Notas iniciais
Cena mais ou menos forte.

Não havia ninguém no corredor naquele instante; todos conversavam com o público fora do Kaleido. Por ainda estar um tanto irritada com a situação, Layla preferiu não se juntar a todos naquele minuto. Iria assim que se trocasse e respirasse fundo, para voltar à calmaria e não deixar a raiva transparecer aos fãs.

\"Foi uma ótima peça...\", pensou, enquanto caminhava em direção ao seu camarim. Ouviu um barulho no corredor onde estava, mas como todos estavam fora do Kaleido, achou que era sua imaginação.

Ao entrar no seu camarim, mal havia acendido a luz, quando alguém a forçou contra a parede, colocando todo o seu peso sobre ela. A porta se fechou e a única luz que entrava na sala era a da Lua e a de alguns carros que passavam lá fora.

Layla tentou gritar, mas taparam sua boca antes que pudesse fazê-lo.

- Sou eu... — disse o homem. A voz estava um tanto distorcida, mas Layla pôde ter uma noção de quem era. Somente quando parou de tentar se soltar, ele destapou sua boca.

- Leon...? — perguntou Layla em um sussurro, assustada. Um carro passou na rua e iluminou o rosto dele. Agora ela tinha certeza. De assustada, passou a irritada. — Onde você esteve?! Se não fosse pela Anna, teríamos de cancelar a peça de hoje! O que...?

- Acalme-se... — interrompeu ele, um tanto frio. Layla tentou se soltar novamente, mas foi em vão.

- O que quer? Por que está me prendendo aqui?! Estão me esperando lá fora, sabia? Não costumo atrasar os outros, como um certo alguém, presente nesta sala!

- Sentiu a minha falta...? — disse ele logo em seguida, sempre em tons baixos na voz. Parecia nem ter ouvido o que ela disse.

- O quê? Do que está falando?!

- ... Por isso está tão irritada... — ele concluiu. Layla sentiu um cheiro terrível de bebida vindo dele.

- Você... Está bêbado, Leon? — disse ela, um tanto mais baixo, assustando-se um pouco mais.

- Se eu estou... É por sua causa... — disse ele, cada vez mais frio.

- Minha causa? — disse Layla, em tom de deboche e ironia. — É, realmente, deve estar mesmo. Não está falando coisa com coisa! Agora, posso ir embora, já que não tem nada de útil para me dizer, a não ser piadas infames?

Leon esticou a mão esquerda para o lado, pegando a taça cheia de whisky e trazendo-a para si. Layla percebeu que parte de sua mesa de maquiagens e parte do chão estava inundado com a mesma bebida. Isso mostrava as tentativas de Leon quando se tratou de encher a taça, alguns minutos antes dela chegar até ali, e errar a quantidade que cabia de bebida na mesma.

- Você queria ser aceita... E está se saindo perfeitamente bem — disse ele, em um tom baixo, com um leve sorriso no rosto.

- Por algum acaso você sabe a diferença entre parceiros de palco e parceiros amorosos?! — disse ela, indignada, já entendendo o que ele queria.

- Beba... — Leon disse, interrompendo um assunto e começando outro, oferecendo a taça. Layla virou a cara.

- Leon, em primeiro lugar, eu não bebo. Em segundo, não tenho motivo nenhum para fazer isso agora, muito menos na companhia em que estou, se quer saber. — Layla respondeu, em um tom mais seco e autoritário — agora, me solt...

- Tem um motivo sim — Leon interrompeu — Nós.

Layla o olhou estranho. A luz batia em seu rosto, mas o contrário não era verdadeiro. Ela em si, não podia ver a expressão de Leon.

- NÓS? Você só pode estar brincando, Oswald. Não existe \"nós\"!

- Não existe... Ainda. Mas você não vai se arrepender... Agora, beba. — Leon ofereceu mais uma vez a taça. Layla se irritou.

- Não vou beber coisa alguma! Solte-me!

- Beba!

- SOLTE-ME!

Ambos se encararam. Outro carro passou na rua e Layla pôde ver o olhar de Leon. De irritada, passou a aterrorizada. Nunca vira um olhar tão perfurador e ruim em toda a sua vida. Tentou se soltar mais uma vez, mas Leon forçou ainda mais.

- NÃO!! Deixe-me ir embora, Leon! Leon!! — Layla relutava a taça, até que ele conseguiu fazê-la beber. Em apenas um gole, a taça (uma de prova, que são maiores) havia se esvaziado até à metade. Layla tossiu na segunda dose que ele deu a ela. A garganta arranhava e a cabeça já doía. Não estava acostumada a beber, quanto mais aquela quantidade. Leon a soltou um pouco e deixou-a recuperar o fôlego.

- Seu... — Layla começou a falar alguma coisa, mas pôs a mão na cabeça e encostou-se na parede. Irritou-se novamente — Você me paga!!

- Não... Você que ainda me deve uma coisa — disse ele, deixando a taça na mesa e puxando-a para um beijo. O mais culpado e impetuoso beijo que poderia ter existido entre os dois.

Layla o empurrou com toda a força que conseguiu juntar naquele momento, fazendo-o apenas andar alguns passos para trás. Logo em seguida, desferiu um tapa extremamente forte em Leon, o que o fez cambalear para o lado e se apoiar na mesa mais próxima. Apesar disso, sorria.

- Seu... Cretino! Covarde!! — berrou Layla, apoiando-se na parede para não cair.

- Um covarde que você ama... — comentou ele, ainda sorrindo.

- Idiota! Você é um monstro!! Eu nunca vou amar alguém como você! Eu amo Yuri! YURI! Entendeu?!

O sorriso de Leon sumiu. Ele a fitou por um momento de onde estava, finalmente pensando se aquela teria sido a pior resposta que Layla poderia tê-lo dado.

- Nunca mais... Chegue perto de mim novamente. NUNCA MAIS! — Layla saiu correndo para fora do camarim, andando do jeito que pôde, tropeçando um pouco.

Leon, com seus sentidos voltando ao normal, pegou a garrafa e a taça, saiu do camarim e seguiu rumo à qualquer outro lugar do Kaleido onde não pudessem encontrá-lo. Além da angústia, um grande ódio e determinação crescia dentro dele.