Lost Stars
5 Capítulo 4 - O Mensageiro
Notas iniciais
"A verdade. É uma coisa bela e terrível, e deve, portanto, ser tratada com grande cautela."
— Harry Potter e a Pedra Filosofal
Já havia escurecido quando Rafael chegou a uma pracinha um pouco afastada do centro da cidade onde havia uma pequena igreja. As ruas estavam desertas, provavelmente por causa da chuva torrencial que não dera trégua desde que começara naquela tarde, e também do ar gélido que batia em seu rosto congelando seu nariz e fizera com que todos se recolhessem para o conforto de suas casas.
A arquitetura da igreja datava do fim do século XIX, com muitas janelas e vitrais com seus mosaicos coloridos formando belas imagens. Duas torres gêmeas se erguiam de cada lado, mas só havia um sino de bronze na torre esquerda, a irmã da direita estava vazia. Rafael não deixou de pensar que aquilo era, de alguma forma simbólico... Afinal, ele sempre fora o irmão incompleto. Voltou os olhos para o centro, ignorando a pequena pontada que sentia nas costas, e observando o relógio redondo cujos ponteiros não mais se moviam, e pairava sobre a porta dupla de madeira, que apesar de imensa era bem rústica. Marcavam sete horas. Curiosamente o horário correto, mas não seria uma coincidência, jamais aconteciam meras coincidências com Gabe por perto.
Inspirou profundamente e empurrou a pesada porta de madeira. E embora o clima estivesse frio, ao adentrar na simples igreja sentiu-se inundado pelo calor que emanava de dentro dela.
O assoalho de madeira rangia sob os pés de Rafael a medida em que ele caminhava. Havia bancos compridos de mogno dispostos em duas fileiras. A madeira parecia já ter visto dias melhores, estava bem lascada nas extremidades. Nas paredes a tinta que outrora fora branca agora continha um estranho tom de encardido e descascava em vários pontos. O altar era simples, composto por uma mesa retangular coberta por uma toalha de renda um pouco ruída. Alguém tentara adornar o lugar colocando três grandes arranjos de rosas brancas. Já devia fazer um tempo que ninguém ia ali, pois as rosas estavam secas e suas pétalas caiam sobre a mesa dando uma aparência de descuido e abandono. O teto abobadado era a única coisa ali que destoava do restante, parecia reluzente, com cores intensas e brilhantes, provavelmente tinha sido recentemente restaurado. Embora tudo ali parecesse um desgastado e antigo era exatamente isso o que deixava o lugar mais aconchegante. A ideia de que o desgaste vinha do fato de o local ter sido um dia muito usado.
Rafael não pode deixar de sorrir ao despender maior atenção a representação no teto da igreja: A queda dos anjos. Aquilo poderia ser mais irônico? Havia tempos que evitava entrar locais como aqueles, igrejas, sinagogas, templos de qualquer religião. Não por falta de fé, mas por que eles o faziam lembrar de seu passado, de um trono que estava vazio e silencioso há tantas eras.
Nesse momento percebia o tamanho de sua tolice, negara uma parte de quem ele era por tanto tempo simplesmente porque não queria relembrar dessa parte que há muito ele havia perdido.
Interrompeu seus devaneios, aquele não era o melhor momento para se autoanalisar, isso poderia esperar, ele tinha problemas maiores a resolver. Caminhou lentamente até o banco da frente onde havia um homem loiro com a cabeça abaixada e parecia estar orando. Sentou-se ao lado dele silenciosamente e aguardou solenemente até que este terminasse sua prece.
— Irmão — saudou o homem loiro, estendendo-lhe a mão — Fico feliz que tenha considerado me encontrar.
Se havia um anjo em todo o Céu que mais se aproximava da imaginação humana esse anjo era Gabe. Seus cabelos eram loiros como raios de sol ao nascer do dia, as mechas levemente encaracoladas caiam-lhe sobre os ombros emoldurando seu rosto belo e de traços delicados. Sua pele clara disseminava um brilho quase prateado, pureza parecia exalar de todos os seus poros, olhos de um azul profundo e claro como o céu em um dia sem nuvens. Seus lábios cheios pareciam desenhados a mão por algum artista habilidoso e seu rosto era tão perfeitamente simétrico que causaria inveja às pinturas de Michelangelo. Havia em Gabe uma beleza que parecia desafiar o tempo — serena, quase etérea — como se tivesse sido moldada mais pela luz do que pela matéria.
Enquanto Rafael carregava as cicatrizes da queda e do tempo, Gabe permanecia imaculado, uma estátua de mármore quente que respirava.
— Eu nunca negaria um pedido seu, Gabe — respondeu com toda a sinceridade correspondendo ao aperto de mão. Se havia um anjo que merecia toda confiança e consideração de Rafael, era este.
— Eu espero que não. Porque o que venho lhe pedir é algo que sei que você não gostará de fazer. — A voz era calma, mas dava para discernir a seriedade por trás de tais palavras.
Aquilo deixou Rafael preocupado e inquieto por um momento. Gabe não pedia favores. Na verdade ele raramente necessitava do auxílio de alguém. Era o tipo de anjo que não se envolvia em problemas. E descer à terra sorrateiramente para contatar Rafael, provavelmente indo contra uma ordem direta, definitivamente não combinava com ele. Isso o fazia pensar o quão crítica era a situação. Teria algo a ver com Ariel? Ou com os anjos recém caídos?
— O que é? — perguntou, tentando parecer equilibrado.
— Falaremos disso por último, temos outros assuntos a discutir.
Gabe parou por um instante parecendo ponderar o que falar primeiro, ele parecia não encontrar as palavras corretas. Isso era inédito para Rafael uma vez que Gabe se mostrava sempre tão eloquente. Não era por menos que ele fora escolhido para transmitir todos os ensinamentos e leis aos novos anjos, não que tenha havido algum nos últimos milênios.
— Hoje foi um dia de muitas perdas. — Começou em um tom abatido — Três dos nossos irmãos foram expulsos do Céu. Creio que você tenha percebido isso. — Rafael assentiu com um movimento leve de cabeça se lembrando dos raios que mais cedo rasgaram os céus.
— Quem eles eram? Por que foram expulsos? — As perguntas saíram de sua boca antes que pudesse detê-las. Gabe analisou bem seu rosto antes de responder seu questionamento.
— Anjos de baixa patente, invadiram a sala do trono e roubaram a espada de Miguel. — o anjo explicou.
— Tentaram roubar Moriá? — Rafael questionou aturdido.
Moriá era o nome da espada de Miguel, foi um presente divino dado ao arcanjo no momento em que aceitou a incumbência de comandar o exército celestial, jurando perante o Criador empunhá-la com autoridade ante aos inimigos. Ela era a sua força, o instrumento usado para fazer justiça.
Infelizmente há muito tempo Miguel havia se esquecido de que justiça era mais do que governar com punhos de ferro. Que para ser justo às vezes era necessário ser piedoso e empático. Miguel apenas enxergava fraqueza nesses sentimentos, ele havia perdido a si mesmo quando ganhara tanto poder. Não havia na terra ou em um dos sete céus arma mais poderosa do que essa. Talvez a arca da aliança, mas muitos de seus poderes ainda eram desconhecidos e nunca foram testados realmente, por isso ela era considerada mais perigosa do que poderosa.
Moriá por sua vez tinha sido forjada do aço mais puro já encontrado, feita unicamente de poder, sua essência era de um pedacinho mínimo da glória do Criador. Ela traria a justiça quando e onde fosse necessário. Era também o único artefato capaz de ceifar as asas de um anjo ou abrir as portas do purgatório.
— Eles não tentaram apenas, eles conseguiram e seguiram até o purgatório. Eu não sei quem ou o que eles tentaram soltar lá, Miguel disse que os deteve a tempo, mas algo parecia fora do lugar em seu semblante. Ele estava incontrolável. — Rafael ergueu as sobrancelhas ao escutar tais palavras — Mais do que o normal. — acrescentou — Eu mal o reconheci quando o vi torturando os três anjos, exigindo respostas, não havia um pingo de piedade apenas fúria e esta parecia o comandar. Ele estava completamente fora de si.
— Eu já vi esse lado dele. Miguel costuma agir assim quando seu poder é testado. — Nada machuca mais um homem do que ser feito de tolo e se sentir inferiorizado, e isso valia para anjos também.
— Isso não foi sobre seu ego. — Gabe negou — Miguel tem mantido segredos de todos nós, inclusive de mim, que sou seu conselheiro. — seu tom mudou tornando-se melancólico — Ele costuma se trancar por horas na sala, completamente sozinho. Às vezes o escuto gritar por respostas que nunca vem.
A ausência de respostas. O silêncio ensurdecedor. Rafael o conhecia bem. Todo anjo o conhecia há eras, mas parecia que somente agora Miguel se permitia senti-lo.
— Miguel nunca foi de dividir seus sentimentos, irmão. Você já deveria ter se acostumado a isso. — Rafael comentou e Gabe assentiu, porém, a preocupação ainda estava em seu semblante.
— Sabe o que mais é mais estranho? Por que esses anjos caíram justamente aqui nessa pequena cidade? E juntos! Há algo nessa cidade que está atraindo todas essas almas...
Seus olhos, tão claros quanto o céu, se voltaram para o rosto de Rafael o inspecionando, esperando que o anjo caído explicasse a ele o que essa cidade havia de tão especial
— Está tudo muito estranho. — continuou — Tem algo obstruindo as minhas visões, algo que eu não consigo compreender, algo me bloqueando. Eu simplesmente não consigo entender e não consigo ver. Isso me frustra! — O arcanjo se exaltou, sua atitude espantou Rafael que nunca tinha visto o anjo agindo assim antes, Gabe era o anjo da sabedoria e discernimento. Ele era calmo, circunspecto, mas dessa vez parecia estar no seu limite. — Eu só sei que há algo acontecendo aqui, algo grande e que poderá mudar tudo. — Seu olhar perdeu o foco por um momento — Eu sinto isso, mas não consigo ver. — Gabe procurou as mãos de Rafael, agarrando-as com uma força sobre-humana. Um movimento incomum para um anjo que costumava ser sempre tão suave. — Nossas concepções, nossas crenças tudo isso está prestes a ruir. Seja cuidadoso, Rafael, as coisas estão mudando drasticamente. — Avisou.
— Eu tenho sido. Já faz mais de vinte anos, Gabe, tudo ficará bem. — Assegurou o amigo estranhando o olhar perdido no rosto do anjo.
— Antes que continuemos, irmão... — Gabe interrompeu a si mesmo, a voz suavizando. — Há algo que preciso dizer. Carrego a culpa de não ter estado lá para impedir sua queda. Quando soube, as portas do Paraíso já haviam se fechado atrás de você. Ele colocou a mão sobre o ombro de Rafael. O toque emanava um calor que atravessou o tecido e, por um momento, acalmou a dor fantasma nas cicatrizes das asas arrancadas. — Miguel foi impiedoso. Expulsar um dos Sete apenas por entrar na Sala do Trono...
— Ele não me expulsou por entrar na sala. — Rafael cortou a piedade do irmão com a verdade crua — Eu tinha minhas mãos sobre a arca, Gabe, e eu ia roubá-la. — Rafael esclareceu secamente.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Gabe não recuou, nem retirou a mão. Seus olhos azuis apenas se estreitaram, não com julgamento, mas com compreensão.
— Suas mãos, talvez. Mas a vontade? A vontade não era sua. — O Arcanjo falou com uma certeza inabalável. — Eu conheço sua alma desde que éramos apenas vibração e luz, Rafael. Você nunca cobiçou poder. — Gabe inclinou a cabeça levemente, o olhar perfurando as defesas de Rafael. — Isso tem a assinatura dela. Ariel.
Ao ouvir o nome, Rafael fechou os olhos. A dor da memória era mais aguda que a das cicatrizes.
— Ela traçou o plano, enganou a todos. E no fim ela te deixou cair para cobrir o rastro dela — Gabe continuou, a voz desprovida de acusação, apenas constatando fatos. — É exatamente o tipo de estratégia imprudente e astuta que ela criaria.
Sim, tudo fora um plano de Ariel.
Rafael a seguira por uma lealdade cega e um amor que o impedia de questionar, mesmo desconhecendo os objetivos finais dela. Quando ela levou a arca, ficou claro: ele servira apenas para que ela pudesse agir. Ainda assim, não conseguia perder a fé de que ela fizera o necessário.
— Foi minha escolha, Gabe. — Essa era única verdade que poderia lhe dar. Sua lealdade a Ariel tinha sido o motivo da sua condenação.
O Arcanjo desviou o olhar para o teto pintado da igreja, com uma triste aceitação no rosto.
— Eu só me pergunto... O que ela viu de tão terrível para arriscar a própria existência? E por que ela confiou apenas em você para carregar a culpa?
Rafael permanecera impassível, tentando manter-se o mais neutro possível enquanto Gabe apenas sorrira para o amigo. Escondendo que ele também desejava saber. Havia convivido anos demais com essas perguntas para no fim aceitar que as respostas haviam morrido com Ariel.
— Eu só posso supor que foi por um bem maior. — Gabe desviou os olhos para o teto da igreja, encarando a pintura com evidente melancolia. — E esperar que no fim eu receba meus irmãos de volta em nossa casa.
Rafael sorriu. Gabe era único.
— Gabe... Você tem essa fé incrível nas criaturas, sempre espera o melhor de todos... E eu sempre admirei essa qualidade em você, mas às vezes as coisas são apenas como são e fim. — Ele não podia deixá-lo se iludir, sabia que as portas do Céu estavam fechadas para ele e para ser honesto não tinha certeza se queria mesmo voltar. Não seria o mesmo sem ela.
Gabe suspirou e encarou o amigo, os ombros cedendo aceitando a derrota. E então subitamente mudou de assunto.
— Eu disse que há algo estranho nessa cidade. Algo nos chamando, anjos e demônios estão sendo atraídos para cá como um imã. — cravou os olhos em Rafael — E eu acho que é ela.
Rafael congelou por um instante antes de repetir.
— Ela? — Não era possível, Gabe não podia saber disso, pensou.
— Sim, ela. A sua aluna. Ariel. Ela ainda não descobriu a verdade? — Questionou naturalmente.
— A verdade sobre o quê? — Disse cautelosamente, ganhando um arquear de sobrancelhas do anjo.
— Sobre quem ela é. Ou quem ela era antes de ser humana. Sobre o fato de ela ter sido o anjo responsável pelo desaparecimento da arca da aliança... — Gabe olhava fixamente para Rafael, que parecia tenso, lutando para se manter impassível — Não faça essa cara pra mim Rafael, eu sei que você a reconheceu no momento em que a viu pela primeira vez.
— Como você sabe de tudo isso? — Ele disse detestando o tom acusatório que direcionou ao amigo, porém não conseguira evitar. A ideia de que os anjos o estivessem vigiando o deixava furioso.
— Eu sou um anjo observador, ou o Mensageiro, como gostam de me chamar. — disse, ignorando o pequeno ataque de Rafael e falando calmamente — Esse sempre foi o meu dever. Eu não fui criado para ser um guerreiro como você ou Miguel. Eu nunca empunhei uma espada em batalhas, meu fardo é apenas saber.
Rafael sentiu o peito se contrair. O banco de madeira pareceu mais duro sob seus dedos quando ele os pressionou contra a superfície áspera.
— E eu soube no momento em que Ariel abdicou da sua Glória que ela tinha se tornado humana. Eu tenho a acompanhado por toda a vida. A vi ganhar uma mãe amorosa, crescer uma criança normal e feliz e se transformar numa jovem mulher. — Em seu rosto havia um leve sorriso — E a vi no dia em que seus caminhos se cruzaram outra vez.
— Você me disse que ela estava morta! — Rafael disse, a voz baixa, carregada de ressentimento contido e duas décadas de luto.
— Verdade, eu disse. — Gabe deu um suspiro cansado e continuou — E eu não menti. A morte tem muitas faces. Quando Ariel arrancou a própria Glória, o anjo que conhecíamos deixou de existir. A luz dela no Firmamento se apagou. O nome dela foi riscado do Livro da Vida. Para todos os efeitos celestiais, Ariel morreu naquela praia.
— Semântica, Gabe? — Rafael riu, um som seco e sem humor. — Você usou semântica para justificar o injustificável? Para quebrar seus votos? — balançou a cabeça, ainda incrédulo. — Você assistiu meu sofrimento em silêncio por vinte e um anos enquanto a escondia de mim? Você a observou viver... — a voz falhou por um instante — ...enquanto me deixou definhar na sarjeta acreditando que ela estava morta porque era conveniente para a sua interpretação de morte? — O ressentimento transbordou e junto dele outros sentimentos que o anjo caído enterrara por tempo demais.
O silêncio entre eles pesou, denso demais para que qualquer palavra pudesse amenizá-lo.
— Entenda, irmão... —Gabe começou, mais baixo dessa vez — Eu só queria que tudo isso acabasse, toda essa guerra entre nós! Isso não é certo. — Ele passou a mão pelo rosto, cansado. — Eu não queria ver Miguel caçando os meus irmãos, mas principalmente eu... — hesitou — ...eu desejava que você pudesse ter uma vida normal e ela também. Queria que vocês tivessem paz. Vocês mereciam isso.
Gabe olhou significativamente para Rafael buscando por compreensão, talvez? Mas ele não esboçou qualquer reação diante da revelação do anjo, parecia apenas refletir consigo mesmo com a cabeça abaixada, perdido em seus próprios demônios.
— Ela planejou tudo isso, não é? — constatou tristemente, erguendo o seu olhar para Gabe. — Até mesmo meu sofrimento? — perguntou com um nó apertando-lhe a garganta.
— Receio que sim. — confirmou, pousando novamente a mão no ombro do amigo na tentativa de confortá-lo — Sinto muito. Se valer de algum consolo eu acho que ela apenas queria te proteger. As chances de ela sobreviver ao processo de retirar a própria Glória eram mínimas, na verdade, nunca havia sido feito antes e ela terminaria isso morta ou como humana, e das duas formas a informação de onde estava a arca estaria perdida para sempre.
Rafael apenas assentiu com a cabeça. Ele estava cabisbaixo apenas processando a informação. Ele entendia as motivações dela, mas odiava ser deixado de lado, odiava que ela não tivesse confiado nele.
— Para ser sincero eu esperava que você nunca a encontrasse. Seria mais fácil e melhor para ela. — Gabe comentou — Ela teria seguido com sua vida humana normalmente.
— O que você quer dizer com isso? — Rafael encarou o anjo com deliberado interesse, e uma certa dose de irritação.
— Que agora que você está de volta à vida dela, tudo irá mudar, a alma dela te reconhece e as lembranças voltarão cada vez mais fortes e indubitavelmente em algum ponto ela se recordará de tudo.
Isso era o que ele queria. Que Ariel se lembrasse dele, que pudessem ter uma chance. Mas, isso significava sujeitá-la à riscos demais. E Gabe estava certo, ela merecia ter paz.
— Miguel sabe? — Perguntou, o temor era latente na voz dele.
— Que Ariel é humana? Não. Ele pensa que ela está morta.
Gabe ousara mentir até mesmo para Miguel, constatou Rafael, atônito.
— Eu te disse no passado e repetirei: não entrarei nessa sua disputa. Vocês dois são meus irmãos, apesar de serem dois idiotas teimosos, eu ainda os amo e espero que se acertem um dia.
— É mais fácil dividir um mar ao meio.
— Então, ainda há uma chance.
Os dois se olharam e sorriram em cumplicidade.
— Obrigado por não contar. — Rafael agradeceu olhando-o nos olhos.
— Eu não direi nada, meu bom amigo. Mas a guarda já está investigando os estranhos incidentes que estão acontecendo nesta cidade, e mais cedo ou mais tarde eles a encontrarão. E quando isso acontecer haverá guerra. Nós não somos os únicos a procurar pela arca. E ela é a única que tem essa informação.
Gabe se levantou e caminhou em direção ao altar, tocando levemente em algumas rosas brancas murchas que imediatamente se encheram de vida. Ele olhava para Rafael com pesar.
— Certas coisas mortas são fáceis de reviver. — Gabe por um instante perdeu em seus próprios pensamentos — Já as flores no Jardim do Éden não desabrocham tão facilmente desde que o jardineiro se foi.
Ele suspirou, voltando à realidade.
— Devo partir. — anunciou consternado — Miguel está solicitando a minha presença, para o que parece ser uma reunião de emergência. Foi muito bom revê-lo, irmão. — despediu-se enquanto caminhava em direção a saída, Rafael levantou-se do banco indo até o anjo ao se lembrar de algo.
— Ei... Espere, Gabe! O que você iria me pedir?
— Eu pediria para você se afastar de Ariel. — O coração de Rafael falhou uma batida enquanto Gabe o encarava, pensativo. — Mas mudei de ideia.
— Mudou? Por quê? — Rafael adiantou-se, ansioso.
— Porque agora já é tarde demais. Há forças em movimento nas quais nem mesmo eu posso interferir. Além do que... — Gabe sorriu enigmaticamente antes de desaparecer pela porta. — Você é o melhor guardião que ela poderia ter.
✶✶✶
Ariel escutava o barulho ritmado das grossas gotas de chuva que batiam à janela do quarto que dividia com a amiga. Normalmente esse seria o som perfeito para fazê-la adormecer rapidamente, mas seus olhos se recusavam a fechar e embora seu corpo estivesse ansioso pelas horas de descanso, a mente da garota estava focada em analisar seu professor, ela se via comparando o homem normal a visão do extraordinário anjo de seus sonhos. Perguntava-se se existia algum significado oculto em tudo aquilo ou se ela apenas estava enlouquecendo.
— Por favor, alguém faça essa criatura infernal parar de miar. — Dalilah, que há pouco tempo parecia estar dormindo pesadamente, resmungou irritada e só então Ariel se deu conta de um miado que parecia vir do lado de fora do apartamento, ela estava tão concentrada em seus devaneios sobre Rafael que nem percebera. Acendeu o abajur, levantou-se da cama e abriu as cortinas se deparando com um gato preto empoleirado à soleira da janela. Ele imediatamente parou de miar quando viu Ariel, seus olhos amarelados pareciam encará-la com certa superioridade sua postura se tornou mais rígida enquanto permanecia a observando. A garota fechou as cortinas de uma única vez e tal atitude fez com que o gato voltasse a miar e dessa vez arranhando a janela com suas garras.
— Oh, merda! — Dalilah xingou jogando o travesseiro em direção à janela na esperança de que o bichano parasse de fazer tanto barulho. — Abra a janela, Ariel, eu aposto que tudo o que ele quer é sair da chuva.
— Não. — A resposta de Ariel foi rápida, instintiva. Ela olhou para a silhueta escura contra o vidro. O gato não miava como um animal com frio, ele miava com insistência.
— Ariel! Pelo amor de Deus, eu tenho prova amanhã! — Dalilah gemeu, cobrindo a cabeça com o travesseiro reserva. — Se você não abrir, eu juro que jogo você lá fora com ele.
Ariel hesitou. A chuva açoitava o vidro, e o gato arranhou o batente novamente, um som agudo de unhas contra madeira pintada. Talvez fosse só paranoia. Talvez os pesadelos estivessem vazando para a realidade, transformando um animal molhado em um monstro. É só um gato, ela repetiu mentalmente, tentando silenciar o alarme em sua cabeça. Só um gato. Com os dedos gélidos, ela girou o trinco. O metal pareceu ceder antes mesmo de ela aplicar força, como se a janela estivesse ansiosa para se abrir.
O gato parecia encará-la com expectativa e pulou para dentro do quarto no momento em que a janela foi aberta. Não houve som de patas aterrissando no chão, apenas o barulho ritmado da chuva que agora entrava pela fresta. O bichano se instalou sobre o travesseio de Dalilah parecendo aprovar a maciez do lugar, pois logo se aconchegou folgadamente deitando-se ali.
— Ok, criaturinha infernal, você pode ficar com o meu travesseiro, mas eu não quero ouvir nem um pio! Ou irei pessoalmente te devolver ao buraco de esgoto de onde você veio. — Ameaçou.
— Gatos não piam, Lilah. — Ariel não resistiu ao impulso de provocar a amiga que bufou em resposta.
— A sua sorte, Ariel, é que eu estou com muito sono para me irritar com você agora. — Disse revirando-se na cama e voltado a dormir.
Ariel demorou um pouco para adormecer, o gato agora parara de observá-la e parecia descansar tranquilamente em seu cantinho, talvez Lilah estivesse certa e o bichano só quisesse um lugar seco e tranquilo para passar a noite, mas ainda assim ela tinha uma estranha sensação sobre ele. Só não sabia explicar se era boa ou ruim.
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