Lost Stars
3 Capítulo 2 - Despertar
Notas iniciais
"O sonho é a pequena porta escondida no mais profundo e íntimo santuário da alma." — Carl Jung
“Ariel caminhava apressadamente sobre o chão de mármore, o local estava silencioso e apenas o som de seus passos ecoava pelo imenso corredor. Ela estava nervosa. Parou em frente a uma imensa porta dupla de madeira escura em formato de arco, respirou fundo uma, duas, três vezes tentando acalmar as batidas descompassadas de seu coração, esticou suas mãos sobre a maçaneta redonda e dourada e a girou dando um passo à frente.
O salão era circular com o mesmo tipo de mármore claro que havia no corredor adjacente, as fileiras de cadeiras circundavam ao redor do centro que era rebaixado como um palco antigo feito para representar as tragédias gregas. No centro havia um homem ajoelhado com seus braços presos às correntes de ferro fundidas ao chão. Não era exatamente um homem, imensas asas brancas projetavam-se de suas costas. A cor pura das asas contrastava com a pele bronzeada e com o vermelho escarlate do sangue que manchava as penas, criando uma triste pintura. O corpo do anjo estava tencionado o que deixava em evidência toda a sua forte musculatura, seu rosto estava abaixado e os grossos cabelos escuros caiam-lhe sobre a testa impedindo Ariel de ver perfeitamente o perfil dele. Mas ainda assim havia uma beleza trágica nele que tornava impossível desviar o olhar.
De pé, em frente ao anjo, havia outro homem. Alto, pele clara, cabelos escuros e curtos perfeitamente alinhados, como se até mesmo os fios de cabelo temessem desafiá-lo. Detentor de uma postura autoritária e um par de olhos ameaçadores e tão negros que pareciam um abismo sem fim. Ele estava segurando uma espada prateada reluzente e cuja base parecia ser cravejada de rubis, havia algo escrito na lâmina em uma língua estranha que Ariel não conseguia ler. E havia tanto sangue naquela cena: empoçado no chão, manchando a espada, escorrendo pelas feridas do homem acorrentado.
— Diga-me, Rafael, você fez isso a mando de quem? — exigiu o homem com a espada. A voz era estranhamente calma, o que tornava ainda mais aterrorizante.
— Não — ele respondeu bravamente, levantando o rosto e encarando seu torturador.
— Diga quem! — o torturador suspirou, como um pai decepcionado, antes de mover a espada com precisão e cravá-la na coxa esquerda do anjo. Rafael tencionou cada fibra, os tendões do pescoço saltando como cordas de um arco prestes a romper, mas o grito morreu em seu orgulho. — A lealdade é uma virtude perigosa para um traidor — disse o homem, girando o punho da espada dentro da ferida.
— Não há ninguém! Eu fiz tudo sozinho! — O anjo cuspiu as palavras.
— Eu estou cansado desse joguinho, Rafael, diga-me logo e eu prometo que sua punição não será tão severa. — disse retirando a espada ensanguentada da perna do anjo.
— De que vale a sua promessa, Miguel? — o anjo questionou num tom desafiador — Eu sei que você está se regozijando com isso, você finalmente conseguiu a sua vingança pessoal contra mim. Mas quer saber? Eu não me importo! Me torture, me prenda, me mate! Não faz diferença para mim.
— Você acha que eu gosto disso, Rafael? — A fachada polida finalmente mostrava algumas rachaduras. — Ele me deixou uma missão! Se eu não fizer cumprir as leis, quem irá?
Miguel empunhou a espada e seu rosto transbordava raiva, pela escuridão que enevoava seus olhos aquele seria o golpe final! A espada iria em direção ao peito do anjo, ele parecia já ter aceitado, seus olhos estavam fechados apenas esperando pelo fim. Mas o golpe não veio, a espada o acertou na lateral esquerda do corpo, fazendo apenas um corte superficial. Não sabia quem estava mais surpreso, o anjo ou o seu torturador.
Ariel não suportava mais assistir aquela cena, deu mais um passo à frente, determinada a ajudar o anjo de algum modo, queria soltar as correntes e dizer para o homem que o torturava para deixá-lo em paz, queria curar todos os seus ferimentos, ela não suportava assistir ao sofrimento dele, seu coração chegava a doer. Deu mais um passo à frente e as imensas portas fecharam-se atrás dela num rompante, o som estrondoso fez com que todos dentro da sala desviassem os olhos do centro e a encarassem.
— Oh, Ariel o que faz aqui? Temos algum problema? — perguntou o torturador, deixando a espada de lado e caminhando em sua direção.
“Sim, temos muitos problemas a começar com o que parece ser uma sessão gratuita de tortura”. Era o que gostaria de ter dito. Porém a resposta dada foi bem diferente dessa.
— Na verdade, eu tenho assuntos importantes a resolver com Gabe e estarei indisponível pelas próximas horas. Vim apenas lhe informar que a arca está segura, eu redobrei a vigilância. Não tem com o que se preocupar. — A voz da garota estava livre de qualquer emoção.
— Obrigado. — Ele respondeu com um tom sereno, nem um pouco parecido com o que Ariel o ouviu usar à poucos segundos atrás. — Sei que isso deve estar sendo difícil para você, considerando o quanto você o estimava. — Ele disse colocando a mão sobre o ombro dela e olhando-a nos olhos, numa tentativa de confortá-la. Apesar da expressão dura no rosto dele, seu olhar agora era cálido.
— Devemos fazer o que é certo, Miguel, e isso significa eliminar as ameaças independentemente de quais ou quem elas são. — disse polidamente e seu olhar era vazio. Miguel apenas assentiu com a cabeça, mas permaneceu observando-a parecendo estar satisfeito com a resposta, mas ainda não completamente convencido.
Ariel retirou a mão dele de seu ombro e quebrou o contato visual. Ela não queria sentir o toque de conforto de alguém capaz de usar a mesma mão para cometer tanta atrocidade.
— Conversaremos quando isso tudo acabar. — disse Miguel e a voz dele parecia carregada de significados. Atrás de seus olhos havia um brilho desconhecido. Esperança, talvez? Mas antes que Ariel pudesse investigar mais a fundo a verdade escondida por detrás daquela frase, ele voltou para o centro do círculo assumindo novamente sua máscara de torturador.
Ela se virou encarando a porta pronta para ir embora, não podia ficar e assistir a continuidade daquela cena. Deu uma última olhada para o anjo acorrentado, ela estava quase desistindo de tudo e correndo para salvá-lo.
— Ariel, por favor. — O lindo anjo a olhou e ela finalmente pode ver aquele rosto deslumbrante com intensos olhos verdes que a fitavam, embora as palavras dele tenham sido de clemência, Ariel viu outra coisa escondida em seus olhos, era quase como se ele pedisse para ela ir embora.
E foi exatamente isso o que ela fez. Fechou a porta atrás de si e caminhou obstinada a ficar o mais longe dali, porém, por mais que ela se afastasse ela conseguia ouvir os gritos do anjo. Não pelo corredor, esse ainda estava tão silencioso quanto antes. Os gritos ecoavam dentro de sua cabeça.”
Ariel acordou com um grito preso na garganta. Sentou-se na cama de súbito, o peito subindo e descendo em espasmos doloroso, uma lágrima quente escorria pelo seu rosto que estava tão frio quanto uma geleira. Suas mãos tatearam instintivamente as coxas, procurando ferimentos que não existiam, esperando encontrar sangue onde havia apenas o edredom barato. O quarto estava quieto. Seguro. Mas o cheiro metálico de sangue e o eco daquele grito de dor ainda vibravam em seus ouvidos, sobrepondo-se ao ruído do trânsito lá fora. Ela tremia. Não era o tremor suave de quando sonhava que voava sobre o mar ou até mesmo o susto imediato de sonhar que está caindo. Era uma reação ao terror puro e continuo que havia presenciado e de alguma forma ainda sentia em suas entranhas.
Pela primeira vez, o santuário de sua mente havia sido profanado. Aquele anjo de olhos verdes... ele estava sofrendo. E a dor dele parecia, de alguma forma terrível, culpa dela Tinha sido tudo tão real.
Ela estava habituada a seus sonhos estranhos e anormalmente vívidos, porém a maioria eram sonhos nos quais ela estava voando por um céu azul límpido e cortando velozmente as nuvens brancas como algodão, ou ainda caindo por uma noite estrelada e pousando seus pés suavemente na areia fofa da praia de Paradiso. Mas havia uma constante nesses sonhos, tirando o óbvio fato dela poder voar. Ariel se sentia livre, ela podia sentir o vento batendo em seu rosto ou o gosto da maresia em sua boca assim que acordava. Isso que os deixavam tão reais, por vezes quando criança ela não sabia distinguir o que era realidade e o que era sonho, mas nunca se importou realmente porque aquilo era algo bom, algo que lhe trazia uma sensação de plenitude e paz pelo restante do dia.
Era por isso que esse novo sonho abalara tanto. Ela nunca tivera um pesadelo tão detalhado! Ainda mais um assim tão vívido que a fizera acordar com essa sensação de náusea e um buraco na boca do estômago. Era como se tudo o que ela sentira no sonho permanecesse, roubando um espaço dela. A impotência ante a incapacidade de fazer algo naquela situação, a tristeza de ver alguém que ela se importava sofrendo. Estava tudo ali.
A única âncora naquele mar sombrio de caos, era o anjo acorrentado. Aqueles olhos verdes não eram estranhos, eram velhos conhecidos de noites mais tranquilas, de sonhos onde ele não sangrava e ela não sentia culpa. Mas desta vez, a familiaridade trouxe medo, não o conforto.
Ariel se arrastou até o espelho. O reflexo devolveu-lhe uma imagem assustadora: cabelos embolados, olhos grandes e inchados que destacavam-se ainda mais palidez de sua tez. Resistiu a vontade de jogar-se de volta para a cama e dormir novamente, desejando ter outro sonho, dessa vez com algo bom.
O celular vibrou na mesa de cabeceira, iluminando o quarto escuro: 08:20.
O pânico substituiu a melancolia em um segundo.
Ariel girou a cabeça para a cama ao lado. Vazia e perfeitamente arrumada. Dalilah. A amiga e sua irritante disciplina matinal de corrida já haviam saído, o que significava que Ariel perdera seu despertador humano. A adaptação à vida fora da casa da mãe estava sendo mais caótica do que previra
— Merda. Merda. Merda! — O mantra sagrado dos atrasados escapou enquanto ela tropeçava pelo quarto.
Jeans surrados, uma camiseta que talvez estivesse do avesso e o tênis de sempre. Nada de banho, nada de café. A higiene bucal foi um recorde de dez segundos. Ela saiu do apartamento como um furacão, deixando para trás a cama desfeita e a promessa de uma manhã organizada.
Cinco minutos atrasada. Só cinco minutos. Se o professor for humano, ele vai entender.
Ela chegou à sala ofegante. Na pressa, girou a maçaneta e empurrou a porta com força excessiva batendo-a contra a parede, transformando o que deveria ser uma entrada discreta em um estrondo que parou a classe inteira.
O professor congelou, o giz suspenso no ar. Quando se virou, Ariel sentiu o impacto antes mesmo de reconhecer o rosto. Eram eles. Os olhos verdes que, segundos atrás, suplicavam por clemência sob o aço de Miguel, agora a atravessavam com uma intensidade que beirava o ódio — ou a agonia. A náusea do pesadelo voltou com força total, mas desta vez, o sangue não estava no chão; estava todo no rosto de Ariel, que ardia sob o escrutínio daquele homem.
— Ariel. — O nome deixou seus lábios dele não como uma pergunta, mas como uma prece. Ou uma maldição. Eram eles. Os olhos verdes do sonho. Vivos. Intensos. E, naquele momento, cheios de um reconhecimento aterrorizante. Ariel sentiu uma vertigem, como se o chão sob seus pés tivesse desaparecido. O alívio a atingiu como uma onda física
Ele não está sangrando, ele está inteiro. Aquele aperto dentro do peito dela pareceu desaparecer instantaneamente ante a essa constatação. O que era uma idiotice considerando que ela havia apenas sonhado que ele estava sendo torturado, não havia motivo real para a preocupação. Mas os sonhos dela eram tão reais que muitas vezes a faziam cruzar a linha entre a realidade e o sonho.
O silêncio se esticou até o ponto de ruptura. Rafael piscou, e a máscara caiu sobre seu rosto novamente. A vulnerabilidade desapareceu, substituída por uma frieza acadêmica.
— Senhorita... — Ele pigarreou, recompondo-se. — Se já terminou de derrubar minha porta, sugiro que encontre um lugar. A aula começou há dez minutos.
Outra sensação além do alívio percorreu o corpo dela, era uma espécie de euforia. Instintivamente ela sorriu.
— Senhorita...? — repetiu estreitando os olhos para ela e interrompendo os pensamentos confusos da garota sobre esse estranho encontro.
— Ariel. — respondeu automaticamente. Mas ele já sabia disso não sabia? Ele disse o meu nome assim que entrei na sala, pensou a garota.
— Senhorita Ariel — ele pausou a fala por um momento e um riso quase imperceptível saiu dos lábios dele assim que pronunciou seu nome. Era um riso um pouco amargo, como se aquele nome tivesse algo irônico. — A menos que esteja se candidatando a segurança da porta, sugiro que encontre um lugar. Hoje. — continuou a sentença num tom quase rude.
Ariel sentiu seu rosto esquentar murmurou um “Me desculpe” e seguiu caminhando até uma mesa vaga no meio da terceira fileira, deslizando para a cadeira vaga atrás de Dalilah. A amiga nem se virou, apenas inclinou o corpo levemente para trás.
— Você travou. Mas não te culpo. Se ele não fosse meu professor, eu estaria cometendo um pecado em pensamento agora mesmo... — Dalilah sussurrou.
Ariel ignorou a amiga, tentando não chamar ainda mais atenção.
— Nós iniciaremos esse semestre estudando o surgimento das religiões mais expressivas do mundo, trabalharemos a sua origem e história, seus dogmas, seus objetivos, e tentaremos chegar ao cerne da razão para os conflitos religiosos atuais. Começaremos com as religiões monoteístas e o conceito de gênesis... — A voz de Rafael preencheu a sala. Era grave, autoritária, e vibrava no esterno de Ariel de um jeito desconcertante.
Ela suspirou e baixou a cabeça, encarando a folha em branco do caderno. Tentar prestar atenção era inútil. Cada vez que ela erguia os olhos, a imagem do professor se sobrepunha à lembrança do sonho. O corte do maxilar era o mesmo. A postura rígida dos ombros... No sonho, havia sangue e correntes. Ali, havia um terno bem cortado e pó de giz.
— Ariel...
O som do próprio nome a atingiu como um choque físico. Ariel ergueu o rosto num sobressalto. Rafael estava olhando para o fundo da sala, mas por uma fração de segundo, o olhar dele parou nela. Ela involuntariamente prendeu a respiração, a conexão era quase palpável, parecia haver tanto a ser dito, mas não sabia o quê. E então os olhos dele desviaram e a conexão se quebrou, como se nunca tivesse existido. Será que sua mente estava lhe pregando peças?
— Ariel. Do hebraico, "Leão de Deus". Um nome poético e arcaico utilizado para se referir a Jerusalém em textos proféticos. — continuou o professor.
Ariel voltou a abaixar a cabeça. Óbvio que ele não estava a chamando, mas ela não podia deixar de perceber que o seu nome pronunciado pelos lábios dele parecia algo que já ouvira outras milhares de vezes.
A coincidência fazia sua pele formigar. O resto da aula se dissolveu em um borrão de vozes e ruídos distantes. Quando o som de cadeiras sendo arrastadas a trouxe de volta à realidade, a sala já estava se esvaziando. Rafael deixou a sala com deliberada rapidez, mal se despedindo da turma.
— Terra chamando Ariel! — Dalilah estalou os dedos na frente do rosto dela. — Que aula foi essa? Ele passou bibliografia para um mês inteiro! Por favor, me diz que você anotou os tópicos do slide três, eu estava ocupada demais babando.
— Bom, sobre isso, Lilah... — Arie murmurou incerta. Sem esperar, a amiga puxou o caderno das mãos de Ariel.
— Você é minha salvad... — A voz de Dalilah morreu. Ela encarou a página aberta. Não havia datas, nomes de teólogos ou definições históricas. A folha estava coberta de desenhos desconexos.
— É — disse Dalilah, devolvendo o caderno devagar, com uma sobrancelha arqueada. — Acho que nós duas estamos ferradas.
Ariel observou cuidadosamente seu trabalho e franziu a testa. Desenhos detalhados de asas quebradas, elos de correntes realistas e, bem no centro, escrito em uma caligrafia gótica e repetitiva que Ariel não reconhecia como sua: Rafael. Ariel sentiu um frio na espinha ao olhar para o próprio punho, manchado de grafite.
Não havia como ela saber o nome do professor uma vez que tinha chegado à classe logo depois das apresentações.
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