Lost Memory.
7 7. Fio de esperança.
Notas iniciais
O dia começou com um arrastar lento, como se o tempo estivesse brincando com sua ansiedade cada vez mais crescente.
Despertou com a claridade machucando seus olhos, surpreso que tenha acabado por dormir, mesmo que sua última memória fosse de uma conversa com Tails. Seus olhos percorreram a sala, embora estivesse vazia e silenciosa, seus ouvidos não conseguiam pegar nenhum som, parecia que o garoto estivesse finalmente dormindo profundamente, embora suspeitasse que pela quantidade de café ingerida, ele teve ter tido problemas com isso.
Fez uma nota mental de manter um olho nele, sabia o quanto Tails queria transparecer independência, porém mesmo assim acabava por se focar demais em seus projetos e esquecer completamente o que acontecia ao redor, pulando refeições e desmaiando de exaustão em sua mesa de projeto.
Era a teimosia do garoto que fazia com que Sonic se preocupasse com ele todo o tempo, afinal. Dava para ver pela expressão do ouriço que ele tentava e fazia tudo que estava ao seu alcance para que o garoto não tivesse sua saúde sabotada por sua própria falta de noção.
Suspirou enquanto removia o cobertor fino que tinha por cima de si, sabendo muito bem de quem aquela peça de tecido leve era, seu aroma estava impregnado e ele conseguia o sentir sem fazer quaisquer esforços. Seu coração se apertou com a dor.
Era como se corpo doesse com toda a sensação de imponência de se seguia, todo o peso de não ter sido rápido o suficiente, era como se a cena da ARK estivesse repetindo, porém dessa vez não tinha uma camada de vidro inquebrável o impedindo de fazer algo contra o ato do destino, não tinha um impedimento, algo que pudesse usar para tentar justificar sua falta de ação, era quase como se estivesse paralisado, congelado em seu lugar enquanto via a cena transcorrer diante de seus olhos.
A cena passava e repassava pela sua mente inúmeras vezes, corroendo sua mente e ferindo seu sentimental, era como se sua mente quisesse jogar em sua cara que sempre seria incapaz de salvar qualquer pessoa que ame, como se estivesse fadado a sempre perder tudo quando finalmente estava conseguindo encontrar o seu lugar.
Ela uma sensação dolorosa, muitas vezes ele queria simplesmente esquecer que era imortal, que viveria mais do que qualquer outro mobian normal, Sonic muitas vezes o fazia se esquecer de que um dia a velhice chegaria e o tiraria de si.
Ele tinha se acostumado a ser masoquista.
Aproveitando cada mínimo espaço de tempo que tinham, como se aquele fosse o último que teriam, ele acreditava que poderia lidar com a dor, sabendo que ele não tinha desperdiçado um momento sequer.
Mas ele não estava preparado para que esse momento chegasse tão breve, ele não conseguia lidar com sua mente voltando sempre com pensamentos de perda, era quase como se já estivesse dando Sonic como morto.
E se amaldiçoou por isso.
Sonic não estava na mesma situação de Maria, ele não tinha levado um tiro mortal e sangrado até a morte. Ele estava em um hospital recebendo todo o tipo de cuidado possível pelos médicos, ele tinha que ter confiança.
Mas não ajudava em nada que já tivesse presenciado a morte de alguém amado antes.
Se levantou da poltrona, correndo os olhos pelo lugar, procurando papel e caneta, algo com que pudesse escrever uma nota, mesmo que breve.
Foi a cozinha, precisava se acalmar de alguma forma, ele não poderia aparecer no hospital com a cara de velório que estava. Ele tinha que acreditar que Sonic melhoraria, tinha que confiar na capacidade dele, na força de vontade dele, na teimosia dele se deixar entregar seja qual for o desafio.
~
Estava sentado de novo naquela sala de espera, com a expressão usualmente sem emoção, seus olhos vermelhos eram intimidadores, qualquer um que olhava para sua figura se arrependia e recuava no mesmo instante. Mesmo que muitos deles estivessem curiosos com a razão pela qual ele, Shadow the Hedgehog, estaria ali no hospital sentado na sala de espera.
Demorou bastante tempo até que ele visse o médico entrar, apressado e o principal, atrasado.
Ele não podia culpa-lo afinal, desde que ele havia ficado mais do que deveria, ultrapassado o tempo estipulado de seu turno, tudo porque tomou para si a carga de se responsabilizar por Sonic.
Viu a mancha amarela desaparecer pelos corredores indo para algum lugar que o ouriço desconhecia e não estava interessado em saber, mesmo que estivesse já ficando impaciente e segurasse o impulso de bater os pés do chão.
Conviver com um ouriço impaciente e enérgico fazia com que alguns hábitos irritantes fossem inconscientemente adquiridos. Para seu desgosto.
— Desculpe. — A voz veio atrás de si, uma voz baixa, infantil como de uma criança.
Ele virou para trás, encontrando os olhos castanhos da garotinha overlander que estava sentada, uma perna engessada enquanto parecia esperar atendimento, sua mãe pelo que parecia estava na recepção, acertando os detalhes da consulta de sua filha. A garotinha parecia sentir dor, ao mesmo tempo em que tentava mesmo que fracamente manter um sorriso.
Ele não falou nada, embora tivesse a encarado por alguns segundos, porém tempo o suficiente para a garota corar.
— Eu não acredito que eu te vi pessoalmente. — A voz dela era alegre, apesar de sua condição, suas mãos se remexiam inquietas em seu colo. — Eu não acredito... — Ela murmurou, parecia ter ganhado o dia apesar de tudo.
Ele ignorou a garota, embora soubesse o que ele faria.
Ele claramente se agacharia na altura dela, colocaria sua mão na cabeça dela e sorriria para ela, puxaria assunto, brincaria ou faria piada com algo bobo, sempre alegre. Parecia que nada lhe afetaria.
Porém, ele não poderia fazer algo semelhante, era mais fácil a garota se assustar com sua ação do que ao contrário, então preferiu apenas mostrar que tinha notado sua presença, apesar de que sua reação por si já tinha a deixado feliz.
Não parecia mal afinal. Sinceramente esperava que ela estivesse assustada de lhe ver pessoalmente, não contrário. De todas as coisas que tinham acontecido consigo, encontrar uma fã não era uma que ele esperava. Mesmo sabendo que tanto ele quanto Sonic eram bastante conhecidos, ele esperava que os fãs fossem só para ele. Ele não merecia tal.
Viu o médico se aproximando de si, o jaleco colocado às pressas estava torto, expondo a camisa caqui abarrotada, embora ainda estivesse com uma aparência bem arrumado, era claro ver que estava exausto e levemente cansado, sua expressão demonstrava isso enquanto se aproximava, a respiração ainda saindo em ofegos.
— Senhor Hedgehog, perdoe-me a demora. — Ele se aproximou rapidamente do ouriço que observava sua aproximação sem disfarçar, deixando óbvio que o estava esperando. — Espero não tê-lo deixado esperando por muito tempo. — Ele disse, cordial.
Sua resposta foi apenas um dar de ombros. Para falar a verdade ele tinha esperado durante grande parte da manhã, sua presença desconfortando grande parte do corpo de funcionários, pacientes e acompanhantes, que preferiam manter uma distância segura dele.
Ele não se importava com isso, acostumado com todas essas reações instintivas. Era natural que todos os temessem e quisessem manter distância, ele mesmo colaborava para reações desse tipo, mantendo sempre sua expressão hostil em sua face.
Ele e Sonic eram diferentes em muitos quesitos, principalmente no tipo de impressão que causavam na primeira vista. Ele teve ciência que enquanto ele buscava afastar, o ouriço azul aproximava, talvez seja por suas personalidades serem tão opostas que fez com que Sonic buscasse lhe conhecer melhor do que qualquer pessoa.
Acabou por conhecer muito mais do que o esperado.
— Acompanha-me por gentileza. — O médico pediu, enquanto seguiam pelo mesmo corretor do dia anterior, o ouriço não estava animado para olhar ao redor e encontrar todos os olhares curiosos e temerosos que tinham pelo recinto. Não tinha vontade de retribuir quaisquer encaradas ou olhares diversos em sua direção.
Estar em um ambiente hospitalar lhe dava uma sensação estranha, quase como se estivesse de volta aos laboratórios da ARK, caminhando de corredor em corredor para diversas salas de testes.
Tentou esquecer a sensação nostálgica desagradável, mesmo que o ambiente lhe trouxesse memórias sensoriais que preferiria esquecer e nunca as reviver.
O médico lhe guiou até sua sala, onde se pediu para esperar antes de sair para buscar os resultados dos exames.
Esperar não era necessariamente um problema agora, desde que ele não tinha mais nenhum olhar sobre si e já estava fazendo isso desde a manhã, era apenas mais algum tempo adicional, sabendo muito bem que seu sangue não poderia causar nenhum mal para Sonic.
E nem para nenhum ser vivo da terra.
Afinal, qual outra razão de estar ali afinal? Arma viva?
Não, isso era apenas um adicional de seu sangue poderoso, ele não nega que é poderoso, porém seu objetivo principal de criação sempre foi para servir de cura para a neta doente de seu criador, talvez até seria descartado depois que não tivesse mais utilidade, tal como descartavam e induziram Biolizard em um sono profundo.
Ele sabia que enquanto tinha utilidade, sua vida não era tão descartável. Ele tinha utilidade para a GUN, tinha utilidade para deter os planos de Dr. Eggman, apesar de desconfortável de ter que lutar contra sangue de seu criador, ele não podia simplesmente deixar com que ele fizesse o que quisesse, ele tinha uma promessa a cumprir, ele nunca decepcionaria Maria, mesmo que atualmente ela não respirasse mais.
Ele sempre foi fiel as suas promessas.
Porém, ele não sabia o que esperar do seu material genético. Ele nunca antes teve a chance de experimentação em outro ser vivo, Gerald estava mais concentrado em controlar seu imenso poder primeiro, temendo que poderia causar riscos a todos, mas eles não tiveram a oportunidade para descobrir como outros seres reagiriam ao seu sangue, não sabia o que esperar de efeito colateral, não sabia como lidar caso isso causasse alguma anormalidade em Sonic.
Ele não conseguiria viver caso ele fosse o responsável por Sonic acabar se tornando uma aberração por sua culpa, ter sugerido doar seu sangue, mesmo desconhecendo o que poderia acontecer, mesmo com medo de que ele acabe piorando.
Mas, das opções. Essa era a única que ele conseguiria pensar, tomado pelo imenso medo de perde-lo, ele não queria ficar sozinho novamente, seu medo fazendo com que seu egoísmo falasse mais alto.
Ele queria se entregar ao egoísmo, se a vida queria lhe obrigar a escolher entre deixa-lo morrer e ser egoísta, ele escolheu a segunda opção, mesmo que isso fizesse com que Sonic lhe odiasse.
Ele tentaria se redimir com ele, imploraria seu perdão de joelhos se fosse possível, lhe deixaria seguir sua vida sem ele, se assim quisesse. Mas, mesmo que ele ficasse irritado, ele estaria vivo.
Isso foi o suficiente para lhe encher de determinação. Determinação em lidar com qualquer efeito colateral, sabendo que isso nada mais é merecido como castigo por seu egoísmo.
Um fio de esperança cresceu dentro de si. Uma pequena mínima luz em meio a escuridão.
Ele não era conhecido como o Ultimate Lifeform atoa, alguma coisa ele poderia ser capaz de fazer, mesmo que seja doar seu sangue. Esperava que pelo menos a taxa regenerativa de Sonic melhorasse, esperava que para algo seu sangue poderia servir.
Senão todo o trabalho de sua criação teria sido completamente em vão.
O médico passou pela porta com um envelope pardo em mãos, onde podia ver etiquetas endereçadas à ele, como sendo o médico responsável.
Ele sentou em sua cadeira, abrindo o envelope e retirando as folhas de oficio, onde ele começou as ler com concentração, seus olhos azuis se estreitando para depois alargar de surpresa.
— Bem, parece que os testes deram bastante positivo. — Ele murmurou, enquanto parecia surpreso. — Compatibilidade assim é bastante raro, dado as diferenças de cada organismo, seus anticorpos e hormônios. — Ele disse, sua testa se vincando. — Talvez seja pela quantidade de Chaos que ambos tem que tornou o seu sangue mais aceito, mas ainda assim... — Ele murmurou distraído. Shadow já estava impaciente.
— Termine logo com isso. — Foi a única coisa que disse.
Sua expressão não demonstrava o alivio que sentia interiormente, sentindo-se mais tranquilo com o fato de que o exame denunciava que pelo menos rejeição ao seu sangue Sonic não teria.
Mas ele tinha suas dúvidas se ele mesmo não seria rejeitado.
— C-Claro, me desculpe. — Pediu, antes de se levantar às pressas. Enquanto ambos iriam para a sala de coleta sanguínea.
Shadow se sentia inquieto, nervoso, embora claramente ele não se dava ao luxo de demonstrar tão fácil, sua máscara de indiferença e hostilidade pesava sobre seus ombros, lhe estressada fingir que não se importava quando da verdade ele queria apenas envolver seus braços sobre Sonic e o puxar de encontro ao seu peito. Tranquilizando seus medos e afastando seus fantasmas.
Mas por enquanto ele tinha que se controlar, se esforçar por ele.
Mesmo que o futuro recaísse incerto.
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