Lost soul
2 1 - Primeiro contato
Notas iniciais
Sabe de uma coisa? Às vezes eu deito em minha cama e imagino uma vida perfeita: meu pai chegando do trabalho depois de um dia difícil com todos aqueles clientes chatos pedindo coisas impossíveis, minha mãe na cozinha preparando o jantar com frango frito e macarronada com molho de salsa, coisa que eu particularmente adoro, e por fim meu querido irmão mais velho, que não tira os dedos ágeis do controle do videogame da sala, e a cada grito dele, eu sei que mais uma vitória foi para o seu inventário. Eu sentada no sofá, meus pés com meias junto ao meu corpo enrolado em um cobertor grande e pesado, meu pensamento longe me faz pegar no sono, e meu pai como se eu fosse ainda uma garotinha de seis anos de idade, pequena e magrinha me pega no colo e sobe as escadas em direção ao meu quarto, meus cabelos escuros, lisos e longos a balançar enquanto ele caminha suavemente tentando não me acordar.
Entretanto, nem tudo é um mar de rosas. Muito menos comigo. Afinal, isso jamais acontecerá, a única coisa que me resta são as memórias. Por que no final tudo acaba, não é?
Meu nome é May. May Bell. Eu moro em Maryland na cidade de Frostburg, aqui é bem pequeno, na verdade, aproximadamente sete mil habitantes. A casa que ganhei de herança é muito grande, com dois andares, no primeiro a sala de tamanho mediano, cozinha equipada, banheiro, um escritório com vários livros sobre medicina e biologia, e uma sala de jantar. O segundo pavimento com as quatro suítes. O meu quarto todo decorado com lilás, e em uma das paredes, um quadro metálico branco com imas de borboletas roxas, antes servia para expor fotos minhas e de coisas que eu gostos, agora esta forrado de manchetes de jornal com folhas amassadas e surradas. O quarto do meu irmão Natan foi pintado de azul marinho bem escuro por ele mesmo, por isso que esta meio mal feito, óbvio que ele não tinha experiência, mesmo com dezessete anos nas costas. Do outro lado da cama o vazio era preenchido com grandes caixas de som e uma bela guitarra vermelha escura que ele tanto amava. Tocava Slipknot todos os dias que chegava em casa, era questão de minutos para aprender a tocar um musica, e fazia isso com perfeição. Não sei, mas não tenho boas lembranças daquele lugar. O dos meus pais com um grande guarda-roupa branco encostado na parede, combinando com a tinta bege que dava vida ao cômodo. Um grande espelho que era da minha mãe, em pé ao lado da porta. E o único banheiro que tinha uma bela banheira com hidromassagem, era o deles. Amo tomar banho neste lugar, meus membros relaxam, por conta da água quente. E por fim o quarto de hospedes, bem simples se levar em consideração os outros cômodos da casa. Somente uma cômoda, uma cama de casal e um criado mudo preenchiam o lugar. O banheiro ao lado também seguia o mesmo modelo: chuveiro quente, espelho e um pequeno varal para roupas menores.
O gramado que percorre toda a casa, antes bem verde e nutrido, hoje totalmente o inverso. Um grande balanço de ferro, fincado sobre a terra no meio do jardim, duas hastes em forma de triangulo sustentam o meu peso sobre ele. Ainda que caiba mais uma pessoa ao meu lado, não me sinto tão segura assim.
Quase fim de tarde, levanto do banco do balanço e caminho em direção a casa. Subo os degraus de madeira que rangem em baixo das minhas pantufas infantis de coelho cor de rosa numero trinta e seis, o coelhinho à direita esta sem um dos bigodes, o que deixa ele fofinho e especial. Pego um cartão que repousava sobre o carpete de palha escura. Giro a maçaneta e entro. De baixo da porta outro cartão foi jogado no chão de madeira. Paro de andar quando leio o que está escrito nos bilhetes. Ambos do mesmo tamanho. Um branco escrito com letras cursivas em preto e o outro preto escrito com letras manuais em branco. Os dois feitos a mão, e a mesma mensagem estampada.
“’Sob a mão do maioral
Este corpo foi julgado
E além deste horizonte
A marionete ou o condenado”
Ajuda estará a caminho’
Que droga de mensagem é essa? E quem escreveu isso? Essas palavras não fazem sentido algum. “Sob a mão do maioral”? Que maioral? Não, não, não. Com certeza isso é só mais uma propaganda de um produto idiota, ou um projeto de alguma instituição nova. Não tem nada me envolvendo nesta historia ridícula.
Ainda com as mãos tremendo, ando em direção à geladeira, e retiro uma maça do cesto de baixo, lavo a fruta e corto em pedaços com uma grande faca e subo para tomar um banho.
No armário do meu quarto, procuro meu pijama de flanela preferido, de todos é o mais velhinho, além de estar um pouco justo e pequeno, em meu corpo de uma garota de dezesseis anos. Tiro minhas pantufas e vou para o banheiro. Fecho a porta da suíte dos meus pais, tiro meu moletom por cima, minha calça e minhas roupas de baixo. Espero a banheira encher com uma água extremamente quente, esparramo sabonete liquido por todo o meu corpo e mergulho naquela maravilhosa sensação. Quando termino me enrolo na toalha seca e grande, e percebo que esqueci a calcinha e o sutiã no meu quarto. Droga. Vou correndo ao meu cômodo e me visto rapidamente. Assim, desço para a cozinha para preparar algo para a janta. Nunca aprendi a cozinhar igual à mamãe, mas não sou de se jogar fora. Decido fazer uma sopa mesmo e enquanto a mesma cozinha no fogão, eu assisto televisão na sala.
Coloco o caldo em um prato fundo, e me delicio com o gosto. Estou cada vez melhor. Esta refeição me faz lembrar de quando eu e Natan éramos menores, e meu pai preparava sopa para a janta quando minha mãe trabalhava até tarde. A única coisa que ele conseguia fazer.
Meus pensamentos são jogados para longe quando escuto o barulho da campainha. De primeiro penso em correr para debaixo da cama e não sair nunca mais. Mas não. E se for algo realmente importante?
Abro a porta. A primeira coisa que vejo é um garoto loiro, com pele bronzeada, uma calça de linho extremamente branca, uma espada de prata presa na cintura, e olhos claros azulados. Se não fosse por um pequeno detalhe ele seria normal. Se não fosse por um pequeno detalhe ele se misturaria com os outros. Se não fosse por um pequeno detalhe ele frequentaria a escola da nossa cidade. Se ele não tivesse asas brancas de anjo em suas costas.
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