Loucuras de Agosto
20 Viagem
Notas iniciais
ROMANCES MENSAIS
LIVRO VIII – LOUCURAS DE AGOSTO
CAPÍTULO XIX – VIAGEM
— Eu vou sentir tanta falta de vocês. – Comenta Carly aos prantos, enquanto abraçava Freddie e a mim com todas as suas forças. Ela nos empurra e nos encara com seriedade. – Tomem cuidado, por favor. Não façam nada impulsivo que coloque a vida de vocês em perigo. Eu juro que se você morrerem, eu ressuscito vocês só para matar de novo.
Havia chegado a hora de dizer adeus e a situação estava sendo muito mais dolorosa do que eu podia sequer imaginar. Ainda que eu quisesse voltar para Hawkins, eu sentiria muita falta de Carly com sua animação excessiva, de Gibby com toda a sua estranheza, de Spencer e sua personalidade estranha e de todos os pacientes que me acolheram tão bem no Troubled Waters Mental Hospital.
— Nós vamos ficar bem, Carls. Eu prometo. – Garante Freddie, dando um beijo da garota que tem como irmã. – E vocês também devem tomar cuidado. Eu sei que vocês sabem se virar, mas não exagerem. Se alguma coisa acontecer, vocês...
— Nós entraremos em contato com a Hillary, que é agente da CIA e vai garantir a nossa segurança. – Completa Gibby, sorrindo presunçoso. – Nós já conversamos sobre isso, cara. Então foca no que realmente importa. Vocês é que estão realmente em perigo. Então pelo nada de loucuras.
— Acho que você está pedindo o impossível para esses dois, Gibby. – Comenta Spencer, dando um sorriso divertido. – Eles foram capazes de escapar do hospital psiquiátrico mais seguro do mundo, depois de ter derrubado dezenas de homens perigosos. Definitivamente, Sam e Freddie são a definição de loucura.
— Nós vamos ficar bem. – Afirmo, afastando de vez de perto de Carly. Sorrio para a garota, que intensifica ainda mais o choro e me puxa para um novo abraço apertado. Correspondo, achando graça o seu comportamento exagerado. – São só algumas semanas, Carly. Assim que eu consegui quebrar todos os dentes, destroçar o restante do corpo e entregar Hugh para a polícia, para ele sofrer o resto da desprezível vida dele, nós entraremos em contato com vocês. Eu prometo. E os membros da família Barton e Puckett nunca quebram as suas promessas.
— Tudo bem. Eu vou sobreviver e confiar em suas habilidades de escapar das enrascadas que vocês se metem. – Responde Carly, limpando o rosto vermelho e manchado pelas lágrimas. – Agora vão ou vocês não vão conseguir sair da cidade.
— Obrigado, Carls. Por tudo. – Agradece Freddie, abraçando a morena pela última vez. – Eu realmente não sei o que seria de nós se não fosse por você. Obrigado por ser a irmã que eu nunca tive e por sempre saber quando eu preciso de ajuda, mesmo que eu seja tão difícil em admitir esse tipo de coisa. Eu não sei quando vamos voltar a nos ver de novo, mas quero que saiba que eu tenho muito orgulho e que te amo muito.
— Para de falar ou eu vou acabar voltando a chorar. – Resmunga a morena, dando um fraco sorriso. – Eu também te amo e tenho muito orgulho de te chamar de irmão. Mostrem para esse tal Hugh que ele mexeu com as pessoas erradas.
— Pode deixar. – Garanto, sorrindo confiante.
Freddie e Gibby se abraçam apertado e sussurram alguma coisa um para o outro, separando-se com grandes sorrisos. E enquanto o namorado de Carly me abraça em despedida, desejando sorte e paciência, Spencer puxa o nerd para fazerem uma espécie de toque especial deles e se abraçarem intensamente.
— Estarei esperando ansioso por notícias de vocês. – Afirma Spencer quando eles se afastam. O irmão mais velho de Carly coloca a mão no bolso da calça e puxa um molho de chaves para entregar ao irmão de consideração. – E essas são as chaves da casa da família da Stephanie.
— Ainda não acredito que a Stephanie concordou em emprestar a casa para você depois de você ter atropelado ela. – Comenta Freddie e eu encaro Spencer surpresa.
— Eu também fiquei bastante surpresa, afinal, ele a atropelou duas vezes. – Concorda e eu me espanto ainda mais com essas informações sobre o Shay mais velho do lugar.
— Eu já falei que foi um acidente. – Resmunga Spencer, cruzando os braços.
— Duas vezes, Spencer. Duas vezes. Ela quebrou a perna. E isso tudo aconteceu logo depois de você ter terminado com ela. – Relembra Freddie, rindo. – Seria bem natural se ela hoje te odiasse.
— Estou começando a ficar preocupada com o local para onde estamos indo. – Confesso e Spencer rir, jogando os cabelos na altura dos ombros para trás, quase como se ele estivesse naqueles anúncios de shampoo.
— Não se preocupe. Está tudo sob controle. – Afirma Spencer de forma misteriosa.
— Então você está me dizendo que a Stephanie simplesmente deixou você usar a casa da família dela mesmo depois de você a ter atropelado? -Questiona Carly, encarando o irmão mais velho com desconfiança.
— Bom... não. – Admite Spencer, coçando a nuca, antes de abrir um sorriso malicioso em seus lábios. – Mas digamos que eu usei técnicas e argumentos bastante convincentes para que ela cedesse, se é que vocês me entendem.
— Meu herói! – Brinca Gibby, batendo na mão de Spencer, antes de receber um tapa forte de Carly em suas costas. – Ai! Vai com calma que seus tapas doem.
— Que bom! É para doer mesmo. Não incentiva as idiotices do Spencer. – Resmunga a morena, encarando o irmão e o namorado com repreensão.
— Nós realmente precisamos ir. – Avisa Freddie, colocando a peruca loira e o boné na cabeça para esconder sua identidade.
Observo-o por alguns instantes. Freddie usava uma blusa azul com listras na vertical na cor preta, com calça jeans escura, boné e tênis all estar brancos. Mas o mais inacreditável era que nem mesmo a odiosa camisa de listras conseguia deixar o nerd feio. Na verdade, acho que ele era a única pessoa que eu conhecia que era capaz de ficar ainda mais bonita com roupas com estampas de listras.
— Tudo bem. Eu já passei as coordenadas para o GPS do carro. Se tiverem dúvidas, o endereço da família de Stephanie está no papel que eu já adicionei nos celulares descartáveis de vocês. – Avisa Spencer, sorrindo para nós. Ele então se vira para mim e me dá um forte abraço. – Mais uma vez, foi um prazer finalmente te conhecer, Sam. E poderia avisar a sua irmã que o Spencer Shay da festa da faculdade mandou lembranças?
— Você conhece a Beth? – Pergunto, surpresa.
— Estudamos juntos por três dias no curso de direito até eu desistir e me mudar para Seattle. – Responde o rapaz, bagunçando meus cabelos. Assinto, concordando, rindo sem acreditar na coincidência. – Agora vão. Aproveitem a escuridão para deixar a cidade.
— Certo. Vamos, Sam. – Avisa Freddie, abrindo a porta do carro para que eu entrasse. Aceno em despedida para o trio, sentindo um aperto doloroso em meu peito. Apesar de termos passado pouco tempo juntos, eu realmente sentiria falta deles. – Até mais.
— Boa viagem! – Deseja Gibby mais uma vez, enquanto abraçava Carly. Spencer abre o portão da oficina.
Freddie liga o carro e sem esperar mais tempo, iniciamos nossa viagem para a cidade no interior da França. Abaixo o quebra-sol do carro, exibindo um pequeno espelho no local. Observo minha imagem e não consigo evitar a estranheza por me ver com longos cabelos pretos e lisos, nem com as lentes de contato que deixavam meus olhos castanhos. As roupas que eu usava também não me agravam de forma alguma.
Vestido no joelho rodado azul marinho de alcinha com algumas flores rosas como estampa. Suspiro e ergo o quebra-sol mais uma vez. Extremamente incomodada por termos apenas o GPS como nosso companheiro de viagem quebrando o silêncio que havia entre nós, ligo a rádio, chamando a atenção de Freddie, que me encara pelo canto do olho, mas não diz nada.
Cantarolo as canções que eu conhecia que passavam na rádio francesa, encantada com a beleza que Paris exibia durante a noite. Para cada lado que se olhasse, algum monumento atraia a minha atenção com todas as suas iluminações. No entanto, de todas as atrações da capital francesa, a Torre Eiffel iluminada era o que mais arrancava suspiros de mim. Mesmo não sendo a minha primeira vez em Paris, nas horas vezes que estive presente, sempre foi para tratar de trabalho e nunca conseguia visitar os pontos turísticos da cidade por estar cansada demais.
E conforme nos distanciávamos da capital, eu me sentia um pouco desapontada. Apesar de todas as confusões e problemas que me envolvi em Paris, eu esperava um dia retornar para essa cidade para realmente vivenciar os seus encantos únicos. E no meu ínfimo, também esperava visitar a cidade ao lado de Freddie.
— Você ficou muito bem nesse vestido. – Comenta o enfermeiro, encarando-me brevemente antes de voltar sua atenção para a pista. Por estar escuro, observo fascinada a luz da Lua Cheia iluminando uma parte de seu rosto. – Realmente uma Princesa Puckett.
Eu não fazia ideias de quanto tempo já havia se passado desde que deixamos a capital, mas baixa movimentação da rodovia, eu imaginava que já se passavam da meia noite e definitivamente não estava preparada para ouvir um elogio de Freddie.
— Obrigada. – Agradeço, envergonhada.
— Sam, olhe para o lado. – Pede Freddie e eu o encaro com desconfiança.
— O quê? – Pergunto, cautelosa.
— Olha logo. – Insiste o rapaz e me surpreendo ao ver a Lua Cheia iluminando os campos de flores roxas que se prolongava por muitos hectares. — É uma pena que a gente esteja viajando a noite. Tenho certeza de que você iria gosta da visão. É mágica.
— Isso é... incrível! Qual é o nome dessas flores? – Pergunto com curiosidade.
— São flores da lavanda. Campos assim são raros de encontrar, mas seu óleo é o usado para criar perfumaria. O mais surpreendente é que não florescem na primavera, mas sim no começo do verão europeu, mais especificamente agora nessas últimas semanas.
— São lindas flores. – Comento, abaixando o vidro do carro para sentir aquela brisa agradável do veículo percorrendo os campos de lavanda. Observo tudo com fascínio. – Isso me lembra do tio Clint.
— Por quê? – Pergunta Freddie, surpreso. – Ele gostava de flores.
— Gosta. Mas não apenas por isso. Quando eu era criança, ele gostava de contar inúmeras histórias infantis sobre suas aventuras e as lendas que conhecia conforme viajada pelo mundo. – Respondo, nostálgico. – Eu me lembro de uma vez em que eu estava me sentindo muito deprimida por ser comparada com Beth e ser chamada de feia quando ainda era criança pelos meninos da escola. A minha autoestima que já não era uma das melhores se destruiu naquele momento.
— O quê? – Questiona Freddie, parecendo surpreso.
— Ao notar o quanto eu estava triste, tio Clint me contou sobre uma lenda japonesa, que fala sobre dois crisântemos lado a lado. Um era branco e outro amarelo que eram tão amigas que se consideravam. Passavam o dia conversando e apreciando a bela paisagem da planície onde nasceram.
“Certo dia, um velho jardineiro as viu e se apaixonou pela flor Amarela. O velho disse que se a flor quisesse acompanhá-lo, ele a faria mais bela do que já era. O jardineiro ainda argumentou que lhe daria comida delicada e lindas roupas.
A ingênuo crisântemo Amarela sentiu-se tão atraída pelo que o velho jardineiro lhe prometia que se esqueceu de sua irmã branca, consentindo em ser desenterrada e carregada nos braços para ser plantada no jardim de seu dono. Depois que a flor amarela partiu, a Crisântemo Branco chorou amargamente. Sua beleza singela havia sido desprezada e, pior que isso, viu-se forçada a permanecer sozinha no campo, sem ter mais a irmã, com quem era adorava conversar.
Dia após dia mais bela ficava a flor Amarela no jardim de seu senhor. Ninguém reconheceria agora a simples flor amarela do campo. Porém, embora suas pétalas fossem longas e curvas, e suas folhas limpas e tão bem cuidadas, ela às vezes se lembrava de sua irmã branca que ficou sozinha na campina e imaginava o que estaria fazendo para que suas longas e solitárias horas passassem.
Em um dia qualquer, o capitão do vilarejo foi ao jardim do velho jardineiro à procura de um crisântemo perfeito para ser desenhado no elmo de seu senhor que controlava o Japão. Informou que não desejava um belo crisântemo com muitas e longas pétalas. Queria um simples crisântemo branco de dezesseis pétalas. O velho jardineiro mostrou ao capitão a crisântemo amarela, mas ele não gostou da flor e agradeceu, partindo em seguida.
No caminho de casa, atravessou um campo onde viu a Crisântemo Branca chorando. Ela contou a triste história de sua solidão ao capitão. Então ele contou que havia visto a flor Amarela e disse-lhe que ela não era nem metade tão bela quanto à branca flor que tinha diante dos olhos.
Ante essas palavras animadoras, a crisântemo branca parou de chorar e quase arrancou seus pezinhos ao pular de alegria quando esse bom homem afirmou que a queria para o elmo de seu senhor. No instante seguinte a flor branca, felicíssima, foi transportada até chegar ao palácio do Daimyo, o imperador do Japão nessa época. Todos elogiaram com sinceridade, sua admirável perfeição de forma.
Por conta de sua beleza singela, a crisântemo Branca foi modelo para os grandes artistas contratados pelo Daimyo. Eles vieram de longe e de perto, sentaram-se junto dela e a esboçaram com admirável perícia. Depois de ser retratada por todos os ângulos, ela não precisou mais de espelho para se mirar, pois havia sua bela face branca presente em todos os mais preciosos bens do Daimyo.
A flor branca, além de figurar na armadura do Daimyo, bem como em todo equipamento de guerra de seus guerreiros, também foi retratada em seus estojos de laca e de prata, em seus travesseiros, colchas e mantos, até mesmo em vasos de porcelana, tapetes e em todas a mobília do castelo do Daimyo. Olhando para cima na sala principal do palácio, era possível ver o rosto do crisântemo branco entalhado em grandes painéis. Foi pintada de todas as maneiras possíveis, até boiando sobre a correnteza.
Todo mundo concordava em que a da flor que passou a ser chamada de Dama Branca, com suas pétalas de tamanho perfeito, representava o mais belo elmo, bem como o mais imponente punho de espada em todo o Japão.
Enquanto a face feliz da Dama Branca era perpetuada nos bens do imperador, a face da flor amarela só transpirava tristeza. Havia florescido por si, sozinha, e sorvido os elogios dos visitantes com a mesma avidez com que bebia o orvalho sobre suas pétalas primorosamente curvas.
No entanto, em certo dia, flor amarela sentiu uma rigidez nos membros e percebeu o fim da exuberância de sua existência. A antiga cabeça amarela outrora orgulhosa pendeu para o lado e, quando o velho jardineiro a viu, arrancou-a do canteiro e a jogou em um amontoado de lixo. Então, segundo tio Clint, a história era uma forma de explicar que não importava o que as pessoas dizem, a beleza existe somente quando aceitamos quem nós somos. Somente assim eu me tornaria a Dama Branca.” – Termino de narrar a história e acabo soltando um bocejo longo e alto. Eu estava caindo de sono depois do dia cansativo.
— E seu tio Clint está certo, Sam. – Afirma Freddie, encarando-me brevemente, enquanto eu me aconchegava no banco do carro. Fecho os olhos e ouço o nerd comentar antes de cair no mundo dos sonhos: — Não dê ouvidos ao que os idiotas da sua escola disseram. Você sempre foi e sempre será a mulher mais bonita que eu já conheci em toda a minha vida.
Fale com o autor