Lost In Paradise
14 Confiança

— Você diz coisas estranhas as vezes, B.
— Esse é o meu charme.
Ela ergueu o corpo, sentando-se na cama. Beyond percebeu sua inquietação e fez o mesmo, colocando suas pernas sobre o colchão.
— Nossa, só agora percebi que você se senta igualzinho o Ryuga.
— Quem?
— É um garoto da universidade, na central de exames ele tava sentado desse jeito.
— Sei... — disse desconfiado — mas por que você tá agindo assim?
— Assim como?
— Está agindo estranho, não tenho um conceito sobre suas atitudes desiguais.
— Eu só estou preocupada...
— Com Amane, eu imagino.
— Como sabe?
— Agora sei.
— Remu me alertou sobre ela, e pra ele ter feito isso é porque ela está aprontando alguma coisa...
— Não deveria confiar tanto nela.
— Por que não?
— Vai acabar se magoando.
— Misa é como uma irmã pra mim, eu gosto muito dela...
— É por isso que acabará magoada, gostar das pessoas resultam nisso.
— Você já gostou de alguém?
— Gostar ou amar são títulos tão indefinidos...um psicopata não sabe praticar tais sentimentos, mesmo que os conheçam, não os sentem. Porém...
— O quê?
— Podemos depender de alguém, o que é um erro condenável a nós mesmos.
— Como assim depender?
— Psicopatas são instáveis, como você já percebeu. Quando me refiro a depender de alguém é que apenas essa pessoa pode controlar nossos instintos assassinos, e para um psicopata sedento de sangue, ter alguém que o controle assim não é lá muito agradável.
— Então não se trata exatamente sobre sentimentos?
— Não, é mais como uma necessidade, é algo intensivo.
— Então é amor B...
— Não é amor. — disse irritado.
— Como chama isso então?
— Obsessão. É como um abismo, que mesmo que você não perceba, está o tomando por completo, um abismo pelo qual o fim parece estar distante...e sabe o que é pior?
— O que?
— Meu abismo sou eu mesmo, e minha obsessão é você.
Ela ficou sem saber o que dizer, ainda estava absorvendo tudo o que ouvira e principalmente o modo que o garoto falava, mesmo com sua voz fria em seu tom casual. Tsuki não conseguia parar de encarar seus olhos de aro em preto que perturbadamente pareciam não se fechar. Era como os de Ryuga, apesar da cor. Mas seu olhar era gélido e transbordava ódio, embora as palavras que saiam por sua boca fossem gentis, Beyond parecia sempre estar dominado por sua fúria.
— Como assim sou sua obsessão?
— Comecei a analisar os fatos desde que a conheci e cheguei a essa conclusão, se estou compartilhando isso com você é porque não sou nenhum covarde egocêntrico.
— Compreendo...mas aonde quer chegar com essa conversa?
— Quero chegar ao ponto em que isso será a principal motivação para o que planejo fazer futuramente.
— B...
— Só pense a respeito, mas claramente não quero que você tenha a mesma coisa por mim.
— Você me confunde! Se com essa conversa você está fazendo uma associação às suas possíveis confusões emocionais, então não deveria desejar que isso fosse mútuo?
— Não. Como eu disse, obsessão e sentimentos são situações inusitadas pelas quais os efeitos são distintos. Dito isso, é praticamente impossível ter uma relação mútua quando se trata disso. Por mais perspicaz que você seja, minha querida Tsuki, ainda não percebeu que não pode ter propósitos similares aos meus, é por isso que não dará certo.
— Eu não sei o que quer em troca então...
— Estará retribuindo quando decidir confiar em mim, e talvez me trará um pouco de sanidade com isso.
— Tudo bem B, mesmo sem saber do que se trata, irei confiar em você...não sei se deveria, mas vou. Sabe, nossas conversas são sempre tão metafóricas que minha mente me leva a outro cenário quando falo com você.
— Provavelmente um cenário de guerra.
— Sim. — disse rindo.
— Bom, acho que já tivemos nossa conversa maquiavélica de hoje. Devo ir agora, mas antes...
Beyond deu um de seus sorrisos provocadores e aproximou seu rosto lentamente de Tsuki, que permanecia imóvel e assustada com a situação. Suas testas estavam coladas e suas bochechas levemente coradas. Quando B estava prestes a tocar os lábios da menina, ouviu Amane gritar do lado de fora do quarto, fazendo-o se afastar raivoso. A menina soltou uma risada irônica debochando da reação do garoto, e se levantou abrindo a porta.
— Oi Misa, desculpa ter fechado a porta, eu tava contando pro B sobre a universidade...
— Oh, desculpa ter atrapalhado vocês!
— Ele já estava de saída mesmo, não é B?
— É. — bufou.
— Entre Misa.
Misa entrou no quarto enquanto Beyond ia em direção a porta passando por Tsuki.
— Dá próxima vez serei mais rápido. — murmurou no ouvido da garota.
— Próxima vez? — perguntou com os olhos arregalados.
—
No dia seguinte, Tsuki acordou disposta ao seu primeiro dia na universidade. Ainda estava se acostumando com a mudança de horário, mas isso já não era um problema. Raito já tinha lhe mandado uma mensagem avisando para o encontrar no campo de tênis pois iria partir mais cedo a universidade. Se sentiu insegura com o fato de ir sozinha, mesmo que a companhia de Raito não fizesse muita diferença, ter alguém ao seu lado no primeiro dia era bem mais confortante. Antes de se levantar ficou pensando em Misa e no que Beyond a falou. "Não deveria confiar tanto nela."Aquelas palavras ecoavam em sua mente. Misa já estava ao seu lado a tanto tempo, seria ela capaz de surpreende-la negativamente?
Se levantou arrumando-se de forma simples como de costume. Ao descer para tomar café não encontrou Misa nem Beyond por ali. A casa ficava totalmente vazia sem eles, mas apesar de suas ausências, ela conseguia visualizar Misa ao lado de Remu e Beyond com um pote de geleia sentado de sua forma estranha à cadeira. Sorriu pensando em seus amigos e tudo o que eles aprontavam por ali, mas ao terminar seu café foi até o metrô olhando seu celular. Ficou se perguntando o que Raito estaria fazendo no campo de tênis, soube que ele jogava mas não pensou que ele fosse voltar, e muito menos chegar mais cedo ao local como se o esporte fosse sua prioridade.
—
Quando chegou à universidade, pediu informação para saber onde ficava o campo de tênis, que por sorte, não ficava muito longe. Caminhou até lá vendo Raito sentado assistindo uma partida entre os universitários, se aproximou sentando-se ao lado do garoto.
— Oi Raito! Por que pediu para eu o encontrar aqui?
— Como vai? Você chegou cedo. — disse sorrindo de lado — Ryuga me convidou para uma partida de tênis e achei que você fosse gostar de assistir.
— Ah, claro. Fico feliz pelo convite! Mas...onde está Ryuga?
— Ele está atrasado, mas acho que não vai demorar a chegar.
— Certo...
Que estranho Raito me chamando pra assistir uma partida de tênis, ele nem sequer sabe se eu gosto de esportes...e o Hideki? Qual seu proposito em convidar Raito para jogar? Ou tem algo estranho por aqui ou eu realmente não entendo nada sobre o universo masculino.— pensava Tsuki fitando o local.
Raito parecia bem mais tranquilo em relação ao dia anterior, mas parecia ansioso pela partida. Não demorou muito pra avistarem Hideki se aproximando, sua roupa era a mesma que usara na cerimônia. Claramente esses detalhes eram insignificantes para ele.
— Desculpe, deixei vocês esperando? — perguntou em seu tom calmo e despreocupado.
— Não tem problema.
— Eu admito que fiquei surpreso Ryuga, não imaginei que você fosse me chamar para jogar tênis para a gente se conhecer.
Nem eu...— pensava ao lado de Ryuga.
— Tem algum problema pra você?
Raito e Ryuga foram em direção às redes para dar inicio a partida. Conforme foram se afastando a menina não pode mais ouvir o que diziam, e isso aumentava ainda mais a curiosidade de Tsuki que observava de longe.
***
— De jeito nenhum! — disse Raito de forma animada — Mas quando você me convidou pra jogar você sabia o quanto eu era bom?
— Sabia, mas eu vou me dar bem. Já faz um tempo, mas um dia eu fui o campeão escolar Inglês.
— Ryuga, você foi criado na Inglaterra?
— Eu vivi na Inglaterra por uns 5 anos quando eu era mais novo. Mas poupe saliva, nada nessa história revelaria a identidade verdadeira do L, eu prometo. Quem fizer 6 games primeiro ganha. Tudo bem?
— Por mim tudo bem.
É só uma partida de tênis amigável, nada mais. Isso não irá determinar se Raito é Kira, mas eu sei que Kira odeia perder...— pensava o detetive.
L ergueu seu braço jogando a bola à cima, e por impulso rebateu com uma certa força dando inicio ao jogo.
— 15 à 0.
— Nossa Ryuga, você não perde tempo hein?
— Quem marcar primeiro ganha.
***
Tsuki observava os dois garotos jogando incansavelmente, ambos pareciam não querer aceitar suas derrotas. Aquilo parecia ser mais do que uma simples partida de tênis julgando o tempo e esforço que o jogo estava proporcionando. Seus movimentos eram ligeiros e aquela partida parecia que não iria acabar tão cedo.
— Esses dois são amadores mesmo? — dizia um dos universitários surpreso. — Quem são eles afinal?
— Acho que os nomes deles são Raito Yagami e Hideki Ryuga. — respondia o garoto ao lado — Esses são os dois caras que tiraram nota máxima no exame.
Um dos garotos desceu as escadas correndo, fazendo Tsuki por curiosidade olhar pra trás.
— Você não vai acreditar! Achei que tinha ouvido o nome de Raito Yagami então fui checar, ele foi campeão escolar em 2002 e 2003. Parece que durante a cerimônia de premiação do terceiro ano ele anunciou que estava largando o tênis, e eu acho que ele não compete desde então.
Deu pra perceber que Raito não é nenhum amador, mas Ryuga não fica atrás também...— pensava a menina sorrindo.
— Pera aí gente, e o meu Ryuga? Não me diga que você não percebeu ele se segurando contra esse antigo campeão escolar? — dizia uma das garotas que assistia a tudo.
Tsuki não gostou nada de ouvir aquilo, sentiu vontade de jogar a raquete de tênis na cara da menina. Quando voltou a atenção ao jogo, percebeu que Raito tinha acabado de dar sua última tacada, vencendo a partida.
— Game set, por Raito Yagami. Por 6 à 4.
Todos que presenciaram a partida comemoraram parabenizando Raito. Depois, ele e Ryuga foram em direção ao banco onde Tsuki estava.
— Parabéns Raito. E você também foi muito bem, Ryuga!
— Obrigado. — agradeceu Ryuga.
— Eu tô com sede, o que acham de irmos beber alguma coisa? — sugeriu Raito.
Acho que estou começando a entender...Raito não me chamou aqui por acaso, ele não parece querer ficar sozinho com Ryuga, está me colocando no meio dos dois pra evitar uma possível conversa...que desgraçado.— pensava aborrecida.
— Eu acho ótimo, Yagami. — sorriu a garota — Mas se isso não for incomoda-los, não é Ryuga?
— Seria um prazer ter sua companhia, Maruyama.
— Sendo assim, não vejo como recusar um convite desses.
— Ótimo, vamos então. — falou Raito.
Tsuki ia caminhando ao lado dos garotos quando seu celular tocou.
— Desculpa garotos, mas tenho que atender...podem ir na minha frente, já os encontro.
— Tudo bem então. — disse Ryuga.
Raito assentiu, parecendo não gostar da ideia de ficar sozinho com Ryuga. De qualquer forma, isso era inevitável, e até o próprio já estava ciente disso. A menina se afastou indo para um local mais reservado, atendendo a ligação.
— Sim?
— Oi Uki, aqui é a Misa. Só estou ligando pra avisar que vou fazer uma viagem agora e que deixei a chave de casa com o B, ok?
— Viagem? Para onde você está indo Misa?
— Eu explico depois, agora estou atrasada.
— Mas Misa...
— Tchau Uki, te amo. — disse desligando na cara de Tsuki.
— Tô vendo o quanto você me ama. — reclamou em voz alta.
Ela se assustou ao sentir uma mão em seu ombro, dando um pulo um tanto constrangedor.
— Oh, é você Ryuga...
— Desculpe te assustar. Está tudo bem?
— Ah...claro, está sim.
— Você parece não ter achado a ligação muito agradável.
— E não foi...mas não vem ao caso. Onde Raito está?
— Ele foi pegar a bolsa que esqueceu no campo. Vamos?
— V-vamos.
Raito esqueceu a bolsa dele? Até parece. Isso foi proposital...e eu ainda vou ter que ficar sozinha com Ryuga até ele nos encontrar. Bom, vendo por esse lado, acho que não vai ser tão ruim assim...— pensava olhando pro moreno ao seu lado.
Continua...
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