Love Behind Betrayal
17 Capítulo 16
Notas iniciais
Tinha passado uma semana desde que o Jellal me levara a mim e à Wendy ao orfanato para visitá-los. Há anos que não lhes punha a vista em cima, que não os abraçava nem os deixava experimentar um pouco do meu carinho ao lançarem-se para o meu colo. A maioria deles já me era impossível de pegar mas eu podia acarinhá-los, mesmo assim. A maioria estava tão diferente do que tinha sido em outros tempos. E a maioria ainda se recordava muito bem de nós. O que, absolutamente, me deixava feliz.
No final da dita visita, conversámos com Laxus e Mirajane em seguida sobre uma pequena ideia que a própria Wendy havia tido. Ao que parecia, ela tinha-se dado tão bem com a Millianna e tinham passado tanto tempo a brincar que resolveu pedir autorização aos donos do orfanato para que ela fosse passar um fim-de-semana connosco lá a casa. Desejoso de lhe perscrutar mais aquele brilhozinho nos olhos que eles adquiriam de cada vez que se lhe fazia uma vontade, óbvio que o Jellal acedeu de imediato. Eu, está claro, também não me opus. Mas o problema veio a seguir: O Natsu ouviu perfeitamente o que falámos com Mirajane e o seu marido e, numa correria, agarrou-se às minhas pernas a pedir para vir também. Atrás dele, a Lucy fez o mesmo, numa súplica ardente, os olhinhos a implorarem para que não a deixasse de fora. Muito calado, o Gray seguiu-se-lhes, sem fazer um único pedido. De braços cruzados, limitou-se a ficar atrás deles, os olhos penetrantes fixos na figura da actual dona do orfanato também numa chamada de atenção silenciosa. Laxus ainda levantou algumas ondas, mas Mirajane acabou por domá-lo. Ao que parecia, o Jellal tinha razão, nós éramos meio que parecidas no que tocava a convencer os homens à boa maneira da chapada quando algo não nos agradava. Ri-me ao recordar essa sua insinuação.
A Wendy tinha trabalhado como uma louca a ajudar-me a limpar a casa de alto a baixo e preparar todos os sacos-cama para eles, naquela sexta-feira de manhã. Dispôs todos eles no seu quarto, em fila, fazendo questão de que a Milliana dormisse na cama dela por ser a mais pequenina de todas as nossas visitas. Quando lhe contrapus a ideia com “Mas tu é que és a mais nova”, ela limitou-se a responder “Mas não tás a pensar que vou deixar as visitas dormirem no chão para eu ficar na cama, pois não, mamã?”. E eu desisti, acabando por deixá-la vencer daquela vez. Depois ajudou-me a fazer o lanche – o nosso habitual bolo de morango – e, antes de eu sair para o trabalho, garantiu-me que estaria no supermercado para me ir buscar com o Jellal e todos eles há hora de acabar o meu expediente. Só consegui envergar um sorriso no rosto perante essa ideia, ao longo de todo o dia.
As coisas correram como num dia de trabalho normal, naquela que era a única superfície comercial da zona. Muita clientela de manhã, um ritmo mais calmo a seguir ao almoço, o movimento mais acentuado a partir do meio da tarde. Nada muito pouco usual.
Aproveitei a decadência de clientes que se dera a partir das 14h da tarde e prestara-me a ajudar a Bisca com umas contas na Informática. Tínhamos tratado de todas as encomendas dos stocks da semana e começáramos a rever as coisas para o dia do inventário. Quando a minha cabeça se começou a queixar de dores extasiantes por fazer tanta conta de cabeça, consegui finalmente sair daquele cúbiculo para voltar ao meu serviço. Eram quase 17h.
Pus-me à caixa, conversando com a Levy de vez em quando, aproveitando para lhe perguntar como estavam a correr as coisas na Faculdade. Ela tivera algumas dificuldades na primeira fase dos exames, tinha chumbado em pelo menos 2 cadeiras. Mas já estava a estudar para ir à segunda fase, apesar da pouca confiança nos bons resultados. Eu, para mim, sabia que ela iria conseguir. Era uma miúda inteligente o bastante para isso, sabia que ela se iria dar bem e terminar o Curso com bastante mérito.
– Às vezes não percebo como consegues pensar assim, Er-Chan... – Disse-me ela, fazendo o mesmo que eu havia feito, e aproveitando para arrumar umas coisas na caixa enquanto não tinha clientes para atender. – Juro que já tentei manter-me em altas apesar disto tudo mas estes stresses deitam-me mais vezes abaixo do que aquelas que eu acho que consigo aguentar.
– É uma questão de tentares sempre pensar positivo. – Expliquei, com um encolher de ombros, acabando uma conta de um cliente e desejando-lhe uma boa tarde depois de receber o dinheiro e ajudá-lo a arrumar as compras nos sacos respectivos. – Pensa o seguinte: Pensar negativo dá o mesmo trabalho que pensar positivo. Por isso, mais vale optares pela última opção.
Ela suspirou, olhando para mim como se tivesse engolido qualquer coisa que tivesse para ripostar e corou. Desviou os olhos de novo.
– Sim, tens razão... – Confessou. A sua atenção voltou-se depois para a entrada do supermercado. – Ohh, meu...
– O que é?
Segui a direcção que ela encarava com os meus olhos também. Mais de metade das pessoas que rodeavam aquela zona estavam de olhos postos naquela cena. Ouviam-se uns gritos cá fora. As figuras do Elfman e do Alzack passaram por nós a passo apressado, ambos precipitando-se para o exterior das portas de vidro. A Kana veio atrás, seguida da Bisca, que deu instruções à Laki para ficar a controlar as coisas e à Levy para ficar na caixa a atender os clientes, caso aparecesse algum. Resolvi segui-las.
Tudo o que se passava lá fora era demasiado rápido para se perceber. Ao sair, notei que dois indivíduos estavam à pancada, um deles já o Elfman tinha conseguido agarrar, apesar de ele esbravejar por tudo o quanto era lado. Com a cara quase feita num bolo, o outro sujeito ainda o provocava, gritando, a plenos pulmões, coisas que muito pouca gente deve ter percebido, numa língua estrangeira. Seria... Alemão, talvez?
Ainda tentei prestar atenção ao que seria mas rapidamente os meus olhos se destinaram a outro foco. Uma miúda de uns cerca de 13 anos, meio aluada e que debitava palavras sozinha a um canto da multidão. Às vezes, ela fixava-se no rapaz que o Elfman tinha agarrado e levava as mãos aos cabelos como se estivesse a debater-se com alguma coisa. Não me detive no meu lugar e procurei-a, abrindo espaço entre aquele magote de pessoas que se ia juntando, cada vez mais, à medida que a briga se acentuava mais feia ali à porta do supermercado, apesar dos esforços continuos do Alzack e do Elfman para acalmar as coisas.
– Juvia...
– ... por isso é que o Nii-San disse para a Juvia ir... O Nii-San sabe o que é melhor para a Juvia.. Nii-San... Ele sabe...
– Juvia, o que se passa? – Perguntei, abraçando-a de imediato contra o meu peito sem esperar que fosse ela a procurar-me. – Não devias estar aqui. Isto está uma confusão, linda...
– NÃO A VAIS LEVAR, CABRÃO DO CARALHO! – Ouvi o tipo que o Elfman tinha agarrado anteriormente gritar, os olhos cheios de raiva, enquanto ainda se debatia. Já o Alzack se pusera a tentar barrar-lhe a passagem também, caso contrário, ele já teria mandado o Elfman pelos ares e se teria escapado para cima do outro, novamente. – EU PRECISO DELA, PERCEBES? PRECISO DELA!
Notei que o braço da Juvia se esticava na direcção do rapaz, o dedo indicador apontando para ele quase numa súplica sôfrega. Acho que só com isso consegui notar que...
– N-... Nii-San...
... Aquele é que era o irmão dela?
– Juvia... Juvia calma, o que... O que se passou? – Tentei perguntar. As minhas mãos ainda lhe acariciavam os cabelos, numa tentativa que eu sabia ser vã de que ela me explicasse por que motivo as coisas tinham chegado a toda aquela confusão. Como se eu não soubesse o que aquele desgraçado fazia. Como se ninguém ali soubesse das coisas que ele a forçava a fazer e de que ele a maltratava quando consumia aquelas merdas. Como se... Agora que pensava nisso, porque é que era ela que era condenada por toda a gente, afinal? Porque é que era àquela criança que as pessoas catalogavam, porque é que era dela de quem elas fugiam quando... Tudo o que ela era obrigada a fazer só o fazia porque pensava que era a única forma de o traste do irmão gostar dela? Porque é que a porcaria do mundo era tão cruel a esse ponto?
– Erza?!
Levantei a cabeça, reconhecendo a voz dele entre os barulhos daquela gente.
– Jellal...
– O que é que se passou aqui, que confusão é esta?
Não larguei a Juvia. Aos poucos, fui percebendo o olhar da Wendy preso em nós, interrogando-se ao certo, tal como o pai, o que estaria a acontecer. Notei que ela dera a mão à Millianna, ouvindo-a falar sobre qualquer coisa acerca do assunto “gatos”, ao certo para tentar distraí-la. A minha menina valente... O Natsu fizera o mesmo, dando a mão à Lucy, que não se afastava da protecção das costas do Jellal. O Gray encarava a briga que ainda decorria entre os homens, fixamente.
Passou pouco tempo até um carro patrulha parar a uns metros dali e os dois agentes que vinham nele se impulsionarem para o local, acabando por aquela algazarra perder um pouco do impacto quando as pessoas começaram a desertar. Poucos foram os que ficaram, já um dos dois homens tinha algemado o que parecia ser alemão e o levado para o carro, o outro fazendo o mesmo com o irmão de Juvia, enquanto ele ainda esperneava para se soltar.
– ... QUE NÃO TENHO NADA A VER COM ISTO! A CULPA FOI DELE! O CANALHA QUERIA LEVÁ-LA! ELE NÃO VAI LEVÁ-LA, LARGUEM-ME!
– Nii-San...! – A mão dela continuava estendida na sua direcção, o impacto dos gritos dele fazendo-a dar um tudo por tudo para se soltar dos meus braços. Eu não a queria deixar ir. Ela não podia. Sendo o irmão o único parente vivo, sabia bem o destino que ela teria se a polícia desse pela sua existência. E eu não podia deixar... Ela não iria sobreviver num lugar daqueles. Tal como tinha acontecido à Angel.
Percebi depois uma mão a pegar na dela, a figura do seu dono colocando-se à sua frente, os olhos procurando os seus um pouco, antes de a fitarem, sérios. Estava tão atordoada que demorei uns segundos a reconhecer a quem tudo pertencia. A expressão delíneada e dura, o olhar frio mas tão característico e aconchegante ao mesmo tempo. Gray...
– Ei... Escuta... – Limitou-se a dizer, quase que a obrigando a encará-lo mas sem nunca lhe tocar bruscamente, fazendo-o apenas com o uso de palavras. – Já passou. Vai ficar tudo bem. Okay?
Olhei deles para o Jellal depois, soltando um pouco a Juvia meio a medo, apesar de ainda recear que ela fugisse dali se eu me distraísse. Mas... Não me parecia que o Gray a fosse deixar fazê-lo. A segurança que os olhos dele pareciam dar-lhe era tudo menos despercebida aos meus para que não pudesse confiar-lhe essa tarefa.
– J-Juvia tem medo... O... O N-Nii-San...
– O Gray está aqui. – Garantiu-lhe antes de abraçá-la contra o seu peito, a mão largando a sua para lhe acariciar os cabelos como eu fazia anteriormente, tentando acalmar-lhe o medo e secar-lhe as lágrimas. – O Gray não vai deixar a Juvia sozinha. O Gray promete-lhe isso. Está bem?
***
– Eu apenas quero garantir que a Juvia ficará em boas mãos, penso que me está a perceber.
– E eu tenho a certeza que ela ficará bem ali. Já liguei para a dona do orfanato e ela responsabiliza-se inteiramente pela estadia da Juvia. É uma questão de se tratar dos papéis necessários e acredite que só a chamámos aqui porque tem de ser dado o avalo de uma Assistente Social para que a Juvia possa estar legalizada na instituição.
– Está a dizer que, caso isso não fosse estritamente necessário e requisitado por Lei, pensaria em não comunicar a situação da criança, Sr Fernandes?
– Pense o que quiser.
Aquela discussão durava há horas. Já perder a conta às vezes que o Jellal dissera as mesmas palavras à medida que os ataques dela continuavam, parecendo a todo e qualquer custo, achar um mote para voltar a pegar no assunto “Wendy” enquanto falava com ele. Eu sabia que ela tinha ficado engasgada da última vez, ela fizera tudo para me tirar a minha filha mas o facto de usar este caso para puxar a brasa à sardinha do que ela defendia num caso anterior conseguia acabar com a paciência a qualquer um. E eu nunca fora exatamente uma pessoa paciente.
Não que, em certo ponto e por muito que me custasse a admitir, eu não achasse que ela tinha razão. As instituições deveriam todas ser inspeccionadas para receber uma criança lá, as condições, os profissionais, tudo deveria ser muito bem estudado. Eu própria pensava dessa forma. Mas, naquele caso em especial, até eu tinha admitido mudar de opinião e, apesar de estar apreensiva ao início em deixar a Juvia ir, o Jellal tinha-me coneguido fazer admitir que eu até concordava que ela estaria bem melhor ali do que entregue ao irmão ou na rua, como ficaria depois de ele ter sido preso.
– Já se soube o que aconteceu afinal?
– O Leo ligou-me à coisa de uma hora – Ouvi-a contar, um suspiro patente na voz que ela tentava que se preservasse o mais séria possível sempre que falava. – Parece que... O desgraçado do irmão dela se meteu em coisas mais perigosas do que se pensava. Segundo o que o homem alemão disse, ele tentou vender a irmã como forma de saldar uma dívida que tinha com um grupo de agiotas que lhe emprestavam dinheiro para adquirir a droga. Só que ele jura a pés juntos que estava pedrado quando fez esse acordo, mas chegou inclusivé a assinar um papel em como concordava com o negócio. Quando o alemão tentou vir buscá-la para a levar, óbvio que ele a tentou fazer ficar.
– Imagino para quê. – Disse simplesmente, os meus punhos cerrados sobre a mesa, seguindo o choque que se espalhava no meu rosto à medida que ouvia cada palavra dela.
– Espero que... Ele fique preso durante um bom tempo. – Limitou-se Aries a dizer, encarando a direcção onde o Gray ainda acariciava os cabelos da pequena Juvia, em silêncio. Olhei-a também e senti Jellal fazer o mesmo ao meu lado. Sabia bem até que ponto o seu coraçãozinho poderia estar a sofrer, a sua cabeça podia estar longe dali, ao certo por não compreender ainda bem como poderiam existir pessoas tão cruéis ao ponto de a fazerem passar pelo que faziam. Sabia que ela iria demorar a superar e que, mesmo estando em boas mãos, iria com certeza sentir a falta do desgraçado do irmão a cada dia, por muito mal que ele lhe tivesse feito. Mas... Felizmente, também sabia que ali ela não ficaria mais sozinha. Que teria sempre alguém a olhar por ela em cada momento. Conseguia perceber isso quando via a forma como o Gray a protegia. Quando notava como a Lucy era querida com ela, como a Millianna e a Wendy haviam adormecido do seu lado, ou como o Natsu tinha passado o tempo a fazer palhaçadas para tentar que ela se risse, desde que havíamos chegado a casa. Eles eram crianças. Crianças diferentes das outras. Crianças com um passado cheio de dor. Isso fazia com que fosse bastante mais fácil para elas perceberem a dor de quem se lhes achavam semelhante.
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