Loucuras de Agosto
28 Saudades
ROMANCES MENSAIS
LIVRO VIII – LOUCURAS DE AGOSTO
CAPÍTULO XXVII — SAUDADES
Durante toda a minha vida, eu nunca estive sozinha. Mesmo na barriga da minha mãe, ainda que não tenha sobrevivido ao parto, Melanie foi a minha companhia. E quando nasci, Beth se tornou a pessoa mais importante da minha vida. Ainda que tivéssemos a diferença de cinco anos de idade, Beth nunca me deixou sozinha. Mesmo quando estávamos brigadas, não saíamos de perto uma da outra, porque simplesmente não fazia sentido algum ficarmos afastadas.
Beth era como a minha alma gêmea e meu polo oposto. A nossa maneira, estávamos sempre competindo e nos divertindo com as conversas mais idiotas e infantis. Desde sempre, ela era a minha melhor amiga e uma das pessoas que eu mais admiro no mundo. Beth é divertida, doce, inteligente, amorosa, extrovertida, linda e determinada. É tudo o que eu gostaria de ser e que nunca serei capaz.
E é exatamente por isso que ficar longe durante todo esse tempo foi como uma tortura para mim. Mesmo quando eu precisava viajar à trabalho, nós conversávamos o tempo todo e as chamadas de vídeo durante a noite eram sempre obrigatórias. Eu não conseguiria dormir sem ouvir as canções em sua voz doce para me acalmar por estar longe de casa.
Esse tempo afastada me fez perceber que eu era muito mais dependente de minha irmã mais velha do que eu imaginava. Ser levada para a França e ficar tanto tempo sem poder nos comunicarmos fez eu sentir pela primeira vez o que é a solidão. Ter perdido meu pai foi uma dor dilacerante, mas tudo se tornou ainda pior por não ter a única pessoa no mundo que podia ler a minha mente com apenas um olhar ou identificar qual o problema comigo apenas pelo meu tom de voz.
Então, vê-la diante de mim, depois de ter desejado tanto esse momento foi como um sonho. Sem qualquer controle, tudo o que consegui fazer foi permitir que as lágrimas descessem com ainda mais intensidade pelo meu rosto e correr para seus braços, que me amparam com igual urgência, deixando seu guarda-chuva e o buquê de flores que trazia consigo irem ao chão. O calor daquele abraço apertado e o perfume levemente adocicado de jasmim invadem o meu olfato, trazendo aquele conforto que somente minha irmã mais velha conseguia me dar.
A chuva continuava a cair com intensidade, mas nenhuma de nós se importava com isso. Matar a saudade que havia nos sufocado durante todo aquele tempo em que estivemos distantes era muito mais relevante naquele momento. E em meio ao choro e abraços apertados, sinto que já não nos molhávamos mais. Aos nos separarmos, sorrio ao ver que Freddie segurava o guarda-chuva de Beth sobre nós e as flores que ela havia deixado cair.
— Obrigada. – Sussurra Beth, tentando se recompor. Ela respira fundo algumas vezes e me encara como se não acreditasse que eu estava mesmo diante dela. – Por onde você estava? Desde quando você voltou? Você tem se alimentado e dormido bem? E o que são esse cabelo escuro, lentes e óculos? O que aconteceu?
— Uma pergunta de cada vez, Beth. Eu estou bem e vou te contar tudo. – Respondo, rindo levemente. Enxugo as lágrimas e encaro Freddie por alguns instantes antes de voltar minha atenção a Beth. – Eu nem sei por onde começar. Tanta coisa aconteceu que é difícil explicar. E de certa forma, é uma longa e complicada história.
— Eu estou com tempo. – Afirma Beth, cruzando os braços.
— Por que não vamos para um lugar mais confortável? Essa chuva está piorando. Pode ser perigoso ficarmos expostos aqui. – Alerta Daryl, chamando nossa atenção.
— Ele tem razão. É melhor nós irmos para a capela que tem aqui dentro. Além de nos proteger da chuva, também é mais seguro para mantermos nossas identidades escondidas. – Responde Freddie, apontando para uma pequena capela que ficava em uma área mais afastada do cemitério.
Concordamos com a sugestão de Freddie e seguimos com dificuldade para o local. A tempestade de verão se torna tão intensa que os guarda-chuvas acabam não sendo de grande ajuda para conter a chuva. Temendo que o temporal se tornasse ainda mais intenso, corremos o mais rápido que conseguimos para o local, que felizmente estava aberto e sem ninguém.
Assim que entramos, Daryl fecha a porta e nós nos jogamos no chão, cansados pela corrida pela tempestade. Ofegante, Freddie faz sinal para que nos sentássemos no banco da capela. Fortes trovões ecoam do lado de fora, fazendo com que nós nos encolhêssemos pelo alto barulho. Observo o lugar, surpresa pela beleza da ermida.
— E então? O que aconteceu nesse tempo em que você esteve fora? – Pergunta Beth, assim que conseguimos normalizar um pouco mais nossas respirações. Freddie e eu trocamos olhares, enquanto nos sentávamos nos bancos da capela. Beth e Daryl se sentam de frente para nós e nos encaram com curiosidade e preocupação.
— Nós não deveríamos estar aqui e definitivamente seremos bastante repreendidos por tia Tasha e os agentes da CIA que estão responsáveis por nós. – Começo, incerta de como deveria explicar o que aconteceu. — Mas em resumo, como eu disse quando conversamos pela última vez por telefone, logo após descobrir que Hugh matou nosso pai, eu o ataquei e no momento em que baixei a guarda, o assassino que ele contratou para matar nosso pai bateu em minha cabeça e eu acabei inconsciente.
"Eu não sei como aconteceu, mas quando eu acordei novamente, descobri que Hugh havia me internado em um hospital psiquiátrico em Paris. Eu não sei se foi obra do destino ou uma coincidência absurda, mas o Troubled Waters Mental Hospital era o mesmo lugar que Freddie trabalhava como enfermeiro. Apesar de não nos vermos há anos, nós jamais esqueceríamos o nome um do outro e ainda tinha o fato que você sabe que aconteceu no avião." – Conto, observando o olhar malicioso de minha irmã sobre mim.
— Vocês transaram em um avião sem saberem quem eram. – Comenta Beth, rindo com divertimento. – Eu nunca pensei que eu seria um cupido tão eficiente. Eu sempre soube que vocês se amavam e saber que contribui para que dessem o primeiro passo me deixa extremamente orgulhosa...
— De qualquer forma, foi por nos conhecermos e por poder contar com a ajuda de Freddie que eu consegui sobreviver ao hospital. – Interrompo minha irmã, envergonhada pelo sorriso malicioso que ela direcionava para Freddie e eu. – Nós então planejamos realizar a minha fuga do hospital no dia do festival que acontece anualmente no Troubled Waters. Esse era um dos poucos dias que o hospital era aberto para visitantes e poderíamos encontrar alguma abertura para escapar.
"O problema é que o diretor do hospital, Louis Leblanc, começou a desconfiar de minha interação com Freddie, ainda mais depois de descobrir que nós éramos da mesma cidade e pela nossa reação ao nos vermos pela primeira vez. Assim, ele colocou seguranças para nos vigiar. Com pessoas do diretor Leblanc de olho em nós, não poderíamos continuar com a mesma estratégia de Freddie jogar fora o medicamento que havia sido receitado a mim e nem conversarmos sobre a minha fuga. E é nesse momento em que entram Carly Shay e Gibby Gibson, melhores amigos de Freddie que também trabalhavam no hospital. Eles conseguiram pensar em uma forma de substituir os medicamentos por outras substâncias que não iriam me fazer mal e nos deram todo o apoio para conseguirmos seguir com o plano inicial.
No entanto, um dia antes da data marcada para a fuga, o diretor do hospital descobriu toda a verdade sobre o que planejávamos fazer. Como resultado, ele me enviou para um quarto branco, onde eu deveria receber medicamentos para ser mantida em um estado vegetativo, e prendeu Freddie em uma sala no subterrâneo do prédio do hospital para torturá-lo e o fazer se juntar a ele.
O que o diretor não esperava era que a filha dele, Hillary Leblanc, fosse uma agente da CIA e foi graças a ela que conseguimos sair do hospital e estarmos vivos." – Resumo e Beth me encara surpresa.
— Não me diga que a Hillary Leblanc que você está falando é a supermodelo franco-americana. – Comenta minha irmã, incrédula.
— Sim. É dela mesmo que estamos falando. – Responde Freddie, suspirando. – Ela é uma agente que normalmente trabalhava disfarçada. A profissão de modelo é apenas uma fachada para que ela possa se infiltrar em eventos sociais importantes para coletar informações.
— Incrível! – Exclama Beth, pensativa.
— Graças ao colar GPS que ela me deu no mesmo dia que Leblanc descobriu sobre o que planejávamos fazer, foi que ela conseguiu tirar Freddie da sala de tortura e me libertar do quarto branco. Infelizmente, nesse processo ela acabou sendo baleada pelo próprio pai, ao mesmo tempo em que ela atirou contra ele para proteger Freddie. – Conto e minha irmã arfa, comovida com a situação da garota. – Ela ficou bem, já que conseguiu desviar um pouco e a bala acertou o ombro. No entanto, Louis Leblanc acabou morrendo com o tiro na cabeça.
— Isso é horrível. – Comenta minha irmã, suspirando.
— Eu não sei se você sabe, mas Hugh está envolvido com uma organização criminosa mundial. E por causa disso, ele tinha recursos o suficiente para me manter no hospital e contratar diversos homens para me matar, provavelmente ciente de que Louis não conseguiria. Hillary e eu lutamos contra eles e de alguma forma, nós conseguimos sair do hospital. Como ainda existia as chances de sermos pegos pelos capangas de Hugh, o irmão mais velho de Carly conseguiu documentos falsos, roupas, disfarce e uma casa para ficarmos até a CIA conseguir nos tirar da França.
"Durante três dias nós conseguimos permanecer escondidos em uma casa isolada no interior da França. E então tia Tasha ligou para Freddie, informando que voltaríamos para Hawkins. Hillary e outra agente foram enviadas para nos acompanhar até o aeroporto, mas os homens de Hugh descobriram a nossa localização e acabamos envolvidos em um tiroteio.
Sem saída, Freddie e eu fugimos sozinhos para o aeroporto. Nós fomos seguidos, passamos por inúmeros problemas, quase matei uma pessoa e se não fosse por dois amigos de tio Clint e tia Tasha, nós poderíamos estar mortos. Conseguimos voltar para Hawkins, mas isso não significava que estávamos a salvo, por isso fomos levados para um esconderijo da CIA, onde devemos permanecer até que Hugh seja preso." – Termino de explicar e Beth morde o lábio inferior, absorvendo todos os detalhes da história.
— Você passou por muitas coisas nesses últimos dias. — As lágrimas voltam a aparecer nos lindos olhos de minha irmã. Ela se levanta e me abraça com carinho. — Eu sinto muito, muito mesmo, Samy. Eu deveria te proteger e...
— Não começa com essa de que é mais velha e por isso precisa me proteger. Você é a única pessoa que acha que eu sou uma pessoa fraca, Beth. — Resmungo, passando o polegar pelo rosto delicado de Beth. Ela sempre foi muito mais fácil para chorar e expressar suas emoções.
— Eu não acho que você é uma pessoa fraca. Mas sei que você é muito mais sensível do que demonstra. E sei que você estava com medo e se sentindo sozinha. Desde que mamãe e Melanie morreram, eu disse que nunca te deixaria sozinha. Sinto muito por não cumprir com a minha promessa. — Lamenta minha irmã, suspirando com tristeza, enquanto encara as próprias mãos. Reviro os olhos e aperto suas bochechas, obrigando-a a olhar para mim.
— Eu amo você, mas você é muito chata. Para de pensar em besteiras e apenas fique feliz por eu estar de volta. — Respondo, dando um beijo em sua testa. — E agora vamos no unir para dar uma surra naquele desgraçado que ousou mexer com as irmãs Puckett. Entendeu?
— Sim. — Responde com a voz abafada.
— Agora precisamos pensar em uma forma de atrair Hugh. — Comento, pensativa. — Enquanto ele não sentir que pode ter alguma vantagem sobre nós, ele não vai aparecer e mais tempo ficaremos nesse impasse. Precisamos de um evento para colocar um ponto final dessa história.
— Acho que já sei o que devemos fazer. Mas precisam estar preparados, porque pode ser bastante arriscado. — Responde Beth com um sorriso confiante.
— Vamos nessa. — Digo, dando um sorriso cúmplice para a minha irmã. Estávamos prontas para apostar todas as nossas cartas.
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