Lost Stars
5 Capitulo 5 - Levi
Notas iniciais
Enquanto eu comia tinha vontade de vomitar, olhar para o rosto machucado de minha mãe do outro lado da mesa me dava enjoou, náuseas, raiva, mas eu sabia que ela não queria que eu disse-se algo, que se eu disse-se só iria piorar as coisas, ela queria passar a impressão de naturalidade, de que nada estava errado, e se eu disse-se algo a bomba iria explodir, e ela se sentiria extremamente culpado, e eu não queria que ela ficasse pior do que já estava.
Então eu sorria, comia, conversava, tudo uma máscara falsa que eu já havia tentado jogar fora, mas que só piorou as coisas para minha mãe. As vezes é necessário usar máscara, não quer dizer que é bom, mas necessário.
Me deitei em minha cama depois do almoço e encarei o teto.
Aquele dia estava sendo um inferno, eu não conseguia encarar a minha mãe, eu tentava, mas aquilo só estava piorando. Paz armada é como eu poderia chamar aqueles dias em que eu achei que estava tudo melhorando, minha mãe estava feliz com aquela minha suposta nova amizade, e isso fez com que ela até mesmo me libera-se do psiquiatra, ela acreditava que experiências novas iriam me fazer melhorar por elas mesmas.
Mas então tudo voltou naquela noite passada, Jorge entrou em casa furioso, e foi quando eu quase vomitei de nojo no tapete do meu quarto.
Eu conseguia ouvir tudo.
—/-
Gritos.
Soco, soco.
Gritos.
Tapa, tapa.
Gritos.
Silêncio.
É de noite, e eu tento impedir que meu jantar dê a volta em seu percurso e volte para o prato saindo pelo mesmo lugar por onde entrou.
Eu tinha vontade de gritar, de correr. Em meio à paz é exatamente o momento que a tempestade mais violenta escolhe para destruir tudo.
O pior sentimento é o da paz, por que a paz nunca é eterna, e quando você menos espera ela é destruída, e a dor é ainda maior.
Soco, soco.
Choro, não é o dela, é o meu.
Tapa, soco.
Estrondo.
Porta batendo.
Acabou.
A tempestade acabou, por enquanto.
E foi quando aquela sensação voltou, em uma fração de segundos eu pensei que se eu pulasse pela janela tudo acabaria, não teria mais dor, seria o fim.
Cabeça no chão. É, eu sou maluco, pensei, um doido varrido. Bati com a minha cabeça com força contra o chão, e para a minha sorte o tapete me impediu de realmente ter um machucado grave.
Eu não podia continuar assim, eu sabia, mesmo não querendo viver, eu precisava viver, pela minha mãe eu precisava viver. Eu queria. . .queria que a dor passasse.
—/-
Ventava, as crianças brincavam nos montes de folhas que caiam das árvores. Eu devia me sentir bem com aquela visão, mas era difícil, pelo menos ela não me causava repulsa ou incomodo, como a maioria das coisas que eu observava, aquela visão apenas me passava uma sensação estranha, nem boa e nem ruim. Elas pulavam de um monte para o outro, vendo alegria apenas em se espatifar em meio aquelas folhas secas. Eu queria conseguir sentir alegria, aquela alegria tão pura, fazia muito tempo que eu sentia alegria de verdade, eu só conseguia sentir o vazio.
Desviei meus olhos e comecei a encarar meus próprios pés, para evitar que as mães das crianças começassem a achar que eu era algum pedófilo em potencial.
Apenas fiquei chutando algumas folhas até outro par de pés se aproximar do meu, quando olhei para cima Herodes me lançava mais um de seus sorrisos treinados.
— Demorei? – ele perguntou.
— Não – respondi, enquanto me levantava.
Ele começou a andar e eu o segui. Nós não precisamos falar muito, ele estava feliz por eu tê-lo chamado e eu estava disposto a escuta-lo, era só isso que importava.
Eu não sabia para aonde estávamos indo, quando liguei para Herodes pedindo socorro ele apenas disse para encontra-lo naquela praça, o que viria depois eu não sabia.
Saímos da praça e seguimos por algumas ruas. Eu nunca havia ido até aquela parte da cidade, era uma área de classe média para alta, nada com a qual eu precisava me envolver, até agora.
Paramos de frente para uma das casas da rua. Era bonita, doias andares, mas nada pomposo demais, o que a tornava mais convidativa, até para mim, mas mesmo assim ainda parecia faltar algo nela. Vida.
Herodes abriu a porta da frente e esperou que eu entrasse, e foi o que eu fiz.
O chão de madeira rangeu embaixo de meus pés, e o som ecoou pelo corredor a minha frente. Ele estava vazio, exceto por duas portas, uma em cada lateral, ao final dele, perto de uma escada.
— Vamos – Herodes tirou seus sapatos, os deixando perto da porta, e seguiu pelo corredor até entrar em uma das portas laterais.
Repeti seu processo com os sapatos e o segui. Agora me encontrava em uma cozinha. O ambiente estava bem iluminado já que havia uma grande porta de vidro que levava para o quintal, por onde o sol entrava. O ambiente estava dividido por um balcão, de um lado a área para cozinhar, e do outro uma mesa de jantar de tamanho médio. Herodes estava atrás do balcão, mexendo em algumas xícaras.
— Sente-se – ele falou de repente, sem se distrair de sua tarefa. – Eu vou preparar um chá.
Sem motivo para discutir fui até o balcão e me sentei a sua frente.
Herodes se mostrou muito habilidoso no que fazia, como sempre, aquele cara era o senhor perfeição em pessoa, parecia que nada poderia sair errado com ele. Algumas pessoas duvidavam que a perfeição existia, mas a prova da existência dela estava na minha frente.
Enquanto refletia sobre isso Herodes depositou uma xícara cheia de um líquido fumegante na minha frente, enquanto ele mesmo bebericava sua própria xícara.
— Então, o que aconteceu? – ele perguntou.
Apenas mexi na xícara, tentando ocupar minhas mãos com algo.
— Eu pensei naquilo de novo.
— Naquilo?
— É, no suicido.
— Ah.
— A ideia me pareceu tão clara, tão boa, tão libertadora, eu quis mesmo fazer, mas eu voltei a lucidez.
— O que te puxou para a lucidez dessa vez?
— Lembrei da minha mãe, que ela isso sofrer.
— Motivo honrado, mas motivo errado.
— Por quê?
— Você tem que querer viver por você, não pela sua mãe, por que viver por outra pessoa não é viver.
Não respondi, apenas peguei a xícara quente com as minhas mãos frias e bebi um pouco de seu conteúdo.
— Fiquei feliz quando me ligou, finalmente está se abrindo para resolver seu problema.
Otimista demais.
— Eu já volto – depois de colocar sua xícara vazia dentro da pia ele saiu do cômodo e eu pude escutar o som de seus pés pisando em cada degrau da escada, e pouco tempo depois pude ouvir esse mesmo som novamente, mas agora descendo.
— Vem aqui – ele chamou.
Deixei minha xícara quase intocada e fui para o corredor, aonde a outra porta estava aberta, então entrei nela.
Como já era de se esperar, aquela era a sala de estar. Iluminada da mesma maneira que a cozinha, por uma porta para o quintal, com uma lareira em frente a um grande sofá. Mais ao fundo da sala havia uma mesa circular, talvez para refeições, e uma outra mais distante, ao lado de uma porta, só que ao invés de uma mesa de refeições era uma mesa de escritório.
A decoração era bonita, mas o que chamou minha atenção de verdade foram as fotos espalhadas pelo lugar. Nas paredes, na mesa de escritório, em cima da lareira, e as pessoas que apareciam nela se repetiam, umas com mais frequência que outras, era uma mulher, um par de idosos e uma criança.
— É sua família? – perguntei, sem me preocupar com a formalidade de não parecer intrometido.
— É.
Uma resposta muito fria para o senhor caridade.
Sem continuar a conversa Herodes se sentou no sofá com um notebook em seu colo e indicou o lugar ao seu lado para eu sentar, e eu o fiz.
— Eu andei pesquisando – ele começou, enquanto digitava. – Li sore o que é bom para a depressão, e quero colocar em prática.
— E você tem diploma? – zombei.
— Não, mas eu tenho algo que nenhum médico tem.
— E o que é?
— A sua confiança.
E então ele sorriu para mim, e o meu único pensamento foi algo como “Cara, eu quero muito socar essa sua cara metida.”
—/-
— Tá falando sério? – perguntei, achando aquilo ridículo.
No dia seguinte Herodes resolveu me arrastar até o centro e me levou para um lugar aonde eu achei que nunca colocaria meus pés, uma academia.
— Uma das consequências da depressão é o desanimo e o cansaço, e além disso praticar exercícios ajuda na promoção de um monte de substancias benéficas para o organismo, então, vamos praticar exercícios – ele explicou, com aquele sorriso de alegria que eu não entendia.
— De onde você tira tanta empolgação? Eu já me sinto cansado só de olhar.
— E esse é o problema, temos que trazer você de volta a ativa.
Eu não queria, mas não tive a chance de protestar, Herodes me arrastou para o vestiário, me obrigando a vestir uma roupa para exercícios, dizendo que se eu não a colocasse sozinho ele mesmo iria me despir e me vestir com ela.
Eu odiava exercícios, me sentia cansado e sem animo para isso, a aula de educação física era a pior, eu fugia dela como um morcego foge do inferno. E além de eu odiar praticar exercícios, eu também era muito magro, e os valentões adoravam zombar disso.
E agora, depois de tanto fugir, eu estava cercado pelo que eu odiava, exercícios e as pessoas que gostavam e praticavam eles.
Herodes não tinha cara daquele clássico modelo maromba que frequentava academia, mas ele me disse que normalmente ia lá quando tinha tempo livre e achava ser necessário praticar algum exercício, o que parecia ser mais comum do que ele fazia aparentar, já que vários caras falaram como ele como se se conhecem a muito tempo. Truques do senhor perfeição.
Eu não tinha ideia do que fazer, então Herodes apenas me mandou correr em uma esteira por dez minutos, apenas para aquecer, e como eu sabia que ele só iria me encher o saco se eu não fizesse, obedeci, e logo quando comecei a correr ele se afastou e disse que precisava resolver alguma coisa com o gerente.
Durante os primeiros três minutos tudo pareceu fácil, mas eu comecei a me cansar, e foi ridículo, ao final dos dez minutos eu estava consideravelmente cansado, e me toquei de como eu devia estar enferrujado. Desci da esteira e me sentei em um banco para respirar, esperando aquele idiota voltar, mas recebi a visita de outros idiotas no lugar.
— Olha só quem temos aqui – Jimmy se aproximou de mim, acompanhado de dois amigos que eu não conhecia. – Gente, esse é um dos nerds esquisitos lá do colégio.
— Nerd? E o que ele está fazendo aqui? –um deles perguntou.
— Boa pergunta. Desembucha nerd, por que está no nosso território?
— Vocês são cachorros para ter território? – perguntei.
— Quem você pensa que é nerd?! – é, eu consegui irritar ele, ótimo.
— Alguém que pode ficar aonde quiser – respondi com a mesma impertinência de sempre.
É, eles queriam me dar uma surra, dava para notar claramente, mas não tiveram a chance, por que Herodes voltou e notou a confusão que estava se formando.
— O que tá rolando aqui? – ele entrou no meio da roda.
— Nada que seja da sua conta Herodes.
Realmente, Herodes devia ir naquele lugar com mais frequência do que queria revelar.
— Tudo que envolve o meu amigo é da minha conta.
— Amigo? Há, o esquisito e o engomadinho, que dupla perfeita.
— Sabe qual é a dupla perfeita? Meus dois punhos na sua cara.
Ok, isso sim foi chocante, Herodes realmente havia ameaçado alguém, e para aumentar aquilo, ele realmente parecia intimidador, e ficou claro que o grupo estremeceu um pouco na base. Talvez Herodes tivesse alguma fama naquele lugar, alguma fama que eu não conhecia.
Antes que qualquer um dos dois lados disse-se algo um dos funcionários veio até nós.
— Está acontecendo alguma coisa aqui? – ele questionou, notando o clima estranho que se formava.
Todos se entreolharam e acho que pela primeira vez concordaram.
— Não tá acontecendo nada – Herodes respondeu. – Só estávamos nos despedindo, vamos Levi.
E então Herodes se afastou, sem esperar por mim, o que me forçou a segui-lo com pressa para acompanha-lo.
— Babacas – ele resmungou,enquanto saímos da academia.
— O que foi aquilo? Nunca vi você ameaçar alguém, não achei que fosse o seu estilo.
— E não é, mas aqueles caras me irritam. Já conhecia eles?
— Sim, são do meu colégio, valentões típicos.
— Não entendo muito os valentões, não vejo propósito em gastar seu tempo enchendo o saco de outra pessoa.
— Eu também não, mas você parecia um deles falando quando ameaçou aqueles caras.
E foi mais um daqueles momentos raros em que eu consegui deixar Herodes mais distante, só que dessa vez ele olhou para mim e pareceu mais lúcido e mais próximo.
— Eu não sei bem se eu já fui um valentão, para mim não, por que nunca intimidei alguém por diversão, mas eu não era um cara legal, por motivos pessoais eu era muito estressado, e algumas crianças me provocavam, os valentões, a diferença é que eu não tinha medo de revidar, eu batia, machucava os outros para eles pararem, e depois de alguns incidentes eu comecei a estudar em casa, por isso nunca frequentei o colégio de verdade.
— Nossa, isso é uma novidade.
— Pois é, você não é o único que precisa se abrir as vezes.
—/-
— Agora, vamos comer – Herodes anunciou empolgado, enquanto andávamos em meio a uma feita do centro.
— Comer?
— Você é tão magro Levi, e eu li que isso é consequência da sua depressão também, então agora, depois de malharmos. . .
Entre aspas bem grandes.
—. . .Vamos nos alimentar. Para hoje quero te mostrar novos alimentos para ver se você cria interesse por uma nova alimentação.
— Eu não estou com fome.
— Esse é o problema, não é por que você não precisa comer, é por que a depressão te faz não querer comer, e isso vai te fazer mal.
Meu problema não era bem a comida, mas resolvi não discutir.
Herodes me guiou por entre as barracas me apresentando a diferentes comidas que eles vendiam lá, dos mais comuns, como um pastel extremamente gordurento, o que eu acho que era um dos charmes daquilo, até um crepe de nutella e morango.
Enquanto eu comia esse ultimo Herodes acabou caindo na gargalhada por motivos desconhecidos por mim.
— Qual é a graça? – o encarei.
— V-Você, parece uma criança na páscoa.
Realmente, olhei meu reflexo no vidro de um carro parado e eu estava completamente sujo de chocolate. Não era minha culpa, aquela merda era difícil de comer sem se sujar.
— Vem aqui, deixa eu dar um beijo nisso – Herodes virou meu rosto e começou a me limpar com um guardanapo.
É, ele não parava de querer cuidar de mim, até nisso. Valeu senhor caridade.
—/-
Jorge não apareceu naquela noite, e eu agradeci muito por isso. Eu ainda estava muito abalado e se eu tivesse que enfrentar mais uma daquelas situações eu ia surtar, e nada do que Herodes havia tentado fazer iria ajudar.
Na tarde seguinte, Herodes me convidou para ir ao cinema.
— Cinema, teatro e esses meios de entretenimentos podem te ajudar a criar interesse por novas atividades, e também te divertem, te induzem a gerar novas emoções – ele explicou, se achando mesmo o especialista.
Achei que fossemos assistir a alguma filme de comédia ou aventura, mas Herodes me surpreendeu escolhendo um filme de terror.
— Acho que a melhor forma de acordar seu coração para novas emoções é assustando ele. Pelo menos essa é a minha lógica, quando nos assustamos ficamos mais alertas e ativos – foi o que ele disse.
E realmente, me interessei muito mais pelo filme de terror do eu provavelmente me interessaria por outro gênero, eu me sentia vivo a cada vez que levava um susto, não era mais tão vazio. No meio do filme senti a minha mão esquentar de uma maneira estranha, e notei que Herodes a estava segurando, e eu não entendi o porquê, talvez estivesse assustado demais e só não queria admitir.
Depois da sessão nós dois fomos para a casa de Herodes, para uma surpresa, foi o que ele disse quando o questionei.
E realmente era uma surpresa. Fomos até a garagem da casa e lá, ao lado do carro, Herodes descobriu uma moto antiga.
— Vamos dar um passeio – ele anunciou.
— Deixa eu adivinhar, você leu que dar passeios também é bom?
— Adivinhou.
— E você sabe andar nessa coisa?
— Da última vez eu sabia – sua resposta saiu com um tom de brincadeira. Aquele cara era doido, mas duvido que ao ponto de me fazer andar de moto com ele sem ele saber o que estava fazendo, já que isso nem faria sentido com o propósito do trabalho dele, ele queria evitar que eu me suicida-se me matando em um acidente de moto.
Os capacetes que usávamos eram de um modelo antigo, como aqueles dos filmes dos anos 80, que não eram fechados, me sentia andando de lambreta, não de moto.
Herodes montou na moto primeiro e depois eu montei atrás dele.
— Segure na minha cintura, eu vou acelerar.
Tá, velozes e furiosos com o senhor caridade, onde é que está o Paul Walker e o Vin Diesel nessas horas?
Fiz o que ele pediu e entrelacei meus braços envolta de sua cintura e me apoiei firme.
— Pronto? – ele perguntou.
— Na medida do possível.
E então saímos.
É, ele sabia o que estava, e confesso, eu me diverti de verdade.
Percorremos toda a cidade em alta velocidade. O vento forte, apenas a visão das coisas em vultos rápidos, eu adorei tanto aquilo, a única coisa que eu conseguia fazer era abraçar Herodes com força e curtir toda aquela experiência. Pela primeira vez em muito tempo eu realmente consegui sentir meu coração acelerar, e isso me deixou aliviado, por que as vezes eu achava que eu poderia até ser um morto vivo, que meu coração já havia parado a muito tempo e se tornado uma rocha de tão incapacitado.
Infelizmente, depois de uma volta na cidade uma chuva nos pegou de surpresa, e nos impediu de continuar. Herodes nos levou de volta para sua própria casa, e eu não me opus, já que ainda era de tarde e eu não precisava ter medo de Jorge chegar naquele horário, ainda mais chovendo.
Herodes me deixou em sua sala enquanto foi pegar toalhas para nos secarmos, e nesse meio tempo eu aproveite para analisar de verdade aquelas fotos.
— Você é muito curioso – ele falou meio sem emoção enquanto entrava na sala com as toalhas.
— Realmente.
Ele me entregou uma das toalhas e nos dois nos secamos em silêncio, e quando terminamos ele resolveu falar.
— Gostou do passeio?
— Gostei – fui sincero. – Mais do que pode imaginar.
Aquilo pareceu deixa-lo feliz de verdade, um sorriso de felicidade sincera.
— Tem mais uma coisa para fazermos – ele disse, enquanto voltava para o corredor, e logo depois entrou novamente na sala, mas segurando um violão.
— Para que isso? – perguntei. É, pergunta idiota.
— Li. . . – novidade. – Que escutar música faz bem para a depressão, então eu quero tocar para você.
— Ok, então vamos escutar o que você tem para mim dessa vez.
— Certo – ele se sentou ao meu lado no chão, apoiando suas costas no sofá. – Essa música fala muito sobre o que eu penso de você, e sobre como eu acho que você devia se valorizar mais, por que você é especial, mesmo que não ache isso.
Depois de seu discurso motivacional seus dedos começaram a passear pelas cordas e finalmente ele começou a cantar.
A cada palavra dita naquela canção eu me sentia diferente, parecia que aquelas batidas fortes do meu coração iam relaxando, mas não parando, apenas mudando de um ritmo para o outro. Em poucas horas a pedra que eu guardava em meu peito mostrava mais vida do que ela já mostrará a muito tempo.
Minha cabeça aos poucos foi pendendo para o lado até estar deitado sobre o ombro de Herodes, e eu não importava. As notas da música foram me acolhendo até eu estar totalmente imerso até o fim naquele momento.
Quando finalmente terminou a música Herodes olhou para mim e sorriu.
— Você está sorrindo – ele disse como um bobo.
— Estou? Nem reparei – respondi com simplicidade.
— Está, e é lindo.
Apenas deixei que ele colasse seus lábios nos meus por alguns segundos.
Por que aqueles poucos segundos mexeram tanto comigo?
Por que aquele idiota estava conseguindo me salvar?
Eu não sabia a resposta, mas eu agradeci mesmo assim, por tudo.
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