ir embora.

- Olhe o que temos aqui.

Rapidamente eu olhei para ele. Seus cabelos da cor azul marinho. Os olhos da mesma cor. A pele clara. Ele usava um terno preto, o que era estranho para alguém que estava em uma boate, mas não liguei. Ele estava ali.

Levantei do banco e fiquei de frente para ele. Após toda a nossa “situação”, e nosso “tempo gelo”, nossa “volta”, e nosso “término”, decidimos manter a aparência de amigos para as pessoas de fora.

Porém, não era assim que funcionava.

Às vezes, eu o evitava, outras, quem o fazia era ele. Estávamos em nosso constante jogo, e como uma boa competidora, eu não iria ser aquela que desistiria.

- Você finalmente apareceu – falei.

- Esteve esperando por mim? – Seus olhos eram incrivelmente sedutores e desconcertantes. Não podia desviar o olhar, entretanto.

- Óbvio que não. – cruzei os braços.

Ele riu, uma risada um pouco maldosa. Antes que eu pudesse prever seu próximo movimento, ele segurou meu corpo contra o dele e sussurrou em meu ouvido:

- Não minta para mim, Miku-chan.

Senti minhas bochechas corarem, e dei um empurrão nele.

- Não se encoste em mim sem a minha permissão. – murmurei.

- Não somos amigos? – Ele sorriu.

- Por que você não vai fazer outra turnê e, dessa vez, não voltar mais? – cuspi. Eu odiava aquele novo ele. Onde estava o Kaito gentil que eu amava?

- Você realmente queria que eu fizesse isso? – Por um momento, era como se o Kaito que eu tinha namorado havia voltado. Um breve momento. Eu não responderia aquela pergunta. Corri para a pista, e sai da boate. Meu coração batia forte, meu rosto queimava de raiva, e ainda por cima estava chovendo. Abri a porta de meu carro e entrei, fechando-a com força.

Ele não era mais a pessoa pela qual me apaixonei. E se aquele Kaito tinha deixado de existir, isso significava que eu tinha de seguir em frente, sem perder. Ligando o carro percebi que eu já tinha praticamente ganhado o jogo.

Notas finais
Até o próximo, o/
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.