Lost Memory.
5 5. Sem você.
Notas iniciais
— Então... — começou o médico calmamente, embora estivesse curioso com o fato de que justo aquele ouriço parecia tão insistente em permanecer no recinto, como se estivesse preocupado e desesperado. Algo para si não parecia certo — o que gostaria de acrescentar?
— Você disse que se ele não receber a transfusão de sangue, tem riscos de não conseguir aguentar, estou certo? — Começou lentamente, sua voz soando rouca, o pensamento de que Sonic realmente pudesse não resistir ao que lhe acontecerá perfurando sua mente fazendo com que a culpa e o medo lhe invadissem.
— Sim...? — O médico pato mobian respondeu lentamente, erguendo o olhar fazendo com que o aglomerado de pequenas penas acima de seus olhos se erguesse como uma espécie de sobrancelha. Sua expressão implicava que ele estava esperando a conclusão do ‘pensamento’ do ouriço.
— Eu posso doar o meu. — Respondeu simplesmente, seu tom de voz sério, quase sem nenhuma emoção que o médico pudesse identificar com facilidade.
Os olhos azuis do médico esquadrinharam a expressão do ouriço, minunciosamente várias vezes, era em momento como esse que ele se arrependia de não ter cursado psicologia. Mas notou coisas simples até para seu status de clinico geral.
Ferimentos, manchas de sujeira onde ainda tinha sinais de sangue, mesmo que a ferida estivesse já curada. As olheiras escuras abaixo dos olhos vermelhos ardentes, o modo como se mexia desconfortável, por vezes até sua respiração soava cansada. Cometeu o erro de encarar o ouriço e se arrependeu por isso, seu olhar era ameaçador, apesar de sua preocupação de médico, ele sabia que Shadow era tudo, menos fraco.
— Não acha que poderia não estar em total condição de algo assim? — Expos seu pensamento com certo temor de um ataque de raiva do ouriço. — Até onde eu estou informado, houve uma batalha recente. Não acho prudente como médico que alguém que acabou de sair de algo tão exaustivo possa doar sangue. — Entrelaçou os dedos, olhando para Shadow com o olhar da experiência.
— Você não entende! — Rosnou, sua voz saindo claramente mais ameaçadora agora, seus olhos cintilando de raiva. — Eu não me importo com o pode acontecer, vou ficar tonto, não é? — Perguntou asperamente. — Eu tenho fator de cura e uma recuperação rápida, posso recuperar o sangue perdido em tão ponto tempo quanto você tem para falar essas asneiras. — Cruzou os braços, desafiando o médico a desafiá-lo.
Horácio suspirou, seu turno já havia terminado tinha algumas horas, porém com a comoção da chegada de Sonic ao hospital, não teve alternativa a não ser aceitar a função de ser o médico responsável até que o do turno seguinte chegasse para substitui-lo. Estava visivelmente cansado e estressado, não ajudava em nada que ele tivesse que lidar com o ouriço, sendo talvez o mais corajoso da equipe médica toda do hospital.
Recostou-se pesadamente em seu acento, olhando para Shadow com desconfiança, temor e por fim, resignação.
— Com uma condição. — Cedeu por fim, depois de pesar todos os pós e contras, seu rosto em uma máscara de seriedade.
— Que seria? — Perguntou com a voz séria, não se permitindo a demonstrar o fio de esperança que sentia florescendo em seu peito.
— Antes de qualquer coisa, precisamos fazer um exame de compatibilidade sanguínea. — Ele viu Shadow revirar os olhos. — Primeiramente, Sr. Hedgehog — começou asperamente, se sentindo ofendido pela ação do ouriço —, o senhor pode estar seguro do que está dizendo, até mais do que poderíamos chamar de seguro, porém o hospital tem regras e normas que o senhor como todo responsável ou paciente tem que acatar, querendo ou não.
Shadow lhe deu um olhar frio ao ouvir o médico, assentiu levemente com cabeça, sem se deixar abater pela demonstração de irritação.
— Quando tempo vai demorar? — Perguntou.
— Amanhã de manhã já terei o resultado do exame. — Respondeu se recostado a cadeira, sua pose mais relaxada quando sentiu que Shadow estava cooperando.
— Isso é muito tempo! — Protestou com um rosnado.
— Tem uma ideia melhor? — Rebateu o médico, olhando para o ouriço com aquela mesma expressão cansada de quem teve um dia longo.
— ... — O grunhido de raiva do ouriço foi a resposta que o médico esperava, apesar da hostilidade dele.
— Depois do exame, assim que tivermos certeza de que não terá nenhum imprevisto ou rejeição, Sr. Hedgehog, poderíamos permitir que faça a sua doação. — Continuou calmamente ignorando a expressão o ouriço. — Enquanto espera os exames, sugiro que volte para casa, se alimente-
— Não preciso comer comida. — Interrompeu olhando para o médico de forma superior.
— ... e durma em média 8 horas. — Continuou ignorando o ouriço. — Estamos entendidos?
— Que seja. — Deu de ombros. — Vamos logo. — Disse seriamente se levantando da cadeira que tinha sentado para a conversa.
— Sabe, Sr. Hedgehog, em todos esses anos, nunca pensei que presenciaria tantas emoções em um curto período de tempo vindo do senhor. — Comentou sinceramente, olhando para o ouriço de forma amigável, decidindo deixar de lado o medo e receio que sentia sobre Shadow, tratando-o pela primeira vez como qualquer mobian normal que tenha convivido. — É compreensível, são próximos, lutam juntos. — Deu um sorriso sincero, olhando para o ouriço de uma forma mais tranquila.
Se levantou de sua cadeira, andando para a porta, sendo seguido por Shadow que estava já de pé, os dois andaram pelos corredores. Shadow tentava a todo custo controlar seus sentimentos e pensamentos, para que o negativismo não invadisse sua mente, olhando para as paredes brancas buscando qualquer tipo de distração, embora em vão. Por fim fixou seu olhar nas costas do médico.
Havia tantos sentimentos que ele quase expôs naquele pequeno consultório que ele chegava a sentir vergonha de si mesmo. Ele, Shadow the Hedgehog, tão temido por seus inimigos, à beira de falhar em seu autocontrole tão antes impecável, sempre sendo visto por todos com sua expressão impecavelmente vazia e seus olhos vermelhos frios.
“O que há de errado comigo?” Perguntou internamente, olhando por fim para suas mãos, já cansado de encarar as costas do médico. “Posso estar com defeito? Um projeto falhado?” Se questionou, mas então a visão o sorriso dele invadiu sua mente, como os olhos verdes brilhavam com uma alegria infantil sempre algo o satisfazia.
Seus pensamentos giravam em torno do ouriço azul, como ele sempre parecia vivo e alegre, a forma como seus lábios se curvavam em um sorriso zombeteiro sempre que estragava o mais novo plano de Dr. Eggman. A forma como sempre suportava todos os ferimentos e machucados com uma valentia invejável, como se não fosse nada.
Admirava a forma como ele fazia um dia ruim parecer apenas uma breve lembrança, como ele alegrava seu dia com sorrisos agraciados e pequenos toques, seus braços pêssegos envoltos em volta de seu pescoço enquanto suas mãos apertavam a cintura cobalto com força.
Fechou brevemente os olhos com força, tentando reprimir as lágrimas que ameaçavam surgir em sua face, tentava a todo custo ignorar a sensação desesperadora de gritar ou exprimir toda sua dor diante aqueles seres. Sentia a auto aversão por não ter sido rápido o suficiente para o proteger, era sua culpa, não havia nada que lhe dizia o contrário.
Ambos tinham parado de andar, diante deles havia a porta com uma placa manchada onde nem mesmo seus olhos conseguiam identificar o que estava escrito. Horácio estendeu a mão a abriu a sala, onde se podia ver cadeiras especiais para a coleta de doações de sangue, ele caminhou até o fundo, onde uma enfermeira com expressão entediada lia uma revista sem muito interesse.
— Lina? — Chamou, ela baixou a revista, fixando seus olhos caramelos nos azuis do médico.
Era uma esquila bege, jovem, devia estar trabalhando no hospital não tem pouco tempo. Tinha feições delicadas e um corpo magro quase sem curvas.
— Sim, Dr. Quack, o que deseja? — Deu-lhe um sorriso gentil, porém parecia levemente surpresa e desconfortável pela companhia.
— Preciso que faça a retirada de sangue dele. — Disse enquanto apontava para o polegar para o ouriço, que a encarava com a cabeça erguida e os braços cruzados, com expressão de desgosto.
— S-Sim! — Se levantou de pronto, esquecendo a revista que lia na cadeira e dando um sorriso prestativo para o ouriço, que apenas ignorava a tentativa da esquila de ser amigável.
— Apenas ande logo com isso. — Resmungou com mau-humor. A esquila porém tampouco se deixou abalar.
Ela apontou uma cadeira para o ouriço se sentar enquanto buscava entre as gavetas na sala todo o material que precisava, agulha, seringa a vácuo, pequenos recipientes para a coleta, luvas, algodão, álcool e a tira de silicone.
Seus dedos tremiam enquanto realizava a tarefa, a aura que irradiava do ouriço a vazia temer sua vida enquanto se concentrava ao máximo em sua tarefa, tentando ignorar o fato que:
Primeiro, não era um paciente comum que estava diante dela, e, segundo, ela estava morrendo de medo do ouriço.
Shadow parecia satisfeito que havia causado o efeito desejado na esquila, embora tinha que admitir que, mesmo que o médico tinha parecido excepcionalmente corajoso, ele também tinha medo dele. Algo que ele já estava acostumado e não se importava, já que ele preferia que sentissem medo do que o tratassem como o fraco desolado que se sentia.
“Eu preciso de você.” Sua mente exprimiu as palavras que ele nunca seria capaz de proferir em voz alta diante aquelas mobians que estavam na sala. Seu olhar era vago, até mesmo consideravelmente cansado, o que não era incomum considerado todo o tumulto que havia ocorrido mais cedo, as horas de espera, o cansaço da batalha.
— Quantos? — Perguntou a esquila prestativa enquanto prendia a tira de silicone acima da dobra do braço de Shadow.
— Um, só. — Respondeu o médico se acomodando em uma das cadeiras, sua voz parecia distraída, embora estivesse prestando demasiada atenção no ouriço e nas expressões que fazia. Sentindo-se frustrado quando ele quase não demonstrava nenhuma reação ao que falavam.
“Eu estou tão desesperado só para ver seu rosto.” Seus pensamentos corriam sem que ele pudesse controla-los, porém tomava todo o cuidado para nada transparecesse, apesar de tudo que sentia. Mal deu importância quando a agulha perfurou sua pele. Quantas vezes antes sua pele foi perfurada por agulhas?
E quantas vezes ele pensou que estava fadado a viver sua vida sozinho por ser quem era? Foi quando viu que todos seus pensamentos amargos não eram total verdade. Ele encontrou alguém em um lugar quebrado, destruído, pútrido, ele poderia ter sentido nojo de si no momento em que o avistou com a arma de tinha apanhado de um soldado morto na mão, porém não.
Ele apenas lhe sorriu. O mais puro e alegre sorriso que alguém poderia dar em uma situação como aquela.
Foi quando ele pensou pela primeira vez no ouriço, por que ele de todas as pessoas sorriria em uma situação como aquela?
Para ele. Apenas para ele.
— Pronto! — Ouviu a enfermeira dizer com um sorriso que ele mal registrou.
Ele olhou para ela com a expressão vazia e assentiu uma vez, levantou-se com tanta calma que não parecia o ouriço em pedaços que sentia que era, era quase como se estivesse entorpecido. Como se nada pudesse mais o importar. Como se nada fosse interessante para ele.
O médico já estava indo para porta quando levantou, o seguiu sendo que ele tinha o pequeno vidro com seu sangue, olhou para aquele objeto com nojo, mas sua decisão já havia sido tomada, mesmo que Sonic o odiasse depois.
O seguiu como sua sombra, sua expressão vazia que parecia que era incapaz de sentir qualquer coisa que fosse, o viu seguir por outro correr, subindo um lance de escadas enquanto passava por outros enfermeiros, médicos e pacientes overlanders e mobians, os cumprimentando enquanto olhavam estranho para o ouriço com expressões de confusão, raiva, medo e nojo.
Seguiram pelo que pareceram horas para Shadow, o tempo parecia ter perdido o sentido enquanto seguiam, seus pensamentos sempre voltando para a expressão de felicidade de Sonic, seus sorrisos e quando fazia suas piadas estupidas.
Pararam em frente a uma porta, onde o médico explicava as instruções para um overlander em uma porta onde tinha uma placa escrito “laboratório”.
A conversa não era interessante para si, mas não podia evitar de ouvi-la. Horácio pedia para que o overlander de pele morena e meia idade para que usasse a amostra que ainda tinham de Sonic para verificar a compatibilidade com o sangue que ele retirou de Shadow, para que, com sorte realizassem o processo de coleta de sangue na manhã seguinte, o overlander assentia a informação.
Shadow olhava curioso para o overlander, era mais baixo que o padrão overlander que ele conhecia, de pele morena e enrugada. E não parecia agressivo ou com revolta de estar recebendo ordens de um mobian, curioso para si para dizer o mínimo.
— Conto com você, Nate Morgan. — Foi o que ouviu do médico como uma despedida.
— Obrigado Dr. Horácio Quack. — O overlander estava sorrindo para ele, como se fossem grandes amigos.
Se despediram um aceno enquanto andavam de volta para o andar de baixo, Shadow em silêncio o tempo todo.
“Eu sou nada sem você comigo.” Suspirou audivelmente com esse pensamento.
— Quero vê-lo. — Expressou seus pensamentos para o médico.
Ele esperou enquanto o médico virava para ele com surpresa e cautela.
— Não podemos permitir visitas ainda. — Se desculpou enquanto olhava o ouriço com certo medo.
— Eu quero vê-lo. — Disse novamente com mais ênfase, como se não se importasse com as regras.
O médico suspirou com a teimosia do ouriço, cedendo depois de alguns minutos de hesitação.
— Você tem 15 minutos, não posso permitir mais do que isso. — Disse com seriedade, olhando para o ouriço com certa raiva por se sentir pressionado a isso. — Siga-me.
Mudou o curso de sua caminhada, visando os elevadores, entraram em um que acabará de ser esvaziado por pacientes, integrantes do hospital e visitantes, a diferença entre um e outro estava nos crachás que carregavam. Ambos entraram no elevador, Shadow silencioso como sempre, olhando para todos lugares com indiferença, embora sua mente sua nunca abandonava as variadas imagens sorridentes do ouriço azul.
O elevador se abriu, revelando um corredor mais movimentado que o anterior, médicos transitavam com mais frequência, enfermeiras passavam de um lado e outro enquanto empurravam carrinhos com medicamentos, alimentos e até mesmo utensílios cirúrgicos. Alguns que passavam meneavam a cabeça em cumprimento ao médico enquanto ignoravam a presença do ouriço, não interessados no que ele vinha fazer ali.
O corredor parecia maior que o anterior, cheio de quartos com placas contendo números, alguns com enfeites com nomes de bebês recém nascidos, outros vazios com suas portas abertas. O tempo naquele ambiente fazia seu nariz se incomodar com o cheio de álcool e produtos de limpeza. O ambiente parecia frio, talvez fosse algo psicológico ou ali estava mesmo mais frio, não sabia dizer e não se importou com aquilo.
Chegaram na parte mais distante, virando em outro corredor, onde as portas carregavam placas com a sigla UTI e números que as diferenciassem.
— Chegamos a ala da UTI. — Disse o médico com calma. — Unidade de Tratamento Intensivo. —Explicou a sigla, embora Shadow não parecia com intenção de perguntar o que seria.
Caminhou até mais à frente, onde tinha uma outra sala que não tinha a placa designando como sendo parte de algum quarto. Ele abriu algumas gavetas, pegando panos de tecido de cores verdes e luvas descartáveis e as colocando sobre uma pequena mesa. Pegou uma máscara que tinha em embalagens e as colocou ali também, depois de encarar outra embalagem e olhar para o ouriço, resolveu desistir da ideia, eram toucas descartáveis que ele suspeitava que não durariam mais que alguns segundos devido aos espinhos afiados do ouriço.
— Vista isso. — Pediu. — Não é permitido que você entre na sala sem estar devidamente vestido. — Explicou antes que o ouriço pudesse protestar.
Horácio viu com certa surpresa quando Shadow apenas assentiu e se aproximou, tirando as próprias luvas e começando a vestir o camisolão do hospital com rapidez e destreza, logo colocando a máscara e depois as luvas de látex descartáveis.
O pato mobian entregou para o ouriço um saco, onde ele poderia colocar suas luvas para não as perder.
Estar sem suas luvas padrão era estranho para si, não acostumado a tirá-las em um lugar público como um hospital, mas não deu importância a isso, sendo que poderia ver Sonic, ele não se importava ao todo, apenas queria que não demorasse tanto quanto estava.
Saíram da sala e pararam em frente a uma das portas, o médico tocou a maçaneta e a girou, não precisavam de mais palavras para que o ouriço soubesse que aquela era a porta que o separava de seu amante.
— 15 minutos. — Foi o último aviso do médico, antes da porta abrir completamente.
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