Lost and found

1 I - Em busca de: Gatos


Notas iniciais
Fiz essa historia em comemoração a legalização do casamento gay EM TODOS OS FUCKING ESTADOS DOS USA, espero que gostem :)

Os cartazes já estavam colados em todos os postes de luz que Yuu pode achar, a imagem do gato de pelo alaranjado lambendo a pata decorava a folha e logo abaixo estava o número de seu celular para que quem o encontrasse pudesse contata-lo. O gato pocchi havia sumido naquela manhã, saiu pela janela e não havia voltado.

Quase como todas as coisas boas em sua vida.

Suspirou, um pingo de agua molhou seu ombro e ele percebeu que ia começar a chover. Praguejou correndo de volta para seu apartamento.

Espalhou os cartazes por sua vizinhança primeiro por que tinha esperanças de que talvez o felino não tivesse se deslocado tanto.

Quando entrou no nada organizado apartamento, retirou as roupas largando-as na entrada mesmo por que não queria ter mais uma preocupação para sua listinha, já estava ficando insuportavelmente enorme.

Ele andou nu pela cozinha, fez o caminho para seu quarto e enfiou uma calça de pijama que encontrou largada no chão. Jogou o corpo na cama e agarrou seu notebook, tentando se livrar da preocupação número 1 da listinha nem tão “inha” assim.

“Terminar de escrever o capítulo final do livro”

Yuu não era o escritor mais renomado do mundo, mas ele tinha sua pequena legião de fãs, devia ter terminado seu quinto livro a mais de dois meses e a editora estava começando a ficar impaciente, sendo totalmente acompanhadas pelos leitores mais ávidos. Ele tinha começado aquele capitulo milhares de vezes, mas sempre acabava encaminhado tudo para lixeira assim que chegava nas palavras finais.

Em parte por que sentia que não estava bom suficiente, ainda mais levando em conta que era o último livro de uma saga e já haviam propostas para transforma-la em uma série de filmes.

Mas lá no fundo sabia que toda a sua inspiração tinha ido por agua a baixo junto com seu ex-namorado e “musa inspiradora”. Mika era a principal fonte de inspiração, ele foi a principal causa de seu sucesso em vários pontos, principalmente com relação ao protagonista que era quase uma cópia ficcional de Mika.

Seus dedos pairaram sobre o teclado como sempre, apertou a tecla M depois a I e foi iniciando lentamente o texto.

No fim de tudo, tinha chegado a quase dez páginas.

E todas elas foram apagadas rapidamente, o dedo pressionado violentamente sobre a tecla. As letras foram sumindo até não sobrar mais nenhuma.

“Eu me odeio” Pensou jogando o notebook para longe e encarando o papel no guarda-roupa, sua lista de coisas a fazer. O último item estava ali a vários e vários dias e Yuu tinha certeza de que nunca iria conseguir risca-lo. Haviam muitos poucos objetivos riscados, de todos os vinte, só três foram cumpridos.

Dar comida para o gato.

Fazer as compras do mês.

Marcar uma consulta no psicólogo.

Segundo o Dr. Lacus, Yuu tinha uma espécie de transtorno obsessivo que se manifestava em todos os pequenos pontos de sua vida que o deixavam frustrado. Sua carreira era um grande exemplo disso já que por mais que tivesse plena certeza de seu talento, ainda sim continuava a duvidar se podia aguentar o fardo do último livro em seus ombros.

Não sabia se ele tinha razão, mas agora não era momento de pensar em seus problemas comportamentais.

Suspirou e recomeçou a escrever o capitulo.

E de novo, de novo e de novo.

Tinha que ficar perfeito ou nunca iria tirar aquilo de sua cabeça.

A morte do protagonista não podia ser um evento simplório como o fim de seu relacionamento fora, precisava ser sangrento, horrendo e triste como a sua vida tinha se tornado desde que Mika preferiu a calçada da fama a ele.

...

Mika estava mais uma vez relendo o script do filme, por mais que se lembrasse exatamente de cada fala sua e da parceira de cena.

Era um filme de ação, daqueles onde só existem explosões e mulheres fatais, mas mesmo assim eram aclamados pelo público e faziam a carreira de muitos atores. Mika nunca quis ser um galã, ele tinha começado a atuar em filmes de baixo orçamento com uma pegada mais “cult”, entretanto acabou sendo descoberto quando um famoso diretor viu um de seus filmes onde era um garoto fumante e depressivo.

Agora ali estava, em seu terceiro filme de ação onde interpretava um herói incompreendido e atormentado pelos traumas do passado.

Não muito diferente de seus filmes anteriores, mas com certeza mais... “hollywoodiano”.

“Como foi que eu deixei as coisas chegarem a esse ponto?” Bufou, as gravações daquela metade do filme em particular estavam sendo filmadas no Japão. Ficou feliz por poder voltar a seu país e deixar sua nova vida para trás pelo menos por um tempo, mas acabou se lembrando que fugir de nova vida iria apenas colocá-lo cara a cara com a antiga.

Cara a cara com suas decisões erradas e egoístas.

Cara a cara com um reflexo do que um dia já foi.

Cara a cara com Yuu.

Não que esperava encontra-lo, por mais que estivesse na mesma área onde o apartamento dele ficava, mas apenas a ideia de que estava no mesmo solo de seu ex o deixava estranhamente nervoso.

- Pronto? Vamos gravar a cena da fonte – A produtora do filme parou em frente a sua cadeira mascando chiclete de modo impaciente – Temos que fazer a maquiagem.

A cena da fonte era basicamente uma luta de seu personagem e o vilão da história, um típico clichê onde ele acabava mortalmente ferido e a mocinha da história cria coragem e salva sua vida.

O vilão não morre, é claro. Apenas o protagonista tem o privilégio de tirar a vida do inimigo.

Foi uma sequência longa, a coreografia da luta era difícil e ainda trocava de lugar com um duble em alguns momentos e a atriz que fazia a mocinha se atrapalhou com a arma algumas vezes. Quando finalmente, Mika já estava quase estourando.

Se o contrato não tivesse uma taxa de cancelamento alta, ele teria largado aquela porcaria assim que leu o roteiro, o que iria lhe custar horas de bronca de seu empresário, Ferid.

Trocou de roupa o mais rápido que pôde, e resolveu dar uma caminhada pelo parque que havia no caminho para o hotel querendo esfriar a cabeça.

Às vezes, Mika tinha a sensação de que estava interpretando a própria vida. Sendo um galã de um filme sobre uma pessoa que finge ser quem não é.

Mas agora era tarde demais para voltar atrás e mudar suas escolhas, ele já tinha pegado o caminho mais fácil da encruzilhada e o preço saiu alto. O que restava era se conformar, nada iria voltar a ser como era antes.

Ouviu um miado e se virou, havia um gato com pelo laranja em cima do banco do parque.

Notou que ele tinha uma coleira.

- Ei, amiguinho – Se aproximou do felino fazendo carinho em sua cabeça, o bicho ronronou – Está perdido?

Notas finais
Love Wins ♥