31 de Outubro de 2020
Naquela preguiçosa manhã de sábado, o sino da porta da Coffee Shop tocou, um rapaz alto, de jaqueta preta, capacete e calças jeans muito usadas entrou. O homem removeu o capacete para dar visão a um homem negro de grossos lábios que sorriu para Alex que estava no balcão preparando a alguns pedidos. A Coffee Shop estava vazia pois estava administrando todas as ordens via delivery e retirada. O homem colocou uma máscara por cima da boca e nariz e se aproximou de Alex que também usava uma máscara.
— Bom dia, Alex. – Cumprimentou o homem.
— Bom dia, Doug. Chegou bem em tempo, esses pedidos acabaram de sair e, ah... Este é o endereço. – Disse Alex coletando o primeiro papelzinho colado na extrema esquerda do balcão, organizou rapidamente dois lattes para entrega, colocou-os num suporte, enfiou-os num saco de papel, depositou saches de adoçante, canudos de papel e guardanapos e dobrou a parte superior além de etiquetar. – Aqui está. Ah e este é pra você. – Entregou para ele um copo de café na embalagem da Coffee Shop.
— Certo, senhor, certinho, eu ja foi levar estes até lá. Opa, muito obrigado, eu estava realmente precisando. Qualquer coisa só me chamar pelo telefone. – Sorriu Douglas depois de pegar o pacote e sair novamente.
Alex virou-se e encostou na parte interna do balcão, abaixou sua máscara e soltou um suspiro, olhou para cima, ali sobre uma estante estava o presente que Caleb lhe deu, aquele belo anjo de madeira entalhado cuidadosamente e envernizado, Alex sorriu.
Douglas Akinyemi é um novo colaborador da Coffee Shop, ele havia sido contratado mais cedo no ano para ajudar na Coffee Shop com entregas e o que fosse necessário, acabou que logo a pandemia piorou e eles precisaram se organizar para ter seu sustento então Doug acabou ficando totalmente com a parte de entrega.
Estava um tremendo silêncio na Angel até que ouviu o som de notificação de seu smartphone, Alex pegou do bolso de seu avental verde escuro para ver que a notificação era de Caleb.
“Filminho de Halloween a noite?”- Dizia a mensagem, Alex sorriu e já começou a respondê-lo:
“Vai aguentar mesmo um filme de terror?” – Alex respondeu
“Com você encaro até o bolo de frutas mais duro de Natal do vovô Brown”
“Uau, que romântico.Combinado ;) “ – Alex enviou.


— Está prestando atenção, Sr. Austen? – Caleb rapidamente largou seu smartphone ao lado do computador de casa em que estava participando da aula online e através de webcam. A voz firme da professora Jennifer Doherty desperteu e muito sua atenção a aula. Ele estava com suas calças de pijama e, na parte de cima, camisa e agasalho azul escuro. Lá fora, o outono tomava conta, as folhas das árvores caiam alaranjadas e em excesso, o verde de verão se esmaecera no amarelo preguiçoso da estação.
Ela era a professora substituta enquanto a senhora Sally descansava e se recuperava, era uma mulher com seus trinta e poucos, muito branca, os cabelos longos acobreados presos a um laço de cabelo que deixava um rabo de cavalo um tanto mais acima do que o normal, óculos triangulares e batom vermelho-arroxeado, seus olhos passavam a firmeza de uma professora do colegial mas também o macio de uma professora do maternal.
— Vamo lá, ein, garoto. – Riu a sra. Doherty e todos os outros alunos ali também riram, Caleb pode ver Beau agarrando seu gato Bob que parecia ter se encanado com a franja do garoto e parecia tentar pular em cima de seu dono, o microfone dele estava desativado senão provavelmente ouviria gritinhos. Além dele, Owen e Mariko também estava presentes. Jimin fazia muita falta, independente do tempo que passasse.
— Perdão, sra. Doherty, só enviei um SMS rapidinho pra alguém. – Explicou-se rapidamente. Pôde ver Mariko e Owen darem um sorrisinho como se soubessem muito bem do que se tratava.
— Certo. Mas não precisa se preocupar, a aula de hoje é bem curtinha, apenas complementar, logo vocês vão poder passar todo o glorioso sábado do jeito que vocês bem quiserem. – Ela riu com certa malícia, já que todos estavam extremamente limitados de sair devido a pandemia, todos deram um sorrisinho amarelo, outros poucos iriam se ocupar maravilhosamente com seus videogames. Caleb mesmo se ocuparia depois no The Last of Us Part ll mas preferia jogá-lo junto de Alex para acompanhar a história.
Depois da aula complementar, Caleb desceu as escadas após sair de seu quarto para ir almoçar com seus pais. Encontrou-os com a mesa posta, Chris depositava as terrinas com saladas, bifes, purê e ovos na mesa, uma refeição demasiada grande para três pessoas... Ou quatro ou cinco, pois Anne estava quase para dar entrada ao novo membro da família.
— Tem alguém com muita fome. – Anne deu pequenos tapinhas carinhosos no barrigão e sorriu. Ela usava um roupão quente que lhe cobria o corpo todo. Chris, que cozinhara, usava um sweater feio de Natal e calças de moletom bem compridas que ocultava um tanto de seus pés com meias de lã. Caleb depositou quatro pratos sobre a mesa.
— E eu também. – Caleb disse enquanto se sentava a mesa. Pegou o prato de porcelana de sua mãe. – Mãe, posso lhe servir? – Disse educadamente, Anne sorria.
— Ah, um pouco de tudo, especialmente brócolis senão alguém vai nascer verde. – Ela riu e Caleb depositou em seu prato uma quantidade generosa de brócolis refogado, ovos, um bife, alface e tomate, para depois pousar o prato em sua frente. – Obrigada, querido.
— O pai também tá esperando neném? – Brincou Caleb enquanto levou a boca um grande pedaço de bife e riu. Chris olhou para sua barriga um tanto mais saliente do que antes e riu.
— Logo eu perco isso, corro uns quarteirões e é isso. – Ele disse dando tapinhas na barriga, sentou-se a mesa com sua família. – Onde está a vovó Jaracy?
De trás da mesa retangular, numa cadeira vaga da extremidade, uma cabeça grisalha de cabelos espetados para todos os cantos apareceu de baixo pra cima.
— Achei! – A vovó Jaracy exclamou segurando um botão. – Eu estava procurando isso aqui fazem dias, não consigo fechar meu roupão sem ele. Ela depositou o botão no bolso do roupão felpudo que usava, para ele cair novamente no chão através de um buraco que tinha ali e ela nem percebera, só Caleb que colocou o pé em cima do botão que rolou pra depois colocá-lo em cima do balcão da cozinha. – Ah, comida, foi meu neto que cozinhou, não foi?
— Sim, vovó, fui eu. – Chris confirmou enquanto levantou-se novamente e depositou quantias de comida no prato da avó.
— Homens dão ótimos chef. Nada contra a sua comida, Anne, também é ótima, especialmente o seu curry. Hmmm. – A vovó Jaracy estalou os lábios em deleite. – Logo quero ver o que Caleb pode fazer, tenho certeza que pode ter puxado os pais.
Caleb contorceu a boca e respondeu:
— Tem razão, bisa, eu tenho certeza que faço o melhor ovo frito de Washington. – E riu junto com os pais, sua bisavó já não entendeu muito bem a piada mas enfiou tufos de brócolis em sua boca muito enrugada e equilibrou seus pequenos óculos em cima do nariz adunco. – Eu vou no Alex mais tarde pra vermos um filme de terror, tudo bem? – Perguntou e olhou para os pais que se entreolharam.
— Caleb, sei o quão apaixonadinho você está mas estamos em pandemia então tem que evitar o máximo possível de ficar saindo, você sabe, né? As ruas estão tão vazias que temos medo do que podem aprontar la fora. – Anne disse, preocupada.
— Vocês sabem que eu me cuido bem e não me meto em encrencas. Nem saio de casa, só saio pra ver ele e ele também só sai pra ir pra Angel onde não ta indo ninguém. – Respondeu Caleb engolindo um chumaço de brócolis e bife enquanto a vovó Jaracy parecia estar num dilema entre salgar seu brócolis ou misturá-lo com o purê, tanto que a batata sujou a ponta de seu nariz.
— Tudo bem, garoto, apenas se cuide, certo? – Pediu Chris e Caleb balançou a cabeça positivamente.
Depois do almoço, ajudou a encaminhar a vovó Jaracy até a sala onde, só de se sentar em sua poltrona favorita, ela caiu rapidamente no sono e começou a murmurar algo a respeito de gatos dançando cancan. Ele voltou a cozinha para ajudar os pais com a louça e teve um pequeno acidente com a água então precisou trocar de roupa depois, novamente Anne se sentiu indisposta e precisou sentar-se enquanto os rapazes comandavam a arrumação das louças.

Ao anoitecer, Caleb não se aguentou e fantasiou-se de vampiro, mas de vampiro do Crepúsculo, parecia quase um clone de Edward Cullen se não fosse seu cabelo descolorido em loiro.
— Poderia como Carlisle, ele é loiro. – Sugeriu Anne sentada ao sofá enquanto Caleb se arrumava em frente a um espelho que havia na sala, vaidosamente deslizando um pente sobre seus cabelos.
— Ah, agora já foi. Mas é verdade. – Lamentou-se Caleb que havia até mesmo aplicado maquiagem em seu rosto pra ficar pálido.
A vovó Jaracy acordou neste momento, olhou pra Caleb da cabeça aos pés com o cenho franzido, apontou pra ele e perguntou a Anne:
— É daqueles vampiros que brilham?
— Sim, vovó. – Anne respondeu.
— O melhor sempre será o Christopher Lee. – Resmungou a vovó que logo encostou a nuca em sua poltrona e voltou a roncar.

Caleb saiu de sua casa depois de se bem agasalhar para aquele outono, as ruas estavam vazias. Outrora poderia estar cheio de crianças pedindo doces ou travessuras na porta das casas mas havia apenas uma ou outra abóbora com a carinha de Jack O’Lantern esculpida na frente das entradas. A brisa fria arrastava as folhas alaranjadas caídas das árvores sobre o chão gelado naquela atmosfera fantasmagórica de vazia que dava até uma impressão melancólica.
Chegou na casa de Alex, bateu na porta e Alex rapidamente o atendeu e riu depois de vê-lo fantasiado de Edward Cullen.
— Uau, que bonitão. – Elogiou Alex enquanto Caleb ia entrando.
— E você está uma perfeita Bella. Tá lindo... Linda.. Linde... Não sei. – Caleb riu e Alex olhou para si mesmo de cima a baixo.
— Na verdade eu só acabei de chegar, to com roupa normal e meu cabelo ta todo desgrenhado. – Alex disse enquanto foi prendendo seus cabelos num rabo de cavalo.
— Exatamente. É uma Bella perfeita, só falta...
E Alex, pra brincar, mordeu o lábio inferior.
— Isso aí. – O rapaz se aproximou de seu amado de cabelos desgrenhados, agarrou-o passando uma de suas mãos sobre as costas de Alex e o puxou deixando-o bem junto e os olhos fixos aos dele. – Então o leão se apaixonou pelo cordeiro.
— Que cordeiro estúpido. – Alex riu.
— Que leão doente e masoquista. – Caleb riu de volta e deu um beijo barulhento nos lábios de Alex, que havia miravo para ser algo romântico, as mãos de Alex nas costas de Caleb e depois lhe acariciou ao rosto. – Então, o que vamos ver?
— Pensei em uma maratona do Halloween mesmo, mas vamos do original de 1978, a sequência de 1981 e o novo de 2018, o que acha? – Alex perguntou e Caleb sorriu. Captou a mensagem, deu-lhe outro beijo só que mais sutil.
— Você que manda. – Ele soltou Alex que foi para o aparelho televisor da sala, ajoelhou-se para coletar os blu-ray. Caleb jogou-se sobre o sofá.
— Não tem nenhum deles nos streaming? – Ele perguntou.
— Hm, não. É o mais estranho de não ter nenhum desses em streaming em pleno halloween. – Alex respondeu enquanto inseriu o disco de Halloween de 1978 no aparelho que quase de imediato a imagem apareceu na televisão de 55 polegadas, levantou-se e foi sentar-se ao lado de Caleb que o agarrou por trás e o fez sentar entre suas pernas com um barulho surdo. – Uff.
— Squeak. – Brincou Caleb imitando um barulho de bichinho de apito.
— Isso é já estar com medo, é? – Alex perguntou olhando pra ele de lado.
— Ih, que isso. Claro que não. – Caleb franziu o cenho olhando pra Alex e depois deitou o queixo atrás do ombro de Alex. – Talvez um pouco.
Alex riu e acariciou as mãos de Caleb que estavam pousadas em sua barriga.
— Certo, eu vou te proteger. – Alex disse segurando as mãos de Caleb. Mais tarde planejavam preparar alguma coisa na cozinha.

Depois do filme, Alex foi trocar o filme para a sequência. Saiu de ficar sentado entre as pernas de Caleb e novamente ajoelhou-se ao tapete macio para trocar o disco até que o iPhone de Caleb tocou, era Chris:
— Caleb, estou levando sua mãe para ser atendida. Está nascendo!