Lost In Paradise

23 Desilusão


Tsuki arregalou os olhos, pávida.

— Você me fala que ele está tentando me matar nessa calma toda?!

— Sim. Se eu fosse você, me preocuparia com as câmeras e escutas.

— Claro Beyond, vou me preocupar com as câmeras e não com a minha vida. — ironizou.

— Sim, é o que estou pedindo.

— Olha, normalmente eu discutiria com você, mas não acho que eu tenha muito tempo pra isso levando em conta que vou morrer em poucos instantes.

— Tudo bem, tenho um plano.

— Tem? Mas se ele está tentando me matar não há nada que possamos fazer pra impedir, não é?

— Quando alguém tem planos de te matar, sendo que futuramente isso venha a acontecer, eu já posso ver sua perspectiva de vida se alterar. Isso acontece o tempo inteiro, algumas pessoas ao entrarem em sua vida já mudam isso significativamente.

— Entendo. Então houve a alteração, mas meu tempo de vida ainda não se esgotou...

— Certamente. — colocou o dedo na boca, olhando para um ponto fixo — Sei o que fazer...

— Então me diz...

— Sou eu que devo fazer isso. Vá atrás de Amane, e volte pra casa. O resto deixe comigo.

— Beyond...o que pretende fazer?

— Já disse, disso cuido eu. Agora se apresse, não deixe Misa fazer besteira.

— C-certo...

Refez o percurso até a casa de Yagami, o vendo na porta de casa, enquanto Misa se despedia na sala. Raito estreitou os olhos ao vê-la se aproximar, ouvindo Ryuuku soltar uma leve risada ao notar o aborrecimento do garoto.

— Não é muito educado sair sem dar satisfações.

— Acho que satisfações são as últimas coisas que lhe interessam no momento, não acha Yagami?

— Onde está tentando chegar?

— Eu sei o que está tentando fazer, e sei que fará o possível pro seu plano continuar dando certo. Mas eu não facilitarei pro seu lado, você ainda está muito longe de se tornar...um deus.

— Está errada, tenho tudo ao meu alcance, sou capaz de controlar todos à minha volta.

— Isso é o que você acha, mas até mesmo Kira não consegue tudo o que quer, não é mesmo? Se fosse assim, L já estaria morto. Mas pelo o que acompanhamos até aqui...isso não aconteceu, pois vocês estão no mesmo nível, e é óbvio que isso te afeta muito. O que é Raito? É difícil pra você aceitar que não é o centro do universo?

— Não diga o que não sabe. Se não apoia o que Kira está fazendo, te garanto que isso não mudará o que ele está prestes a fazer. Mas se quer saber...você não é mais útil em meus planos. — abriu um sorriso de lado.

Colocou os braços em volta da cintura a puxando pra si, a beijando sem a dar tempo de se afastar impedindo o ato. O empurrou sentindo a fúria subir pelo seu corpo, tudo o que a ocorreu foi dar-lhe um tapa à cara, mas ao levar sua mão até o rosto do rapaz viu Misa na porta assistindo tudo. Raito olhou-a de forma venenosa, controlando o riso ao imaginar o que viria à seguir.

Se apavorou vendo Misa imóvel, deixando uma lágrima descer por sua bochecha. Vê-la a olhar daquela maneira fazia sentir-se em pedaços, já sabia que a amiga colocaria toda a raiva e tristeza pra fora, só temia a forma que ela tornara à fazer isso.

— Misa...

A loira a encarou com raiva, uma raiva que Misa nunca demonstrou, muito menos à Tsuki.

— Tsuki, eu falei que não era uma boa ideia... — comentou Raito, tornando-se o centro das atenções.

— Do que você está falando Yagami? — embraveceu-se.

— Eu falei pra não fazer isso com a Misa...por um minuto acreditei na ideia de vocês serem amigas. — encenava sem qualquer culpa — Misa... — colocou à mão sobre as costas da garota. — É melhor ir agora...

O garoto sentia-se vitorioso. Remu o olhava com nojo, temendo o que seria de Misa ao lado de alguém tão narcisista e manipulador.

— Misa, é mentira...eu jamais faria isso com você.

Misa saiu andando pela rua sem trocar qualquer palavra. Antes de ir atrás, olhou pra Raito que sorriu sussurrando em seu ouvido.

— Eu venci. — se virou voltando à sua casa, sendo seguido por Ryuuku que a encarou antes de ir.

Queria jogar sua raiva em cima dele, mas não conseguia fazer nada, mesmo sem ter tido culpa, sentiu-se responsável pelo acontecido. Só queria que Misa parasse pra ouvi-la, era a única coisa que poderia tentar fazer...

Correu atrás da garota, nem um pouco interessada em parar pra a ouvir. A alcançou parando a sua frente, bloqueando a passagem.

— Misa, você tem que me ouvir...antes de tudo a casa está cheia de câmeras e escutas, e isso nem é a pior parte. Raito tentou me matar e...

— Para de fazer isso. — a cortou.

— I-isso...o quê?

— Se fazer de vítima. Você beijou Raito e agora quer usar a desculpa que ele tentou te matar pra eu colocar a culpa nele.

— O quê? Misa, eu não...

— Para, traidora. Você não superou o fato de que esse tempo inteiro você foi a única garota na universidade que ele não se interessou.

— Misa você tem noção do quanto é ridículo isso que você está falando?! Você deveria se ouvir...

— Não me importo, desde o início você tentou me afastar do Kira, isso porque você sabia que ele era Raito e queria ele só pra você.

— Não. — se irritou — Eu já disse, e vou repetir: não estou interessada em Raito. E nem em Kira, se quer saber. Eu não tenho motivos pra inventar isso. Mas ele tem, se aproveitou da situação pra deixar você contra mim pois sabe que eu sei muito sobre ele e o Death Note, e que se eu encontrasse o L seria um grande problema para o Kira se eu desse informações a respeito. Você precisa me ouvir Misa...

— Chega de mentir. Acabou.

— A-acabou?

— Sim. Você não irá me separar do Raito. Quero você fora da minha casa.

Aquela não parecia ser a Misa que conheceu antes de encontrar o caderno. Seus sentimentos por Raito não eram normais, querendo ou não, isso já não era mais amor.

— Vai ficar do lado de alguém que acabou de conhecer...ao invés do meu, que sempre esteve aqui quando você precisou?

Apesar da frieza que usou para expulsa-la de sua casa, a loira ainda sentia-se torturada com aquilo.

— Não volte na minha casa.

— Misa... — colocou a mão sob o ombro.

— Adeus.

Ela se afastou, e tudo que Tsuki fez foi sentir as lágrimas se acumularem em seus olhos. Estava completamente vazia, sem saber pra onde ir ou o que fazer. Aquelas palavras doeram mais do que qualquer coisa...

Por que Misa? Por que está fazendo isso?— sentiu as lágrimas correrem por sua face. — Não é justo...

Ficar ali parada, na rua isolada e silenciosa naquela noite tão catastrófica...era tudo o que não queria aceitar. Era algo difícil de acreditar, principalmente vindo de alguém que tanto considerara. Não poderia passar a noite inteira parada sobre a rua escura, cujo o único barulho que ecoava pelo local era o de seu choro abafado pelo qual tanto tentava controlar. Não sabia pra onde Beyond iria, ou o que faria ao descobrir que Misa a expulsou...mas não havia ninguém ali, uma hora teria que seguir um caminho.

Estava sem dinheiro, e nem mesmo suas roupas a garota permitiu que fosse buscar. Por que confiava tanto na palavra de Raito?

Caminhou sem um destino ao certo, encontrando lugares movimentados e barulhentos, era uma área sofisticada demais pra ela já ter tido conhecimento, mas precisava encontrar um lugar pra ficar. Era a pior coisa em se tornar dependente de alguém...se sentir descartado após o uso. Não sabia se sentia-se tola ou irritada com Misa, por ter escolhido acreditar em Raito e não nela. Uma sensação de angústia aumentava a cada passo que dava pela cidade, e ouvir o nome de Kira ser citado inúmeras vezes enquanto passava, não ajudava nada a abster o sentimento.

Estava passando em frente à um hotel luxuoso quando tropeçou em cima de um rapaz que se surpreendeu ao ver a garota, segurando-a pelos braços.

— Você está bem?

— Estou...

— Tem certeza? Deveria tomar mais cuidado, poderia ter se machucado.

Levantou seu rosto lentamente, ao reconhecer aquela doce e calma voz.

— Ryuga? — assustou-se, afastando.

— O que faz aqui Tsuki?

— Estou meio perdida...

— Não é um bom horário pra estar andando sozinha por aí. — colocou o dedo na boca — Algum problema?

— Não é nada de mais, amanhã acho que as coisas já voltarão ao normal...eu espero.

— Mas por hoje você precisa de um lugar pra ficar, estou certo?

— Sim...

— Pode passar a noite na minha suíte, sempre fico sozinho...creio que tem espaço pra nós dois.

— Faria isso por mim...?

— Sim.

— Obrigada Ryuga, realmente não sei como o agradecer...

Continua...