Love Behind Betrayal
9 Capítulo 8
Notas iniciais
Senti o olhar dela bem fixo em mim, um olhar duro e descrente, que me dizia claramente que eu não estava a ver o quadro com toda a clareza.
– Sabe que sustentar uma criança requer bastantes recursos. A Wendy não tarda a crescer e, com certeza, sabe que não é com o ordenado de empregada de supermercado da mãe que ela vai ter uma juventude provei...
– Se for preciso, eu arranjo outro trabalho! – Cortou a Erza. Olhava-a com um olhar meio selvagem, como uma leoa que fazia de tudo para proteger a cria, que ainda dormia nos meus braços, totalmente à parte da discussão pela sua manutenção naquela casa e naquela pequena amostra de família que tentávamos ser. – Nunca tive medo de trabalhar e tenho feito de tudo para sustentar a Wendy. Nunca lhe faltou nada, nem um tecto, nem comida no prato, nem educação... E nem amor que é coisa que, convenhamos, não é muito dada às crianças que estão encarceradas no sítio para onde você tencionava levá-la quando ela nasceu!
– Tal não vai ser necessário, Erza. – Disse logo, deixando bem claro as minhas intenções quanto àquilo que a Assistente havia dito, também porque via a expressão que se começava a formar no rosto dela, a expressão de alguém que acabara de ganhar um trunfo, por mais pequeno que ele fosse. – Eu estou a dar o meu melhor e vou arranjar trabalho, seja ele no que for. Também não vou deixar que recaia tudo sobre ti, ou vão-me achar um pai incapaz e isso será mais uma razão para verem como estas sobrecarregada e podem tirar-ta na mesma. Certo?
Olhei directamente a mulher, vendo aquele brilho que eu vira há momentos, totalmente diminuir nos olhos dela, ao perceber o meu tom de acusação. O Loke também pareceu tê-lo percebido pois avançou só um passo na direcção dela, parecendo somente apoiar a mão no balcão mas aproveitando para encostar o braço nas costas dela para lhe dar algum amparo.
– Vamos com calma, gente, aqui ninguém vai levar a Wendy para lado nenhum. E Erza... O orfanato onde vocês estavam mudou. Não estou a fazer propaganda, ou algo parecido, mas eu encarreguei-me do caso pessoalmente depois daquela conversa que tivemos, há uns anos atrás. O Brain já não está lá, nem ninguém associado a ele. Agora está um casal à frente dos encargos, acredita, aquilo mudou muito.
– Não me interessa que tenha mudado, pura e simplesmente a minha filha não vai lá pôr os pés, nem hoje nem nunca. Sou mãe suficiente para a criar… Por menos que tenha, tudo o que tiver será para ela. – Não pude culpar a Assistente por se encolher. O olhar da Erza parecia lava, prestes a queimar o que quer que se erguesse no seu caminho. Tive de lutar para esconder um sorriso e mascarar o pensamento “Esta é a minha Erza” para não me deixar levar. O Loke levantou as mãos como que em defesa de si mesmo, parecendo também escolher-se e, de novo, eu não o podia recriminar.
– Calma, Erza. Ninguém estava a dizer que ela ia. Estava apenas a informar que as condições já não são as mesmas que vocês…
– E vocês? – Perguntou a Assistente, muito de repente, como que ganhando nova vida quando o Loke pronunciou tal palavra, lembrando-se de algo muito importante. O olhar dela saltou rapidamente da Erza, para mim e depois para o chão. – Quero dizer… Como estão as coisas entre vocês?
Eu parei apenas um pouco, percebendo por completo a intenção dela. Caramba, se ela realmente nos estava a tentar retirar uma criança, ela dava todas as deixas para conseguirmos rebater pois todas as perguntas eram plenamente previsíveis. Contundo, respondi primeiro ao Loke.
– Mesmo assim Loke, nem eu nem a Erza deixaremos a Wendy ir para um orfanato. Até porque… –Baixei o meu olhar, focando no anjinho que dormia com uma mãozinha a escudar o rosto e com a boca ligeiramente aberta, curvada num pequeno sorriso. – Ficar longe da minha filha de novo é coisa que não planeio. E respondendo à pergunta, – Olhei de novo para a mulher, reparando na placa que ela trazia na lapela do casaco com o nome. – Aries, as coisas entre mim e a Erza… – Olhei momentaneamente a Erza, que me retribuiu um olhar firme, demonstrando que ia corroborar qualquer palavra que eu dissesse. – Hão de se resolver, eventualmente. Se a pergunta a que busca resposta é "a Wendy está a assistir e a viver num ambiente desconfortável?", a resposta é não, não está.
– A Wendy é uma criança. – Disse ela, moldando a voz de forma a eu entender que a Wendy não era uma criança como a que eu fora. Não vira as coisas que eu vira, não ouvira as coisas que eu ouvira, não sentira o que eu sentira. Não sofrera tanto como eu, logo seria certamente mais frágil. Mas eu não precisava que ela dissesse isso. Sabia a filha que tinha. Sabia a mãe que ela tinha. Sabia que a Erza nunca deixaria que a Wendy fosse tão frágil como parecia. – Devido a isso, ela não deve viver num ambiente hostil, nem que molde a sua personalidade de formas que a traumatizem, no futuro. Percebe certamente onde quero chegar.
– A Wendy sempre esteve segura nesta casa. – Começou a Erza, antecipando-se às minhas palavras. Ela aproximou-se de mim, chegando mais perto do que aquilo que havíamos estado em anos. A mão dela esticou-se na direcção do meu peito, perdendo-se depois nos cabelos da Wendy, espelhando um imenso sorriso quando a menina se mexeu um pouco mais nos meus braços, murmurando um “mamã”, antes de sorrir de novo e voltar a mergulhar no sonho que estava a ter. – Eu amo a minha filha. Sempre fiz tudo o que podia para garantir-lhe o melhor. E, independentemente, de as coisas entre mim e o Jellal resultarem ou não, ambos iremos fazer de tudo para que ela tenha uma boa vida.
– Ela não está a viver em nenhum mau ambiente como pode ver. A Erza e eu podemos não ser exactamente o casal que é suposto um pai e uma mãe serem. Mas ambos fazemos tudo por ela. Mesmo que não volte a haver nada entre nós, o nosso amor estará sempre com a Wendy.
Por detrás dela, o Loke piscou-me o olho, como que querendo transmitir-me que ia ficar tudo bem e que ela não tinha mais nada que fazer ali, a não ser um relatório de que estava tudo normal.
– Tens tudo, amor? – Aries corou horrivelmente, parecendo perder toda a credibilidade que o cargo dela impunha. A prancheta que ela trouxera e onde tinha estado a fazer várias anotações viajou rapidamente contra a testa dele. – Au, para que foi isso??
– E-En-Entendido. – Tentou disfarçar ela, olhando de novo para mim e para a Erza. – Se precisarem de alguma coisa… A Erza tem o meu número, pode ligar-me a qualquer hora.
– Não se preocupe que não vamos precisar de nada. – Disse a Erza, baixinho, num tom que dizia claramente que se tinha de lembrar a si mesma de rasgar em mil pedaços o papel onde tinha o número de tal pessoa.
– Bem, vocês também têm o meu número, portanto já sabem. – O Loke piscou de novo o olho, quer a mim quer à Erza. A testa dele ganhava um tom rosado, bem como a ponta do nariz, onde certamente a prancheta também tinha acertado. – De qualquer maneira, eu vou passando por aqui de vez em quando para os relatórios para o teu processo de liberdade, Jellal. E também, qualquer novidade que eu tenha, a respeito de algum local onde procurem alguém para trabalhar, eu aviso-te.
– Obrigado, Loke. – Apertei-lhe a mão, apoiando sempre a Wendy contra o meu peito, com a outra mão. Reparei que a Aries a olhava, preocupada e garanti: – Ela fica bem. Eu encarrego-me disso.
Ela somente acenou e virou-se para as escadas. Contudo assim que fechei a porta, ouvi de novo a prancheta bater contra o corpo do Loke e os queixumes deste.
– Que ideia é essa de me chamares “amor” em frente a toda a gente, Leo?!?
– Au, Aries, isso dói… Não, não me puxes pela orelha, olha o meu brinco, isso aleija. Au!
Um sorriso brincou-me nos lábios, enquanto eu levava de novo a Wendy para a sala, deitando-a de novo nos cobertores onde eu dormia. Eu bem lhe tinha dito que ela iria parecer uma “princesa-zombie” de manhã se ela não adormecesse rápido, na noite anterior. Mas a curiosidade dela suplantou o cansaço e as perguntas prolongaram-se até depois das duas da manhã, altura em que ela se aninhou ao meu peito e ali mesmo fechou os olhos, caindo num sonho de imediato. Acariciei o cabelo dela, após a ter aconchegado no meio dos cobertores e ter posto uma almofada atrás das costas dela, para ela se sentir amparada. Procurei depois a Erza, ao endireitar-me. O barulho da faca a bater violentamente contra a tábua levou-me novamente à cozinha.
– Aquela é que é a tal? – Perguntei, encostando-me ao balcão de braços cruzados, observando cada gesto dela enquanto ela torturava impiedosamente o tomate. Ela somente me acenou e mais uma batida furiosa contra a tabua se fez ouvir. Peguei na metade do tomate que girara para o meu lado, indo para o levar à boca mas ela bateu-me na mão, atirando depois o tomate para dentro do tacho. Disfarcei um sorriso, os reflexos dela e o não gostar de eu comer o que ela estava prestes a cozinhar continuavam iguais. – Ela não me pareceu má de todo, tento em conta as que costumávamos ver, lá no orfanato. E ela parece estar mesmo preocupada com a Wendy. Sem razão para isso, claro.
– Eu odeio-a.
– Acho que ela já percebeu isso. Mas ela pareceu-me inofensiva, as perguntas dela são demasiado directas, dá logo para pensar numa maneira de a enganar e mostrar que somos bons pais, se esse fosse o caso. Antecipei praticamente todas as perguntas dela. Ela nem usa trunfos a favor dela. Além de que me parece que o Loke a tem domada.
– A julgar pelo final, pergunto-me quem é que doma quem… – Murmurou ela, antes de por o tacho ao fundo, com o rosto a ganhar um tom mais ruborizado, devido ao calor do fogão. Olhei-a durante longos minutos, lutando interiormente contra as palavras que me estavam debaixo da língua.
– Erza…
– Diz…
Os olhos dela nunca se viraram na minha direcção, desde aquele leve encontro, quando a Assistente tinha perguntado como ia a nossa situação. Agora, ela parecia procurar desculpas para não ter de me fitar novamente. Avancei um passo para ela, agarrando-a pelo pulso e puxando-a contra o meu peito, levantando-lhe o queixo.
– Olha para mim, caramba!
Ela assim o fez, parecendo que cada molécula do corpo dela tremia, ao sentir-me tão perto. Fitei bem os olhos escuros dela, notando como eles fugiam do encontro com os meus. Explorei-lhe o rosto, memorizando cada pequena alteração, cada curva mais acentuada, cada pedaço de pele, centímetros suaves por debaixo das minhas digitais, ainda no queixo dela. Queria dizer-lhe tudo. Queria dizer que a queria de volta. Queria dizer que queria tentar. Queria dar à Wendy a família que ela merecia. Que nós merecíamos. Mas não o fiz…
Não o fiz porque… Porque o olhar dela, outrora tão fixo, agora fugia do meu. O toque dela fugia do meu. E porque as palavras ecoavam na minha cabeça, referentes ao dia em que ela descobrira de tudo e me proibira de lhe voltar a tocar. Palavras que diziam que eu lhe metia nojo, que nunca deveria ter entrado na vida dela. Palavras que, ainda que ditas com o intuito de proteger mais do que a mim mesmo e à nossa relação, ainda me magoavam. Palavras que eu queria ouvir de novo, da boca dela, mas num sentido contrário. Teria de ser ela a pedir-me para lhe tocar de novo. Teria de ser ela a pedir-me para estar com ela de novo.
– D-Diz, Jellal… – O suave gaguejo dela trouxe-me de volta à realidade. Sentia a mão dela contra o meu peito, tremendo, ansiando para que eu a largasse. Certamente estaria a magoá-la… Soltei-lhe o pulso, devagar.
– Desculpa… Aa… A Wendy perguntou se… Ias trabalhar hoje.
O que quer que ela estivesse à espera de ouvir, não era aquilo. O rosto dela encontrou novamente mais interesse em visualizar o chão, o corpo afastou-se do meu, atarefando-se de novo com os tachos. Quando falou, a voz veio embargada.
– Vou… Tem de ser. – Levou a mão ao peito, como que tentando rebentar o mesmo balão que parecia-me apertar por dentro, inchando no meu peito e não deixando espaço para ar ou sangue circular. – Eu… Eu deixo já tudo preparado e depois vocês, quando quiserem comer, é só servirem-se ou… Se já tiver frio, é só aquecerem de novo e…
O tom dela desvaneceu assim que os meus lábios encontraram a testa dela, coisa que tinha feito num impulso, antes que aquele balão rebentasse e me matasse por dentro. Acariciei-lhe o cabelo e, ainda com os lábios sob a pele dela, murmurei.
– Só não te esforces de mais.
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