Lost In Paradise
25 25 - She.
Notas iniciais

Lost In Paradise
25 – She.
Com lentidão seus olhos se abriram, rapidamente identificando o pequeno criado mudo que havia do seu lado da cama, sob o mesmo o abajur ainda se mantinha acesso em meio à escuridão enevoada daquela noite fria. Tomando uma respiração profunda, sentou-se sobre a cama retirando os óculos de leitura que ainda utilizava devido à leitura de alguns documentos que estava realizando antes de adormecer. Depositou o objeto de leitura, juntamente a pasta que antes se encontrava concentrava, sobre o pequeno criado mudo e, bem quando estivara e tocada o interruptor do abajur antigo, pode ouvir o ranger baixo da porta do aposento sendo aberta.
Um filete de luz, juntamente com uma figura pequena de olhos metálicos e cabelos negros, surgiu através da porta carregando um urso de pelúcia em formato de um canário amarelado nos braços pequenos e finos, utilizando nada mais do que um vestido infantil rosado – beirando o vermelho – de dormir.
– Mamãe? – chamou, temerosa, vendo que a mulher estava acordada e a observando de sobrancelha arqueada. – Mamãe eu posso dormir com você e o papai?
E Adelheid pesou os pros e contras daquilo, afinal sua primogênita jamais pedia aquilo, era uma garota corajosa, como a mãe, e destemida – talvez um pouco demais – como o pai. Mas havia também o fato de que era apenas uma menininha de cinco anos de idade e que havia coisas que a assustavam, mesmo que extremamente pouco. Assim, fitou a pequena remexer os próprios pés. Ou talvez ela apenas estivesse com saudade de si e de seu marido – Hibari Kyoya – que acabavam por serem demasiados ocupados deixando a pequena sob os cuidados ou do Don Vongola ou do Chefe Shimon.
– Claro querida. – sorriu-a levemente ao ver a aproximação da pequenina que, não tardou em engatinhar sobre a cama ato que acabou despertando o homem adormecido sobre o leito.
– O que foi? – ouviu o resmungo sonolento do homem que podia ser tão perigoso em batalha.
– Não foi nada papai. – disse a pequena, encolhendo-se e aconchegando-se entre o casal mais perigoso de toda a máfia italiana. E assim as orbes metálicas cruzaram-se com o carmim intenso que por tanto viu-se perdidamente apaixonado, e tal vermelhos brilhava numa ternura inigualável pela pequena menina, então o homem voltou a fiar o corpo infantil já adormecido entre si e a Rainha de Gelo. Acariciou os cabelos negros longos de sua pequena princesa antes de tornar a aconchegar-se em seu lugar novamente, ato que fora seguido pela mulher.
– Ela parece com você quando está dormindo. – comunicou o ex-disciplinador após poucos minutos de silencio.
E assim a Hibari sorriu.
– Ela parece com você quando está acordada. – e tais palavras apenas arrancaram um sorriso orgulhoso de Kyoya que, displicentemente, passou o braço por sobre o corpo pequeno da menina, logo alcançando a forma esbelta de sua esposa que fechara os olhos diante do toque tão quente e familiar.
A ex-Suzuki lembrava-se. Fazia oito anos que eles haviam começado uma coisa sem definição, uma coisa imprópria e que acabara por fazê-los se tornarem algo que jamais cogitaram ser um para com o outro. E também fazia oito anos que a mulher sofrera aquele atentado contra sua vida o qual lhe fora arrebatado seu primeiro filho. E com tal pensamento seus olhos arderam, desejando liberar as lágrimas que sempre tendiam a vir quando ela recordava-se daquela maldita tragédia, mas – pelo menos – tivera sua vingança, ela e Kyoya. Izune e seus compatriotas pagaram o preço pelo atentado contra a vida da companheira do impiedoso Guardião da Nuvem Vongola, e os pais de tal garota sucumbiram pela crueldade inimaginável da Serpente di Vongola, Hibari Mayumi.
Aconchegando-se sobre o leito a morena resolveu trancar aqueles pensamentos na parte mais profunda e tenebrosa de seu coração, seria melhor assim para si e para aquele que lhe eram importantes.
– Boa noite Kyoya. – sussurrara, recebendo um baixo ‘boa noite’ rosnado em retorno, o que lhe rendera um suave riso pela forma como ele demonstrava seu afeto como um animal incomodado. Mas ela sabia que aquela era a forma de ele ser gentil, a Hibari já havia acostumado-se com aquelas facetas do marido; por que mesmo quando ele se mostrava áspero e completamente rude, ele ainda sim a tocava com carinho demonstrando seus sentimentos com mínimas ações, como naquele momento em que, enquanto parecera irritado por ter tido o silencio interrompido, ele singelamente acariciava o ventre da mulher, mais especificadamente a cicatriz que ali ficara como uma má recordação de um erro de oito anos atrás. E a mulher sabia que o homem se culpava pelo que acontecera, noite após noite, em todos esses anos, ela sentia ele acariciar aquele ponto, como se fosse para lembrar a si mesmo de jamais deixar um erro tolo como aquele ocorrer novamente. – Eu amo você. – sussurrara por fim, fechando os olhos e esquecendo quaisquer pensamentos que tivera anteriormente. Ele não precisava retornar aquelas palavras, Adelheid sabia o que ele sentia, e era exatamente por isso que poucas foram às vezes em que o moreno pronunciara aquilo.
E pelo restante da madrugada o casal adormeceu junto à pequena filha que tinham. O passado, mesmo que conturbado, apenas os dava força para seguir mais e mais adiante, com o apoio dos amigos e, principalmente, das Famiglias as quais serviam fielmente. E mesmo que há tempos atrás, na primeira vez em que haviam se encontrado, houvessem se odiado tanto, eles ainda sim utilizaram-se de ações precipitadas e acabaram transformando esse ódio num singelo sentimento que os consumia cada vez mais, e tal sentimento imortalizava-se das mais diversas formas, pois ali, aquela historia, mesmo que desaparecesse nos braços do tempo, estaria para sempre marcada naquelas almas que tanto odiaram-se, envolveram, amaram-se; almas que provaram do sofrimento, da dor, da felicidade e do amor. Almas que cruzaram o inferno e perderam-se no paraíso, tudo para que pudessem ficar juntos para sempre, e talvez, por um tempo ainda maior.
Fim.
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