Love Behind Betrayal
14 Capítulo 13
Notas iniciais
Via a chuva cair lá fora através das portas de vidro que, inevitavelmente, se abriam e fechavam de par a par, de cada vez que um cliente entrava para comprar alguma coisa. O movimento não estava muito caótico naquela tarde, em parte devido ao mau tempo, pois normalmente a chuva e o frio acabavam por manter mais pessoas em casa do que aquelas que se atreviam a sair por nada que não fosse absolutamente necessário.
Nós, os funcionários dali, simplesmente tínhamos o hábito de passar aqueles dias mais parados a olhar uns para os outros do que a fazer o que quer que fosse e, como tal, era habitual fecharmos o estabelecimento mais cedo para podermos ir abrigar-nos do temporal no quentinho das nossas casas, junto das famílias que nos esperavam. Às vezes, para matar o tempo, optávamos por arrumar os cestinhos das compras que os clientes usavam nos corredores ou limitava-mo-nos a ajeitar alguns dos artigos nas prateleiras de modo a manter uma boa aparência aos olhos do consumidor. Particularmente, eu tinha a faceta de estar sempre ocupada. Mesmo que não houvesse nada para fazer, eu arranjava sempre alguma coisa, nem que fosse estar durante 20 minutos a fio a limpar e re-limpar a minha caixa ou a contar dinheiro. Precisava de manter a cabeça a funcionar. Odiava ficar demasiado tempo a olhar para as paredes.
Normalmente, os turnos eram feitos de uma forma bastante simples. Como éramos umas oito operadoras de caixa, havia o hábito de rodarmos. Duas no turno da manhã, quatro no da tarde – habitualmente aquele que era mais pesado porque havia sempre mais movimento nessa altura do dia – e duas no da noite. E visto que o supermercado fechava sempre no mesmo dia, não existia muito o problema das folgas porque todas aproveitávamos o nosso merecido descanso no mesmo período da semana. Isso era bastante bom, quanto a mim. A Wendy tinha sempre aquele dia em que sabia que eu estaria com ela e vice-versa. E agora, com o Jellal, era perfeito mesmo porque eu podia usar esse dia para passarmos um pouco mais de tempo juntos quando ele não estava a trabalhar.
– Erza, podes vir fazer a minha caixa? – Levantei a cabeça encarando a jovem que se mantinha à minha frente. – Já chamei a Bisca para cá vir mas acho que o Alzack-San precisou dela lá dentro para resolver um assunto na informática.
– Tudo bem.
Sai de onde estava e fui atrás dela até à frente de loja, novamente, depois de largar os artigos de mercearia que estava a repor no corredor respectivo. Inseri os códigos necessários, limitando-me apenas a analisar o ar pesado dela, sem nem mesmo perder tempo a encará-la. Céus, como é que eu já percebia tanto destas coisas?
– Passa-se alguma coisa, Levy-Chan?
Ela pareceu encarar-me com um misto de surpresa no olhar, desviando os olhos depois meio corada, ao perceber que eu havia notado o estado cabisbaixo em que ela se encontrava.
– E-Etto... S-São... São problemas lá na Faculdade. – Explicou ela na sua voz sempre calma e vagarosa. – Vou ter exames na semana que vem e ando uma pilha de nervos porque com o trabalho e as aulas não tenho tido tempo nenhum para estudar.
Tirei o dinheiro da caixa e contei-o rapidamente, colocando-o no saco para levar para o cofre, olhando-a depois de o meter no bolso do avental.
– Escuta... Se precisares de trocar algum turno diz-me. Não tenhas problemas, eu não me importo.
– M-Mas... Mas tu também tens a tua menina, Erza, e já passas muito pouco tempo com ela. Além de que agora o teu marido voltou, e...
– Mais me ajudas. Agora, tenho o Jellal para me ajudar, a Wendy não vai voltar a ficar tanto tempo sozinha. E também não é para sempre, certo? – Sorri-lhe um pouco, tentando dar-lhe alguma confiança. – Tens de pensar um pouco em ti também, Levy. Pensa no teu futuro, luta por ele. Não acabes como eu acabei. Podes ser muito melhor do que isso.
– O-Obrigada, Er-Chan... E-Eu...
– Façam o que fizerem, não olhem para o corredor das bebidas agora.
Olhei para trás, sentindo um braço tocar no meu quando uma voz conhecida se chegou perto do meu ouvido. Mais do que um aviso, aquele tom dela significava que algo se estava a passar e devia ser grave. Até a Levy estranhou, apesar de trabalhar ali há pouco tempo.
– Que se passa, Kana? – Perguntei só, no mesmo tom que ela usara. Os seus olhos castanhos voltaram a olhar na direcção oposta à minha, enquanto ela fingia pegar num pano para limpar a caixa da Levy que já estava mais que brilhante de tanto que ela fizera o mesmo para passar o tempo morto.
– Está cá aquela miúda que a Laki diz que viu a roubar, na semana passada. A aluada que está sempre a falar sozinha.
– A irmã do Gajeel-San? – Questionou a Levy, dessa vez, recebendo da Kana apenas um aceno de cabeça.
– Acham que devemos chamar o Elfman? Ou o Alzack?
– Não é preciso. – Respondi, antes de tirar a quantia que retirara da caixa da Levy e pô-la discretamente dentro do avental da Kana, ao passar ao seu lado. – Leva este dinheiro para o cofre e depois volta aqui para ao pé da miúda. Não a deixes sozinha. Eu vou lá.
– Mas... Erza...
– Eu trato disto, Kana. A sério, não vale a pena chamar ninguém.
– Certo...
Saí da zona da frente de loja e caminhei calmamente em direcção ao corredor das bebidas. Foi fácil encontrar a rapariga, visto que além de o supermercado se encontrar quase deserto, ela sussurrava audivelmente tanto quanto fosse necessário para eu conseguir ouvi-la, a uns passos de distância. Parei na prateleira bem ao lado daquela onde ela estava, fingindo ajeitar as garrafas de vinho já meio remexidas. Olhei, pelo canto do olho, para a malinha que ela trazia a tira colo. Era visível um volume bastante grande que quase nem a deixava manter-se fechada. Quantas coisas é que ela já tinha tirado das prateleiras, desde que chegara ali?
– Olá, Juvia.
– ... e, por isso, Juvia gosta da chuva. Juvia sente-se aliviada perto da chuva, os meninos não atormentam a Juvia porque eles não gostam da chuva. Juvia vai para a chuva. Juvia... – Calou-se ao dar por mim, dirigindo-me um sorriso meigo e perfeitamente conquistador. O mesmo sorriso doce que eu costumava ver nos lábios da minha filha quando queria dar-me conforto.
Não era novidade vê-la ali, ao invés disso, ela passava bastantes horas naquele lugar. Parecia que gostava das pessoas. Parecia que, talvez por ali não se sentir sozinha, gostava de frequentar os corredores daquele supermercado, onde todos os dias podia encontrar gente de todas as idades, que mesmo que a olhasse de lado como sempre acontecia, acabava por fazer-lhe alguma companhia.
Na primeira vez que ela falara comigo, eu notara de imediato os sinais. Tinha conhecido uma menina com o mesmo problema no orfanato onde estivera, e, apesar de ela ter morrido bastante cedo por conta das torturas a que a sujeitavam, eu tivera a oportunidade de chegar a lidar com ela de perto. Chamava-se Angel. Tinha apenas quatro anos quando faleceu. Não sabia ao certo se alguém se lembrava dela, mas eu lembrava-me perfeitamente. E talvez a Millianna se lembrasse tão bem como eu – mas mais por ouvir falar muito dela. Porque a Angel adorava-a. Tinha o hábito de repetir vezes sem conta que desejava subir ao céu como um Anjo e poder ter muitos amigos lá. Escusado será dizer que ela acabou por fazê-lo, embora segundo a minha vontade, cedo demais. Porque eu tinha a certeza que alguém como ela só podia ter ido parar a esse lugar bonito e feliz.
– Vieste dizer olá para a Juvia? Olá...
Devolvi-lhe o sorriso da mesma forma que ela o fez para mim.
– Vieste fazer algum recado ao teu irmão?
– Hai. – Ela acenou, abrindo a malinha e deixando-me ver as coisas todas que tinha lá dentro sem nem sequer pestanejar. Desde cerveja, a fósforos, facas, chocolates, vinho... Eu não fazia ideia para que ele queria algumas das coisas, mas... Outras era bem visível para o que ele lhe dissera para ela as levar para casa. – Juvia fica feliz por poder vir buscar coisas para o Nii-San. Juvia gosta de ajudar o Nii-San. E Juvia queria ver a chuva. O Nii-San disse à Juvia que só a deixava sair de casa para ver a chuva se a Juvia viesse ao supermercado e enchesse a mala com estas coisas. Por isso, Juvia veio.
Acenei, apenas. Sentia-me capaz de estrafegar o irmão dela se o tivesse à minha frente. Como é que alguém conseguia fazer uma coisa daquelas com uma criança? Afinal, que idade tinha ela? Não mais que doze anos, pelo menos. No máximo, ela devia ter uns treze, a idade com que a minha Lucy estava agora. E aquele irmão, que segundo eu sabia, passava os dias em casa a injectar-se e a beber, que batia nela e a tratava como uma criada dele, ainda tinha a lata de a obrigar a vir roubar coisas ao supermercado? Com que direito ele se achava para poder fazer uma coisa daquelas?
– Juvia, eu gostava de falar com o teu irmão, sabes, ele podia...?
– Juvia ia já embora. – Disse ela, fechando a malinha e voltando a olhar para mim uma vez mais. – Juvia estava só à procura de mais uma garrafa do vinho que o Nii-San gosta e depois ia. Juvia sabe que vocês querem fechar. Juvia não quer incomodar mais. Agora, Juvia só quer ir ver a chuva. Sentir a chuva. Porque Juvia gosta da chuva.
Estanquei durante um bocado, olhando-a fixamente depois. Via pelos olhos dela os meus meio marejados porque podia perceber o quanto ela desejava sair dali, estar livre. Mas enquanto ela continuasse presa àquele animal do irmão, nunca seria possível que ela o fizesse. Só que... Doía-me não poder fazer nada para ajudar. Quando fui ter com ela, a minha ideia era resolver tudo a bem, pedir para falar com o irmão dela e, se fosse preciso, fazer queixa dele para que ela ficasse em paz por ele ser preso. No entanto... Agora que pensava bem no assunto... Desde quando meter a polícia nestes assuntos costumava ajudar alguém? E eu não podia fazer essa escolha por ela. Não podia tirar-lhe a única pessoa que ela tinha. Não enquanto ela não tivesse um lugar melhor para onde ir.
– Juvia gosta dos teus olhos, sabes? – Encarei-a com um ar surpreso devido àquele comentário. – Juvia acha que são bonitos. Mas são tristes. A Okaa-San da Juvia também tinha olhos tristes. Mas muito bonitos como os teus. Juvia gosta deles. São ainda mais bonitos do que a chuva que a Juvia ama tanto.
– T-Tristes?
– Hai. – Ela acenou. – Quando Juvia te viu pela primeira vez, Juvia notou que tinhas muita tristeza guardada no coração. Agora pareces mais feliz, Juvia também percebeu isso. Mas continuas triste com alguma coisa, é o que os teus olhos dizem a Juvia.
– E-Eu...
– Juvia vai andando. Juvia agradece teres falado com ela. Juvia ficou feliz. Obrigada.
Aproximou-se o suficiente para me beijar na cara e saiu depois, novamente, de perto de mim. Notei os seus passos calmos enquanto ela se dirigia às caixas, pelas quais passou sem olhar para trás, apesar dos olhares que a Kana e a Levy lhe dirigiram, em choque.
Suspirei antes de me encaminhar também para o mesmo sítio, tentando ainda aguentar as lágrimas. Como é que, por momentos, aquela menina inocente me fez ter uma parte do meu passado bem à minha frente, sem sequer ter noção disso?
Angel...
– Porque é que a deixaste ir embora, Erza? – Ouvi a voz da Kana, meio que distante ainda, sem levantar a cabeça para encará-la assim que me sentei na minha caixa.
Porquê?
– Er-Chan...? – Tentou a Levy.
– Se a Bisca souber disto, vais ter sari...
– Eu falo com a Bisca. Eu resolvo o assunto. – Vi a porta abrir-se, deixando que uma boa dose de pessoas entrasse, visto que ao certo só tinham saído àquela hora dos seus empregos e precisavam de fazer umas compras de última hora para o jantar, como era hábito em alguns dias. – Agora, é melhor irem para as vossas caixas, os clientes estão a começar a aparecer outra vez.
***
Estava a acabar de fazer o jantar, numa derradeira corrida contra o tempo. O Jellal e a Wendy deviam estar a chegar, já estava perto da hora em que eles habitualmente entravam em casa e eu, visto que tinha saído um pouco mais tarde naquele dia, tinha de agora fazer tudo a correr para ter a comida pronta e na mesa quando eles chegassem.
O rádio tocava uma música calma na bancada da cozinha, coisa que mal ou bem ia servindo para me ajudar a relaxar um pouco, apesar da correria em que me encontrava. A maioria das coisas já estavam prontas, era só acabar de temperar a carne e começar a pô-la ao lume para acompanhar com o arroz, que já adiantara.
Ouvi bater à porta, tirando um pano para limpar as mãos e precipitei-me para lá. Deviam ser eles. Talvez o Jellal se tivesse esquecido da chave.
– Então, hoje apeteceu-vos fazer-me de...?
Parei de repente a encarar o homem que tinha à minha frente. Há meses que não lhe punha a vista em cima. Na verdade... Já quase me esquecera que ele existia. Se não tivesse as marcas dos cortes que fizera no meu corpo e o Jellal nao tivesse passado tanto tempo preso e longe de mim por culpa dele, quase que eu poderia eventualmente pensar que a sua passagem na minha vida tinha só sido mais um dos meus pesadelos.
– Estavas à espera de outra pessoa que não eu? – Encostou-se à porta, fazendo-me automaticamente recuar, engolindo em seco em parte pelo medo que sentia naquele momento. Ele já sabia que o Jellal estava de volta. Era isso, não era? Ele sabia e, agora, vinha cobrar o favor que tinha a certeza que eu achava que ele me tinha finalmente feito.
Não.
– V-Vai-te embora...
– Já reparei que a Wendy não está cá... – Disse ele, encarando-me por momentos, deixando os olhos vaguearem depois pelo meu decote abaixo, como se quisesse ver por dentro da minha camisola. – Isso parece-me bom. Podes gritar à vontade como eu gosto que faças.
– Sai daqui, Erik! – Gritei assustada, tentando sair do alcance dele antes de ser presa pela mão com que ele me agarrou no braço e me puxou para ele. A sua voz soava nojenta ao meu ouvido e a respiração perto da minha cara dava-me náuseas.
Eu... Só queria...
Vomitar...
– Tens um pagamento em atraso, lembras-te? – Sussurrou ao meu ouvido antes de mordê-lo com força. Estremeci, ainda a tentar soltar-me das pesadas mãos que ele exercia sobre as minhas coxas enquanto nos encostava mais um ao outro.
Aquele... Cheiro...
Não...
Não de novo...
– Larga-me. Por favor, larga-me... – Tentei empurrá-lo de novo. – Eu imploro-te... Isso não...
– A única coisa pela qual tens de implorar é para eu te rebentar toda! – Estremeci quando ele me gritou aos ouvidos empurrando-me na direcção do sofá da sala e caindo pesadamente em cima de mim, massajando-me o sexo antes de tirar-me as calças, depois de rasgar-me a blusa.
– Não vou implorar nada. Nunca. Deixa-me!
Contorci-me para tentar fazê-lo afastar-se de mim. Nada. Tentei mexer o joelho para o parar, faria qualquer coisa para que ele parasse. Eu não queria aquilo de novo. Eu amava o Jellal. Por favor. Porque é que ele não chegava? Por favor.
– QUERES QUE VOLTE A PÔ-LO NA CHOÇA?!
Parei de repente ao ouvir aquelas palavras. Deixei-me chorar só quando ele me prendeu os pulsos contra a almofada do sofá, exercendo toda a força sobre eles e pondo o corpo sobre o meu.
– Bem me parecia, minha linda. Agora... Trata de me fazer um serviço bem feito. Isto, se queres garantir que ele continua de boa saúde.
Só tremi mais quando ele afundou a boca no meu pescoço, mordendo-o com força. O meu peito doía tanto. Tanto. Eu só queria... Que ele parasse. Só queria ter paz. Só queria que ele me deixasse em paz.
Tu nunca vais ter paz, Erza. Os monstros que me assombravam desde pequena diziam-me essas palavras frequentemente. Não pareciam estar errados. Porque os fantasmas tinham voltado para me assombrar, apesar de já ter passado tanto tempo.
Fechei os olhos, deixando as lágrimas caírem. Não me iria servir de nada implorar. Uma vez mais, ninguém iria ouvir-me.
– És minha, ruiva. Vou foder-te tanto que nem te vais conseguir sentar depois.
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