Loucura
1 Loucura
Notas iniciais
Dionísio sentia falta do gosto do vinho tocando-lhe os lábios. O pior de seu castigo nem era ter que ficar naquele estúpido acampamento cheio de crianças imprestáveis, mas sim a proibição de seu delicioso e adorado vinho. Sua própria invenção proibida a ele!
E agora o chamavam de Sr. D. Sr D, que coisinha mais desprezível! Seu nome era DIONÍSIO. Na verdade, não se importava de que o pessoal do acampamento lhe chamasse assim. O problema era quando no Olimpo o chamavam assim, principalmente Hera, sua madrasta. Ele queria saber o motivo de ela detestá-lo em particular. Apolo e Ártemis, por exemplo, também eram frutos de Zeus a corneando, mas não, era justamente com ele que ela cismava, só por ter nascido parte mortal! Como se não bastasse ela ter o enlouquecido.
Loucura. Era especialista nessa palavra. Olhos insanos, gargalhadas psicóticas, alucinações delirantes, mães matando os próprios filhos, sorrisos doentios, sangue saindo de corpos como o sumo de uma uva... Tudo isso era loucura. A loucura tinha sons estridentes, cores vibrantes e cheiros estonteantes. Ela envolvia a vítima como uma rede, lentamente e cautelosamente, quase impossível de sair uma vez nela.
Ali, o amor, a sabedoria, o cuidado e o ódio eram esquecidos. Você era transportado diretamente para o próprio Caos. Não há terra ou chão, pode-se transformar no mais corajoso e sincero homem do mundo sob a influência de sua doce loucura. Ela trazia a tona os mais escandalosos segredos, a mais pura violência, os instintos mais primordiais do ser humano, a parte animal de cada um. Ela berrava seus maiores medos, mais grandiosos sonhos, tudo em um ritmo viciante, cansativo e agitado.
Constrangimentos, regras sociais? Estas não existiam com ele por perto, o grande Dionísio, deus das festas, do vinho e da loucura. Era reverenciado, temido, adorado, sendo considerado o deus mais próximo dos mortais de todos. Incontrolável, selvagem, como os próprios elementos da natureza. A chama roxa em seus olhos jamais se apagava, vibrava com emoções intensas, fossem elas boas ou ruins.
Talvez ele, após tanto tempo, estivesse ficando louco também. Ou seriam os outros os loucos? Afinal, em sua visão, era extremamente normal, mas não é isso que todos os loucos acham? E os loucos não consideram as pessoas normais loucas?
E você, é louco?
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