Loucura

1 Capítulo Único


- Não há ninguém em casa no momento. Por favor deixe seu nome e número que eu retornarei assim que possível, obrigada.

A voz da secretária eletrônica ecoava no silencioso apartamento.

- Fate-chan! Sou eu, Hayate, eu só queria saber se você iria ao casamento. Eu... Eu entendo se você não for, mas se você decidir... Me avise? Ai eu vou obrigar Signum a ir também. Mas me avise ta? Eu sei que você está de folga, mas...huh... Eu espero sua ligação.

Hayate parecia meio desesperada e falavasem parar como alguém nervosa tentando se explicar. Na verdade, a garota estava temerosa que Fate a odiasse agora, odiasse por que Hayate iria ao casamento. Bobagem não?

- “Como eu poderia ficar com raiva?” – indagou o único ser vivo daquele vazio apartamento.

Fate T. Harlaown suspirou. Estava sentada no tapete da sala com os joelhos juntos, os braços cruzados sobre eles e a cabeça baixa. Não saíra dessa posição há horas. Duas ou três. Quem sabe até quatro. Enfim, quem estava contando?

Deu um sorriso cínico, quase louco. Hayate estava preocupada, mas não deveria ficar. Ora, que coisa mais patética! Por que Fate odiaria Hayate? Só por causa de um casamento? Uma amizade que durava mais de dez anos não morreria por causa de um estúpido evento social!

- Casamentos são bonitos. Eu não me importaria de ir. – comentou a outra pessoa no apartamento.

Fate não levantou a cabeça. Não estava surpresa com a voz vinda do nada.

- Eu quero ir, Fate. Deve ser tão lindo. – disse a voz infantil com uma risada – Eu sempre quis me casar, sabia? Meu sonho era ter um lindo e grande casamento. Minha mãe iria comigo até o altar onde meu príncipe estaria me esperando! Kyah! – deu um grito agudo enquanto imaginava a cena.

- Eu não irei. – respondeu Fate ainda de cabeça baixa.

- Mas por quêêêêê? – respondeu a garota tocando nos ombros da Investigadora. – Nanoha deve ficar tão linda!

Isso fez o truque. Fate levantou o rosto e olhou para a garotinha que a atormentava. Os olhos vermelhos e brincalhões, o sorriso cruel, os longos cabelos loiros dourados presos em Marias-chiquinhas. Fate estava olhando para ela mesma quando mais nova.

- Você parece que viu um fantasma, Fate! – ela riu.

- Eu vejo fantasmas, Alicia.

- É melhor do que a mãe não é? Mas ela também te odiava mesmo você a amando. Diga-me, Fate-chan, como é, pela segunda vez, amar alguém que não te quer? Dói muito? Como é tentar substituir novamente outra pessoa só para ser jogada fora como algum brinquedo defeituoso? Como é ser uma falha completa?

- CALADA! – Fate levantou – Cale a boca! Eu não sou uma falha. – respondeu. Seu corpo já começava a tremer... de medo, de raiva, de tristeza.

- Então me diga: por que você nunca é a insubstituível?

Fate não soube responder. Por quê? Por quê? Não, ninguém saberia responder isso... Ou talvez saberia.

- Você é só um clone. – continuou Alicia sentando-se no sofá – Só uma boneca que não soube seu lugar. Vergonha a sua por ter acreditado que algo como você poderia passar por um ser humano.

- Eu... Nunca... Nunca... – patética. Muito patética.

- Nunca achou que seria humana? – Alicia riu. Riu demais. Como uma criança quando ouve algo muito engraçado. – Como poderia?! Uma falha como você! Humana!

- CALA A BOCA! – gritou a loira novamente agarrando sua cabeça – CALE A BOCA!

Ela estava enlouquecendo. Há seis meses começara a ver Alicia nos seus momentos solitários, no começo, ela só a via, mas depois Alicia começou a fazer comentários cruéis, cada vez mais terríveis e dolorosos. Tanto a ponto que começara a duvidar de sua própria sanidade.

Alicia quase a matara em suas últimas missões. Lembrava-se claramente da primeira missão que quase resultou em sua morte pelas intromissões da pequena loira.

Ela e mais dois Investigadores estavam perseguindo um grupo de traficantes de armas. A missão era simples. Os traficantes eram no máximo de níveis AA, então Fate sozinha poderia cuidar deles, mas os dois Investigadores eram novatos e ela os treinava.

- Sky. – chamou – nos dê cobertura. Destrua os veículos ao redor do galpão. Eles não podem fugir.

- Sim, senhora! – o jovem Sky com curtos e lisos cabelos negros fez uma continência antes de se separar. – Boa sorte, Hainan!

Hainan, a jovem ruiva, assentiu com um sorriso. Estava muito nervosa. Não era qualquer um que tinha a honra de ficar sozinha com a grande investigadora Fate T. Harlaown. A ruiva sempre admirou a jovem loira e quando foi lhe dada a oportunidade de auxiliá-la nessa missão, nem sequer pensara duas vezes! Era uma chance única. Ir numa missão simples com um mago S+. Sorte. Pura sorte!

- Hainan. – chamou Fate – está pronta? – sorriu confiante.

- Vamos, Harlaown-sama! – assentiu animada.

Nada poderia dar errado! Sky era extremamente competente e com certeza impediria qualquer um que tentasse escapar, combinado com Fate e ela invadindo o galpão seria uma vitória na certa.

Com uma bola de energia, Hainan destruiu a porta. O interior do galpão estava vazio, deserto.

- Algo não está certo... – comentou a novata. Talvez não devesse ser tão certa da vitória.

Como se tivessem lido sua mente, disparos mágicos surgiram de todos os lugares. A barreira de Fate impedia qualquer disparo de alcançá-las, mas ainda sim, Hainan estava temerosa. Tantos ataques e elas não viam ninguém!

- Photon Lancer Multishot. –

Os disparos elétricos se perderam por dentro do galpão e o ataque inimigo cessou.

- Uma ilusão. – constatou Fate. – Não sabíamos que um deles podia fazer algo assim.

- Uma técnica baseada no principio dos espelhos. – continuou Hainan – como se estivéssemos entrado numa casa de espelhos. Só um disparo é o real.

- Exato. Muito bom. – sorriu Fate. – Agora, de onde veio o verdadeiro disparo?

A novata olhou ao redor pensando. O ângulo do dos disparos indicava que o verdadeiro deveria ter vindo...

- De cima! – e sem pensar duas vezes levantou vôo.

Fate perdeu Hainan de vista, mas tinha confiança nas habilidades da Investigadora novata. Sozinha, começou a adentrar o galpão deserto. Um barulho seguido de um ataque mágico. O inimigo estava se escondendo como um rato, suava e respirava pesado. Ela podia ouvi-lo. Era um novato, sem dúvida. E no seu primeiro crime, ele deu de cara com um dos Aces... Que mundo terrível de coincidências.

- Renda-se, por favor. Não quero usar a força. Seus dois companheiros foram capturados, só resta você. – um blefe, claro, mas ele cederia. O rapaz estava com medo.

- Nunca! – respondeu e saiu de seu esconderijo. Usando seu dispositivo, ele continuou investindo, enquanto gritava.

Ela se defendeu e com bardiche em forma de foice, ela facilmente o desarmou.

- Você está preso em nome da TSAB. Você tem o direito de permanecer em silêncio, tudo o que disser será usado contra você.

- Você o prendeu hein? E sem derramar sangue! Mamãe ficaria orgulhosa... Espera, ela nunca se orgulharia de você. – era Alicia de novo com seus comentários terríveis.

Fate tentou ignorar, mas os insultos continuaram enquanto ela o prendia. Alicia, se aproximou e sussurrava para Fate palavras cruéis, tão cruéis como escutara a anos de Precia. Não. Talvez até mais cruéis.

Tão distraída, ela não notou a presença às suas costas, pronta para matá-la.

- Você deveria morrer, Fate. – continuou Alicia – Ninguém sentiria falta. Nós duas sabemos disso, sua falha.

- HARLAOWN-SAMA! – gritou Hainan a tempo para Bardiche reagir com um Sonic Move.

Assim que se afastou, Hainan neutralizou o outro suspeito. As duas investigadoras se olharam e Fate sorriu para a novata. Sky logo as notificou que pegara o último suspeito. A missão chegara ao fim.

- Ops! – exclamou Alicia rindo. Era obvio que se intrometera de propósito para causar a morte de Fate.

Desde então, as intromissões de Alicia foram mais freqüentes.

- Harlaown-san. – disse seu superior numa reunião entre os dois – Algo está acontecendo com você não é?

- Senhor, não há...

- Até você resolver isso, eu não te quero em campo. Volte para Mid-Childa, ajude com algumas missões mais tranqüilas e papeladas, quando estiver melhor eu te quero aqui novamente.

- Eu estou...

- Não. – ele a olhou seriamente com os olhos brilhando – Você é preciosa demais para morrer em combate, Harlaown. Vá e cuide de você. Como você vai salvar alguém se mal consegue se salvar?

Essa pergunta ficara grudada em sua mente durante os dois meses que estivera em Mid-Childa. Nesse período de tempo foi que Nanoha apareceu em seu apartamento num sábado pela manhã e lhe disse as boas novas.

- Fate-chan! Eu vou me casar! – olhos azuis brilhando de felicidade.

E Fate? Bem, ela chorou sozinha no banheiro naquela noite e em algumas seguidas. Mas não deixaria transparecer. Nanoha jamais poderia saber o tanto que aquilo a deixaria triste, nem o quanto Fate a amava, a amava mais do Yuuno ou qualquer um pudesse amar. Isso era certeza.

Fate acreditava que se ela salvasse crianças como Nanoha a salvara, então ela finalmente se veria digna para se declarar para a amiga, ela acreditava que se esforçasse muito, ela poderia fazer isso no fim. Mas, Yuuno foi mais rápido.

- O que foi? Está perdida nos seus pensamentos né? –era a voz de Alicia.

Fate nunca achara que sua voz fosse tão irritante.

- Não posso ficar longe de você nem nos meus pensamentos?

- Não. Nunca. A vida que você tem foi roubada de mim e você sabe. Você é patética, Fate! É claro que Nanoha não iria querer nada com você. Alguém que está sempre sufocada pela auto-piedade, que ainda tem pesadelos com a mamãe, que se sente culpada por existir...

- Nanoha iria entender! – respondeu Fate mais irritada. – Nanoha é boa, ela é gentil! Para ela, não importa ser como eu sou!

- Mas ela vai se casar com o Yuuno não é? – continuou Alicia. Os olhos vermelhos brilhando com maldade – É fácil ser amigo de algo como você, ela também aceita Subaru não é? Não significa nada. Mas namorar, casar, criar uma criança com um clone, com alguém que nem deveria existir, com uma aberração, é difícil. Eu gostaria de ter alguém normal, não um ser como você...

- Ela é boa! Você é cruel! – gritou Fate novamente. Sua cabeça estava pulsando, estava quase se ajoelhando e agarrando sua cabeça novamente, mas Alicia queria isso, então tinha que resistir – Ela ama Yuuno, não tem nada a ver com como eu nasci!

- Não? Mas ajuda não é? – continuou Alicia.

Fate não respondeu. Foi para cozinha, precisava comer algo, assim teria forças para lutar contra Alicia.

- Não seria mais fácil morrer? – continuou a pequena loira seguindo Fate– Eu desapareceria. Afinal, estaríamos quites, ou seja, ambas estaríamos mortas. Sinceramente, o que pretende dessa sua vida? Vai continuar resgatando criancinhas até quando?

Fate não respondeu. Não sabia responder. Tinha se feito essa pergunta muitas vezes ultimamente. Nem sequer “resgatar criancinhas” ela podia mais, não enquanto Alicia permanecesse a atormentando. Se procurasse ajuda, ela seria considerada louca e inepta para trabalhar, se continuasse em missões com Alicia, poderia colocar a vida de seus parceiros e inocentes em perigo. O que fazer?

- Sua vida é vazia. Um desperdício. Morra logo.

- Calada! – pegou um copo de vidro na pia e o atirou em direção a Alicia. Ao contrário, do que previra, o copo não só a atravessou, mas aparentemente também machucou Alicia. A pequena loira estava coberta de sangue.

- Viu? Você é uma criatura do mal. Olhe o que fez comigo.

- Eu... Eu não queria. N-Não foi minha intenção. Perdoe-me Alicia. – respondeu enquanto caia no chão novamente.

- Nunca te perdoarei. Além de roubar minha vida, também me machuca? Venha, e fique quite comigo. Se machuque.

A investigadora engatinhou até os pedaços de vidros, pegou um dos maiores e o apertou com força na mão. O sangue quente escorregou e manchou os cacos menores.

- Mais. Corte aqui. – disse Alicia mostrando o próprio punho. – Se corte até seu sangue cobrir todo o chão. Só assim eu te perdoarei.

Tremendo, Fate colocou o caco maior no seu punho... Só um pouco mais de força e o dano seria irreversível...

O telefone tocou. Nem Alicia nem Fate se moveram. A secretária atendeu novamente.

- “Fate-chan”. – era Nanoha. Fate sentiu as lágrimas descendo pelo seu rosto – “Hayate disse que não está conseguindo falar com você e eu fiquei preocupada. Você virá, certo? Eu queria você do meu lado, Fate-chan, então por favor!”

- Nanoha... Nanoha... Nanoha... – largou o vidro e se arrastou de volta para a sala de onde a voz vinha.

“Eu conto com você para olhar Vivio para mim. Eu iria pedir a Hayate, mas ela está tão ocupada. Eu e Yuuko-kun não ficaremos longe muito tempo, mas eu quero ter certeza de que ela está com quem eu confio.” – e a mensagem acabou.

- Ela só precisa de você para cuidar de Vivio enquanto ela rola com o novo marido na cama como dois coelhos no cio. – continuou Alicia – Isso sim é ficar para titia...

Fate tremia. Quebraria logo seus dentes se continuassem a trincá-los como fazia agora.

- Calada – sussurrou. Sentia-se sem voz para gritar. – Nanoha não iria...

- Não iria o que? Transar com ele? Pare com isso! Por que você acha que ela quer que Vivio fique? Sinceramente!

- Calada. Calada. – as lágrimas desciam e quando tentou limpá-las, esqueceu da mão ensangüentada e seu rosto ficou manchado de sangue.

- Ela já está ansiosa por isso. Será que eles não fizeram ainda? – continuou Alicia torturando a mulher que se contorcia e chorava no chão. – Que idiota dele. Mas se bem que pelo menos ele é um cavalheiro, melhor do que ser mulher, não é?!

- CALADA! – gritou por fim.

- Ela só precisa de você para ser a titia da Vivio. Já imaginou quando aquela garotinha passar a chamar Yuuno de “Papa” e você se tornar aquela tia solteira e gentil que lhe dá presentes? Oh! Primeiro mamãe, depois Lindy, depois Caro e Erio, agora Nanoha e logo Vivio! Como alguém pode ser tão descartável assim?! Morra, Fate, morra. Pague pela vida que você me roubou, pelos amigos que eu deveria ter tido, pelo casamento que nunca se realizará. Você não acha que se safou demais?

Fate queria gritar para fazê-la se calar, mas não conseguia. Suas forças a tinham deixado.

Pensou em chamar Arf, antes que fizesse algo, mas ...

- Arf? – indagou Alicia sentando-se ao seu lado – Ela está feliz com o casamento sabia? Você pode sentir também não é? – começou a rir – até pela sua familiar! Até ela preferiu Yuuno! Sinceramente, quem poderia te amar?

- Eu não sei... – sussurrou- Eu quero morrer.

- Eu sei. Eu também quero isso, então... Vamos. Tem um lugar perfeito para isso.

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- Ela vai ficar bem. – afirmou Hayate para Signum que a olhava com desconfiança.

- Testarossa não me parecia bem. Desde que ela voltou, eu sinto algo estranho. – respondeu a espadachim.

- Estamos falando de Fate-chan aqui! – exclamou Hayate – Ela deve estar andando por ai. Talvez numa praia ou talvez até se preparando para o casamento. Nanoha ligou para ela, então...

- Hayate! – exclamou Signum perturbada – Nanoha ligou para ela? Quando?

- Er.. Hoje. Eu pedi para ela fazer isso...

- Argh! – praguejou e se levantou – Isso não é bom. Definitivamente.

- Signum? – questionou Hayate.

- Eu vou até Testarossa. – disse e sem mais saiu do escritório.

Hayate e Rein se entreolharam.

- Que bobagem. Fate-chan vai ficar bem.- disse Hayate novamente tentando se convencer. – Vai sim. É Fate-chan afinal.

Calma, responsável, confiável e gentil Fate-chan. Ela não iria fazer nada demais, com certeza. Não iria. Jamais iria. Era Fate-chan.

- Droga. – praguejou. – Eu não posso ligar para Nanoha. Iria atrapalhar tudo!

- Hayate... – Rein estava preocupada. – Nanoha-chan iria querer saber disso não?

- Iria, mas e se não for nada? E se Signum chegar lá e encontrar Fate sentada bebendo chá? Triste, mas bem? Iríamos atrasar o casamento. Além do mais, seria bom para Fate-chan ver Nanoha-chan agora? Eu não sei, Rein, não sei.

E Rein também não sabia. Ninguém sabia do fantasma preso dentro da cabeça de Fate que a atormentava. Ninguém sabia e nem saberia.

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Signum estava com o carro que Fate lhe emprestara.

- “Fique com ele, Signum.” – disse a loira na última vez que se encontraram – “Me devolva da próxima vez que nos enfrentarmos”.

- Idiota. – murmurou. – Testarossa. Sua imbecil.

Conhecendo Nanoha, ela com certeza disse algo para magoar Fate sem nem saber. Tem sido assim desde que ela e o bibliotecário começaram a namorar. Fate sofrendo sozinha e a outra não a deixando em paz.

- “Foi uma surpresa Nanoha ter aceitado.” – pensou Signum – “ Nenhum de nós daria nada pelo relacionamento deles, mas parece que aparências enganam.”

Exatamente por isso ela sabia que os sorrisos e o bom humor de Fate escondiam algo muito pior. Ela sentia e sabia que Nanoha também suspeitava de algo, não foram poucas as vezes que Testarossa ficava olhando para o nada quando achava que não estava sendo observada e seus olhos expressavam tanta dor. Como se um fantasma, ou melhor, um demônio ficasse sussurrando palavras indesejadas e dolorosas em seu ouvido. Quando isso acontecia, Nanoha era a primeira a tirá-la daquele estado, por isso Signum sabia que a Instrutora sabia que tinha algo errado... Então, por que, por qual maldito motivo, Nanoha não fazia nada?! Por que a deixava sozinha e sofrendo? Por quê? Por quê?! Inferno!

Quando Testarossa foi dispensada, então soube que algo realmente estava errado. Nenhum laudo médico expressava algo significativo e quando interrogado, o comandante simplesmente dissera que ela não estava bem e que isso quase a matou em certas ocasiões. Ninguém sabia o que estava acontecendo naquela mente torturada se não a própria vitima! Quão mais frustrante pode ser não saber o que está de errado?

Interrogara Testarossa várias vezes, mas a resposta permanecia a mesma: nada. Mas ela mentia e Signum sabia, ela sabia! Como alguém tão inteligente e poderosa como Testarossa poderia estar naquela situação? Por que não dizia o problema e tentava resolver?

- “O casamento de Nanoha pode lhe machucar, mas isso não é razão para se destruir!” – pensava furiosamente enquanto dirigia – “Essa razão não é o suficiente, nunca será o suficiente!”

Ignorando as buzinas, apertou mais o acelerador. Era agora ou nunca.

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O casamento aconteceria em apenas uma hora. Pouco tempo. Mas não para Fate. Nunca para Fate.

- Seria melhor se fosse no Jardim do Tempo. – comentou Alicia – Mas ele foi destruído. Que desperdício. Eu fui feliz lá.

- Eu também. – comentou Fate com os olhos abaixados.

Estava sendo puxada por Alicia para o lugar final. Seu lugar de descanso. Finalmente. Depois de todos esses anos, finalmente, paz. Fate se questionava o que aconteceria com ela depois de morta. Sua alma iria para junto das demais ou tinham um lugar especial só para “aqueles como ela”... Melhor, ela tinha uma alma? Ou era só um amontoado de células?

- Para o inferno, é claro. – respondeu Alicia. – Você vai para o inferno, ou tártaros ou qualquer que seja o nome para um lugar terrível e cheio de torturas. Você vai para lá.

Fate deu um sorriso cínico e conformado. Nunca chegara a uma conclusão diferente da de Alicia, então como retrucar?

- Morrer não dói. Eu sei. – continuou a criança. – Vai ser rápido. Você nem vai sentir a queda.

Fate olhou ao redor enquanto era guiada. Estavam numa curva de uma estrada que dava para um precipício. O mar estava agitado e as ondas se chocavam violentamente contra as pedras pontiagudas. Era impossível sobreviver a queda, mas se por milagre isso acontecesse, as criaturas que viviam debaixo d’água cuidariam do resto.

A placa com enormes letras lia-se: “Dirija com cuidado. Criaturas perigosas vivem nessas águas.”

Ela não estava com medo. Uma calma magnífica a preenchia.

- A morte é isso. Paz e calma. É um não existir precioso. É não pensar e não sentir.

- Parece bom. – comentou Fate. Seu coração ardia.

- E é.

Na beira do precipício, com a morte tão próxima, Fate fechou os olhos agradecendo mentalmente cada um que passou pela sua vida. Alicia ao seu lado estava paciente, com um sorriso satisfeito no rosto e uma expressão de calma. Tinha alcançado seu objetivo.

Signum não foi a única que foi atrás de Fate. Assim que chegou no apartamento da investigadora, Arf já estava lá. A familiar estava no chão da sala abraçada a uma blusa social branca e chorava, chorava sem parar.

A espadachim estava com medo de perguntar o que houve.

- Está difícil senti-la. – disse Arf.

E Signum soube que algo estava mais errado do que parecia. O apartamento estava bagunçado. Com resto de coisas quebradas e roupas espalhadas. Fate não faria uma coisa dessas. Sem mais palavras para a familiar em lágrimas, foi para a cozinha onde viu o copo quebrado e os traços de sangue. Com a garganta apertada, foi para o quarto que assim como a sala estava bagunçado. Voltou a sala.

- Arf-san. Onde ela está?

Arf balançou a cabeça negativamente.

- Quando eu cheguei, ela já não estava aqui. Eu sabia que tinha algo errado, eu devia ter vindo antes. – e o choro continuou.

- Mas você estando viva é uma boa coisa. Ainda temos tempo. – declarou Signum se levantando. Iria ligar para Hayate. Foda-se o casamento.

- Não, você não entende. – argumentou Arf – É diferente! O contrato que eu tenho com Fate é diferente! Eu posso viver sem ela me alimentando constantemente de mana, eu vivo menos, mas vivo. É POR ISSO QUE ESTOU CHORANDO! Eu não a estou sentindo direito...

Mais preocupada ainda, entrou em contanto com Hayate.

- Então! – disse a face sorridente de Hayate – Fate-chan está tomando chá e lendo não é?

- Ela não está aqui. A casa está uma bagunça e tem sangue na cozinha. – o sorriso sumiu – Arf está aqui também dizendo que mal a está sentindo. Hayate, você tem que chamar Nanoha. Agora.

O vento ficou mais forte. Fate abriu os braços e sentiu o vento cobrindo todo seu corpo. Estava na hora.

- Pule, Fate. É o melhor.

Aproximou-se mais do precipício.

- Talvez, até mama vai se orgulhar disso.

- Foi o que ela sempre quis não foi? – Fate deu um sorriso triste – Eu sempre a amei e isso vai ser por ela também. – Lágrimas desceram. – Nanoha, seja feliz.

E com um sorriso pulou. E Alicia riu. Riu desesperadamente enquanto suas próprias lágrimas desciam e logo ela também pulou seguindo Fate.

Nenhuma delas notou o carro preto dirigindo em toda a velocidade e nem mesmo numa presença ao horizonte voando a toda velocidade em direção ao corpo que caia.

Notas finais
Que final é esse?!
É um final aberto. Quem era a tal pessoa e se conseguiu alcançar Fate... Bem, isso fica a critério do leitor. Talvez, eu faça uma continuação. Mas, enfim, quem quer que tenha lido até agora, eu agradeço pelo seu tempo!