Lost In Paradise
2 Mal Renascido - Parte I
Notas iniciais
Era uma casa velha em uma rua quase deserta. Abandonada a tanto tempo que nem a vizinhança lembra claramente quem foi seu último morador. Mas gora as luzes da casa estavam acesas. E havia um homem com um olhar estranho e vazio. Ele andava pelos cômodos com passos firmes. Sua atenção era para um cômodo em especial; o banheiro da casa que, embora velho, ainda tinha a água funcionando. Ele ia preparar ali o ritual, precisava de água limpa para isso – e outros ingredientes que ele já havia juntado. Não precisava de muito. O mais importante era o corpo carbonizado daquela que prometia ser a nova líder dos demônios, Abbadon.
Uma fumaça negra pairava no teto. Dela saiam sussurros incompreensíveis. O homem pegou uma faca afiada e cortou seu próprio pulso, deixando seu sangue pingar dentro da banheira algumas vezes. Terminou o ritual proferindo o encantamento em latim. Sob sua cabeça a fumaça chiava, podia se ouvir grunhidos vindos da mesma. E uma chama escura se apoderou do cadáver ao final das palavras. O chão imediatamente começou a tremer. O homem cambaleou enquanto a fumaça ia em direção a banheira. De repente tudo se acalmou e uma mulher surgiu. Completamente nua, dona de uma beleza quase selvagem, de cabelos vermelhos e pele macia. Ela abriu um sorriso enquanto ia saindo da banheira devagar.
Aquele era o corpo de Josie Sands, possuída horas antes da sua iniciação dos Homens das Letras. Abbadon poderia ter possuído outra pessoa depois de ter sido forçada a sair daquele corpo por Sam, quando o Winchester queimou o corpo de Josie na capela onde tentava curar Crowley e trancar os portões do inferno – mas não o fez. Abbadon sentia-se estranhamente confortável naquele corpo. Ainda mais agora que a garota, Josie, não ia estar gritando lá dentro e pedindo socorro. A garota já havia ido para o céu – ou inferno talvez, tanto faz. Mas também havia outro motivo: Josie pertencia a linhagem de sangue de seu pai.
Abbadon era um Cavaleiro do Inferno, primogênita dos primeiros anjos caídos. E caído ou não, um anjo tem uma linhagem de sangue que melhor lhe suporta. Anjos tem várias intensidades diferentes, por isso existem cascas mais fracas e mais fortes. Quando um anjo mais intenso está em uma casca inferior, a casca entra em combustão. Por isso a ruiva era a melhor alternativa de Abbadon, ela pertencia a extinta linhagem de seu pai, e por ser um Nefilim transformado em demônio, Josie era a casca que melhor encaixava no momento. Mas Abbadon tinha planos. Havia uma casca poderosa dando sopa por ai e era seu próximo objetivo consegui-la.
Que anjo ou demônio não iria querer a casca de Miguel?
Aliás, as duas cascas mais poderosas existentes logo iriam estar em suas mãos. Era só questão de tempo. Por hora sua preocupação era Crowley e achar a adaga original. O mundo não podia ter mudado tanto desde sua transformação! Isso ia lhe tomar algum tempo, mas era necessário. Se Azazel e Lilith haviam menosprezado a verdade sobre a criação dos demônios, Abbadon não seria tão estupida. Ambos tinham um triunfo, mas o subestimaram. E subestimaram os Winchester.
Os olhos do homem – um demônio possuindo um homem, na verdade – não saiam dela por um segundo sequer.
— Minha rainha. — ele diz com a voz meio tremula, se colocando de pé.
— Rainha? — ela sorri de canto. — É, gostei de como isso soa. — Abbadon caminha e não tira os olhos do homem que agora já assumiu uma postura mais confiante. — Então, como estão os demônios agora? E isso do vendedor governar o inferno? Como puderam cair tão baixo? — debochou.
— Muitos estavam perdidos depois da queda de Lucífer. — respondeu o demônio. — E Crowley sabe ser persuasivo.
— É por isso que ele é um vendedor. — Abbadon cortou de forma ríspida.
— Existem alguns ninhos. — continuou o demônio. — Muito poucos. Estão escondidos por se recusarem a baixar a cabeça ao Crowley.
— Eis um pouco de dignidade. — ela ergueu a sobrancelha.
— O que faremos agora? — ele fitou-a.
— Faremos?
— Quer dizer, acho que mereço ser compensado por isso. — explicou. — Fiz o que os outros não fariam. Nenhum deles arriscaria sua lealdade a Crowley. Podemos fazer um pacto!
— Um pacto? — ela repetiu, se aproximando do demônio de forma sensual. — Talvez, a ideia não é ruim... — seu rosto estava próximo do homem. — Mas tem um detalhe, eu devo ter esquecido de mencionar... — esticou o braço em um movimento rápido, tocou-lhe o coração e o corpo imediatamente tombou enquanto a fumaça negra saia do corpo do homem e se transformava em chamas, até a mesma desaparecer. — Eu não faço pactos. — ela encarou o corpo no chão. — Demônios estão mal acostumados... Mas eu dou um jeito nisso! — e sorriu cinicamente. — Vou atrás da cavalaria...
Saiu andando – nua, ainda teria que arrumar roupas – mas pelo menos já tinha por onde começar.
~~ SUPERNATURAL ~~
Lebanon, Kansas.
Houve um breve silencio entre Dean, Castiel e Eliza.
Castiel estava caído no asfalto com o rosto um pouco machucado graças aos golpes de Edwel, mas aparentemente nada grave. Eliza, que também estava com algumas lesões, esticou o braço para o velho amigo ajudando-o a levantar. Dean estava ofegante e ainda com a espada de Muriel nas mãos, olhou ao seu redor. Tudo parecia calmo na escuridão à sua volta. Sam finalmente os alcançou com as sobrancelhas unidas, estava bem claro a sua preocupação. Tudo aconteceu tão rápido que ele nem teve tempo de ir ao auxílio do irmão.
— Estão todos bem? — o caçula chegou perguntando.
Castiel balançou a cabeça positivamente. Eliza fez o mesmo. Só então Castiel percebeu a presença dos Winchester de fato.
— Dean! Sam! — Castiel ficou um pouco aliviado em vê-los finalmente depois de tudo o que aconteceu.
— O que diabos aconteceu? — Dean perguntou atômico.
— Anjos. — Eliza explicou, mas isso obviamente Sam e Dean sabiam. — Eles estavam atrás de Castiel. Eu o retirei do seu receptáculo, mas não é permanente.
— Precisamos sair daqui, rápido. — concluiu Sam.
— Espera, espera ai... — Dean franziu a testa, estreitando o olhar para Eliza. — Quem é você?
— Ah... Eu sou Eliza Connor. — ela estendeu a mão em cumprimento e Sam apertou-a amistosamente, Dean o fez um pouco seco.
— Eu sou Sam, ele é o Dean. — o caçula apresentou-os sorrindo, sendo amigável da melhor forma possível dada a adrenalina depois do que acabara de acontecer.
— Castiel me contou quem são vocês. — ela disse. — Sou uma velha amiga do Castiel.
— Estranho, ele nunca nos falou sobre você. — disse o Winchester mais velho.
— Eu achava que ela havia morrido, Dean. — explicou Castiel. — Eliza é confiável. — afirmou convicto.
— Como Metatron? Me desculpe Cas, mas seu senso de confiança anda meio falho nos últimos dias. — Dean retrucou.
— Olha bonitão, para começo de conversa eu conheço o Castiel desde o tempo em que o seu pai era um espermatozoide. Não se ache o único a ser digno de confiança aqui.
— E então você é o que? — perguntou Dean com um ar de desconfiança. — Outro anjo bonzinho?
— Palpite errado! Eu não sou um anjo. — Eliza imediatamente negou.
— Deixem para discutir isso no bunker, aqui não é seguro! — se meteu o caçula antes que Dean abrisse a boca para responder. — Precisamos ir.
— E Eliza deve nos acompanhar. — Castiel completou. — Tem algumas perguntas que ela tem que fazer ao Crowley.
Dean ficou em silencio por um breve momento.
— Eu também quero saber como ela não aparenta ter a idade que diz ter. — Dean tinha a voz seca, porem debochada.
Eliza abriu um sorriso amarelo antes de seguir atrás de Sam e ao lado de Castiel até o Impala. Dean foi logo em seguida e ele estava contrariado por ter que ir a qualquer lugar com uma desconhecida. Ainda mais até o bunker. Mas não podia ficar ali discutindo com a nova – ou velha – amiguinha de Castiel. Tinha que tirar Sam dali antes que os malditos anjos resolvessem reaparecer. Em menos de um minuto o Impala estacionou em frente ao bunker dos Homens das Letras. Eliza surpreendeu-se, vivia ali há quase dois anos e já conhecia bem a cidade, mas nunca soube da existência de um lugar como aquele. O lugar definitivamente era o esconderijo perfeito para caçadores.
Enquanto Sam abria a porta, Dean tentava não olhar para a desconhecida. Algo nela – ele não sabia o que exatamente – lhe dava nos nervoso. Os quatro adentraram o bunker e Kevin veio ao encontro dos recém-chegados.
— Já chegaram?! E com uma garota...? — disse meio confuso.
— Fala como se fizesse muito tempo que não visse uma. — ela sorriu brincalhona.
— E faz. — disse o garoto, ele tinha uma aparência cansada. — Sou Kevin Tran.
— Olá Kevin, meu nome é Eliza Connor.
— Já que estamos em clima de apresentações você poderia contar mais sobre quem é realmente... — sugeriu o mais velho dos Winchester de um jeito cínico.
— Eu já disse, eu sou amiga...
— ... do Castiel. — Dean completou interrompendo-a. — Você vai ter que fazer melhor do que isso, porque até agora você nos disse que conhece o Cas há centenas de anos e que não é um anjo. Se não é um anjo, é um demônio. Ou pior. Então me dá uma boa razão para não trancar você aqui no bunker.
— Dean... — Castiel começou, mas Eliza o cortou.
— Isso é uma ameaça?
— Na situação atual eu chamaria isso de precaução.
— Pois bem, Dean. — Eliza cruzou os braços, encarou o Winchester sem qualquer sinal de medo no olhar. — Se quer saber que tipo de monstro eu sou, sinto desapontá-lo. Sou humana.
— Então você anda visitando o Doctor Rey?! — debochou Dean. — Ou é uma bruxa?!
— Não sou uma bruxa, nem monstro. Se quiser faça os testes.
— Você disse que conhecia o Castiel há anos... — Sam disse.
— Eu sou humana hoje. Eu já fui outra coisa. — por um momento hesitou. — Eu fui uma Discipuli no paraíso.
— Uma o quê? — Dean estreitou o olhar, eis um termo que nunca ouvira antes.
Nem mesmo Sam – e Sam conhecia mais termos que Dean, diga-se de passagem.
— Discipulis eram almas que serviam aos arcanjos. — Castiel explicou. — Eram almas de pessoas que não completaram sua missão terrena e tiveram a força necessária para não sucumbir e permanecer na Terra como fantasma. São transformadas em Discipulis, almas que tem arcanjos como seus tutores e possuem poderes bem limitados, mas não chegam a ser consideradas anjos.
— Então você... — Dean começou encarando Eliza.
— Eu vivi em uma época em que as pessoas rezavam para a cura. Isso pode confortar a alma, mas fisicamente as coisas vão de mal a pior. — Ela completou, Dean pensou o quanto era irônico ouvir aquilo depois do que passou com Sam. — E quando eu tinha uns doze anos, eu tive anemia. E morri. — Eliza pausou, era tão estranho se ouvir dizer aquilo depois de ter uma vida normal, há muito tempo não pensava mais em quanto o seu passado havia sido louco. — Fui para o céu com o ceifeiro. Um tempo depois me disseram que os príncipes arcanjos me queriam junto a eles. Eu fui criada religiosa, achei que isso seria bom. Mas a propaganda era enganosa. Isso foi há uns cem anos, talvez mais.
— E como voltou para a Terra? — indagou o mais velho.
— Eu fui jogada lá das nuvens. — ela se limitou a dizer, não iria contar sobre a amizade de Castiel e tudo que isso significou, não era da conta do Winchester intrometido. — E voltei a ter meu corpo antigo. Um casal me acolheu e o resto já dá para imaginar.
— Então você e o Cas se conheceram no céu? — Dean parecia não acreditar que Eliza fosse confiável apesar da história.
— Isso ficou meio óbvio.
— E o que quer com Crowley?
— Demônios mataram meus pais. — ela disse. — Quero saber porque.
— Bem vinda ao clube! — Kevin, que estava de braços cruzados ali ao lado, ironizou.
— Eu moro aqui na cidade desde então. — ela continuou. — Acabei encontrando o Castiel na parada do ônibus.
— Que coincidência, não é mesmo?! — Dean começou, sua voz estava carregada de sarcasmo, ele tirou o olhar de Eliza e encarou Castiel. — Poderia ter lembrado de nos avisar que ainda estava respirando. Achávamos que você podia ter sido encontrado por anjos ou possuído por demônios. Ou preso. Acha que agora que virou humano pode dar uma de assassino em série, Cas?
— Eu não entendo. — Castiel falou com sinceridade, quase ingenuidade.
— Me deixa refrescar a sua memória. — ele continuou ironizando. — A garota que você matou, Castiel. Ela se tornou um problema. Você virou o soldado justiceiro e agora é procurado em toda a parte por sequestro e assassinato. Você foi filmado, as suas fotos estão nos jornais. Bela forma de começar as coisas, Cas!
— Espera, antes de acertar o martelo nele deveria ouvir o que ele tem a dizer. — Eliza se meteu.
— O que é? Você é advogada dele agora?
— Não, sou amiga do Castiel e meu dever é esse. Estar ao seu lado, não crucificar. — respondeu ríspida.
— E justamente por ser amigo do Cas que eu tenho que dizer as verdades. O Castiel já não é um anjo que pode bater as asinhas e consertar tudo. Ele é procurado não só pelo esquadrão angelical agora, mas pela polícia federal também. E além disso ele está meio indefeso na atual situação, pode ser possuído ou morto. — pausou sério. — Então acho que o melhor é que ele entenda isso, não que você apoie essa estupidez.
— Era um anjo, Dean. — Castiel explicou. — Eu tentei ajudá-la e ela queria me enganar.
— Com todo respeito, Cas... — Dean disse um pouco seco. — Mas suas tentativas de consertar suas confusões geram mais confusões ainda.
Castiel estreitou o olhar. Dean sabia que estava sendo duro demais com o amigo, mas Castiel precisava entender que não se deve confiar cegamente. Eliza estava com raiva do modo com que Dean falava com o amigo. Castiel era ingênuo em vários assuntos. E amizade era um ponto fraco – nisso ela e Dean concordavam, ambos desconfiavam da amizade um do outro.
De repente latidos surgiram do lado de fora. Latidos desesperados. Eliza reconheceu o latido de imediato e correu, subindo as escadas. Dean e Castiel a seguiram. Sam quase fez o mesmo, mas um chiado estranho surgiu no rádio do bunker, chamando a atenção dele e de Kevin.
Castiel e Dean encontraram um labrador amarelo na porta do bunker. Como Brian havia escapado era um mistério. Não havia explicação imaginável para isso. Um frio na barriga tomou conta da garota, isso não era bom sinal. Brian começou a lamber a mão da dona, ofegava, estava ansioso.
— Eu juro que não sei como isso aconteceu. — ela disse zonza.
— Como ele conseguiu te achar? — perguntou Castiel encarando o animal com certa curiosidade.
— Eu não sei, mas estou com uma sensação ruim. — Eliza alisou o pelo do cão. — Vem Brian, vamos entrar...
— Calminha ai... Devagar com o andar, docinho! — Dean se pôs em frente a porta. — Aqui esse pulguento não vai ficar.
— Em primeiro lugar, ele não tem pulgas. — Eliza encarou Dean furiosamente. — E depois, ele é um amor e não vai fazer mal a ninguém.
— Não me importa, aqui ele não bota as patas!
— Qual é seu problema? — ela já havia perdido a paciência. — Ele é só um cachorro e eu não vou deixá-lo na rua. Ele vai entrar e ponto.
— Não, ele não vai. — Dean insistiu.
Um som surgiu vindo de dentro do bunker. Passos. Era Sam.
— Não acho que essa seja a melhor hora para discutir. — disse o caçula e parecia um pouco preocupado.
— O que aconteceu? — Dean perguntou.
Sam não respondeu imediatamente.
Fez sinal para que entrassem. Dean e Castiel seguiram o caçador e foram seguidos por Eliza – e Brian – assim que fecharam a porta do bunker. Sam parecia estar tenso, Kevin nem tanto. O profeta acabou se distraindo com o cão.
— Ele é seu?
— Sim, se chama Brian.
— Oi amigão! — Kevin se pôs a brincar com o cão.
Dean revirou os olhos. Se ouvia um som baixo na sala, como a da frequência dos rádios de polícia.
— Então, desembucha Sammy! — Dean dizia com cara de poucos amigos. — Qual é a má notícia?
Kevin se levantou, sério.
— O sistema de transmissão do bunker se ativa automaticamente quando algum alerta importante surge. — Kevin começou a explicação.
— E....?
— Ouvimos no rádio da polícia agora sobre um shopping em Lakewood no Colorado, o lugar foi invadido por meia dúzia de pessoas. Poucos sobreviveram e os que conseguem falar, relatam que os guardas começaram a atacar as pessoas do nada. — continuou Sam. — Os sobreviventes tem queimaduras graves pelo corpo, todos estão em estado de choque. Alguns dos mortos tiveram seus olhos arrancados.
— Olhos? — Dean repetiu. — Parece coisa de anjo.
— Mas é que não é só isso. — Sam continuou. — Alguns juram que uma fumaça negra invadiu o local segundos antes do ataque.
— Ok, agora estou confuso. — Dean balançou a cabeça.
— Demônios fariam isso? — Eliza indagou. — Quer dizer, seria por causa do tal Rei do Inferno que está com vocês?
— Ou Abbadon. — disse Sam.
— Mas ela não havia morrido? — Dean perguntou.
— O corpo foi destruído, mas Abbadon deve ter possuído outra pessoa.
— Espera ai, Abbadon? — Eliza franziu a testa. — Esse é um Cavaleiro, não é? E não estavam todos mortos?
— Aparentemente um deles não. — Dean respondeu. — Acho que isso significa que os meus planos de seis horas de folga foram para o espaço!
— Talvez eu... — Castiel hesitou, ganhando a atenção dos quatro presentes. — Eu deva ir com vocês.
— Com a gente? — Sam estranhou.
— Eu acho que você não entendeu, Cas. — disse Dean. — Você não pode desfilar por ai, esqueceu?! Você está na mira de todo mundo.
— Dean, se existe a possibilidade de serem anjos eu talvez deva ir lá e explicar... — ele sugeria incerto.
— Amigo, isso é suicídio. — disse Dean. — E não podemos andar com você por ai com todo o cuidado, pisando em ovos.
— Juro que não consigo entender o porquê de você agir assim com ele! — Eliza outra vez se colocou ao lado do velho amigo.
Dean cerrou os dentes, aquela garota já estava passando dos limites.
— Estou fazendo a coisa certa! — replicou Dean. — Verdades precisam ser ditas. Essa não é uma situação muito confortável, docinho. Temos problemas aqui.
— Primeiro, docinho é a vovozinha! — ela retrucou irritada. — E segundo, eu só quero ajudar.
— Boa tentativa, mas não está ajudando. — Dean abriu um sorriso cínico. — É bem ao contrário, intrometidos só atrapalham.
— Dean! — Sam imediatamente reprovou o irmão.
— Não estamos lidando com Wendigos ou Metamorfos. — Dean continuou, agora mais sério e focado em Castiel. — O mundo está pirando. O Cas está na lista negra, ele não pode sair por ai dando sopa.
— Bem, se o Castiel não pode ir eu vou por ele. — Eliza cruzou os braços.
— Isso... Não vai rolar não!
— Ninguém precisa se arriscar sem motivo. — disse Sam. — Eu e Dean podemos cuidar disso. Sendo anjos ou demônios, isso seria perigoso.
— Tanto quanto é para vocês.
— Somos profissionais, fazemos isso a nossa vida inteira... — Dean começou, mas foi interrompido por Eliza.
— Você realmente se acha o todo poderoso, não é Dean? Acha que eu nunca topei com um demônio antes? Talvez eu não tenha ido tão fundo quanto você, mas sei cuidar de demônios muito bem.
— Não me importa nada disso ok? Isso não é brincadeira. — o tom de Dean era sério, áspero, de quem colocava um ponto final na discursão. — Castiel, você e o Jack Chan adolescente ficam aqui. Sãos e salvos. Quando eu e o Sam soubermos o que diabos está acontecendo, nós quatro começamos a arrumar essa bagunça! E você...?
— Não se preocupe, eu vou falar com o tal Crowley e vou para casa. — disse Eliza.
— Não acho que seja uma boa ideia falar com o Crowley sem estarmos presente. — o Winchester mais velho ponderou.
— Porque? Eu já disse, conheço demônios.
— Porque ele é o Rei! — disse Dean de forma óbvia. — E ele faz uma coisa melhor do que todos os outros, mentir.
— Mas ainda assim um demônio.
Dean balançou a cabeça. Ela era teimosa. O Winchester hesitou, tinha medo e quase a absoluta certeza que Eliza não era confiável.
— Liguem se... — ele encarou Kevin e Castiel. — Houver algum problema.
De longe, Eliza abriu um sorriso amarelo. Teve que morder a língua para não responder ao Winchester. Sam acenou com a cabeça de leve, se despedindo dos três. Eles saíram do bunker logo, embora Dean estivesse preocupado.
— Essa garota ficar no bunker... Eu não acho uma boa ideia. — Dean disse ao entrar no Impala.
— Se surgir algum problema Kevin saberá resolver, Dean. — disse Sam ao seu lado no banco do carona. — Ele conhece o bunker melhor que nós dois juntos.
— O mundo está por um fio. Castiel está por um fio. E justamente agora surge a amiga de infância do Castiel? Muita coincidência!
— Dean, eu acho que você está exagerando um pouquinho. — Sam se meteu. — Talvez seja só cisma sua.
— Cisma? Depois de Ruby, Crowley e Metatron, eu chamo isso de precaução.
— Vamos esperar para ver, ok?
Dean revirou os olhos e bufou, metendo o pé no acelerador.
Ele conhecia seus instintos.
Algo nela era incomodo e ele não gostava de tal sensação.
[...]
As luzes de um pequeno quarto se acenderam quando Kevin moveu uma alavanca. Se tratava de um quarto bem seguro, quase um forte. O bunker era um verdadeiro labirinto. E logo atrás de uma parede estava Crowley. Era possível ouvir sua respiração. Eliza engoliu a seco, nervosa. Castiel estava pouco atrás dela. Kevin hesitou em levá-la até o demônio.
— Tem certeza?
— É... — suspirou. — Eu tenho. Porque?
— Dean me pareceu receoso e na maioria das vezes ele tem razão. — disse a ela.
— Mas de qualquer jeito, ficaremos com você. — avisou Castiel.
— Acho que sou bem grandinha, não preciso de babá. — ela tentou parecer seca, mas sua voz soou normal. — Nem vocês, nem Dean precisam se preocupar.
— Não é isso, é que Crowley é difícil. — o garoto disse com a voz baixa. — E sabe bem como manipular. É um desgraçado.
— Todos os demônios são desgraçados.
— Ele matou minha mãe.
Houve um breve silencio.
— Sinto muito. — Eliza disse com a voz pesada.
— Eu também.
— Kevin tem razão sobre isso. — Castiel disse. — Crowley não é confiável.
— Então... — Eliza suspirou. — Essas coisas, elas... Nos põem a prova, Kevin. Você é um profeta, você não teve escolhas. Nasceu com isso. Eu fiz algumas escolhas que me arrependo até hoje. Vi coisas ruins... E perto do que eu vi, Crowley não me assusta. Ele não é o primeiro e nem vai ser o último capetinha que eu enfrento.
— Bem, se você quer...
Kevin abriu a porta cuidadosamente.
— Kevin? — surgiu uma voz carregada com sotaque. — Eu sei que é você.
Eliza entrou passos à frente de Kevin e Castiel. E Crowley encarou a garota um pouco surpreso, bastante intrigado. O demônio parecia cansado, mas possuía a mesmo sorriso cínico de sempre.
— Então, é meu o horário de visita? — perguntou o demônio, seu olhar parou em Castiel e ele pareceu ainda mais interessado. — O que houve com você, Cas? Arrancaram as suas asinhas?
Castiel não respondeu.
— Você não faz as perguntas, eu faço. — Eliza respondeu ríspida.
— Eu gosto quando as damas assumem o controle, é excitante. — ele disse cínico. — Mas eu não costumo conversar com quem não sei nem o nome.
— Isso não é uma conversa amigável, quero saber porque demônios mataram os meus pais?!
— Órfã... Tenho algumas na minha lista. Seja mais especifica.
— Clarisse e George Connor moravam em St. Louis há quase dois anos. — Eliza pausou enquanto analisava o homem que por sua vez não demonstrava nenhuma reação. — E eles foram possuídos, Crowley. Os demônios botaram fogo na casa e deixaram os dois queimarem para depois fugirem. Eu quero o motivo e quero os nomes dos demônios.
— Eu sinto informar querida, mas nenhum dos meus está envolvido nisso. — a voz dele soou suave e despreocupada.
— Vamos começar de novo. — Eliza se aproximou mais do demônio preso a cadeira e fixou-se nele. — Eu quero o motivo e os nomes, Crowley. Você era o Rei, você sabe. E vai me dar, ou...
— Ou? — ele sorriu cínico. — Ou o quê? Vai me matar? Não acho que Esquilo e Alce vão gostar disso.
— Matar não resolveria nada, querido. — ela devolveu o sorriso. — Mas eu posso fazer você falar, arrancar toda e qualquer informação.
— Tortura? — ele sorriu. — Adoro tortura. Kevin sabe, eu torturo todos os meus amigos.
— Nada de tortura. — ela negou. — Feitiços.
Crowley riu.
— Vá em frente. — ele disse. — Acho que alguns ingredientes como pena de anjo estão em falta no mercado.
— Pode ser difícil, mas eu rodaria o mundo atrás de uma bruxa se fosse necessário. — ela continuou sorridente. — Uma com uma boa despensa. E com o feitiço certo te faria vomitar até seus segredos mais profundos.
— Como sabe tanta coisa? — ele arqueou a sobrancelha, mas não parecia assustado.
— Tenho minhas fontes. Então sugiro que abra o jogo e fale tudo.
— Está perdendo seu tempo. Faça o feitiço que quiser, jovem Sabrina. Eu não tenho as respostas. Não foram minhas ordens. Nenhum de meus demônios fez isso.
— Você era o Rei!
— Mas não uma unanimidade, infelizmente. — ele sorriu mais uma vez. — Perdoe-me se a frustrei, se esperava respostas. Mas é um começo, minha cara. Se você está aqui, se você está do lado dos dois Winchester, é bom ir aprendendo a lidar com frustrações. É isso que os dois fazem, decepcionam. — ele levantou a cabeça, encarou Kevin. — Usam. E depois eles descartam.
— Claro. Os demônios é que são bonzinhos e incompreendidos. — Eliza disse em tom enfadado, com a voz carregada de sarcasmo.
— E eu sou uma ótima companhia. — ele devolveu o sarcasmo. — Pergunte ao Kevin, nós tivemos ótimos momentos juntos.
— Deixa o garoto em paz! Já não foi o suficiente matar a mãe dele?
— Matar? — ele estreitou o olhar. — Eu matei? Quem garante isso? Ele viu o corpo? O que me impede de trazê-la a você é o fato de estar meio... Preso... No momento.
— Você está mentindo! — Kevin vociferou, havia ficado visivelmente nervoso.
— É óbvio que ele quer te manipular. — Eliza encarou Kevin que estava nitidamente em conflito, se ergueu. — Vamos Kevin, esse idiota é inútil.
— Eu sou muito útil. — retrucou Crowley. — Pergunte a Castiel, sou ótimo para dar boas ideias. Eu já dei ótimas para ele, pena que não soube aproveitar. Aliás Cas, sinto muita falta dos nossos trabalhinhos... Confesso que é uma boa lembrança!
— Que papo é esse? — Castiel ficou ainda mais tenso. Eliza encarou o ‘ex’ anjo. Embora os dois tivessem tido uma longa conversa, ainda não haviam dito tudo. — Quer saber?! Acho que é melhor sairmos daqui...
Eliza deu passos em direção a porta onde estava Castiel. Kevin hesitou um pouco, mas cedeu. Crowley voltou a ficar no escuro, sozinho com seus próprios pensamentos. Eliza e Castiel seguiram até a área principal do bunker, junto a Kevin. A agonia do profeta era latente. Na verdade a garota não estava convencida que Crowley havia dito a verdade.
Mas em outro momento ela tentaria descobrir mais.
Com Kevin junto, sendo pouco a pouco influenciado psicologicamente pelo demônio, não poderia ir muito mais longe. Logo Brian os encontrou, ansioso – mas parecia estar feliz de estar ali. Eliza observou Castiel e Kevin, ambos pareciam esgotados.
— Vocês me parecem cansados.
— Não durmo desde a queda dos anjos. — disse o rapaz. — Quer dizer, achei que era o fim do mundo. O bunker surtou.
— E eu não me acostumei ainda com isso. — completou Castiel.
— Eu acho melhor ir para casa, assim vocês podem descansar.
— Não acho que eu possa descansar. — suspirou. — E também já fiquei tempo demais sozinho nesse bunker. Ou traduzindo tabuas.
— É, esse negócio de ser profeta deve ser um porre. Mas o bunker não me parece puro tédio. É o sonho de qualquer nerd. Livros e coisas malucas para fuçar.
Eliza andou pelas extensões das prateleiras. Haviam objetos de todos os tamanhos, as formas mais variadas. Algumas facas e espadas cuidadosamente afiadas. E bem ao fim um objeto em especial lhe chamou a atenção: Um arco e flecha. Era avermelhado, com alguns detalhes que se assemelhavam as asas de um dragão. Eliza parou e levantou a mão para pegá-lo. O objeto estava dentro de uma caixa de vidro, cuja inscrição abaixo era apenas uma data. Na verdade um ano, 1940.
— Eu não mexeria nisso se fosse você. — avisou Kevin.
— Porque?
— Era dos Homens das Letras.
Eliza voltou a encarar o objeto. E não hesitou mais, tirando-o da caixa de vidro.
— Eu sempre tive boa pontaria, acho que me daria bem com um desses. — ela sorria de orelha a orelha como uma criança, seus olhos brilhavam.
De repente um celular toca sobre a mesa do bunker. Um antigo telefone de Dean que agora ficava com o profeta. Isso roubou a atenção da garota. Eliza colocou o arco sobre o armário enquanto Kevin ia atender o telefone.
— Alô.
— Você não é o Dean Winchester. — uma voz feminina soou despreocupada. — Quem é você, garoto?
— Um amigo. — Kevin limitou-se a dizer, já estava nervoso. — E você?
— Eu preciso falar com Dean Winchester, diga a ele que é Abbadon.
— Abbadon? — Kevin repetiu.
“Liga o viva voz!” sussurrava Eliza.
O garoto o fez, assim ela se aproximou do telefone devagar.
— E é urgente. — completou o demônio segundos depois. — Ou a culpa será só dele.
— O que você quer? — a voz áspera agora era de Eliza.
Houve um breve silencio.
— Não é seu problema, seja você quem for. Digam ao Winchester que estou esperando por ele em uma cidadezinha bem... Intima e aconchegante. E que traga o Crowley. — pausou. — Ou o que sobrou dele. Do contrário, os caçadores vão desaparecer da face da Terra um a um. Eu tenho alguns aqui comigo agora. E bom, arrancar a cabeça deles não seria nada mal.
— Onde você está? — Eliza fez sinal para que Kevin anotasse.
Abbadon começou a passar as coordenadas.
[...]
Lakewood, Colorado.
Quando o Impala parou em frente ao shopping Greenville o dia já começava a raiar. Na rua haviam carros da polícia, ambulâncias e bombeiros. Muita confusão. Sam e Dean – com os distintivos falsos de sempre – se meteram no meio, indo até o delegado. Era um homem baixo e corpulento que parecia ficar desconfiado ao ver os dois se aproximando.
— Agentes Cliff e Bonner. — Dean “apresentou” os dois mostrando a ele os distintivos.
— Delegado Wilson. — o homem respondeu em tom de cumprimento.
— Queremos saber qual é a situação? — Sam perguntou.
O homem observou os dois por um momento.
— O que o FBI tem a ver com isso?
Sam e Dean se entreolharam.
— Estamos atrás de uma pista. — explicou Sam, sua mentira soava convincente. — Na verdade, achamos que uma série de casos estão ligados a este.
O delegado maneou a cabeça.
— Soubemos que algumas pessoas foram atacadas pelos guardas do shopping, sabem quantos eram mais ou menos? — começou Dean.
— Oito guardas estavam trabalhando no shopping no final da tarde de ontem. O que se sabe é que foi tudo muito repentino. Haviam cerca de trinta pessoas dentro do shopping entre funcionários e clientes, mas só quatro sobreviveram.
— E o estado das vítimas? — perguntou Dean.
— Os sobreviventes estão em estado de choque, mas além disso apresentam lesões e queimaduras graves. Alguns estão mentalmente debilitados. — pausou. — Quero dizer, não dizem coisa com coisa... Mas os corpos, esses foram mutilados. Foram totalmente desfigurados. Não parecem coisa feita por humanos, eu até diria que foram animais que não tem o mínimo de sentimento.
— Então... Não há nenhum motivo aparente para os crimes? — Dean continuou fazendo as perguntas.
— Estamos procurando nas fitas do sistema, mas o que sabemos é que algumas estão danificadas. — disse ele. — Os sobreviventes relatam coisas sem sentido sobre o que aconteceu.
— Coisas sem sentido?
— Eu vou ficar devendo informações a respeito disso, o policial que está tomando nota está no hospital geral nesse momento com os sobreviventes.
— Nós vamos até lá. — disse Sam.
— Qualquer novidade nos ligue. — completou Dean dando um cartão ao delegado.
[...]
Bunker dos Homens das Letras.
— Castiel, precisamos conversar! — Eliza disse séria.
Castiel encarou-a com atenção.
Sabia que Eliza tinha algum assunto tenso lhe incomodando.
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