Notas iniciais
E, chegamos ao fim... peguem seus lencinhos... e aproveitem! -q

A jovem mulher estava confortavelmente instalada em seu ateliê, sentada em uma cadeira de madeira e vislumbrando o jardim que ficara além das paredes de vidro. Ela gostava da luminosidade e da sensação de liberdade que tinha ali dentro, era seu espaço, o recanto perfeito, onde só entrava quem ela queria e quando queria. As outras paredes do cômodo também eram transparentes, com exceção da que continha uma porta, a qual levava ao resto da casa.

Haviam muitos quadros espalhados por essa parede, em especial uma pintura de grandes proporções, onde era retratada uma cena interessante. Em uma ponta do quadro estava uma guerreira, com sua meia armadura e os cabelos cortados à chanel, segurando um florete em frente ao corpo, cravado no chão. Na outra, um mago de cabelos esverdeados era rodeado por cartas que pareciam girar de verdade, tão perfeito era o traço da pintura. Havia também um homem cujos cabelos começavam a ficar grisalhos, com um chapéu de explorador sobre a cabeça. Mais para trás, abriam-se várias paisagens distintas, como se fosse a mistura de inúmeros lugares: uma macieira em uma colina, um rio multicolorido, peixes voadores, relógios suspensos no ar e terras negras.

A donzela mantinha as pernas trançadas, enquanto tomava uma xícara de chá, muitas telas em branco organizadas atrás dela, assim como uma palheta de tintas. Se estava tirando uma folga em meio ao seu “trabalho” não era possível saber, seus olhos vermelhos eram sonhadores mesmo quando não estava pintando. O vestido branco que usava era comportado… justo até a cintura e então abria-se até chegar nos joelhos, o decote formato taça todo trabalhado em renda. Sapatilhas da mesma cor protegiam seus pés, e um palito de madeira era usado para prender os longos cabelos loiro prateados em um coque.

Estava tão distraída que mal notara um vulto parado atrás do portão branco, única passagem por entre as altas grades da mesma coloração, cobertas com hera, que cercavam seu amado jardim. Foi quando ela tomou outro gole do chá, movimentando a cabeça no processo, que vislumbrou a visitante. Franziu o cenho logo em seguida.

Havia algo de exótico nela, com seus aparentes dezesseis anos e sorriso juvenil, os cabelos dourados presos em um rabo de cavalo que pendia para o lado esquerdo da cabeça. Os olhos eram de um azul plácido, como o oceano sob o sol, e ela vestia-se como um marinheiro – ou como uma transformação de Sailor Moon. O que mais surpreendeu a anfitriã, no entanto, foi a maneira que a desconhecida chamou-a… um título que não ouvia a anos e que, sabia muito bem, ninguém utilizava naquele mundo.

— Louise dos Cabelos de Ouro e Prata… é você, certo? — a moça tirou algo similar a um pirulito de dentro da boca para falar. — Podemos conversar?

— Quem é você? — Louise ergueu-se, deixando a xícara na mesinha ao lado e saindo do aposento em direção ao jardim. Não estava preocupada, mas sim curiosa. Quando abriu o delicado portão, a outra pulou para dentro rapidamente, elevando a mão a testa numa típica saudação do exército.

— Eu? Eu não sou muito importante, mas bem… você pode me chamar de Sibelly.

— Sibelly… eu realmente não lembro de conhecê-la. — passaram-se sete anos desde que a mulher passara pelo acidente que acarretaria em sua viagem não programada para o Mundo dos Sonhos. Suas lembranças daqueles dias eram privilegiadas, com riqueza de detalhes, enquanto os sonhos que passou a ter depois da experiência nunca fossem completamente lembrados. Por essa mesma razão, ela poderia jurar que nunca vira tal figura peculiar antes. — Eu deveria?

— Ah, não, não! — ela abriu as mãos, balançando-as rapidamente, depois recolocando o doce na boca. A partir daí sua fala fora um pouco prejudicada, mas, ainda assim, compreensível. — Nunca nos vimos antes. Imagino que, se tudo tivesse ocorrido como o previsto…

— De que está falando? — Interrompeu Louise, sem entender muito daquela situação.

— Hum… Eu realmente não sirvo pra isso, Mizori vai me matar! — Sibelly tocou o indicador contra a têmpora esquerda, demonstrando certo nervosismo. No minuto seguinte estava respirando profundamente, voltando a observar a mulher. — Veja bem… hum, você deve ter sido informada em algum momento que quando sofreu seu acidente de anos atrás, deveria ter sido transportada para um certo lugar

Os olhos de Louise se arregalaram e ela mais do que depressa segurou a mão da visitante, puxando-a pela entrada de seu ateliê e passando pela porta que dava aos cômodos adjacentes. Quando teve certeza de que ninguém poderia ouvir a conversa – preocupação demasiada, já que ninguém morava com ela e apenas seus pais vinham vê-la de tempos em tempos – soltou a mocinha, fazendo um gesto educado em direção ao sofá da sala em que acabavam de entrar.

Sua companheira estava um pouco surpresa com a atitude tomada de maneira tão drástica, mas nada reclamou, e deixou-se cair sentada na peça de mobília, observando com atenção enquanto Louise andava de um lado para o outro a sua frente. — Depois de todos esses anos… você aparece trazendo esse assunto à tona mais uma vez! O que você é, uma emissária do Reino Onírico ou algo parecido?

— Haha. — ela riu, a ideia parecia diverti-la. — Não, não tenho nada a ver com aquele pessoal. Mas eu sou uma emissária, nisso você acertou!

— Uma emissária de onde!?

— De um lugar bastante interessante, que gostam de chamar de Acampamento Místico.

— Um acampamento? — a estupefação da mulher tornou-se visível. Por que ela ia querer acampar? Até fizera tal atividade com a companhia dos pais de vez em quando, mas tinha tempo. Não via como uma coisa se conectava à outra. — Com… fogueiras, barracas…?

— Oh, esqueça disso por hora, é irrelevante. — Sibelly agitou as mãos no ar novamente. — O fato é que sabemos que você foi desviada de seu rumo por causa da Grande Interferência. Ela afetou muitas pessoas de formas diferentes, mas seu caso foi bastante interessante. Quero dizer… uma alma presa no Reino dos Sonhos? Isso é tão legal! Eu sempre quis ir para lá, mas Mizori nunca deixou. — mais uma vez ela mencionava aquele nome… seria alguma amiga ou parente? — Estou me desviando outra vez do assunto…

— Um pouco… pode continuar?

— Claro, claro. Enfim, precisamos de algum tempo para reverter os danos causados pelo Desiquilíbrio, e quando terminamos você estava fazendo sua carreira como artista, Mizori decidiu não intrometer-se no assunto. No entanto, ela acredita… nós acreditamos que você pode desenvolver poderes novamente quando retornar a um mundo com mais afinidade à magia.

— Poderes… — uma pessoa normal a essas horas ligaria para a polícia, afirmando que havia uma louca em sua casa, mas Louise era diferente. Em primeiro lugar, seus pais sempre a advertiram que a raça a qual pertenciam, outrora fora capaz de criar magias poderosas. Em segundo, a lembrança do que pudera fazer no Mundo dos Sonhos ainda estava viva em sua mente. — Como fazer coisas surgirem do nada?

— Não tenho certeza de como funcionará, já que não estará separada do seu corpo se aceitar nosso convite. Não sei como eles surgiam no Sonhar, mas é bem possível que seja diferente para onde nós vamos…

— Eu… eu estou sendo convidada? Para esse tal de acampamento?

— Exatamente. Para o lugar além das Terras de Ninguém, onde os perdidos chegam.

— Não é possível. — ela estacou, colocando as mãos na cintura. — Pelo que me disseram, esse lugar escolhe quem entra e quem sai, é imprevisível. Completamente aleatório.

Agora Sibelly estava de pé novamente, colocando ambas as mãos em seus ombros. — Existem exceções. Eu sou uma delas, assim como você. Estava destinada a chegar lá em algum momento, apenas atrasou sua estadia. — a menina abriu um sorrisinho traquinas. — A menos, é claro, que você não queira ir. Ai vou ter que retornar a presença de Mizori com um fracasso, e ela ficaria magoada comigo, e então eu ficaria magoada com você.

— Sabe… chantagem emocional não é um artifício muito convincente.

— É lógico que é, sempre é. — deu mais alguns tapinhas no ombro dela. Sibelly era quase uma cabeça mais baixa que Louise, a mulher não estava muito acostumada a baixar o olhar tanto para visualizar alguém. — Pois bem. Não creio que eu vá voltar aqui caso você queira mudar de ideia, então essa é a última chance que tem para decidir se quer ou não vir comigo. Imagino que já esteja ciente dos riscos, vantagens e desvantagens de ficar ou partir.

Estava pressionando-a na maior cara de pau. Louise notou isso claramente, enquanto dava as costas para a adolescente, os olhos vermelhos percorrendo toda a sala de estar, também repleta de quadros seus. Não sabia se retornaria, pois como fora dito, aquele tal acampamento agia como uma pessoa viva. Se sentisse saudades de casa e não pudesse mais voltar? E seus pais, o que pensariam? Eles já haviam quase perdido-a uma vez, se sumisse sem avisar daquele jeito iria preocupá-los novamente.

Mesmo assim…

Ela sentia a sede de aventura, a fome de fantasia. O Reino dos Sonhos fizera-lhe falta… não uma falta desesperadora, mais parecia um leve incômodo. Como se aquele mundo, por mais que fosse onde nascera, não pertencesse realmente a ela. Como se tivesse vivido no lugar errado desde sempre, sendo salva apenas pelo amor de seus pais e pela paixão pela pintura. Além do mais, lembrou-se de que tinha uma promessa para cumprir, envolvendo certa espadachim… quem sabe elas não se encontrassem se Louise decidisse realmente partir?

Girando mais uma vez nos calcanhares, fitou sua visitante, um breve sorriso desenhando-se em seus lábios. Louise jamais fora considerada muito prudente em suas escolhas. Estava pronta para dar um salto pela loucura mais uma vez.

Algo que ela desejava a muito, muito tempo…

— Eu vou!

Claro, Louise não era irresponsável. Antes de partir, pediu para sua jovem parceira esperar, enquanto saía para despedir-se dos pais. Foi um momento difícil, eles não queriam separar-se da filha, mas ela garantiu que estaria em boas mãos, alegou que queria viajar, sentir na pele a magia que continha em seu DNA mais uma vez. Depois de muito tempo, conseguiu convencê-los, ou ao menos conseguir que abençoassem sua partida e ficassem menos paranoicos.

Avisou-os que se compradores aparecessem buscando por suas pinturas, todos os quadros em sua casa poderiam ser vendidos, exceto a grande tela onde eram retratados a espadachim, o mago e o explorador. Também sugeriu que dissessem que estava de viagem, e pararia de pintar por enquanto, assim evitaria as pessoas questionando sobre eventos e exposições.

Apenas quando conseguiu resolver tudo, pedindo por fim que cuidassem de seu jardim – ela realmente amava aquele jardim – e de sua casa enquanto estivesse fora, a moça despediu-se definitivamente de seus progenitores e fez o caminho de volta a residência. Sibelly esperava no mesmo lugar em que havia sido deixada, agora devorando um pacote de cookies. Ela realmente parecia comer doces o tempo todo, e Louise cogitou se não teria algum tipo de problema por causa disso. Talvez seres mágicos não fossem suscetíveis a diabetes.

Depois de passar por todos os cômodos da casa, dando-lhes um último olhar, pegou um certo coringa que guardara por anos e enfiou-o numa mala junto com todas as coisas que julgara importantes – incluindo roupas. Só então acenou para Sibelly, afirmando que era hora de ir.

A menina – que aparentava ser mais nova – piscou um olho para ela e ofereceu-lhe a mão direita. E, no momento que Louise tocou-a, a paisagem ao redor desvaneceu, reconstruindo-se novamente. Agora estavam em uma longa estrada, que parecia não ter fim. Árvores margeavam-na de ambos os lados e era difícil ver algo além disso. Sibelly começou a andar, guiando uma Louise curiosa. A mulher podia sentir a magia impregnada no ar, e era capaz de ver com o canto dos olhos seres bem pequenos voando ao longe, olhos interessados prescrutando-a.

— São fadas… elas não vão lhe fazer mal, costumam guiar as pessoas que vem parar aqui. — explicou a outra, sem deter seus passos.

— Fadas existem!

— É claro que sim, onde você pensa que estamos? — gargalhou, soltando-se de Louise para girar o corpo várias vezes, os braços bem abertos. — Tudo isso é magia. Nós respiramos magia, vivemos magia, amamos a magia! — parou de girar, e por incrível que pareça ainda mantinha facilmente o fôlego. — Venha, Louise! Tenho um mundo encantador a lhe mostrar!

E começou a correr.

A mulher de olhos vermelhos nem pensou duas vezes e acompanhou-a, disparando pelo asfalto, sentindo uma liberdade estranha e apaixonante. A brisa agitava seus cabelos, e ela riu, como se fosse uma criança novamente, perdida no Sonhar, onde tudo era incrível e maravilhoso.

Ambas só pararam de correr quando atingiram o fim da estrada – pelo menos, naquela direção havia um final – onde se erguia uma colina, e sobre a mesma havia um portal. Na verdade, eram duas árvores recurvadas, cobertas de símbolos estranhos azuis que brilhavam como neon, que se cruzavam. O espaço vago entre um tronco e outro era preenchido por uma substância estranha, que lembrava gelatina.

Recuperando-se da correria, apoiando as mãos nos joelhos, Louise olhou bem para aquele monumento. — Temos que atravessar isso ai?

— Sim… está com medo?

Ela meneou a cabeça em resposta, abrindo um sorriso matreiro. Havia passado por coisas muito mais assustadoras em sua visita ao Mundo dos Sonhos. — Nem um pouco.

— Oh, nesse caso eu não vou me oferecer para segurar sua mão.

— Pensando melhor, me dê ela aqui.

— Okay! — sem pensar duas vezes, Sibelly segurou forte a mão direita dela, abrindo um sorriso tão abusado quanto. — Vamos no três. Um… três!

E Louise só sentiu o puxão antes de mergulhar na substância gelatinosa. Uma nova jornada se abria para ela. Novas oportunidades, novas experiências e a chance de reencontrar velhos amigos. E as perspectivas deixavam-na animada, empolgada. Ela percorreria esse novo caminho com prazer e mostraria até onde sua determinação a levara, até onde ainda podia chegar.

Foi assim que Louise despediu-se do nosso mundo, entregando-se ao desconhecido.

E, se algum dia você encontrar um cão de três cabeças, uma barqueira, ou um certo explorador em seus sonhos, espalhe a notícia…

Conte a eles que a criança dos olhos de coelho cresceu.

Conte que sua coragem levou-a a uma nova viagem.

Conte que está mais próxima do que imaginam.

Fim…

Pelo menos, até quando a noite retornar.

Notas finais
Yo, amados! Sei que pessoas normais estariam super felizes por terem terminado uma fic (principalmente uma com tão poucos caps que demorou tanto tempo pra ser finalizada). Na verdade acho isso de terminar o que comecei muito gratificante, afinal sou uma preguiçosa de marca maior e demoro sempre séculos pra escrever qualquer coisa que seja. No entanto! Estou triste por Louise no Mundo dos Sonhos ter chegado ao fim. Eu não to bem! Essas últimas linhas estão me fazendo chorar horrores, sim, sou uma manteiga derretida quando se trata das minhas histórias. Elas são como meus bebês, escrever “fim” é como ver o casamento de um filho. Não que eu tenha filhos pra saber, mas enfim, vocês entenderam. Espero que tenham gostado de conhecer a pequena Louise, a forte Vega, o carismático Salazar, o misterioso Allistar e todos os outros personagens que apareceram na trama. LnMdS tornou-se algo muito maior que eu pude imaginar, quando criei a história a uns… três anos atrás, mais ou menos. Eu nunca imaginaria que chegaria tão longe ou que poderiam surgir mais coisas a partir dela. Basicamente, é uma fic que só tomou rumo nos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, ela é feita de surtos de inspiração e várias coisas aleatórias. Talvez seja exatamente isso que tornou-a uma história tão divertida de escrever, porque eu mesma não sabia onde ela chegaria. Um brinde a minha mente perturbada. -q A história de Louise termina aqui, mas o “projeto” Contos de Além Mundo continua. Convido-os para seguir comigo adiante, através da continuação de LnMdS, O Acampamento Místico, e pelo especial da Vega, Meteoro, que já foram postados e se encontram nos seguintes links: https://fanfiction.com.br/historia/538309/O_Acampamento_Mistico/ https://fanfiction.com.br/historia/716647/Meteoro/ Eu agradeço a todos que leram e comentaram, foi maravilhoso ver a opinião de vocês e tê-los comigo nessa jornada. Especialmente, digo obrigada às meninas que Recomendaram a história, a Tathiane Rodrigues e a fofa da Snowy Kitten (que, por sinal, deixou comentários fofíssimos, pelos quais agradeço também). E, como nunca devo deixar de citar, agradeço principalmente ao Nick, que me acompanhou desde o comecinho e sem o qual eu dificilmente teria tido ânimo pra continuar. Obrigado mais uma vez a todos vocês, que acompanharam, favoritaram e chegaram até aqui. Que seus sonhos sejam tão maravilhosos quanto o Reino Onírico, e espero de todo o coração encontrá-los novamente. Com amor, Ame-chan, ou Emissary of Chaos… Ou, simplesmente, a autora. ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!