Lost: O Primeiro Herdeiro
8 LIVRO 1 — CAPÍTULO 08: OS PECADOS DOS PAIS
O zumbido das turbinas do jato executivo cortava o silêncio da estratosfera, mas dentro da cabine pressurizada, o ar estava carregado de uma eletricidade estática diferente: a desconfiança.
O grupo havia embarcado às pressas no Novo México, deixando para trás um rastro de poeira e o corpo de um homem no chão do aeroporto. Agora, a 30 mil pés de altitude, a adrenalina da fuga dava lugar a um acerto de contas silencioso.
A cabine era um microcosmo dividido. De um lado, afundados nas poltronas de couro bege, estavam os sobreviventes do massacre: Aaron, Yan e Clementine. Do outro, a "realeza" da Widmore: Desmond Hume, Roger Miles — que assumira seu posto de segurança ao lado do chefe — e o jovem que descera do avião com um ar de quem era dono do mundo.
Aaron não conseguia tirar os olhos do rapaz. Ele parecia ter a mesma idade que Aaron, talvez um pouco mais jovem, mas havia uma dureza em seu olhar que não condizia com os ternos caros que vestia. Ele observava o grupo não com curiosidade, mas com uma análise fria, tática.
Cansado do jogo de encarar, Aaron quebrou o silêncio que já durava horas.
— Você seria quem, afinal? — A pergunta de Aaron saiu ríspida, direcionada ao jovem de cabelos escuros.
O rapaz desviou o olhar da janela, encarando Aaron com uma calma irritante. — Desculpe a falta de educação em meio ao caos. Sou Charlie. Charlie Hume. — Ele estendeu a mão sobre o corredor, um gesto formal e calculado. — Sou filho de Desmond.
Aaron olhou para a mão estendida, depois para o rosto de Desmond, e por fim, para o sangue seco em sua própria camisa. Ele não se moveu. — Filho do chefe. Ótimo.
Charlie recolheu a mão lentamente, sem parecer ofendido, apenas decepcionado. — Eu entendo a hostilidade. Mas não me julgue pelo meu vínculo familiar.
— Julgo pelas ações — retrucou Aaron, a voz subindo um tom. Ele se virou para Desmond, ignorando o filho. — Vocês dois aparecem agora? Depois que quase morremos? Richard Alpert está morto, Desmond. Ele morreu porque você nos mandou para uma armadilha.
Desmond suspirou, passando a mão pelo rosto cansado. Para Aaron, ele parecia o mesmo homem misterioso do Mr. Clucks, mas, por dentro, Desmond estava revivendo os fantasmas de 2017. Ele sabia que cada passo daquela missão era pavimentado com sacrifício.
— Nós não sabíamos que Wilbert atacaria tão cedo, Aaron. — A voz de Desmond era grave. — Nossos movimentos estão sendo monitorados. Tivemos que agir nas sombras. Voar comercialmente parecia a opção mais segura para vocês, até deixar de ser. É por isso que vim pessoalmente.
Aaron soltou uma risada amarga. — Veio pessoalmente com o herdeiro do império. Então, este é o futuro da Widmore? — Ele apontou para Charlie. — O garoto de ouro que vai herdar tudo isso?
Charlie Hume inclinou-se para a frente, seus olhos escuros fixos nos de Aaron. A tensão entre os dois era palpável.
— Na verdade, eu não me importo com o dinheiro — disse Charlie, a voz baixa e perigosa. —Eu estou aqui pela mesma razão que deveria motivar você: terminar o que começaram antes de nós nasceremos.
O clima pesou ainda mais. Yan e Clementine trocaram olhares nervosos, sentindo que estavam no meio de uma briga de família que não compreendiam.
Desmond, percebendo que a situação poderia sair do controle, interveio. — Chega. Estamos todos no mesmo lado. E ainda não acabou.
— Como assim não acabou? — perguntou Clementine, a voz trêmula. — Depois de sermos alvejados, o mínimo que eu queria era fazer uma pausa.
— E vamos. — Desmond levantou-se, caminhando até o mapa digital na parede da cabine. — Mas antes temos uma última parada em Seul. Precisamos de mais uma pessoa.
— Mais uma? — Yan perguntou, incrédulo. — Já somos alvos ambulantes.
— Essa pessoa é vital. — Desmond virou-se para eles. — Estamos indo buscar Ji Yeon Kwon. Ela é a herdeira das Indústrias Paik.
Aaron franziu a testa, lembrando-se vagamente do nome nos arquivos que Desmond lhe dera. — Pensei que essa indústria tivesse “mal das pernas”. Foi o que constava no relatório.
— Não completamente. — Desmond explicou, a paciência de um professor explicando física a uma criança. — A empresa sofreu muito após a morte do Sr. Paik e o desaparecimento dos pais de Ji Yeon. Mas ela assumiu o controle. Ela herdou o que restou e está tentando reerguer o império.
— E por que uma CEO coreana viria conosco para uma ilha no meio do nada? — perguntou Aaron, a suspeita voltando com força total. — Pensei que era uma viagem apenas para peões.
Desmond trocou um olhar rápido com Charlie. Havia um segredo ali, algo que eles não estavam compartilhando. — Digamos apenas que ela tem... recursos. E uma motivação pessoal tão forte quanto a de Yan.
Aaron recostou-se na poltrona, cruzando os braços. Ele olhou para Charlie Hume, que agora observava as nuvens pela janela, isolado em sua própria missão. Aaron percebeu que não estava apenas em uma expedição; estava cercado por órfãos de uma guerra antiga.
— Seul, então — murmurou Aaron, fechando os olhos, rezando para que os pesadelos não voltassem assim que ele adormecesse.
Sydney, Austrália — Duas semanas antes do embarque de Aaron para Los Angeles
Do alto da torre de vidro da sede regional da Widmore, Richard Alpert observava o mundo lá embaixo como um deus entediado. Seus olhos escuros, que já tinham visto impérios nascerem e caírem, estavam fixos em um ponto específico na praça em frente ao prédio.
Lá embaixo, um jovem loiro estava sentado em um banco de madeira, com a cabeça entre as mãos, parecendo carregar o peso do mundo. Era Aaron. Ele acabara de sair correndo do escritório, perturbado por uma visão que nem ele mesmo compreendia.
O celular de Richard vibrou. Ele atendeu sem desviar o olhar do rapaz.
— Ele está aqui — disse Richard, sua voz calma contrastando com a urgência da situação. — Sentado na praça, parecendo que viu um fantasma.
— Ele viu mais do que isso — a voz de Desmond Hume respondeu do outro lado da linha, abafada pelo ruído de fundo de um jato em altitude de cruzeiro. — As barreiras da mente dele estão caindo, Richard. A Ilha está chamando.
— É perigoso deixá-lo solto nesse estado, Desmond. Se ele entrar em pânico, perdemos o ativo. — Richard encostou a testa no vidro frio da janela. — Eu deveria descer lá e interceptá-lo.
— Não! — Desmond foi enfático. — Ele precisa vir até nós por vontade própria. Ou pelo menos achar que foi vontade dele. Eu chego amanhã de manhã. Vou abordá-lo no Mr. Clucks.
Richard permitiu-se um sorriso irônico. — No Mr. Clucks? Sério? O destino do mundo será decidido numa lanchonete de frango frito?
— Hugo tem senso de humor, meu amigo. E o destino faz boas piadas. Você, mais do que ninguém, deveria saber disso. — Desmond fez uma pausa. — Obrigado por manter a posição aí, Richard. Sei que lidar com funcionários de uma empresa não é sua estadia preferida.
— Eu deveria me aposentar dessa vida, Desmond. — Richard suspirou, observando seu próprio reflexo no vidro, estava finalmente envelhecendo. — Mas você ainda é um chefe melhor que o Ben. E presidir esta sede me trás boas recordações da Mittelos. As pessoas tendem a respeitar a experiência, mesmo quando não sabem que tenho mais de duzentos anos de "experiência".
— Você está bem conservado para um fóssil — brincou Desmond, mas havia tensão em sua voz.
— E você continua o mesmo, Desmond. Sempre correndo contra o relógio. — Richard ficou sério. — Me diga a verdade. Você está tão confiante nessa missão porque espera que dê certo... ou por que você já viu que vai dar certo?
Houve um silêncio na linha. Richard sabia que Desmond, devido à sua exposição única ao eletromagnetismo da Ilha, por vezes vivenciava a consciência deslocada no tempo. Ele não apenas previa o futuro; ele o lembrava.
— Eu vi o fim, Richard — Desmond confessou, a voz pesada. — Eu vi um futuro onde eu sou livre. Onde Penny e Charlie estão seguros e eu nunca mais preciso pisar naquele lugar maldito. Mas para chegar lá... eu preciso entregar todos eles. Aaron, a garota do Sawyer, o enfermeiro... todos.
— Você está sacrificando peões para salvar o rei.
— Eu estou fazendo o que é necessário. — Desmond parecia tentar convencer a si mesmo. —Eu renunciei a tudo por causa daquela missão do Hugo, e agora... a única saída é empurrar esses garotos para a mesma armadilha. É poético.
— Não é poético, Desmond. É trágico. — Richard olhou novamente para Aaron lá embaixo. O rapaz se levantou do banco, limpou o rosto e começou a caminhar de volta para o prédio, sem saber que seu destino já havia sido selado por dois homens que manipulavam o tempo. — Ele era apenas um bebê quando o vi pela primeira vez. Agora vou ter que mandá-lo para a guerra.
— Ele vai sobreviver. Ele é especial. Eu vi e sei quem ele é... — Desmond hesitou.
— Quem ele é? Como assim?
— Você verá. Apenas garanta que ele esteja seguro até eu chegar.
— Vou desligar. Ele está voltando para o escritório. — Richard afastou-se da janela. — Até amanhã, Desmond.
— Até amanhã, brother.
A ligação caiu. Richard guardou o telefone no bolso de seu terno impecável. Ele sentiu uma pontada de culpa, uma emoção que pensava ter perdido décadas atrás. Ele estava enviando Aaron para a cova dos leões, e a única garantia que tinha eram as visões de um homem desesperado para voltar para ter finalmente sua liberdade.
Seul, Coréia do Norte – Presente
O choque térmico foi imediato. Do ar condicionado asséptico do jato para a umidade fria da noite coreana, o grupo desembarcou em um hangar privado, longe dos olhares curiosos.
Desmond não deu tempo para descanso. Carros pretos com vidros blindados já os aguardavam na pista. O trajeto até o centro de Seul foi feito em silêncio, quebrado apenas pela cidade de neon que passava velozmente pelas janelas.
Aaron observava Charlie Hume no banco da frente. O filho de Desmond ajustava os abotoaduras do terno, tranquilo, como se estivesse indo para um jantar de gala, e não para o recrutamento de uma mulher que poderia muito bem mandá-los para a cadeia. Aaron, ainda com a roupa amarrotada da fuga no Novo México, sentia-se deslocado e irritado com a arrogância silenciosa do outro.
O destino era a sede das Indústrias Paik. Um monólito de vidro e aço que dominava o horizonte, um testamento ao poder que a família de Sun Kwon detinha antes — e depois — da Ilha.
Eles foram conduzidos por seguranças que não sorriam até uma sala de reuniões no último andar. A vista da cidade era deslumbrante, mas a atmosfera lá dentro era gélida.
A porta dupla se abriu.
Ji Yeon Kwon entrou. Ela não parecia a "filha de náufragos". Ela era a imagem do poder corporativo: impecável em um terno de corte preciso, o rosto impassível, os olhos escuros avaliando o grupo como se fossem insetos indesejados em sua sala de estar.
Ela caminhou até a cabeceira da mesa, ignorando Desmond, e virou-se para seu secretário pessoal, falando em coreano rápido e ríspido:
— Por que você permitiu que essa gente entrasse? Eles cheiram a desespero e problemas. Livre-se deles antes que sujem o carpete.
O secretário fez uma reverência nervosa, mas antes que pudesse responder, uma risada seca cortou o ambiente.
Charlie Hume deu um passo à frente, um sorriso irônico curvando os lábios.
— O carpete pode ser limpo, senhorita Kwon. Mas a mancha que a Widmore pode deixar nas suas ações... essa é mais difícil de tirar. — Charlie respondeu em um coreano fluente e impecável, com o sotaque da elite de Seul.
O silêncio caiu sobre a sala. Aaron e os outros olharam para Charlie, surpresos. Ji Yeon parou, virando-se lentamente para o rapaz. O desprezo em seus olhos foi substituído por uma cautela afiada.
— Você fala a minha língua — disse ela, agora em inglês, a voz fria.
— Eu falo a língua dos negócios. — Charlie sustentou o olhar dela. — E a língua daqueles que perderam os pais para um lugar que estamos tentando chegar.
Ji Yeon estreitou os olhos, mas recuperou a postura. Ela se aproximou, estendendo a mão para Desmond, ignorando Charlie deliberadamente. — Sou Ji Yeon. Prazer em recebe-los, suponho.
Desmond apertou a mão dela, sem paciência para jogos de etiqueta. — Você sabe por que estamos aqui, Ji Yeon.
— Sei... — Ela soltou a mão de Desmond e cruzou os braços. — Minha resposta é não.
Ela virou as costas, pronta para sair. — Mostre a saída a eles — ordenou ao secretário.
— Richard Alpert está morto! — O grito de Desmond ecoou na sala, fazendo os seguranças colocarem a mão nas armas.
Ji Yeon parou, a mão pairando sobre a maçaneta da porta. A menção ao nome do conselheiro a atingiu.
— Wilbert DeGroot está agindo, Ji — continuou Desmond, sua voz carregada de urgência. — Ele matou Richard nos Estados Unidos ontem. A guerra fria acabou. Eles estão limpando o tabuleiro, e você é uma das peças que restaram. Precisamos agir rápido.
Ji Yeon virou-se lentamente. Havia medo em seus olhos agora, mas o orgulho falava mais alto. Ela olhou para o grupo de sobreviventes sujos e cansados. — Se Richard está morto... então vocês já perderam. Eu não vou me juntar a uma missão suicida. Saiam do meu prédio.
Ela saiu, batendo a porta com força.
Do lado de fora do arranha-céu, o vento frio da noite açoitava o grupo. Desmond andava de um lado para o outro na calçada, visivelmente perturbado, passando as mãos pelos cabelos grisalhos.
— Droga! — exclamou ele, chutando o pneu da limusine. — Sem ela, a missão já está perdida. E ela é um alvo fácil para o Wilbert.
— Isso foi um fracasso total. — Clementine encostou-se no carro, soltando uma risada nervosa. — Viajamos meio mundo para levar um "não" de uma princesinha mimada.
— Que surpresa. — Charlie ajeitou o paletó, observando a entrada do prédio com um olhar calculista. — Ela está assustada. Mas ela não é estúpida.
— E o que você sugere? — Aaron perguntou, cético. — Vamos invadir o prédio?
— Não. Vamos negociar. — Charlie sorriu, um sorriso que lembrava perigosamente o de seu avô, Charles Widmore. — Deixem-me falar com ela. Sozinho.
— Por que você acha que ela vai te ouvir? — Aaron retrucou. — Por que você fala coreano?
— Porque eu sei o que ela quer ouvir, meu caro. — Charlie virou-se para Desmond. — Pai, me dê uma hora. Eu não sou um incompetente. Vou trazê-la para o avião.
Desmond olhou para o filho. Ele via a confiança, mas também a imprudência da juventude. Ele bufou, cansado demais para discutir.
— Vá. Mas não vá sozinho. — Desmond virou-se para a sombra onde seu segurança aguardava. — Roger, vá com ele. Não tire os olhos do garoto.
Roger Miles desencostou da parede, o rosto ainda marcado pela surra no galpão, e assentiu. Ele odiava babar crianças ricas, mas ordens eram ordens.
— Vamos, garoto de ouro — resmungou Roger. — Tente não nos fazer ser presos.
Charlie lançou um último olhar desafiador para Aaron antes de seguir Roger de volta para a entrada do prédio. A noite em Seul estava apenas começando, e a verdadeira negociação estava prestes a acontecer.
Sydney, Austrália — Duas semanas antes do embarque de Aaron para Los Angeles
A noite em Sydney era abafada, mas dentro do escritório abandonado, o ar parecia gelado. Desmond Hume fechou a porta atrás de si, trancando-a com duas voltas, embora soubesse que fechaduras eram inúteis contra os homens que ele estava enfrentando.
Ele caminhou até a mesa de metal, as mãos tremendo levemente. Não de medo, mas de uma exaustão profunda que se acumulava há décadas. Ele abriu a gaveta e tirou uma garrafa de uísque MacCutcheon — uma ironia que ele mantinha por perto para lembrá-lo de Charles Widmore. Ele serviu um copo, o líquido âmbar brilhando na penumbra.
Ele estava prestes a beber quando ouviu.
Não foi uma batida. Foi um toque sutil na madeira, quase um arranhão. Alguém que sabia que ele estava lá e não precisava fazer alarde.
Desmond largou o copo. Sua mão direita deslizou para o bolso do paletó, os dedos fechando-se ao redor do cabo de uma faca de combate. Ele caminhou silenciosamente até a porta, o coração batendo um ritmo de guerra.
— Quem está aí? — perguntou ele, a voz firme, escondendo a tensão.
O silêncio do outro lado durou um segundo a mais do que o confortável. Então, a maçaneta girou. Desmond não a tinha destrancado, mas a porta se abriu mesmo assim.
No corredor mal iluminado, parado com a arrogância de quem é dono do lugar, estava Wilbert DeGroot. Ele vestia um terno cinza impecável que contrastava violentamente com a sujeira do galpão.
— Olá, Desmond. — O sorriso de Wilbert era afiado, sem nenhum calor. — Acho que precisamos conversar.
Desmond não recuou. Ele manteve a mão no bolso, pronto para o ataque. — Não temos nada para conversar, Wilbert. Saia daqui antes que eu esqueça que sou um homem civilizado.
Wilbert ignorou a ameaça e deu um passo para dentro, invadindo o santuário de Desmond. — Você é sempre tão dramático? Eu vim em paz. Só quero... alinhar expectativas.
— Você está invadindo propriedade privada.
— Propriedade? — Wilbert riu, olhando para as paredes descascadas. — Isso é uma ruína, Desmond. Assim como a sua tentativa de salvar o mundo.
A tensão no ar tornou-se elétrica. Desmond estava prestes a sacar a faca quando uma sombra se moveu atrás de Wilbert. O som inconfundível de um cão sendo engatilhado congelou Desmond no lugar.
Das sombras do corredor, Frank Lapidus surgiu. Ele parecia cansado, com olheiras profundas, mas a pistola em sua mão estava firme, apontada diretamente para o centro da testa de Desmond.
Desmond sentiu um gosto amargo na boca. Traição. — Frank? — sussurrou ele, incrédulo. — Você está trabalhando para ele agora? Depois de tudo?
Frank não baixou a arma, mas havia um pedido de desculpas em seus olhos. — Desculpe, Desmond. Não é pessoal. Eu não tive escolha.
Desmond olhou de Frank para Wilbert. A situação era pior do que ele imaginava. — Sempre temos escolhas. Vai me matar, Lapidus? — Desmond estufou o peito, desafiador. — Então vá em frente. Atire.
Wilbert levantou a mão, um gesto preguiçoso para que Frank baixasse a arma. — Ninguém vai morrer hoje, Desmond. A menos que seja necessário. Frank é apenas minha apólice de seguro. — Wilbert caminhou até a mesa e pegou o copo de uísque que Desmond servira, cheirando-o. — Além disso, já cuidamos do seu "cão de guarda".
Desmond gelou. — O que você fez?
— Roger Miles é um homem difícil de derrubar, admito. — Wilbert tomou um gole do uísque e fez uma careta. — Mas ele não está em condições de te ajudar agora. Meus homens o deixaram... indisposto. Acredito que ele esteja a caminho do hospital neste exato momento.
A notícia de que Roger fora neutralizado deixou Desmond vulnerável. Ele estava sozinho.
— Então, sente-se, Desmond. — Wilbert indicou a cadeira com a cabeça. — Fique à vontade no seu próprio escritório. Porque a verdadeira visita ainda vai chegar.
Cobertura da Paik Industries, Seul – Presente
O elevador privado abriu-se com um silvo suave. Roger Miles saiu primeiro, mancando, a mão pairando sobre o coldre, varrendo o perímetro com o profissionalismo de quem ignora a dor.
— Limpo — resmungou Roger, o tom de quem preferia estar em qualquer outro lugar.
Charlie Hume passou por ele, ajeitando os abotoaduras do terno. O escritório de Ji Yeon era vasto, minimalista e frio, dominado por janelas panorâmicas que mostravam Seul brilhando lá fora. Ji Yeon estava de pé junto a uma mesa de vidro, terminando de colocar documentos em uma trituradora. Uma mala de viagem estava aberta no sofá.
Ela não se virou quando eles entraram. — Eu disse para saírem — a voz dela era calma, mas cortante. — Meus seguranças estão subindo.
— Eles vão demorar. O sistema de segurança do prédio teve um... pequeno soluço. — Charlie caminhou até o bar de cristal e serviu-se de uma dose de soju, agindo como se fosse o dono do lugar. — Roger, espere lá fora.
Roger franziu a testa, irritado. — Seu pai disse para não tirar os olhos de você, garoto.
— E eu estou dizendo para esperar lá fora. — Charlie sorriu, mas seus olhos eram gelo. — Preciso de privacidade para fechar o negócio.
Roger bufou, lançando um olhar de aviso para as costas de Ji Yeon, e recuou para o corredor. As portas do elevador se fecharam.
Ji Yeon finalmente se virou. Seus olhos não demonstravam medo, apenas uma determinação férrea. — Você é arrogante, Charlie Hume. Acha que pode invadir meu escritório e me dar ordens? Eu sei quem enviou vocês. E eu sei quem está vindo depois.
Charlie ergueu uma sobrancelha, interessado. — Você sabe sobre o Wilbert?
— Wilbert DeGroot. A Nova Dharma. — Ji Yeon fechou a mala com força. — Eu não sou estúpida. Monitoro as movimentações financeiras da Widmore e da Hanso há anos. Sei que a guerra começou. É por isso que estou saindo de cena. Vou desaparecer onde nem você nem o Wilbert possam me encontrar.
— Fugir não vai te salvar, Ji. — Charlie tomou um gole da bebida. — Eles vão te caçar. E você vai morrer sem saber a verdade.
Ji Yeon parou. A menção à "verdade" atingiu o ponto fraco de sua armadura. — Do que você está falando?
— Seus pais. Jin e Sun Kwon. — Charlie pousou o copo, o som ecoando na sala silenciosa. — Você sabe que eles não morreram na queda do voo 815. Você sabe que eles sobreviveram. Que sua mãe saiu de lá mas voltou. Mas você não sabe como acabou.
— Ninguém sabe. — Ji Yeon respondeu, a voz tremendo levemente. — Eles desapareceram. Corpos nunca encontrados.
Charlie começou a caminhar lentamente em direção a ela, tirando um pequeno dispositivo prateado do bolso do paletó. — O meu avô... Charles Widmore... ele era um homem obcecado. Ele monitorava aquela ilha com sonares e submarinos até o último segundo de sua vida.
Ji Yeon olhou para o dispositivo na mão de Charlie. Era um drive de dados criptografado, com o logotipo antigo da Widmore.
— O que é isso? — perguntou ela.
— O "trunfo" que meu pai nem sabe que existe. — Charlie sorriu, um sorriso que não tinha nada de amigável. — Charles Widmore mantinha registros de áudio e telemetria de um submarino que afundou na costa da Ilha em 2007. Existem gravações, Ji.
O ar saiu dos pulmões de Ji Yeon. — Gravações? Deles?
— Talvez. Eu não consegui descriptografar tudo. A chave de acesso... — Charlie fez uma pausa dramática. — A chave de acesso biológico só funciona em um lugar. Na fonte do sinal. Na Ilha. O velho Charles tinha seus truques.
Ji Yeon olhou para o drive como se fosse a coisa mais preciosa e perigosa do mundo. Charlie havia jogado a isca perfeita. Ela tinha dinheiro, tinha poder, tinha recursos para fugir de Wilbert. Mas ela não tinha aquilo.
— Você está mentindo — sussurrou ela, tentando manter o controle. — Isso é um truque para me levar para lá.
— É uma aposta. — Charlie colocou o drive sobre a mesa de vidro, deslizando-o na direção dela. — Você pode fugir e passar o resto da vida se perguntando se as últimas palavras dos seus pais estão nesse drive. Ou você pode vir comigo e nós descobrimos juntos a verdade.
Ji Yeon olhou para o dispositivo, depois para Charlie. Ela viu a escuridão nele, a mesma ambição implacável que ela via no espelho. Ele não estava oferecendo proteção; estava oferecendo uma troca.
— Por que você? — perguntou ela. — Por que não contou isso ao seu pai?
— Porque Desmond é sentimental. Ele quer salvar o mundo. — Charlie chegou perto, invadindo o espaço pessoal dela, a tensão entre os dois crepitando como eletricidade. — Eu sou prático. Eu quero o controle. E para ter o controle, eu preciso da Ilha. E para sobreviver à Ilha... eu preciso de aliados que tenham tanto a perder quanto eu. A melhor forma de se manter um lugar seguro é tendo total controle sobre ele.
Ji Yeon pegou o drive. O metal estava frio em sua mão. — Se esse drive for falso, Charlie Hume... eu mato você antes que o Wilbert tenha a chance.
Charlie sorriu, encantador e perigoso. — Justo. Temos um acordo?
Ji Yeon guardou o dispositivo no bolso, pegou sua jaqueta e chutou a mala de fuga para longe. — Vamos. Mas se eu for... eu mando. Entendeu?
Charlie fez um gesto de "primeiro as damas", o triunfo brilhando em seus olhos. — Veremos.
Meia hora depois, na calçada gelada, Aaron já estava cogitando pegar um táxi de volta para o aeroporto quando as portas de vidro do saguão se abriram.
Roger saiu primeiro, a expressão de quem comeu algo estragado e odiou cada segundo da espera. Logo atrás, Charlie caminhava com a confiança de quem acabou de ganhar um jogo de pôquer. E ao lado dele, trocando os saltos altos por botas de couro e uma postura de combate, estava Ji Yeon Kwon.
Desmond soltou o ar, aliviado, mas franziu a testa ao notar a dinâmica entre os dois jovens. — Você conseguiu.
Charlie parou diante do grupo, ajeitando o paletó. — Eu disse que sabia o que ela queria ouvir.
Yan olhou para Ji Yeon, depois para Charlie. — O que você prometeu a ela? — sussurrou Yan para Aaron. — Ela parece... pronta para a guerra.
Aaron observou a cena, o estômago revirando. Havia um segredo compartilhado entre Charlie e Ji Yeon agora, algo que excluía o resto do grupo. — Não importa — disse Aaron, secamente. — Ela está aqui. Vamos sair dessa cidade.
Ji Yeon passou por eles sem dizer uma palavra, entrando direto na limusine. Charlie fez um gesto teatral para que os outros entrassem.
— Próxima parada: Sydney — anunciou Charlie, lançando um olhar cúmplice para o bolso onde Ji Yeon guardara o drive. — E depois... a verdade.
Desmond olhou para o filho, uma pontada de dúvida surgindo em sua mente pela primeira vez. Ele sabia que Charlie era inteligente, mas não sabia que ele jogava tão sujo quanto o avô.
Escritório Provisório da Widmore — Sydney Alguns minutos antes de Aaron bater à porta
A noite lá fora era abafada, mas dentro do escritório abandonado, o ar parecia ter sido sugado. Desmond Hume estava encurralado. À sua frente, Wilbert DeGroot sorria com a arrogância de quem segura todas as cartas. Atrás dele, Frank Lapidus mantinha a arma em prontidão, mas seus olhos evitavam contato, denunciando a relutância do piloto.
— O que você quer comigo, Wilbert? — perguntou Desmond, a mão direita pairando perigosamente perto do bolso onde guardava uma faca. Sua voz era firme, mas o suor frio em sua nuca traía o instinto de sobrevivência.
Wilbert deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Desmond. — Eu vim te oferecer uma saída, Desmond. Uma chance de recuperar a vida que você perdeu. Paz, família, o fim da perseguição. — Ele fez uma pausa calculada. — Mas você precisa parar. Abandone a ideia de reunir os candidatos. Deixe a Ilha em paz. É a única porta de saída que você tem.
Desmond sustentou o olhar do inimigo, a teimosia escocesa fervendo. — Eu não vou parar. Não importa o que você diga ou quem você traga.
— Você sabe que não pode nos vencer, não é? — Wilbert riu, um som seco que ecoou nas paredes descascadas. — Você é um homem que tropeçou numa fortuna, Desmond. Se eu fosse você, pegaria o dinheiro da Widmore e iria viver. Deixe a "ciência" da Ilha para quem realmente entende o que ela é.
— Eu vivi dez anos naquele inferno, Wilbert. — Desmond rosnou, dando um passo à frente, fazendo Frank tensionar o dedo no gatilho. — Eu sei o que ela é melhor do que qualquer um de vocês.
Antes que Wilbert pudesse responder, um zumbido elétrico suave cortou o silêncio do corredor escuro.
Zzzzzt.
A reação de Wilbert foi imediata. A arrogância desapareceu, substituída por uma postura de respeito subserviente. Ele recuou, abrindo caminho.
Das sombras, emergiu uma cadeira de rodas de alta tecnologia. Nela, estava um homem idoso. Sua pele era fina como pergaminho, marcada por manchas senis, e suas mãos esqueléticas repousavam sobre uma manta no colo. Ele parecia frágil, quase quebradiço. Mas quando ele levantou o rosto, Desmond sentiu um arrepio.
Os olhos daquele homem não eram velhos. Eram afiados, lúcidos e frios como gelo.
— Olá, Desmond. — A voz era fraca, um sussurro rouco, mas carregava uma autoridade que fez a sala parecer pequena. — É um prazer finalmente conhecer o homem que Charles nunca conseguiu controlar.
— Quem é você? — Desmond perguntou, embora uma parte dele já suspeitasse. Aquele rosto estava em vídeos de orientação antigos, em arquivos empoeirados.
— Eu sou aquele que financiou os sonhos e pesadelos deste século. — O homem guiou a cadeira para o centro da sala. — Meu nome é Alvar Hanso.
Desmond recuou até bater as costas na mesa. Hanso. O nome por trás da Fundação Dharma. O homem que deveria estar morto há décadas.
— Você... — Desmond murmurou. — Você financiou a Iniciativa Dharma.
— Eu financio o progresso, Sr. Hume. — Alvar sorriu, um gesto mínimo. — Charles Widmore também foi alvo dos meus investimentos. A Iniciativa Dharma foi um experimento necessário. E você... você é uma variável fascinante.
— O que você quer? — Desmond cerrou os punhos. — Se veio tomar as ações, fique com elas.
— Não me importo com papéis ou ações. Eu me importo com a ordem. — Alvar olhou para Desmond com a paciência de um professor. — Vim lhe oferecer um tratado. Você para de procurar essas pessoas... esses "candidatos"... e eu garanto que sua esposa Penelope e seu filho Charlie viverão vidas longas, prósperas e, o mais importante, seguras.
A menção aos nomes de Charlie e Penelope fez o sangue de Desmond gelar. — Se você chegar perto da minha família..
— Eu não precisarei, se você for razoável. — Alvar o interrompeu suavemente. — O mundo é um lugar perigoso, Desmond. Acidentes acontecem. Mas eu posso garantir que nenhum acidente aconteça com eles. Tudo o que peço é que você se afaste. A Ilha não precisa de você. Ela tem donos mais antigos.
Desmond olhou para Frank, que continuava de cabeça baixa, a arma tremendo levemente. Olhou para Wilbert, que aguardava ansioso. E olhou para Alvar, o velho que falava como se fosse dono do destino.
Desmond pensou em Penny. Pensou em Charlie. Aceitar seria a coisa lógica. Seria o fim do medo.
Mas então ele se lembrou da promessa feita a Hugo na fogueira. Lembrou-se do porquê de ter ficado dez anos preso. Se ele parasse agora, o sacrifício não valeria nada.
— Eu não vou parar. — Desmond disse, a voz baixa, mas inabalável. — Eu vou terminar o que comecei.
Alvar suspirou, parecendo genuinamente cansado. — Uma pena. A lealdade cega é uma virtude perigosa.
Ele girou a cadeira de rodas com um movimento fluido. — Agora eu sei onde você está, Sr. Hume. E sei o que você valoriza. Meus homens embarcarão para a ilha hoje. Vim avisar que você não é o único com recursos.
Alvar começou a se retirar para as sombras do corredor. Wilbert lançou um último olhar de desprezo para Desmond. Frank, por último, guardou a arma e balançou a cabeça levemente, um aviso silencioso de "sinto muito".
Os três saíram, deixando Desmond sozinho na penumbra. O silêncio retornou, mas agora estava carregado de uma ameaça tangível.
Desmond correu até a gaveta, pegou a garrafa de uísque e virou um gole direto do gargalo, tentando acalmar as mãos que tremiam incontrolavelmente. Ele acabara de declarar guerra ao homem mais poderoso que já conhecera.
Segundos depois, o som de um motor se aproximando quebrou o silêncio lá fora.
Desmond foi até a janela suja. Lá embaixo, na calçada, um jovem loiro estacionava sua moto. Enquanto tirava o capacete, Wilbert, Frank e o carro preto de Alvar passaram por ele devagar.
Wilbert baixou o vidro do carro, olhou para o jovem Aaron e sorriu. — Boa noite — disse ele, casualmente.
Aaron, alheio ao fato de que acabara de cruzar com a morte, apenas sorriu de volta, educado. — Boa noite.
Desmond viu a cena lá de cima e sentiu o estômago despencar. Eles sabiam. Eles sabiam quem Aaron era.
Ele se afastou da janela e ouviu os passos de Aaron subindo a escada de metal. Ele precisava se recompor. Precisava esconder o terror. A missão tinha que continuar, ou todos eles estariam mortos antes do amanhecer.
Seul, Coréia do Sul – Presente
Limusine deslizava pelas ruas de Seul, uma bolha de luxo e silêncio em meio ao caos urbano. O motorista fez uma parada breve em uma rua lateral, aguardando Ji Yeon Kwon finalizar seus preparativos na mansão da família.
Lá dentro, o ar era pesado. Aaron estava sentado de frente para Charlie Hume. O filho de Desmond serviu-se de água com gás, parecendo irritantemente relaxado para alguém que acabara de entrar na cova dos leões. Aaron não conseguia tirar os olhos dele. Não importava o que acontecesse, seu instinto gritava para não confiar naquele garoto.
— Ainda não entendi o que aconteceu lá em cima — murmurou Aaron, quebrando o silêncio. — Você e ela... parecia que estavam falando em código.
Charlie sorriu, girando o copo na mão. — Em um jogo de cartas, Aaron, você sempre tem que estar dois passos à frente do seu inimigo. Às vezes, a melhor jogada é mostrar que você conhece o baralho dele.
Aaron bufou e virou o rosto, ignorando a arrogância de Charlie. Ele focou sua atenção em Desmond, que estava sentado no canto, massageando as têmporas, visivelmente esgotado. A paciência de Aaron havia se esgotado no Novo México.
— Desmond — chamou Aaron, a voz firme. — Quero que agora você fale tudo de vez. Chega de meias palavras.
Desmond abriu os olhos, encarando o rapaz com um cansaço profundo. — Aaron, agora não é o momento...
— É o único momento que temos! — Aaron inclinou-se para frente. — Minha mãe quase teve um ataque cardíaco quando eu disse seu nome. James Ford está apavorado pela filha. Richard morreu dizendo que já tinha vivido demais. O que há naquela ilha, Desmond? O que tem lá que faz pessoas adultas tremerem de medo?
— É um lugar... complicado. Já te disse.
— Não me venha com "complicado"! — Aaron bateu a mão no estofado. — Por que você está enviando um grupo de jovens para essa expedição? Por que nós? Por que pessoas que têm parentes que viveram lá? Essa menina... Os pais dela também estiveram lá e sumiram.
Desmond permaneceu em silêncio, o rosto impassível.
— Quem é Wilbert? — Aaron continuou, a voz subindo. — Por que ele quer nos matar? Ele não quer cheguemos lá? O que você está escondendo? Somos escudos humanos? Somos iscas? Sacrifícios? Hein?
Desmond abriu a boca para responder, para tentar acalmar o rapaz com outra mentira reconfortante, mas a porta da limusine se abriu abruptamente.
O ar frio da noite invadiu o carro. Ji Yeon entrou, jogando uma bolsa de couro no chão com força. Ela parecia pálida, mas seus olhos estavam focados, como os de um soldado indo para o front.
— Vamos — ordenou ela, sem olhar para ninguém. — Meus seguranças disseram que há movimentação estranha no perímetro. Wilbert deve ter rastreadores.
Desmond endireitou-se, a máscara de líder voltando ao lugar. — Sim, vamos. — Ele fez um sinal para o motorista. — Para o aeroporto. Agora!
O carro arrancou, jogando os passageiros contra o encosto. Mas Aaron não desviou o olhar de Desmond. Ele não ia deixar aquilo passar.
— Desmond — insistiu Aaron, agarrando o braço do chefe. — Responda.
Desmond olhou para Aaron. Ele viu a determinação nos olhos do rapaz, a mesma teimosia de Claire. Ele sabia que não podia contar a verdade — sobre a magia, sobre os guardiões, sobre o fim do mundo. Aaron acharia que ele era louco.
Desmond soltou-se suavemente do aperto de Aaron e olhou para a janela escura.
— Mesmo que eu te contasse, Aaron... você não acreditaria.
Aaron travou o maxilar, frustrado, mas percebeu que havia batido em uma parede. Ele se limitou ao silêncio, recostando-se no banco, a desconfiança agora transformada em uma certeza fria: ele estava sozinho.
Desmond fechou os olhos enquanto as luzes de Seul passavam como borrões. Sua mente viajava para longe dali, para um momento no passado onde a descrença também fora sua companheira.
Centro de Treinamento Tático, Sydney – 24 horas antes do embarque de Aaron para Los Angeles
O eco de coturnos batendo no chão de madeira polida preenchia o ginásio. Desmond observava da arquibancada, os braços cruzados, enquanto duas dúzias de homens treinavam combate corpo a corpo lá embaixo. A tensão no ar era palpável, uma mistura de suor, testosterona e a expectativa de uma missão suicida.
Roger subiu os degraus, limpando o suor da testa. Ele ainda mancava levemente, mas escondia a dor com a teimosia de um veterano.
— Esses são os homens que você conseguiu? — perguntou Desmond, avaliando o grupo com olhar crítico.
— Não se esqueça que foram eles que o seu dinheiro comprou em algumas semanas. — Roger sorriu, um sorriso torto e dolorido. — E passei parte desse tempo no hospital, graças aos amigos do seu amigo Wilbert. Não tive tempo de fazer uma seleção criteriosa.
— Ótimo. Precisamos de gente que obedeça, não de gente que pense. — Desmond descruzou os braços e desceu as escadas em direção à quadra. — Venha comigo. Há alguém que você precisa conhecer.
Roger o seguiu até a beira da quadra, onde um homem alto, de cabelo moreno e bigode aparado, observava o treino com uma postura rígida, mãos nas costas. Ele emanava autoridade silenciosa.
Desmond tocou o ombro do homem, que se virou imediatamente.
— Roger, este é Juan Smith — apresentou Desmond. — O capitão do navio que levará vocês à ilha.
Roger estendeu a mão, avaliando o aperto do outro. Era firme, calejado. — Prazer. Roger Miles.
— O prazer é meu, Roger. — A voz de Juan era grave e controlada. — Soube que você também serviu. Exército Britânico?
— Por um tempo. — Roger deu de ombros, o cinismo habitual voltando. — Mas hoje não sou preso a ninguém, nem mesmo à coroa britânica. E você? Onde ganhou essa postura?
— Capitão reformado da Marinha Americana. — Juan respondeu com orgulho contido. — Para mim é sempre uma honra estar entre militares, mesmo de forças aliadas.
Roger soltou uma risada curta, notando como Juan analisava os curativos em seu rosto. — Pode perguntar, Capitão.
— Os ferimentos — disse Juan, direto. — Acidente de trabalho?
— Digamos que escorreguei e caí em cima de cinco punhos fechados. — Roger respondeu, irônico.
Juan franziu a testa, mas aceitou a evasiva. — Já velejou, Roger? O Pacífico não costuma perdoar amadores.
— Nunca tive interesse no mar. — Roger olhou para Desmond. — Mas meu amigo aqui é especialista. Ele adora navegar em barcos que ganha de mulheres malucas.
Desmond ficou sério, mas Juan interveio, uma sombra de reconhecimento cruzando seu rosto. — Mulheres malucas? Você se refere à dona do barco que Desmond velejou?
— Exatamente. — Roger riu. — Uma tal de Elizabeth que deu o barco pro Desmond anos atrás.
Juan suspirou, balançando a cabeça com um sorriso triste. — Por coincidência, a "mulher maluca" é minha ex-cunhada. Elizabeth Smith. Ex-esposa do meu falecido irmão, David.
O sorriso de Roger congelou por um segundo, mas ele recuperou o humor rapidamente. — Bacana. Então estamos todos em casa, não é? Uma grande reunião familiar disfuncional. — Ele ergueu as mãos em rendição. — Perdão, Capitão. Não quis ofender a memória da família.
— Acredite, não ofendeu. Libby era... intensa. — Juan disse, encerrando o assunto com profissionalismo.
— Bom, agora que as apresentações foram feitas... — Desmond tomou a palavra, o tom grave retornando. — Temos dois homens experientes aqui. Saibam que é uma missão de alto risco. Não estamos indo para um cruzeiro.
— Eu entendo a gravidade, senhor. — Juan respondeu, batendo os calcanhares levemente. — É por isso que me preparei bem. O navio está pronto.
— Excelente. Uma ironia eu ter batizado o navio de Elizabeth. — Desmond virou-se para Roger. — Agora, preciso que você vá para Los Angeles. Imediatamente.
— Los Angeles? — Roger fez uma careta. — Achei que eu fosse comandar a segurança do embarque aqui.
— Mudança de planos. Você vai escoltar o Aaron Littleton.
— Aquele merdinha da academia? — Roger soltou uma gargalhada incrédula. — Você quer que eu atravesse o oceano como babá de um garoto que treme quando levanta peso?
— "Merdinha"? — Desmond estreitou os olhos, não gostando do tom. — Ele é a chave, Roger. Sem ele, a missão não existe.
Roger percebeu que não havia espaço para negociação. Ele suspirou, ajeitando a jaqueta. — Tudo bem. Vou acompanhar o garoto. Quando eu saio?
— Seu voo é amanhã de manhã. Não se atrase. — O tom de Desmond era autoritário, o tom de um CEO que não estava acostumado a ser questionado.
— Entendido. — Roger assentiu para Juan e saiu do ginásio, murmurando algo sobre "trabalho de babá".
Desmond observou Roger sair, depois acenou para Juan continuar o treinamento. Ele precisava de ar.
Ao sair para a noite fresca de Sydney, Desmond parou, tentando acalmar a mente que girava com as ameaças de Alvar Hanso. Ele ainda não estava convencido de que aquela missão valia o preço que sua família poderia pagar.
— E aí, dude.
A voz veio das sombras. Desmond virou-se devagar. Hugo Reyes estava lá, encostado na parede de tijolos, como se estivesse esperando há horas.
— Você sabe que eu não queria te ver mais — disse Desmond, a voz fria.
— Eu entendo, Desmond. — Hugo desencostou da parede, o rosto iluminado pela luz amarela do poste. — Você está chateado porque eu nunca te contei que podia sair da ilha quando quisesse. Mas você sabe as regras. Só o Protetor tem o passe livre.
— Ok, eu já aceitei isso. Regras mágicas, guardiões, o pacote completo. — Desmond deu um passo à frente, agressivo. — Mas me responda uma coisa, Hugo: se eu desistir dessa missão agora... se eu pegar a Penny e o Charlie e sumir... o que acontece?
Hugo ficou sério. O sorriso sumiu. — Bom... todos nós estaremos condenados. Osíris entra. A luz apaga. Fim de jogo.
Desmond ficou em silêncio, ponderando o peso daquelas palavras. Hugo se aproximou e colocou a mão pesada no ombro do amigo. — Você não está sozinho nessa, cara. A Ilha está com você. E eu estou aqui também.
— Claro. Um fantasma e uma ilha. Agora estou muito mais tranquilo. — Desmond respondeu com sarcasmo, tirando a mão de Hugo do ombro. — Não se esqueça de que Osíris pode estar por aí. E tem a nova Dharma no meu cangote...
— Eu sei. — Hugo disse, sombrio.
— A questão é: como sustentar essa mentira de "missão corporativa" até chegarmos lá? — Desmond passou a mão pelos cabelos. — Aaron não é idiota. Os mercenários eu compro com dinheiro, eles não fazem perguntas. Mas o garoto... ele quer respostas.
— Eu posso ajudar com isso. — Hugo sorriu, o brilho travesso voltando aos olhos.
— Como? Aparecendo para ele em sonhos e falando sobre destino? É o seu truque favorito.
— A Ilha já o incomoda, Dess. A mentira que você vai sustentar não vai durar muito, mas eu estarei lá. Vou preparar o terreno. Quando o momento chegar... ele vai aceitar quem ele é. E os outros vão segui-lo.
— Você tem certeza disso?
— Tenho. — Hugo afirmou. — E você? Vai conseguir ir até o fim?
Desmond olhou para a rua vazia, lembrando-se do rosto de Alvar Hanso e da ameaça velada contra seu filho. — Eu vou até o fim, brother. Até ter minha família livre desse pesadelo. Custe o que custar.
Hugo assentiu. Quando Desmond piscou, a rua estava vazia novamente. O fantasma se fora, mas a missão permanecia. Desmond ajeitou o paletó e caminhou para o carro. Não havia mais volta.
Sydney, Austrália – presente
O jato executivo tocou a pista do aeroporto de Kingsford Smith sob a luz cinzenta do amanhecer. Para Yan e Clementine, a visão da Opera House e da Ponte da Baía ao longe era uma novidade exótica, mas para Aaron, a silhueta de Sydney deveria trazer o conforto de casa. Em vez disso, a cidade parecia estranha, como se ele a estivesse vendo através de um vidro sujo. Sua vida anterior — o apartamento, a rotina, a mãe esperando no sofá — parecia pertencer a outra pessoa.
Desmond não permitiu tempo para turismo. Carros da empresa os aguardavam na pista.
— Vamos para o hotel corporativo — instruiu Desmond, verificando o relógio. — Vocês têm três horas para tomar banho, comer e descansar. Ao meio-dia, quero todos na sala de conferências da Torre Widmore. Sem atrasos.
O grupo se dispersou em silêncio, cada um carregando o peso da viagem e do medo. Roger Miles sumiu assim que o carro parou, alegando que precisava "verificar o perímetro", mas Aaron sabia que ele foi apenas lamber as feridas. Charlie e Ji Yeon desapareceram juntos, mantendo a aliança silenciosa que formaram em Seul.
Aaron entrou no quarto de hotel luxuoso, jogou a mochila no chão e foi direto para o chuveiro. Enquanto a água quente lavava a fuligem do Novo México, ele se perguntou se sua mãe já tinha notado sua ausência. Ou se ela sabia exatamente onde ele estava.
Mais tarde, a sala de reuniões no 40º andar era um aquário de vidro com vista para o porto. O ar condicionado mantinha a temperatura fria demais, intencionalmente, para manter todos alertas.
Quando Aaron, Yan e Clementine entraram, a sala já estava ocupada. Penelope Widmore estava à cabeceira da mesa, impecável, mas com os olhos inchados que denunciavam o luto recente. Desmond estava ao lado dela, uma sentinela sombria.
Mas havia outros rostos ali. Pessoas que Aaron nunca tinha visto.
Um homem alto, com postura militar e um bigode bem aparado, Juan, conversava baixo com uma mulher morena de jaleco. Uma jovem morena, de aparência latina, ria de algo que um homem de óculos e sotaque francês dizia.
— Por favor, sentem-se — disse Penelope, sua voz firme cortando as conversas paralelas. — Estávamos esperando por vocês.
O grupo de Aaron ocupou as cadeiras vazias. Roger Miles entrou por último, ficando de pé junto à porta, braços cruzados.
Penelope respirou fundo, apoiando as mãos na mesa. — Antes de começarmos a logística da missão, peço um momento de silêncio. Ontem, perdemos um grande amigo e conselheiro. Richard Alpert foi assassinado em serviço nos Estados Unidos. É uma perda irreparável para a Widmore e para o mundo.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Yan baixou a cabeça, lembrando-se do sangue no aeroporto. Mas Desmond, impaciente e movido pela urgência da ameaça de Alvar Hanso, interrompeu o momento.
— Richard sabia os riscos. — A voz de Desmond foi seca. — Vamos falar sobre a missão. Não temos tempo para luto.
Penelope lançou um olhar ferido ao marido, mas assentiu, ativando a tela holográfica na parede. Um mapa do Oceano Pacífico apareceu, com uma rota traçada em vermelho para um ponto onde não havia nada.
— Como vocês sabem, estamos reunindo uma equipe multidisciplinar — começou Penelope, recuperando o profissionalismo. — Nosso objetivo é localizar, explorar e proteger uma ilha não cartografada. Vocês foram escolhidos porque são os melhores em suas áreas... ou porque possuem conexões vitais com o local.
— Então é isso? — Yan levantou a mão, cético. — Vamos lá, tiramos umas fotos e vamos embora?
— Basicamente — respondeu Penelope.
— Se é tão simples, por que tentaram nos matar? — Yan insistiu, olhando para os outros na sala. — Por que o Sr. Alpert está morto?
Todos os olhares se voltaram para Desmond. Ele sabia que não podia falar sobre Osíris ou Guardiões. — Digamos que o que está lá interessa a competidores agressivos. A "Nova Dharma". Eles não querem que cheguemos primeiro.
— E para garantir que cheguemos... — Penelope fez um gesto para o outro lado da mesa. — Quero apresentar o restante da equipe.
Ela apontou para o homem de bigode. — Capitão Juan Smith. Ex-Marinha Americana. Ele comandará o navio Elizabeth.
Juan assentiu, sério. — É um prazer. Tentem não cair no mar.
— E esta é a Dra. Jessy Burke — Penelope indicou a mulher. — Médica e especialista em Biomedicina Genética no Hospital de Sydney. Ela será nossa médica de campo e responsável pelo monitoramento biológico da equipe.
Jessy deu um sorriso contido, mas seus olhos pararam em Aaron por um segundo a mais do que o necessário — Espero que tenhamos uma viagem tranquila — disse ela, ainda olhando para Aaron que a olhou estranhando. Jessy deu um sorriso e desviou o olhar. Penelope continuou:
— Bianca Torres, geóloga formada no Brasil. Especialista em formações vulcânicas e eletromagnetismo.
Bianca acenou, animada. — Mal posso esperar para ver as leituras daquele lugar.
— E Marcel Juncle, arqueólogo linguista.
O homem francês ajustou os óculos, murmurando um "bonjour" tímido.
— Clementine Phillips, física formada pela faculdade de Oxford.
Clementine não disse nada, apenas sorriu.
— Yan Tedros, formado em enfermagem na universidade de Columbia.
— Ji Yeon Kwon, executiva e herdeira das indústrias automobilística Paik...
— E, finalmente... — Penelope olhou para Aaron. — Aaron Littleton. A partir de hoje, ele assume o cargo de Diretor de Logística da missão e Executivo Júnior da Widmore aqui em Sydney.
Aaron piscou, atordoado. — O quê?
— Você precisava de uma cobertura oficial para estar aqui, Aaron. — Penelope explicou rapidamente. — Parabéns pela promoção.
Não houve aplausos, apenas olhares curiosos. Aaron sentiu o peso do título falso. Era uma coleira de ouro. Um jeito de mantê-lo preso à empresa. Ele olhou para Desmond, que não expressou reação.
— O navio parte amanhã à noite — concluiu Desmond. — Descansem. Aproveitem a última noite de civilização. Dispensados.
A noite caiu sobre Sydney, trazendo uma chuva fina. O bar próximo ao porto estava cheio, a música alta e o cheiro de cerveja servindo como um refúgio temporário para a equipe.
Aaron, Yan e Clementine ocupavam uma mesa no canto. Clementine girava a azeitona em seu martini, o olhar distante. Yan bebia uma cerveja, ainda tentando processar a "promoção" de Aaron.
— E aí, Chefe? — Uma voz familiar gritou atrás deles.
Aaron virou-se e viu Tyler, seu amigo do escritório, aproximando-se com dois copos na mão e um sorriso largo. — Tyler! — Aaron levantou-se, genuinamente feliz em ver um rosto que não estava ligado a mortes ou mistérios. — O que faz aqui?
— Ouvi dizer que a nova equipe de elite estava bebendo aqui. Eu tinha que vir cumprimentar o novo Executivo. — Tyler apertou a mão de Aaron e acenou para os outros. — Sou Tyler Abaddon. Amigo desse cara de sorte aqui.
— Clementine. — Ela cumprimentou sem entusiasmo.
— Yan.
Tyler puxou uma cadeira. — É sério, cara. Diretor? Você saiu de assistente para a chefia em dois dias. Qual o segredo?
Aaron tomou um longo gole de sua bebida, o álcool queimando a garganta. Ele olhou em volta, para aquele mundo normal que Tyler representava. — O segredo é estar no lugar errado na hora errada, Tyler.
— Não seja modesto. — Tyler riu. — Você vai ficar rico.
— Eu não vou aceitar — soltou Aaron, de repente.
O sorriso de Tyler vacilou. Clementine e Yan pararam de beber. — O quê? Por quê?
Aaron suspirou, o peso da "herança" que Desmond mencionara esmagando seus ombros. — Eu não quero essa vida, cara. Planilhas, reuniões, segredos... Eu cansei. Depois dessa missão, se eu voltar... eu vou largar tudo. Vou ser músico.
Houve um segundo de silêncio na mesa.
— Músico? — Tyler franziu a testa, preocupado. — Aaron, você tem 25 anos. E um cargo executivo.
— É o meu sonho. Ou o sonho de alguém que eu deveria ter sido. — Aaron olhou para o fundo do copo. — Quero tocar. Sentir alguma coisa real.
Clementine soltou uma risada curta e cruel. — E o prêmio de ingenuidade vai para... — Ela balançou a cabeça, sarcástica. — Estamos indo para uma zona de guerra, Aaron. E você está falando em formar uma banda de garagem?
— Eu não entendo, Aaron — disse Tyler, a voz baixa. — Por que jogar tudo fora?
— Porque ele é diferente, Tyler. — Yan interveio, defendendo o amigo. — Ele não segue o padrão. Talvez ele saiba de algo que a gente não sabe sobre o que é importante.
— Gosto de pessoas que não seguem o rebanho — Clementine acrescentou, o tom mudando de escárnio para algo mais complexo, talvez admiração disfarçada. Ela olhou para Aaron com um sorriso malicioso. — Mas ainda acho que é burrice.
Aaron sorriu de volta, o álcool soltando sua língua. — Você diz isso, mas aceitou essa missão por minha causa, não é, gatinha?
A mesa congelou. Yan e Tyler trocaram olhares constrangidos. O sorriso de Clementine desapareceu instantaneamente, substituído por uma frieza defensiva.
— Não se iluda, Littleton. — Ela levantou-se, pegando a bolsa. — Eu estou aqui pela ciência. Pelo que eu estudei. Não pense que estou te dando mole só porque estamos no mesmo barco.
Ela saiu, abrindo caminho entre a multidão.
Aaron levantou-se, a culpa batendo forte. — Merda... Ei, Clementine! Espera!
Ele correu atrás dela, deixando Tyler e Yan na mesa. — Desculpa! Eu fui um idiota! — gritou Aaron, tentando salvar a única conexão real que fizera naqueles dias loucos.
Enquanto isso, no hotel de luxo da Widmore...
O quarto estava na penumbra. Desmond estava deitado na cama, olhando para o teto, enquanto Penelope terminava de se arrumar no banheiro. O cansaço físico era imenso, mas a mente de Desmond não parava. As palavras de Alvar Hanso ainda ecoavam em seus ouvidos.
— Finalmente... — murmurou ele quando Penny se deitou ao seu lado.
— Conseguimos juntar todos, Dess. — Ela apoiou a cabeça no peito dele. — Amanhã começa de verdade.
Desmond acariciou o cabelo dela, mas seus olhos estavam fixos na escuridão. — Penny... eu preciso te perguntar uma coisa.
Ela sentiu a tensão no corpo dele. Ergueu o rosto, preocupada. — O que foi? Por que essa seriedade agora?
— É sobre a Widmore. Sobre as origens. — Desmond virou-se para ela. — Como seu pai construiu tudo isso? Um homem que viveu numa ilha isolada... como ele se tornou um magnata global tão rápido? Eu sei que os Widmore sempre foram a elite, mas seu pai construiu um império.
Penelope desviou o olhar, sentando-se na cama. — Dess, meu pai era um homem de recursos. Você sabe disso.
— Não, Penny. Recursos não explicam influência absoluta. — Desmond sentou-se também. — Foi ele? Foi Alvar Hanso quem financiou tudo?
O nome fez Penelope congelar. O silêncio dela foi a resposta.
— Penny? — Desmond insistiu.
Ela se levantou, caminhando até a janela, abraçando o próprio corpo. — Eu não quero falar sobre isso, Desmond. Não hoje. Estamos cansados. Vamos dormir.
Desmond olhou para as costas da esposa. Ela sabia. Ela sabia que Hanso estava por trás de tudo e nunca tinha contado. A sensação de traição foi amarga.
— Tudo bem. — Ele levantou-se, pegando o paletó. — Durma você. Eu preciso pensar.
— Aonde você vai?
— Dar uma volta.
Desmond saiu do quarto, fechando a porta com suavidade, mas com uma finalidade dolorosa.
Ele caminhou pelo corredor acarpetado do hotel, a mente fervilhando. Ao dobrar a esquina para o elevador, quase esbarrou em alguém parado diante de uma porta.
Era Ji Yeon Kwon. Ela estava parada em frente ao quarto de Charlie Hume, com a mão erguida como se fosse bater, mas hesitando.
— O que está fazendo aqui? — perguntou Desmond, a voz dura.
Ji Yeon sobressaltou-se, virando rapidamente. Ela usava roupas casuais, mas seu olhar era de quem fora pega no flagra. — Eu... eu vim saber mais detalhes da logística. Acho que errei a porta do Aaron. — Ela mentiu, limpando a garganta.
Desmond olhou para o número da porta: 408. O quarto do filho dele. Ele sabia que Ji Yeon e Charlie estavam tramando algo desde Seul.
— Aaron está no 415. E a essa hora, ele deve estar dormindo. — Desmond deu um passo à frente, intimidado. — Seja mais discreta da próxima vez, Srta. Kwon. Segredos neste grupo costumam ser fatais.
Ji Yeon sustentou o olhar dele por um segundo, depois assentiu com um sorriso forçado. — Boa noite, Sr. Hume.
Ela se afastou apressada. Desmond ficou olhando para a porta do quarto do filho, imaginando que tipo de aliança perigosa aqueles dois estavam formando bem debaixo do seu nariz.
Ele apertou o botão do elevador. Alvar Hanso estava certo sobre uma coisa: ele não tinha controle sobre nada. Mas ele morreria tentando proteger o que restava.
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