O dia seguinte era a tal da entrevista. Sanji e Luffy acordaram bem cedo para se prepararem e foram tomar café da manhã juntos, como faziam de costume. Em seguida, foram tomar banho.

– Nós vamos tomar banho juntos sempre, é? — Resmunga o cozinheiro.

– Sim! Se nós economizarmos água dá pra comprar mais comida!

– Tsc... nem sei como você consegue ser assim tão magro. Vamos rápido então para não nos atrasarmos.

Sanji P.O.V

Depois de nós sairmos do banho eu o vesti com as roupas que tinha comprado para ele na nossa primeira saída juntos. Luffy ainda não tinha se acostumado a se vestir daquele jeito, mas não é como se ele tivesse outra escolha.

Eu o coloquei trajando uma camisa social azul junto com uma gravata vermelha e um suéter. Aliás, olhando bem, ele ficava tão fofinho com aquele tipo de roupa... muito melhor que aquela regata horrível e toda surrada!

– Sanji, eu me sinto estranho com essas roupas. Sério que eu tenho que usar isso?

– Para de reclamar, você fica mais fofo assim. Além disso é uma entrevista séria, você precisa se portar direitinho.

– Eu não sou fofo! — Ele faz biquinho e fica chateado.

– É sim, você é uma gracinha, não adianta fazer essa cara feia. Agora fica quietinho enquanto eu dou um jeito nesse cabelo rebelde.

Mesmo sendo totalmente arrepiado e bagunçado, o cabelo dele continua sendo macio, não sei como. Ele tem um cabelo incrivelmente bom e o trata como se fosse lixo. Se não fosse por mim ele nem faria questão de penteá-lo diariamente!

– Prontinho, agora tá bem melhor! Só falta a maquiagem!

– M-Maquiagem? Vai cobrir minha cicatriz do olho de novo?!

– Vou, essa coisa estraga sua fofura.

– Eu já disse que NÃO SOU FOFO! — Ele deu um grito de raiva.

– Nossa... precisa ficar tão bravinho assim? Eu vou ter que te ensinar a se comportar direito algum dia.

– Desculpa, Sanji... é que eu não gosto quando você fica me tratando como se eu fosse um bebê.

– Você só não está acostumado a ser tratado com carinho, Luffy, mas ser fofo não é motivo de ofensa.

– Eu sei, mas é estranho. Desculpa por ter gritado com você.

– Tudo bem, não liga pra isso. Agora vamos prosseguir com a maquiagem.

Fiquei de frente para Luffy, olhando bem em seus olhos e fui passando um pouco de pó para tirar aquela cicatriz horrível dele. Ele não me contou o motivo de ter aquele corte, mas provavelmente foi em alguma briga. Só espero que ele não tenha se machucado muito...

– Esse negócio de maquiagem é horrível, Sanji! Parece que tem alguma coisa na minha cara!

– Calma, calma. Talvez seja a última vez que você precise usar, já que é a nossa única e última entrevista.

– Sério? Que bom! Depois disso a gente vai poder morar juntos em paz, né?

– Sei lá, quem sabe. Aliás, como você ganhou essa cicatriz?

– Ah, quando eu era criança eu furei meu olho na frente de uns caras que me chamaram de medroso. Foi pra provar que eu era forte!

– Você é idiota? Podia ter ficado cego! — Dei um tapa nele de leve.

O que esse garoto tinha na cabeça? Tá certo que ele era só uma criança, mas isso já é demais! E se ele realmente tivesse se machucado? E eu aqui todo preocupado... tsc.

– Ai..! Isso doeu, Sanji!

– É pra você aprender. — Dei um beijo aonde o tapa tinha pego. — Agora vamos antes que cheguemos atrasados, Luffy.

– Ok!

Sanji P.O.V off

~ X ~

Ambos entraram no carro e foram em direção ao estúdio onde dariam a entrevista. Ao chegarem lá, se depararam com um local cheio de gente e extremamente movimentado, com vários rostos conhecidos e importantes.

Eles foram recebidos muito bem pelos produtores que lhe ofereceram copos d'água e refrigerante. Tinha também uma mesa cheia de comida para os funcionários e, é claro, Luffy foi atacá-la, deixando todos no local com raiva.

– EI, TEM UM GAROTO COMENDO A NOSSA COMIDA!

– Quem é ele? Tirem esse intruso daqui! Deve ser um mendigo infiltrado!

– Mendigo? M-Mas olhem as roupas dele!

– ME DEIXEM EM PAZ, EU NÃO SOU MENDIGO!

Luffy começou a gritar, com a comida na boca, até que Sanji finalmente chegou no local e já foi arrastando ele pela orelha até a saída mais próxima, iniciando um sermão.

– Ei, Luffy! É só eu tirar os olhos de você por um segundo e você já faz uma coisa dessas?

– Hã? Eu só peguei um pouco de comida, qual é o problema afinal?!

– Como assim "qual é o problema"? Você toda hora só me faz passar vergonha! Seria mais fácil se você fosse invisível!

– Então você realmente tem vergonha de ficar comigo, Sanji..?

Ele pareceu ficar um pouco decepcionado com a fala de Sanji, embora Luffy raramente ficasse triste daquele jeito. Os dois estavam encostados em uma parede qualquer enquanto vários produtores passavam pelo corredor.

– L-Luffy? Não foi isso que eu quis dizer! Eu já não te disse? Eu não tenho vergonha nenhuma em... você sabe...

– Viu só? Você tem vergonha de admitir que nós dois namoram---

Sanji tampou a boca de Luffy antes que ele continuasse a falar e em seguida começou a sussurrar.

– Shhhhh! Fala baixo, alguém pode nos ouvir!

– Então você realmente tem problema em admitir mesmo depois de tudo!

– Hã? Por que você começou a agir dessa maneira agora? Nem parece você.

– Eu não sei porquê, só sei que eu tô com raiva! Esse lugar me dá raiva!

– Raiva de quê? Eu não tô entendendo mais nada, nós conversamos sobre isso ontem e você disse que aceitaria dar a entrevista da minha maneira!

Luffy P.O.V

Eu não sei direito o que aconteceu comigo e nem o motivo de estar agindo dessa maneira estranha com o Sanji, mas eu não queria mais dar essa entrevista idiota. Não queria ficar naquele ambiente horrível. Queria sair dali logo e ficar sozinho com ele em paz!

– Mas eu mudei de ideia. Eu não quero mais fazer isso!

– Por quê, Luffy? Eu prometo que vai ser a última entrevista, depois disso a gente sai daqui!

– O problema não é a entrevista, Sanji!

– Então o que é?!

– Eu não quero dar essa entrevista se for pra esconder que nós namoramos! EU NÃO QUERO QUE A FRANÇA INTEIRA ACHE QUE NÓS DOIS SOMOS SÓ AMIGOS!

Merda, eu acabei gritando, mas... todo mundo começou a olhar pra gente de uma forma estranha, como se fôssemos de outro planeta. E o Sanji também ficou me encarando com muita raiva. Agora ferrou de vez..!

– Luffy por que você fez isso? Você perdeu totalmente a noção?!

– Desculpa, e-eu não sei por que eu falei isso!

– Agora tá todo mundo olhando pra gente! Que saco, tenha um mínimo de respeito pelo local, seu maluco sem noção!

– S-Sanji..?

– Sai daqui, Luffy! SAI DA MINHA FRENTE!

– E-Ei, do que você tá falando..?

– Além de tudo você é surdo? Eu já mandei sair da minha frente! EU NÃO QUERO MAIS TE VER!

– Isso é sério mesmo?!

– SIM! Você é só um incômodo, vá embora!

Por quê? Por que ele começou a gritar assim comigo? O que eu disse realmente foi tão ruim assim?! Todo mundo nos olhava, cochichavam entre si, riam baixo... qual é o problema desse lugar?

Eu acabei saindo correndo dali, correndo em uma direção completamente aleatória, já que minha visão estava embaçada devido as lágrimas. Até que eu bati em uma pessoa bem alta sem querer, parecia uma parede humana.

– D-Desculpa, foi sem querer!

– Hum? Eu já não te vi antes?

– Ahn... eu acho que não. Foi mal, mas eu tô com pressa!

Era um homem bem alto e loiro, parecia ser bem bravo também, mas eu não sabia quem era. Continuei a correr, até que o tal homem me puxou pelo braço e me impediu de continuar.

– Espera aí, moleque!

– O que foi, caramba? Eu já disse que eu tô com pressa!

– Esse jeito de falar, correndo por aí como um pirralho sem a menor educação... você é o tal do Luffy né? É pior do que eu pensei.

– Como você sabe o meu nome?

Antes que o tal homem assustador pudesse responder, eu comecei a ver Sanji correndo na mesma direção que a gente estava, como se estivesse me procurando. Assim que ele nos viu, ele parou de correr e ficou paralisado.

– P-PAI!

– P-PAI? - Era tão assustador como eu imaginava...

– Sanji! Você, correndo por aí desse jeito e chamando a atenção de todo mundo... esse moleque idiota te transformou em uma pessoa completamente sem noção! E dava para ouvir vocês dois gritando lá do outro andar!

– Espera aí, você ouviu nossa conversa? Por favor me diz que não!

– Não ouvi e nem quero saber do que vocês estavam falando. Eu vim aqui garantir que tudo ocorra bem na entrevista e você me apronta uma dessas!

– D-Desculpa...

– Não quero ouvir suas desculpas, filho inútil. Já tá quase na hora da entrevista, vão embora logo vocês dois!

– Tá, nós já estávamos indo! Não é, Luffy?

– Sim, nós já estávamos indo...

Ele me encarou de uma maneira como se estivesse botando toda culpa em mim no olhar, totalmente assustadora. Dava para ver que ele realmente tinha ficado com raiva, embora eu não esteja entendendo nada do que tá acontecendo.

Quer dizer, ontem mesmo ele disse que não tinha problema nenhum em admitir que nós namorávamos e hoje ele diz que tem vergonha de ficar comigo.

Tá, eu também tinha dito que não me importa em esconder, mas... aaaaaah, se eu continuar pensando assim vou ter dor de cabeça!

– Mas antes eu preciso falar com você, Sanji. — Dessa vez o pai dele falou em um tom preocupado, diferente de como falava antes.

– O que foi, pai? Sempre que você fala assim coisa boa não é.

– É sobre a sua mãe. Não é nada grave, mas ela está um pouco doente e de cama. Nosso médico está lá em casa, por isso eu vou sair mais cedo daqui, entendeu? Porém eu vou ficar de olho na TV!

– Ei, ei, o que ela tem? Depois da entrevista eu vou pra casa vê-la!

– Não, não quero você botando um pé dentro da minha casa. Você não é mais meu filho, lembre-se disso!

– Mas ela ainda é minha mãe! Eu tenho direito de ficar preocup---

– CALA BOCA! Não é nada grave, e se ela te ver com esse garoto deplorável a situação só vai piorar. Agora saia da minha frente e pare de agir como um inútil!

– T-Tá...

Nossa, que pessoa horrível! Como um pai não permite que o filho veja sua mãe quando ela está doente? O pai do Sanji chega até a ser pior que o meu, que me vendeu!

Isso explica o Sanji ter ficado tão preocupado em não querer que ele descubra que nós namoramos... se ele descobrir acho que um de nós vai morrer.

Luffy P.O.V off

Assim que Zeff foi embora, Sanji pegou Luffy pelos braços de uma forma nada carinhosa e foi andando com passos rápidos até um armazém, onde os funcionários guardavam as roupas. Eles se trancaram lá dentro e finalmente puderam ficar sozinhos, sem pessoas em volta.

– Por que você fez isso, Sanji? Quase quebrou meu braço!

– A culpa é sua por ter gritado daquele jeito! Você viu como meu pai é, né? Se ele tivesse ouvido a nossa conversa o que você acha que teria acontecido?

– Isso não é justificativa pra você ter gritado comigo daquele jeito, eu pensei que você fosse terminar comigo!

– Terminar? Claro que não, idiota. Eu só fiquei nervoso.

– Ficou nervoso? Eu pensei que você fosse me bater!

– Eu até ia, mas ia chamar mais atenção. Enfim, eu preciso saber se você ainda vai dar a entrevista.

– Eu tenho outra escolha?

– Não.

– Então vamos logo acabar com isso pra eu poder tirar essas roupas chatas!

– Ótimo, então vamos revisar algumas coisas. Primeiro: você vai concordar com tudo que eu disser, entendeu?

– Tá...

– Segundo: não quero ver você falando coisas inúteis. Aliás, não fale nada!

– Disso eu já sei.

– Terceiro: tenta se comportar e não fique usando gírias. E senta direito na cadeira.

– Mais alguma coisa?

– Sim, só mais uma.

Sanji se aproximou do garoto e deu-lhe um abraço bem apertado, seguido de um leve beijo nos lábios, sussurrando em seus ouvidos.

– Desculpa por ter te magoado... mas nunca mais pense que eu vou terminar contigo, Luffy. Eu não tenho vergonha nenhuma de ficar com você, o problema são essas pessoas chatas! Eu amo você, idiota!