Lost Memory.
9 9. Sua cura.
Notas iniciais
Seu olhar era morto quando passou pelas portas de vidro duplas do hospital, o semblante normalmente se emoção estava com uma carga pesada, sua presença parecia carregar ameaças de morte, apesar de sua expressão não demonstrar nada assim, ainda assim parecia que ele era uma bomba relógio, prestes a explodir.
Sua manhã foi exaustiva, mal teve tempo para respirar atolado em trabalho que nem Rouge era suficiente para o ajudar a arrumar e preencher todos os relatórios que ignorou durante vários dias, o Comandante estava impaciente com sua falta de profissionalismo, porém, Shadow sabia que ele não o demitiria, não seria louco de deixar escapar de suas mãos do Ultimate Lifeform.
Mas isso não impedia que o estresse causado pelas pressões de seu trabalho não deixasse simplesmente irritado com praticamente tudo e todos.
E isso claramente não se limitava a seus colegas de trabalho, como qualquer um que cruzasse seu caminho e ousasse lhe atrapalhar.
Tinha suas exceções claro, tinha aquele que conseguir fazer seu estresse passar simplesmente o chamando para corridas, sorrindo e reclamando de coisas fúteis, mas que ele gostava de fazer porque sabia que acabaria distraindo Shadow de suas frustrações e estresse, se entregava a longas e detalhadas descrições de várias coisas que ele não gostava, que gostava e do que pretendia fazer.
Era praticamente um monólogo, mas o ouriço azul tampouco se importava.
No final, depois de seus monólogos, ele era recebido com beijos, sinais claros que seu objetivo tinha sido alcançado com sucesso.
Shadow parecia ser o tipo de parceiro difícil de lidar, sempre irritado, possessivo, dominador. Porém, ao contrário do que se poderia esperar dele, ele tinha um lado bastante gentil e doce, o que fazia Sonic sempre rir quando apontava isso para ele, sendo recebido com uma careta vinda do ouriço negro, o que fazia com ele risse mais.
Apesar de sempre tentar demonstrar que era frio e sem compaixão, Sonic via que aquilo era apenas uma máscara para encobrir toda a dor que carregava, todo o medo e auto ódio que sentia por ser quem é, tudo o que significava e carregava dentro de si.
Ao contrário de Sonic, que sempre encobria suas dores com um enorme sorriso no rosto e com provocações na ponta da língua, Shadow erguia um muro de indiferença, afastando qualquer pessoa que tentasse chegar perto demais para tentar conhecer o que havia por trás de tudo aquilo.
Shadow não era excessivamente amoroso, não era meloso, possessivo e controlador como sua figura parecia ser, pelo contrário. Sonic sempre teve liberdade de fazer o que quiser e quando quiser, podia sair com os amigos, Shadow se controlava o suficiente para que visse o ouriço azul ser arrastado contra a sua vontade para diversos “encontros românticos” com Amy, embora o irritasse, ele sabia que Sonic não era sua propriedade, ele era como o vento, livre. E assim ele teria que permanecer, sem se sentir preso a nada, sempre podendo voltar para os seus braços quanto sentisse sua falta.
O que não era momentos tão raros assim.
Sonic parecia ser do tipo de ouriço difícil de se saciar, seja em corridas, lutas ou até mesmo de sua companhia, mesmo que o mesmo achasse que não era uma opção agradável de companhia, o ouriço parecia discordar completamente de sua opinião, sempre demonstrando que ao contrário do ele pensava de si mesmo, ele era uma das companhias que Sonic mais gostava de ter ao seu lado.
Não que ele menosprezasse Tails ou não gostasse de Knuckles, não.
O que Sonic mais gostava de Shadow era sua capacidade de escutar, seja qual for o assunto que ele gostaria de falar, seja uma reclamação, uma frustração ou seus medos. Ele se sentia seguro de confidenciar seus medos, de expor seus medos, mostrar seu lado menos forte e desafiador, ele gostava de poder compartilhar parte de seus pensamentos quando sentia a necessidade de tal, mesmo que seja admitir um dos seus mais considerados medos humilhantes.
Shadow não achava humilhante, não o julgava, não fazia comentários que o fazia se sentir pior, não ria dos seus medos, não lhe apontava suas fraquezas e nem jogava em sua cara coisas que o magoavam.
Ele não tinha que ser sempre otimista enquanto descansava a cabeça em seu peito e tinha braços ao redor de si, lhe passando o conforto que ele precisava, mas não tinha coragem de falar. Ele sentia a pressão de o herói, sentia a obrigação de ser sempre prefeito, não falhar, não demonstrar medos e fraquezas, não precisar de conforto quando na realidade é uma das coisas que ele mais queria.
Por isso ele sempre buscava a companhia de Shadow, ele poderia não ser tão experientes com as palavras, mas sabia que tinha os braços dele só para si, ele sentia que o conforto do abraço dele seria somente seu, que lhe pertencia. Shadow não contestava nenhuma de suas ações, apesar de sempre deixar claro quando ele não estava de acordo com algo.
Ser compreensível para Shadow não era sinônimo de ser passivo e aceitar tudo que lhe era dito, pelo contrário. Quando algo que Sonic dizia ia contra algo que ele acreditava ou tinha a firme convicção que o ouriço estava errado, ele debatia de volta, mostrava seus pontos, sua visão e opinião sobre algo que o ouriço azul acreditava que era de outro modo. Apesar disso não evoluir para uma briga, era apenas uma discussão saudável enquanto Sonic estava preso em seus braços, em uma prisão que ele mesmo quis.
Ele gostava quando acabava causando essas discussões, Shadow era simplesmente calmo para expor um ponto, compreensível com o que ele achava, porém não concordavam sempre.
E assim acabam passando um dia calmo, com diálogos, conversas e um peito a qual descansar a cabeça e braços com a promessa de mantê-lo sempre em segurança.
Porém, sem esses momentos, Shadow parecia extremamente instável com humor variando muito dependendo do quanto de estresse ele estava sentindo no momento, naquele caso, seus níveis eram altos, mas não tinha certeza de que conseguiria estar ali, no hospital sem acabar causando danos, porém, parecia que o médico que o ligou tinha boas notícias para lhe dar, sua voz no telefone parecia um misto de incredulidade e felicidade, parecia que tinha boas notícias para si, então ele simplesmente fazia questão de focar nisso, ao invés de outros pensamentos menos agradáveis.
Ele foi na recepcionista, perguntando sobre o médico, porém a pobre overlander não conseguia responder, sua aura escura era o suficiente para que pudesse impedir a mulher de falar qualquer informação, com medo que sua resposta despertasse sobre si a ira que sentia emanar do ouriço, suas mãos tremulas escreviam rapidamente em um papel, fazendo com que as linhas saíssem tortas e tremidas, estendeu o papel para ele, seus olhos pareciam prestes a derramar lágrimas de medos, como se naquele momento estivesse diante de um ceifador prestes a lhe tirar a vida em nenhuma piedade.
Shadow suspirou enquanto pegava o pedaço de papel e se afastava. Odiava quanto ele queria ser mais ‘gentil’, mas sua aura de estresse simplesmente fazia com que todas suas tentativas fossem frustradas, principalmente porque a garota não sabia que ele não iria fazer nada para si e nem para qualquer pessoa ali. Simplesmente a aura que emanava de si era inconstante, ele não podia controlar quanto se estava estressado e irritado.
Nenhum deles carregavam a culpa.
Leu o bilhete com presa, não era nada mais que um recado para que fosse à sala dele assim que chegasse, que o estaria esperando para conversarem.
Bem, não era tão complicado de dizer algo assim, principalmente porque era previsível, mas ele sabia o efeito que causava nas pessoas, sabia que mesmo que fosse uma resposta que ele esperava, ela tinha medo de que ele se irritasse com ela.
Bem, que seja. O trabalho foi cumprido, não tinha mais o que fazer ali, então seguiu para o corredor que decorou nos dois dias que esteve ali, de qualquer forma, era quase impossível se perder ali, era um caminho simples e em linha reta, mais para frente tinha um corredor que cortava, com outros consultórios e salas.
Bateu na porta de madeira assim que alcançou a sala, fez seu possível para que pudesse se acalmar, no entanto seria que sua aura não reduzia em potência, bem parecia que o médico teria problemas.
Ouviu um “entre” baixo, ele parecia distraído com algo que ele não sabia o que era. Abriu a porta com cuidado e entrou sem mais cerimonias, sabendo que em breve teria um pequeno show para assistir quando o médico se desse conta do que estava acontecendo.
Os olhos azuis se levantaram da prancheta que estava analisando com atenção, encarando Shadow sentado em sua frente, os olhos vermelhos opacos e vazios, a expressão fria e uma aura assassina ao seu redor, tornando quase impossível com que voltasse a se concentrar.
Ele engoliu em seco, assim que a noção de tal poder chegou a tocar sua pele, arrepiando suas penas ocultas pela blusa de lã escura e quente. De repente, ele se via em uma perda de palavras, onde ele nem ao menos conseguia articular palavras para conseguir dizer qualquer coisa, qualquer coisa mesmo.
— D-desculpe s-se a-atrapalhe-ei — Seu pedido de desculpas saiu com dificuldade, sua voz tremula. De repente o homem à sua frente parecia uma criança, diminuído diante de seu imenso e esmagador poder.
Shadow deu de ombros, um meio sorriso contorcendo o canto esquerdo de seus lábios, os olhos vermelhos ainda eram sem vidas, mas a cena à sua frente parecia um show interessante para ser assistido. Apesar de que ele sabia que isso renderia um tapa de Sonic se ele estivesse ali lhe assistindo.
— O O s-senho-or de-deseja um um cal-calmante? — Dr. Quack arriscou, suas mais cobertas por luvas tremiam ainda segurando a prancheta com força, como se ele precisasse de algo que pudesse se segurar.
Shadow deu de ombros novamente, não seria má ideia afinal. Ele nunca precisou de medicamentos para se acalmar, mas, naquele momento parecia algo que seria inevitável, dado a situação de que ele posteriormente exigiria ver Sonic, ele não queria ver impedido de vê-lo, não queria ficar sem sua presença tranquilizante, mesmo que ele estivesse preso em um coma imprevisível. Ele suspeitava que o médico não permitiria, ele sabia o que poderia estar passando pela mente dele.
Mas ele era incapaz de ferir Sonic, mesmo que sua aura e sua presença dissesse o contrário, mas o médico teria razão em o impedir, ele sabia muito bem o pareceria para outras pessoas, ele mesmo faria a mesma coisa se estivesse na pele dele. Não podia julgar o médico por algo tão claro e instintivo.
O medo sempre foi o meio pelo qual o respeitavam, até mesmo o Comandante tinha medo dele, apesar de tentar não transparecer, era uma das razões pela qual ele conseguiu a permissão para sair do trabalho e ir ali em primeiro lugar, apesar de Abraham não entender porque Shadow tinha tomado aquela responsabilidade para si, não era ele que iria reclamar, pelo menos ele não teve que tomar esse peso para a G.U.N, apesar de estar genuinamente surpreso por Shadow não só tomar a responsabilidade pelas despesas como o visitar sempre.
Bem, tanto fazia para si, não tinha responsabilidades para com Sonic, eles que se resolvessem, no entanto, ele fez questão de exigir de Shadow para que sempre lhe notificasse sempre que algo acontecer, já que ele tomou a tarefa em suas mãos sem o seu consentimento.
Não como se o ouriço fosse obrigado a pedir permissão sempre que fosse fazer algo, Abraham sabia que ele não era sua propriedade, não havia contratos ou provas que dissesse isso, mas ele gostava de como isso parecia irritar Shadow, constantemente deixando claro de que ele não era um ser vivo livre, ela uma experiência de laboratório e ele deixou bem claro que o trataria como tal.
A verdade era que Abraham odiava Shadow por ter conquistado lugar no círculo limitado de amigos de Maria, odiava o ouriço por ser perfeitamente incapaz de adquirir ou passar doenças, odiava-o por ser a companhia perfeita, projetado perfeitamente para que pudesse interagir sem problemas com a garota doente enquanto ele era obrigado a manter distância dela, sendo proibido pelo avô dela de se aproximar porque poderia fazer com que ela piorasse de estado.
Maria sempre foi frágil pelo que se lembrava dela, sempre pálida, magra demais, os cabelos loiros eram quase sem brilho, os olhos azuis só adquiriam algum brilho quando conseguiu uma companhia incapaz de lhe fazer mal, criada especialmente para ela pelo seu avô. Sua roupa era larga e costurada de modo para que não transparecesse o estado crítico de seu corpo, passando a falsa alusão de possuir seios e uma cintura com curvas suaves.
Odiava que Shadow parecesse ser superior a si mesmo, tendo sido mimado por seus pais e crescido com a alusão de que ele era melhor e mais perfeitos dos garotos, que ele poderia ter tudo o quisesse e sempre que quisesse. Seu pensamento mudou conforme o tempo passava e ingressou no exército, porém seu ódio continuava o mesmo, senão mais potente. Principalmente depois de o mesmo ter despertado.
O médico sussurrou um pedido de desculpas antes de sair correndo da sala, praticamente desesperado para sair de perto de sua presença, ação que não tinha surpreendido em nada o ouriço que parecia tão acostumado com reações assim que não fazia diferença nenhuma.
Não demorou muito e ele estava de volta, uma seringa em mãos com os olhos em pedido de desculpas, Shadow pouco se importava no entanto.
Apesar das mãos tremulas segurando o objeto não parecerem capazes de inserir a seringa com precisão, foi com imensa surpresa que Shadow notou que ele era controlado o suficiente para afastar seu próprio medo para medicar alguém.
Ele ignorou a sensação da agulha perfurando sua pele, ignorou o modo como a respiração dele parecia irregular, travando várias vezes, como se estivesse com medo de respirar perto dele, como se estivesse morrendo de medo de estar ali, como se sua vida pudesse desaparecer em questão de segundos caso cometesse um erro.
Em toda vida ele nunca imaginou que poderia sentir o medo crescente de estar diante da morte. Como se cada detalhe pudesse decidir se ele permaneceria vivo ou não, cada erro poderia ser fatal.
No entanto, ele esperava que o ouriço diante de si não faria isso. Ele realmente esperava que não.
Suspirou com alivio enquanto retirava a seringa agora vazia, como se fosse instantâneo, a aura de morte reduziu consideravelmente, enquanto o ouriço negro abria os olhos calmamente, apesar de sua expressão ter permanecido intacta. Sua máscara perfeitamente posta, mais fácil de controlar agora que o efeito do calmamente parecia estar fazendo efeito rápido demais pela sua corrente sanguínea.
— Você disse que tinha algo para falar comigo — começou Shadow, seu tom de voz frio, os olhos vermelhos ainda mortos, quase como desesperançados — estou aqui. — Cruzou os braços no peito, olhando para o médico que estava se recuperando sentado em sua cadeira, o olhar desafiador fazendo um contraste com olhos opacos.
— Bem, eu — ele pigarreou tentando controlar a voz — eu tinha acabado de chegar para o meu turno quando lhe liguei, o médico responsável pelo caso de Sonic pela noite tinha me avisado que o quadro dele teve uma considerável melhora, mas que ainda precisa passar mais algum tempo na terapia intensiva para garantia, mas pelos exames que foram feitos, dá para notar uma considerável melhora, tanto fisicamente quanto na recuperação das fraturas internas. — Concluiu, voltou a pegar a prancheta, olhando para a lista de exames em suas mãos.
— Eu quero vê-lo. — Disse firme, em uma ordem. Instantaneamente se arrependendo por sua ação impulsa.
Apesar de estar sentindo os efeitos claros do calmamente em seu sangue, ainda assim precisava o seu calmamente pessoal, precisava da presença dele, tocar sua mão, ver seu rosto. Estar em sua companhia, mesmo que em silêncio com o som do monitor cardíaco como claro sinal de que ele estava vivo, parecia mais do que o suficiente para que todo seu estresse fosse esquecido.
Mas, o médico não parecia ter tanta certeza disso.
— Sr. Hedgehog, eu não sei é uma boa ideia, mesmo com o calmamente, o senhor parece alterado-
Ele teria falado mais alguma coisa que não tivesse engasgado com suas palavras, seus olhos ampliaram enquanto suas pupilas diminuíam de tamanho. Shadow tinha se levantado de seu lugar, sua presença mais forte e perigosa, porém ele não faria nada contra o médico, só queria lhe impor medo.
— Eu quero vê-lo. — Repetiu, sua voz saindo baixa, tranquila, mas era bem claro o tom de ameaça.
— Claro! Imediatamente. — Ele se levantou, o pedindo para o seguir com um gesto rápido de mãos, quanto mais rápido estivesse longe de sua presença esmagadora, melhor.
Ele não contestou, não falou nada durante o processo, porém antes que Shadow entrasse no quarto, ele pediu, ou melhor, implorou para que ele não descontasse no paciente seja qual for seu problema, seus olhos azuis carregados medo pelo ouriço desacordado, nunca tendo coragem de espiar o que Shadow fazia na sala, por medo. Ele não queria ser aquela imagem novamente, repetir a experiência não estava em seus planos.
Porém o médico não precisava saber que Shadow nada faria contra Sonic.
Ele não podia sequer pensar em prejudicar a sua cura.

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