Love By Time 2
5 Convite Coibido
A festa da virada do ano foi bem similar ao Natal, com exceção das comidas cozinhadas agora totalmente por Chris que se provou um chef profissional que podia realmente cozinhar de tudo e pelo fato da vovó Jaracy ter confundido champanhe com refrigerante e acreditar que era o refrigerante mais fraco que ela já tinha tomado e até deu um pouco para o gato Filisteu que recusou quando sentiu o aroma forte de álcool e correu para baixo do sofá.
O início de 2021 veio com tudo, especialmente com a falsa esperança de que a COVID-19 sumiria de um dia para o outro e que ficaria pra trás com 2020, mas não. Na verdade os casos foram aumentando, as mortes subindo mas, a cada novo raiar, uma nova esperança. Uma vacina entrara nos rumores e logo fora anunciada, uma luz no fim do túnel. Os idosos seriam os primeiros, a vovó Jaracy estava tanto ansiosa pra tomar esta vacina milagrosa quanto também para fugir dela, na maior dúvida do que poderia lhe causar às vezes.
Era março e a prefeita anunciou que as primeiras doses seriam aplicadas a partir do meio do mês com prioridade para idosos, imunodeficientes, diabéticos e entre outros que carregassem comorbidade. Caleb recebeu essa notícia enquanto trabalhava entre os poucos funcionários do supermercado que revezavam turnos e dias para que pudessem fornecer produtos e itens essenciais para a população sob maior cuidado e protocolo para que não ouvesse infecção e o rapaz seguia na risca com toda cautela possível, sempre tendo distância das pessoas, utilizando máscaras aprovadas pela agência nacional de saúde, álcool gel e demais precauções. Ele realmente não sentia necessidade de ajuda, conseguia carregar caixas e repor o estoque sem se cansar, seu físico e resistência estavam muito bem trabalhados.
Não demorou para a vovó Jaracy tomar a sua primeira dose, o que ela encarou perfeitamente bem depois da longa fila de espera e não teve a reação dolorida que muitos tiveram depois embora ela sentisse dor no lugar da picada. Assim, a família Austen e Alex estavam mais calmos depois da senhora tomar sua primeira camada de proteção e aguardavam a sua vez nos dias que viriam.
No intervalo do trabalho, arrumou seus cabelos que haviam crescido num ritmo assustador então suas raízes extremamente crescidas e expostas estavam castanhas e o resto o seu loiro descolorido, soltou os cabelos de seu elástico para arrumar os cabelos novamente, despiu-se do avental azul-bebê do supermercado e ficou com sua blusa de mangas compridas brancas, calças jeans e tênis esportivo. Ele sentou-se na parte de trás do supermercado, onde chegavam as novas remessas e cargas, logo num degrau. Estava sozinho então abaixou a máscara, pegou seu iPhone e começou a digitar:
CALEB: Bom dia, bb.
Alex demorou um pouco para responder.
ALEX: Bom dia, amr. Desculpe, estava passando as encomendas pro Doug. Tudo bem?
CALEB: Manda um abração pra ele, por mim. J
ALEX: Pode deixar kkkkk, tá no trabalho?
CALEB: Sim, intervalo agora. Queria perguntar.. e aí, que quer ganhar de aniver?
ALEX: Nossa, mas ainda tem tempo pra isso. Sei lá, não tem algo que eu queria ganhar. Eu já tenho alguém que me transborda ;) .
Caleb sorriu e seus dedinhos nervosos já foram respondendo
CALEB: Vou pensar em alguma coisa então. ;3
ALEX: É sério, viu? Não precisa de nada, guarde seu dindin.
CALEB: Posso passar a noite na sua casa, hoje? Saiu aquele filme novo na Disney+ que a gente queria ver.
ALEX: Nossa, eu tinha esquecido. Pode sim e vamos assistir juntos. Opa, pedido novo. Vou me ocupar. Até mais tarde então, Cay!
Alex terminou de digitar sua mensagem quando os sinos da porta avisaram a chegada de um cliente, que ele acreditou que era Doug. Ao invés do seu colaborador, ele teve a visita de um homem completamente diferente, usando máscara, ficando a distância do balcão, óculos escuro e cabelos muito negros penteados para trás, ele trajava roupas sociais sóbrias e um sobretudo que removeu e largou sobre o mancebo ao lado da porta.
— Um belo dia para o senhor. – O homem disse removendo os óculos dando a visão de amendoados olhos castanhos e ainda tinha uma cicatriz na sobrancelha direita, que Alex logo reconheceu como um dos clientes que mais apareciam no café.
— E também para o senhor. – Alex disse numa breve reverência respeitosa como faz para todos que se cumprimentam a ele na Angel. – Eu sinto muito, com esses tempos loucos estão tão desacostumado a receber clientes aqui, estamos trabalhando mais com entregas e retiradas.
O homem assentiu:
— Eu entendo. Eu gostaria de um expresso para viagem, sem adoçante, tamanho médio. – Ele disse sem retirar os olhos fixos a Alex que, quando se virou para preparar seu pedido, pôde sentir os olhos percorrendo-o desde os pés a cabeça e isso o deixou nervoso que quase derrubou o copo descartável com o café escaldante dentro.
— Aqui está, senhor. – Alex disse depois de virar-se novamente para seu cliente observador. – Ficou $2.50.
O homem já estava retirando sua carteira preta de dentro de um dos bolsos da calça e dali pegou uma nota de $5.
— Pensei que estaria se adequando a pandemia e cobrando mais caro como todos os outros no comércio. Como está conseguindo pagar as contas? – O homem perguntou, pousando a nota de $5 no balcão e empurrando-a com a ponta dos dedos para Alex. – Ah, pode ficar com o troco.
— Muito obrigado, senhor. Ah, estamos sempre nos virando. – Alex respondeu e coletou a nota de $5, inserindo-a no caixa. – Temos uma clientela fiel até.
O homem resmungou algo ininteligível.
— Você tem uma beleza muito... exótica para deixá-la escapar com o tempo ficando por aqui. Eu sempre observei-o. – O homem declarou. Alex franziu o cenho, achou que tivesse entendido errado. – É isso, sr. Henning. Eu acredito que o senhor estaria muito melhor...
Ele tirou um cartão da carteira e, assim como fez com a nota de dinheiro, deslizou o cartão para próximo de Alex com a ponta dos dedos. Alex pegou o cartão e leu.
RAYMOND DUPERY – Agência de Modelos Rising Star
— O que é isso? – Alex perguntou desviando os olhos do cartão e voltando os olhos ao Sr. Dupery, que aparentemente sorriu embaixo da máscara.
— Se as coisas apertarem por aqui, você tem um convite para ser modelo. Não qualquer modelo, um modelo de passarela. Você pode ficar muito rico. – E ele colocou ênfase no ‘muito’.
Alex ficou embasbacado e baixou o cartão de volta ao balcão.
— E-eu não... – Alex gaguejou e Raymond levantou a mão com o dedo indicador estendido para cima.
— Não não. Pense direito. – Raymond falou, coletou seu café e encaminhou-se até a porta. Olhou ao redor pela Coffee Shop. – Ou prefere passar a vida inteira aqui?
O homem baixou a máscara, percebeu-se que estava próximo dos seus 50 quando Alex teve acesso a suas características faciais mas estava bem conservado, era um homem bonito sim. Raymond tomou um gole do café, pegou seu sobretudo.
— Muito bom. O seu café... e você. – Ele disse, recolocou os óculos escuros e saiu, deixando Alex totalmente confuso e Doug entrou logo em seguida. O homem alto e forte parecia olhar para Raymond e depois virou-se para Alex.
— Esse homem é muito estranho... E posso te dizer: Esse não é de boas novas. – Doug disse com sua voz forte e ressoante.
— E o que foi que você disse? – Perguntou Caleb enquanto cozinhava no fogão. Trajava uma regata branca, calça jeans e meias, havia despido os calçados. Ele estava preparando panquecas de presunto e queijo, algo muito fácil que até alguém sem habilidade na cozinha como Caleb podia preparar.
— Não deu tempo de falar nada. O cara falava sem parar e tinha uma vibe muito estranha, me deu calafrios. Nem Doug que é o maior amor de pessoa possível gostou da energia do homem. – Dizia Alex que havia colocado dois pratos sobre a mesa embora eles assistiriam em frente a TV na sala, não que não conseguissem enxergar a televisão diretamente da mesa da cozinha aberta. Alex sentiu-se inseguro quando pensou naquele momento novamente e abraçou Caleb por trás, o rapaz ultrapassou a altura de Alex já por milímetros. Ele sentiu Caleb lhe acariciar aos braços silenciosamente.
— Vamos comer? – Caleb disse carinhosamente e Alex balançou a cabeça positivamente mas não queria largar do namorado, embora precisou pois logo sua barriga roncou e foi audível pois Caleb riu.
Em pouco tempo, os dois estavam aninhados em frente a televisão. Afastaram o sofá e colocaram um colchão com muitas almofadas próximo a televisão.
— Este né? – Alex perguntou quando o cursor da televisão parou numa animação da Disney, um filme sobre um dragão de nome Raya. Caleb assentiu enquanto enfiou um pedaço largo de panqueca recheada em sua boca. Eles adoravam assistir as animações da Disney e às vezes chegavam a maratonar as que tivessem sequência ou sucessor espiritual.
Era realmente muito estranho que os cinemas não estivessem funcionando, eles estavam devendo uma ida completa ao cinema pois, naquela última vez, acabou não dando muito certo e aquilo meio que arruinou a noite dos dois, mas ficaram de fazer aquilo novamente mas com o sucesso em mente e, especialmente, muito amorzinho.
Depois de se empanturrar de panqueca, os dois continuaram o filme até o fim.
— Eu gostei bastante. – Caleb falou ao se levantar com Alex para pegar os pratos e lavar a louça. – Eu diria um 10 pra comida, — Falou orgulhoso – 10 para o filme e 1 milhão para companhia. – E agarrou Alex que lhe deu um selinho amoroso nos lábios, Caleb brincou e imitou aqueles lobos cartunescos de desenhos animados que uivavam quando apaixonados e Alex riu.
— Ah, sou obrigado a concordar. – Alex roçou a pontinha de seu nariz carinhosamente na de Caleb que sorriu de modo fofo. – Não acabou, ainda tem sorvete.
— Que tal um coke float ? – Caleb ofereceu. – ‘Cê viu? Já posso trabalhar na Angel com você.
— Mande seu currículo, meu caro senhor. – Alex riu. – Claro, eu aceito a sua oferta da coke float.
O sorridente Caleb sorriu enquanto soltou Alex aos poucos depois de lhe dar uma mordidinha na testa:
— Ah, quem é baixinho agora, ein? – Brincou.
Alex levantou as sobrancelhas e exclamou:
— Garoto!
Caleb ria enquanto abria a geladeira, coletava uma garrafa de coca-cola cheia, abriu o freezer e pegou o pote de sorvete, ouviu a garrafa fazer seu característicos barulho do gás chiando ao ter a garrafa aberta e enfim preparava duas taças da sobremesa depois de coletar ambas de vidro de um armário superior suspenso onde haviam os copos, taças e xícaras. Havia, claro, limpado a pequena bagunça que havia feito do contato do refrigerante com o sorvete ter gerado bastante espuma.
— Ih, virou o Kratos, o God of War. Me chamando de garoto que nem ele. – Caleb continuou e se virou para levar ambas as taças cheias de coca-cola e uma bola de sorvete de creme flutuante.
Alex acompanhou Caleb até a sala e olhou para seu rabo de cavalo e observou:
— Seu cabelo tá comprido. Vai deixar crescer? – Perguntou.
Caleb sentou-se cuidadosamente ao colchão para não derramar a sobremesa e olhou para Alex.
— Nah, eu acho que não, vou ver se meu pai pode cortar pra mim. – Caleb falou, pegando uma das taças e sugando o conteúdo com o canudinho depois de empurrar a bola de sorvete para o fundo.
— Se quiser eu faço pra você, até faço a descoloração também. – Alex sugeriu e Caleb fez um biquinho pensativo.
— Uau, você sabe fazer de tudo, né? Sou um homem de sorte. – Caleb riu. – Eu aceito sim. Nossa, mas que... modelo... de pessoa você é. – Sorriu maliciosamente.
— A-ah, nem brinque. – Alex se arrepiou todo que teve um espasmo, quase engasgou com sua bebida, pousou-a cuidadosamente ao chão e Caleb ficou olhando para ele que tossia.
— Mas é sério, você seria um ótimo modelo. Tanto de roupa masculina quanto feminina. – Caleb disse. – É muito lindo sim.
— Bah, para com isso. – Alex franziu o cenho e viu Caleb pousar sua taça, agora vazia, na parte fora do colchão, no chão. Caleb avançou e engatinhou sobre Alex que, como reação, acabou se deitando ao colchão. O rapaz de cabelos presos sorriu um tanto dominador para Alex que sentiu o rosto corar.
— No entanto, — Caleb disse devagar e aproximou o rosto ao de Alex, dando-lhe um beijo aos lábios – é todo meu.
O jovem deslizou ao lado de Alex, puxou-o a deixar a cabeça de Alex pousada em seu braço e o rosto próximo ao peito e sorriu para ele de forma confortadora que Alex sentiu-se ainda mais protegido em seu templo: Estar nos braços de Caleb. Voltaram a assistir o filme, Caleb ficou segurando a mão de Alex, que caiu no sono logo em seguida. Os dois foram acordados logo quando começou a passar trailers de outros filmes e aproveitaram esta deixa para ir escovar os dentes pois haviam pego no sono antes de realizar sua higiene bucal para depois ambos, silenciosamente, voltarem a sala de mãos dadas e se deitarem ao colchão novamente, agora com a televisão desligada. Caleb deixou que Alex deita-se sobre si e ficou abraçado ao mesmo.
Naquela noite um tanto fria e totalmente silenciosa, uma figura de sobretudo olhava a casa dos Henning a distância enquanto deixou uma bituca de cigarro cair acesa sobre a calçada ao virar-se para sumir ao horizonte.
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