Lost Heroes

2 Prólogo: Noite Sangrenta


A noite estava alta, as estrelas brilhavam acima do céu limpo, acompanhadas por uma lua minguante que parecia feita de prata. Sentado sobre um parapeito de mármore branco, Necron Drake mirava esse céu, com os olhos fechados, o vento frio fazendo os cabelos negros se irisarem ainda mais. Por um momento permaneceu assim, antes de abrir os olhos azuis e volta-los para chão. Num único movimento, levantou-se sobre o parapeito, inclinando a cabeça, ao notar logo abaixo, na escuridão, duas formas indistintas passarem correndo.

Dando um salto, Necron caía em linha reta em direção ao chão, rachando o piso de pedra ao cair apoiado no joelho esquerdo e na mão direita.

- Vocês tão perdidos? – Perguntou, sua voz demonstrando apenas curiosidade ao mirar os dois vultos, que paravam sua tentativa de se esconder entre as esculturas disformes espalhadas ali.

- Não, mas você está, Corrompido! – Gritou uma segunda voz, masculina e cheia de fúria, enquanto saía das sombras para a luz dos postes da rua. Tratava-se de um homem corpulento, musculoso e de pele bronzeada, cheia de marcas. Seus olhos pretos como carvão eram frios, porém uma fagulha de empolgação surgia, quando esticava a mão e gritava ordens para a noite. – Agora, rapazes!

Mal o homem havia terminado de falar, e das longas sombras em volta da entrada, surgiram inúmeros homens, de fardas pretas, seus capacetes ocultando os rostos, cada um com uma arma longa em riste e mirando Necron, num círculo fechado. O rapaz não se irritava ou espantava, apenas olhava as pessoas a volta um tanto confuso, parando no homem que gritara, chegando a conclusão de que devia ser o líder do bando.

Erguendo-se, o rapaz esticou a mão direita para o ar, como se fosse pegar algo.

- Redencion! – Soou seu grito, rasgando a noite. No mesmo momento a terra começou a rachar, de dentro para fora, como se algo estivesse tentando sair de dentro da terra. Atirando pedaços de piso para os lados, uma imensa espada, quase do tamanho de Necron, com um cabo vermelho e uma lâmina prateada exageradamente grande, saía da terra e parava, o cabo na mão do rapaz. Erguendo a Buster Sword, Necron a girou duas vezes, antes de apontar sua lâmina na direção do inimigo.

- Aaaaaaaahhh!! – Com um grito que mais parecia um rugido, o homem ergueu o punho, armado de uma estranha luva com vários mecanismos pequenos em si, correndo na direção de Necron.

Quando o homem chegava ao seu alcance, o rapaz simplesmente girava sua Redencion mais uma vez, levantando sua lâmina e a descendo sobre o punho fechado que pretendia lhe acertar. O homem dava um urro de dor ao ter sua mão arrancada, parando a frente de Necron e se curvando arfante sobre o que restava do pulso. Vendo o inimigo se curvar, Necron dava rápido giro, com um chute estilo meia lua, que acertava-o no peito, fazendo o homem cair vários metros atrás de sua força armada.

Confusos com o fracasso de seu líder, os homens empunharam ar armas e dispararam uma chuva de tiros contra Necron. Com um sorriso empolgado se abrindo em seu rosto, o rapaz dobrava os joelhos e dava um salto para trás, caindo sobre uma das esculturas, alguns metros longe dos tiros. Antes que os homens tivessem notado, muitos haviam caído por tiros amigos. Mudando de tática, metade dos homens restantes voltava a atirar em Necron, enquanto a outra metade se virava e corria para a grande entrada de metal do prédio a sua frente.

Usando sua espada para deter os tiros em sua direção, o rapaz notava que os homens estavam na porta e descia da escultura. Correndo, girava Redencion, cortando ao meio as pessoas por quem passava.

Quando estava na metade do caminho, a grande porta dupla se abriu por inteiro, porém ninguém entrou. Parado, com uma espada fina e negra empunhada na mão direita, Lucien encarava os humanos com um riso sarcástico.

- Sabem do que eu rio? – Perguntou sua voz fria, não contendo o riso baixo. – Do seu hilário desespero...

Com essas palavras, Lucien levantou a espada horizontalmente e a brandiu. Quando a lâmina movia-se, um fino feixe de luz prateado saía, aumentando três vezes ao ir em direção aos homens. Antes que notassem, o feixe cortou o meio a primeira fileira, onde havia mais pessoas, sendo notadas apenas quando caíam aos pedaços no chão.

- Corram! – Gritou uma das vozes, indistinta. Ao mesmo tempo, todos os homens se viraram, e pararam novamente. Necron estava diante deles, sua Redencion brilhando em tons de vermelho sangue. Tomado pelo pânico, um dos homens à frente ergueu a arma, seus braços tremendo descontrolados, e disparou um tiro na sua direção.

Sentindo a bala acertar-lhe no lado direito da cabeça, Necron ergueu o rosto para cima de deu um grito de dor, antes de voltar a olhar para a frente, seus olhos azuis tomados de fúria. Levantando Redencion acima da cabeça, o rapaz a jogava com toda a força no chão, criando uma onda da mesma coloração da lâmina, que voava na direção dos homens restantes, cortando todos ao mesmo tempo, que caíam rasgados ao meio no chão pintado de sangue vermelho.

Sem dizer uma palavra, Lucien começou a atravessar o pátio com longas passadas, parando por fim na frente de Necron, que estava caído sobre os joelhos, a mão esquerda sobre o sangramento em sua cabeça, que escoria pelo rosto, caindo no chão.

- Fique quieto. – Foi a única coisa que Lucien disse ao rapaz, quando este erguia o rosto em sua direção. Vendo que Necron abaixava o rosto, em concordância, apoiava-se em um dos joelhos.

Porém, antes que algum dos dois fizesse algo, logo atrás, em um dos últimos andares do prédio branco que se erguia acima deles, uma luz branca e ofuscante apagava tudo no andar, sumindo quando uma explosão irrompia do mesmo lugar.

- Não! – Levantando-se de um salto, Lucien se voltou para o andar em chamas, deixando Necron sozinho no pátio enquanto dava um salto inumano e subia em outro prédio ao lado, saltando exatamente no meio do fogo logo depois.

Vendo Lucien sumir no interior do prédio, Necron se levantava, usando Redencion de apoio, e levantava o rosto para a entrada. Tirando a mão do rosto, deixava cair no chão uma pequena bala prateada, que esmagava ao andar alguns passos para a frente. Menos de um segundo depois, as portas se abriram de novo, deixando passar cinco homens, de frada negra também, porém nenhum usava capacete e cada um tinha uma espada diferente.

- Ah... – Disse o líder, um homem alto, de cabelos loiros escuro, fumando um cigarro pequeno. – Conseguiram parar um deles. Bem, rapazes, acabem com ele!

Dois homens saíam da formação, empunhando ambos uma katana fina e longa, correndo na direção de Necron. O rapaz mirou longamente os soldados que se aproximavam, antes de empunhar Redencion e desatar a correr também. Chegando antes que os dois notassem, Necron girou a Buster Sword, atingindo o soldado da direita exatamente no peito, atravessando-o.

Notando finalmente o companheiro caído, o segundo homem se virou para Necron e com um meio passo para o lado, ia em sua direção novamente.

- Desgraç...! – O homem não conseguiu terminar a frase, pois Necron segurava seu rosto com a mão esquerda, cuja luva começava a ser rasgada por afiadas e longas garras negras. Apertando a mão até que as garras quase atravessassem o crânio do homem, o rapaz o largou no chão, onde não se levantou. Empunhando duas espadas normais, de lâminas retas e curtas, outra dupla se pôs a frente do líder, cuja frieza dava lugar ao nervosismo.

Porém, antes que os dois se aproximassem, Necron se curvou, quase tocando o chão, cravando as garras no piso e raspando o mesmo, enquanto suas costas se rasgavam em duas formas negras. Esticando suas longas asas, que lembravam asas de morcego, porém muito maiores; Necron se levantava novamente, crispando as garras ao mesmo tempo. Os dois homens tremeram diante do novo monstro que se erguia a sua frente, um deles dando um passo para trás.

Antes que algum deles pudesse reagir, Necron dava um longo salto para a frente, atingindo os dois ao mesmo tempo, ocultando os três em suas asas.

- Que tipo de monstro esse lunático criou?! – Gritou o líder, o cigarro caindo no chão quando seu queixo caía, ao ver as asas de Necron se abrirem novamente, mostrando os corpos dos dois homens, com um buraco no peito.

- Monstro? – Retrucou Necron, sua voz saindo confusa. Num pequeno salto, o rapaz caiu sobre o homem, segurando seus braços contra o chão com as garras. – Só por causa da minha aparência? Monstros são vocês, humanos, que matam só por diversão!

- Você é louco! – Gritou o homem, sem entender o que Necron dizia. – Mas não importa... Logo o mundo estará livre de aberrações como você... Nunca vão achar os Digivices a tempo de vencerem!

Jogando a cabeça para trás, o homem começou a rir de um jeito demente, enquanto Necron estreitava os olhos e erguia as garras, atravessando seu rosto e cravando as mesmas no chão até rachá-lo.

- Eu... Não... Sou... Uma... Aberração!! – Gritava Necron, cravando as garras no homem a cada palavra, até parar, arfando de raiva, ao ver o que fizera com seu rosto. Levantando-se, olhou para as garras por um momento, antes que sumissem, assim como suas asas, deixando Necron com aparência humana novamente.

Dando as costas ao homem, caminhava lentamente até sua Redencion, e recolhia a espada do chão, virando-se novamente para entrar. Antes que desse um passo para a frente, o rapaz estancava ao ver a sua frente Lucien, uma expressão calma, os braços cruzados as costas, como sempre fazia.

- Acho que você já soube... – Disse Lucien, dando uma rápida olhada para o homem próximo da porta, antes de se voltar novamente para Necron.

- Sim... – Foi a única coisa que o rapaz respondeu, abaixando o rosto, como se estivesse se culpando por alguma coisa.

- Bem... Acho melhor entrar, você está horrível. E é melhor estar bem, temos que resolver esse problema amanhã. – Aconselhou Lucien, desviando o olhar e andando a volta, examinando o que sobrara da batalha. Sem dizer nada, Necron começou a se aproximar da porta, a lâmina de Redencion raspando no chão com um som irritante, soltando minúsculas fagulhas em alguns pontos.

- Eu não sou um monstro... não é? – Perguntou o rapaz em voz baixa enquanto andava, olhando para os lados, para a destruição pelo qual fora responsável.

- Você disse algo, Necron? – Soou a voz de Lucien logo atrás, um pouco abafada pelo ruído contínuo do metal no chão de pedra.

- Não... – Disse Necron, entrando pela porta dupla e voltando para dentro do prédio, deixando as mortes

e a destruição que causara para trás...