Lost In Paradise
36 Paixão
Notas iniciais

— Há quanto tempo, Remu. — falou, um tanto surpresa por ver o shinigami que já não via há aproximados três meses. — Então está mesmo seguindo Higuchi?
— Eu não deveria estar falando com você, Tsuki. Logo ele sentirá minha falta, embora não possa me obrigar a ficar constantemente ao seu lado.
— Entendo...
— Mesmo sendo difícil admitir, prefiro Raito como Kira à Higuchi. Vejo que Misa está bem, e que ele cumpriu com sua parte, me alegra ver que as coisas estão tomando o rumo que Yagami planejou.
Ela respirou fundo, alisando a mão na testa.
— Eu já suspeitava. Ele pretende fazer com que o caderno volte à ele quando Higuchi for preso, não é?
— Sim. E tudo está indo de acordo com seu plano, mesmo que ele não lembre-se de nada. Apenas o ajudei, e concordei com suas façanhas, pelo bem de Misa, que nós dois sabemos que me importo e muito.
A garota assentiu de leve.
— Isso me faz... Querer tentar fazer L desistir de pegar esse cara e todo o grupo da Yotsuba. — comentou vagamente, mesmo que soubesse que fazer Ryuzaki desistir de algo, é praticamente impossível.
— Você o ama, Tsuki. — o shinigami ressaltou, fazendo-a concordar com a cabeça, e, ao mesmo tempo, tomar um ar de preocupação. — Raito é um caso perdido, mesmo que agora, sem as lembranças do caderno, ele seja um bom rapaz, nós sabemos que isso durará pouco. E quando tiver a posse do Death Note, L estará morto.
Era tão difícil ouvir aquilo. Tão difícil... Tentar aceitar. Tentava a todo custo não demonstrar cansaço ou fragilidade, mas sua garganta parecia formar um nó, um nó que só seria desatado quando corresse até Lawliet e dissesse tudo o que sabe e sente. Mas havia tantos perigos, tantos contras em realizar esse desejo, estava cada vez mais difícil engolir isso.
— Essa pode ser a ruína de Lawliet, Tsuki. E se isso ocorrer, também será seu fim. — o shinigami aprontava-se para desaparecer entre as paredes do edifício, voltando ao portador do caderno que havia trazido tanta dor ao mundo dos humanos. — Você tem pouco tempo, pense bem no que deseja fazer, e se quer realmente evitar a morte de L.
A garota acordou em um grito, com a respiração ofegante e um suor frio que molhava seus cabelos perto da nuca. Apertou as têmporas, sentindo um cansaço mental que parecia latejar sua cabeça de tanta dor causada.
Quem dera aquilo fosse um mero sonho... Infelizmente, foi uma lembrança que se repetia a todo o momento, fazendo-a lembrar que a qualquer momento poderia se despedir de tudo o que olhava ou tocava. Já fazia quatro semanas desde que Remu a visitou no período da noite, em seu quarto. Até mesmo o shinigami deixou clara a sua preocupação, fazendo-a ser incapaz de ignorar o assunto.
Se protegesse Yagami ou Misa, a morte de L seria efetuada, algo que ela não suportaria, não conseguiria agüentar. Mas, se fizesse o contrário, e assim o ajudasse na atual investigação, Higuchi seria pego em breve, o que daria vantagem à Raito que certamente faria com que o caderno parasse em suas mãos, lembrando-se de tudo o que fez com o caderno; incluindo matar.
Raito poderia continuar a ser esse garoto meigo e dedicado... Não precisa ser assim. Ele não precisa ser o Kira. Não precisa ser a pessoa que disse que jamais seria. Mas como ajudar uma pessoa que tenta matar alguém que você ama? É como ter duas pessoas à sua frente beirando o abismo, e só ser capaz de evitar a morte de uma delas. A escolha... Como é difícil escolher em qual lado ficar, se deve continuar neutra ou não. É injusto acusar Raito agora que é “inocente” e não sabe que um dia foi culpado. Portanto, se L não souber, estará em desvantagem, e ela principalmente.
Teria que adiar o máximo possível... E se não conseguir evitar que Raito recupere seu Death Note, com certeza não permitira que Misa fizesse o mesmo. Não. As coisas não irão mudar, ela não permitiria isso.
— Tsuki? — a voz calma de L conquistou o cômodo assim que abriu a porta, deixando-a encostada e aproximando-se da cama. Era um alívio ele ter chegado, Bey, seu animal de estimação, tinha sido levado e atualmente era cuidado por Sayu, e mesmo não restando dúvidas que a menina tratá-lo-ia com carinho, sentia falta do bichano, e só o visitava uma vez ou outra. — Ouvi você gritando e fiquei preocupado. Teve pesadelos novamente? — ele sentou na beirada da cama, ligando o abajur.
— Sim... — suspirou, passando a mão no rosto.
Não era a primeira vez que presenciava aquilo. Já fazia dias que a garota agia assim; acordando no meio da noite aos berros, como se tivesse visto um fantasma ou coisa ainda pior. Tentava com o que tinha ao seu alcance acalmá-la, mas não era uma tarefa tão fácil, dava pra ver que isso estava a esgotando.
— O que tanto teme? Com o que tem sonhado tão freqüentemente?
Ela sorriu tristemente, tentando evitar que seus olhos começassem a lacrimejar. É claro que não admitiria que estivasse sonhando com a morte dele, mas do jeito que ele era, não seria surpreendente se já tivesse uma ideia do que se tratara.
— Melhor não falarmos sobre isso. — voltou a suspirar, esfregando seus olhos. — Está tudo bem agora.
— Agora. Mas não me agrada saber que depois voltará a ficar daquele jeito. Não gosto de vê-la assim e não poder fazer nada. Sinto-me um inútil.
Balançou a cabeça negativamente.
— De forma alguma, L. Você é tudo, menos inútil. Desculpe-me se não te conto as coisas, mas se faço isso, é por um motivo bem forte.
— Não pense nisso agora. — disse alinhando uma mecha de seu cabeço para trás da orelha. — Temos coisas mais importantes para pensar no momento, não se guie pelo medo. Você é forte o suficiente para evitá-lo.
Quem dera ela concordar com isso.
— Obrigada...
Ultimamente a garota mal o olhava nos olhos, isso o incomodava, queria saber o motivo, queria saber se fez algo errado, algo que a chateou. Em momento algum quis que isso ocorresse, sua intenção, por mais que já tivesse machucado-a tanto, não era de feri-la emocionalmente ou de outro modo.
Para Tsuki, ver o brilho em seu olhar era a coisa mais difícil a se encarar. Era como... Se sentisse que logo aquele brilho iria perecer. E que isso já estava acontecendo.
— Escute, eu sou egoísta. — L pronunciou, após alguns minutos em silêncio que ambos estavam sustentando — Eu uso as pessoas que amo em meus planos. Watari, que é como um pai pra mim tem tantos riscos de perder a vida nesse caso quanto eu. Você, que além de ter ficado em cárcere como Raito e Misa, ainda está presa a esse QG por culpa minha, perdendo até mesmo a oportunidade de se formar tão cedo. Há tantas pessoas envolvidas, que podem perder tudo por minha culpa. Eu só penso em concluir esse caso, sou desprezível.
Ela abriu meio sorriso.
— Não me importa que me use em seus planos, Lawliet. Só... Quero aproveitar com você o que me resta. Eu lhe amo. Mais do que deveria, se quer saber. Eu só... Quero te ver bem. Você é jovem, cheio de vida. Tem tanto pra viver, tanto pra solucionar. Isso é só o começo... Você viverá muito.
Mesmo querendo evitar essa demonstração de carinho, que não sabia se agradara L, não conseguiu evitar, abraçando sua cintura e mantendo a cabeça em seu peito, escondendo o rosto. Ele a observou um tempo, afundando as mãos em seus cabelos e bagunçando-os levemente, algo que ela adorava tanto quanto ele.
— Sinto como se estivesse vivendo meus últimos dias. — L falou enquanto continuava a mexer em seu cabelo, fazendo-a se desfazer do sorriso que brotara em seus lábios.
Aquelas palavras eram como lâminas cortando-a lentamente, fazendo com que a dor, apenas de imaginar perdê-lo, prolongasse ainda mais.
— Não diga isso. — pediu, erguendo-se e deitando a cabeça em seu ombro. — Ainda iremos trabalhar juntos, viajar o mundo a fora... Esse caso não será o último, Lawliet.
Olhou em seus olhos, sendo retribuída com a mesma intensidade. As mãos de L pousaram em sua cintura, tremendo levemente de ansiedade, deslizando sobre o corpo esguio, mas não menos curvado da garota.
— Escute... — ele sussurrou em seu ouvido — Se poucos dias me restam, quero deixar o orgulho de lado e fazer o que desejo há muito tempo.
— Do que está falan...
Não permitiu que ela terminasse de falar, firmando as mãos em sua cintura e trazendo-a para perto de si em um beijo suave e lento. Suas mãos apertavam suas costas a fim de trazê-la cada vez mais perto, como se a abraçasse do modo mais protetor que tivesse a oferecer. Vendo aqueles olhos antes brilhantes, agora tão tristes... Era difícil saber que era o causador de tamanho sofrimento. Ela não era a única a temer sua morte, em parte, ele também temia perdê-la, e se culpava por tê-la envolvido no caso, apesar de ser inevitável.
O beijo antes tão calmo, com uma naturalidade assustadora se expandiu. Os lábios dela moviam-se contra os seus, umedecendo conforme as línguas ultrapassem o pouco espaço que ainda os restavam. Mesmo não havendo espaço para ser preenchido, não era o suficiente para nenhum dos dois. Depois de tanto tempo tentando abafar emoções tão vigorosas, adiar era intolerável.
Lawliet tentava respirar entre suspiros que saíam involuntariamente de seus lábios. Os dedos dela afundavam-se em seus fios negros e desalinhados, puxando-os com leveza, o que o deixava fora de si ao ponto de trazê-la ainda mais contra seu corpo. Era uma sensação que o detetive jamais havia sentido, e provavelmente, jamais voltaria a sentir. Era intenso, como uma energia positiva que passavam um para o outro em uma freqüência que tendia a aumentar cada vez mais.
Segurou-a contra seu tronco, fazendo-a aspirar com dificuldade, enquanto com suas mãos pequenas e macias explorava suas costas. Como instintos naturais desfaziam-se das peças de roupa sem pausar o beijo, os quais tanto o sufocavam e tanto buscavam por mais.
Ele passava as mãos firmemente por sua barriga, encontrando o tecido de seda de seu pijama e puxando-o para cima, com o intuito de tirá-lo de seu corpo. Arrepios difundiam-se pelo corpo da garota assim que Lawliet a deitou sobre a cama, admirando o corpo esguio o qual ele contemplava tão de perto com enorme fervor; cada curva, traço ou cor. Isso só tornava o momento mais ardente.
Seus lábios entraram em contato com sua pele, tocando sua barriga e subindo com uma lerdeza agonizante que a deixava ainda mais desesperada. As mãos dele exploravam seu corpo, buscando conhecê-la completamente, como jamais almejou conhecer alguém antes. Suas unhas roçavam na nuca do moreno, o que percebeu fazê-lo arrepiar.
Beijou o pescoço da garota, sentindo o cheiro que despregava de sua pele e soltando o ar quente de sua respiração interrompida. Ar faltava-lhe em seus pulmões, sua garganta parecia arder, e algo em seu peito pulsava por cada parte de seu corpo, ardendo como um caloroso fogo que o queimava de dentro pra fora, sem qualquer aviso espontâneo. Olhou-a nos olhos, juntando suas mãos e entrelaçando seus dedos firmemente contra a cama.
Suspirou fundo, pronto para voltar a tomar seus lábios.
— Só hoje, Tsuki Maruyama... — sussurrou com dificuldade.
— Só hoje... L Lawliet.
{***}
Nos dias seguintes boa parte do tempo de Tsuki foi tomado pela sala de controle, a mesma onde L e Raito pareciam investigar incansavelmente. Tentava passar boa parte de seu tempo ao lado de ambos, para assim saber o rumo em que a investigação estava tomando. Misa não parecia satisfeita com seu namorado dedicando-se tanto ao trabalho, e nada a ela. Os dois chegavam a discutir uma vez ou outra, e Tsuki sempre procuravam se afastar e não se meter em suas conversas, mas se irritava quando Yagami era grosseiro com a garota. Principalmente por ela fazer de tudo para ter sua atenção, algo que mesmo ela não achando necessário, sabia que a amiga fazia e muito.
L também estava ocupado e cheio de afazeres, estando com ela apenas nas noites em que os pesadelos retomavam sua mente. Ele ficava preocupado, isto é óbvio, mas no geral trabalhava e muito, mal tinham tempo para discutir sobre algo, e ele sempre evitava mencionar sobre sua investigação, talvez por saber que assim iria preocupá-la ainda mais.
Desde que passou aquela noite com Lawliet, cada cena foi gravada em sua mente, sempre repercutindo-se impactantemente quando deitava para dormir. Não sabia se ele dividia essa mesma sensação, mas sentia algo tão forte que valeria pelos dois.
As últimas notícias que L obteve só fortaleceram ainda mais sua teoria sobre o atual Kira estar infiltrado entre os chefes da Yotsuba. Com isso, o senhor Yagami descobriu que a polícia havia parado de perseguir Kira, entrando em um acordo para que ele não matasse figuras políticas e assim pudesse continuar a fazer suas sentenças. A partir daí, os policias não tiveram escolha a não ser pedir demissão. Como L mesmo colocou: eles não precisariam se demitir, e procuraria seguir o caso investigando sozinho. Mas, o chefe Yagami se negou como Mogi e Matsuda. Os três pediram demissão no dia seguinte, mas Aizawa, que já brigara com L outras vezes, acabou por discutir mais uma a que levou seu afastamento definitivo. Tsuki sentiria falta dele, mesmo sendo bem sério e por vezes impulsivo, achava-o competente em seu trabalho.
O homem havia dito que odiava L, e por mais frio que ele fosse a garota sentia que isso o chateou, talvez por respeitá-lo como profissional e pessoa. Mas, todos os presentes entediam a posição de Aizawa, e L também tinha um gênio difícil, mesmo quando não queria, acabava afetando alguém.
Raito, que durante o dia só era liberado das algemas por Ryuzaki uma hora ou outra para atender as suas necessidades, pesquisava no computador ao lado do detetive, notícias suspeitas sobre as últimas mortes. Tsuki só pôde ajudar com uma lista de funcionários da empresa, a qual Mogi separava cuidadosamente e mostrava-se muito competente em seu trabalho. Yagami checava as horas das mortes, compartilhando com os presentes que eram realizados nos fins de semana. Misa ficava em seu quarto cantando ou dançando, enquanto esperava com alguma ponta de esperança, que Raito fosse passar um tempo ao seu lado. No geral, o único que não estava prestando serviços, era Matsuda. Tsuki sentia pena do rapaz, ele queria e muito ajudar, mas era como se não tivesse espaço pra isso, ou como L deixava a entender: como se ele não fosse capaz de concluir algo sem se atrapalhar com algum detalhe.
L, que sempre tinha um truque na manga, havia chamado dois... Ajudantes. Ambos não tinham um histórico muito confiável; a mulher, chamada Wedy, era uma ladra. E o homem, Aiber, era um estelionatário. Wedy tinha cabelos loiros e um corpo curvilíneo, usava óculos de sol e suas vestes eram um tanto soberbas. O homem parecia confiável, julgando pela aparência. A mulher também não parecia apresentar perigo, embora Tsuki sentisse... Insegurança. Sempre que via Ryuzaki olhá-la, mesmo sem malícia alguma.
A morena suspirou vagamente, mantendo atenção nos papéis à sua frente. Estava bem mais calma em vista da última vez que conversou com Lawliet. Mesmo ainda estando preocupada, agora saberia o tempo que a restava para agir. Porque, assim como Beyond Birthday ou Misa Amane um dia possuiu, agora carrega por trás de seus olhos, os olhos de um shinigami.
Fale com o autor