Lost Heart
1 Sob as Cerejeiras
Notas iniciais
A primavera chegava cedo ao Seireitei.
O aroma das cerejeiras espalhava-se pelas ruas de pedra, misturando-se ao perfume da madeira recém-polida dos antigos dojos pertencentes às famílias nobres. O vento atravessava lentamente os grandes portões, carregando consigo pétalas rosadas que dançavam pelo ar antes de repousarem sobre os telhados escuros das mansões.
Era uma manhã tranquila. Silenciosa. Ao menos para quem observava de fora.
Kuchiki Byakuya caminhava alguns passos atrás de seu avô, mantendo a postura impecável que aprendera desde os primeiros anos de vida. As mãos permaneciam escondidas dentro das mangas do pequeno haori branco. Os cabelos negros, cuidadosamente presos por uma fita, balançavam discretamente conforme acompanhava o ritmo firme e constante de Ginrei.
Nenhum dos dois dizia uma palavra. Não era necessário. Desde muito cedo Byakuya aprendera que o silêncio também fazia parte da educação de um Kuchiki. Ainda era uma criança, mas isso pouco importava. Desde que aprendera a caminhar, escutava sempre as mesmas frases repetidas incontáveis vezes:
“Você será o próximo líder do clã. Precisa se portar como tal.” ou ainda “Nunca se esqueça o peso do seu sobrenome. Um Kuchiki jamais demonstra fraqueza.”
No começo aquelas palavras não faziam sentido, hoje... já faziam parte do jovem, gravadas no próprio sangue. O destino parecia ter sido escrito muito antes de seu nascimento. Um dia herdaria o comando do clã Kuchiki. Ocuparia uma cadeira entre os capitães do Gotei 13. Carregaria responsabilidades grandes demais para qualquer homem. Não era uma promessa, era um fato. E, por isso, treinava dia após dia.
Shihoin Yoruichi insistia que controlasse sua reiatsu antes mesmo de aprender qualquer outra técnica.
“Uma espada forte sem controle apenas corta o próprio dono.”
Uma frase que jamais esquecia e que ela sempre fazia questão de lembra-lo.
Enquanto caminhava, Byakuya observava discretamente o avô. Ginrei mantinha a mesma expressão serena de sempre, porém havia algo de diferente. Os ombros estavam um pouco mais rígidos e o passo... ligeiramente mais lento. Ele conhecia o suficiente do avô para perceber. Estava nervoso. Isso era estranho. Pouquíssimas pessoas eram capazes de deixar Kuchiki Ginrei apreensivo.
Quando atravessaram o enorme torii de madeira avermelhada, Byakuya compreendeu o motivo.
À frente deles, parado na entrada do dojô principal do clã Genryusai, estava um velho de longas sobrancelhas e barba branca que quase tocava o peito.
Mesmo a figura à frente mantendo sua reiatsu praticamente inexistente... O ambiente parecia diferente. Pesado. Não por medo, mas por respeito. Era impossível olhar para a figura e não sentir vontade de endireitar a postura.
Genryusai Shigekuni Yamamoto, Capitão-Comandante da Gotei 13. O homem mais forte da Soul Society.
Byakuya imediatamente curvou-se, assim como Ginrei, que logo disse:
-É uma honra revê-lo, Capitão-Comandante.
Yamamoto voltou o olhar lentamente para o garoto. Seu semblante permaneceu inalterado, mas seus olhos demonstravam atenção.
-Então esse é o jovem Byakuya... – sua voz era grave. Calma. – Cresceu bastante desde a última vez.
-Agradeço suas palavras. – o jovem disse prontamente.
Ginrei sorriu discretamente.
-Meu neto dedica-se bastante aos treinamentos. – diz o avô.
-Vejo isso. – Yamamoto respondeu. Nada a mais. Nenhum elogio exagerado, nenhuma formalidade desnecessária. Era um homem de poucas palavras. Depois voltou-se para Ginrei. – A reunião já está preparada.
Ginrei assentiu.
-Byakuya. – ele se virou para o jovem.
-Sim, senhor.
-Aguarde do lado de fora.
Byakuya fez uma pequena reverência.
-Como desejar.
Antes de entrarem, porém, Yamamoto voltou a olhar para o garoto. Dessa vez... Algo diferente aconteceu. Um sorriso. Pequeno. Quase imperceptível, mas existiu.
-Minha filha está nos jardins.
Byakuya ergueu discretamente o olhar.
“Filha?”, manteve em pensamento. Por algum motivo, jamais imaginaria que o Capitão-Comandante tivesse uma família.
-Talvez vocês se deem bem. – Yamamoto continuou.
Ginrei concordou e olhou para o jovem.
-Vá cumprimenta-la.
-Sim, senhor.
Os dois homens desapareceram atrás das grandes portas do dojô. O silêncio voltou a dominar o lugar. Byakuya permaneceu parado durante alguns segundos. Depois respirou fundo e seguiu pelo caminho de pedras indicado por Yamamoto.
À medida que caminhava o barulho da cidade desaparecia. O canto dos pássaros tornava-se mais presente. As cerejeiras formavam um corredor natural até os jardins internos do clã Genryusai. Era um lugar surpreendentemente bonito. Muito diferente do que imaginava encontrar na residência do homem conhecido como o mais poderoso da Soul Society.
Um pequeno lago refletia o céu azul. Algumas carpas atravessavam lentamente a superfície da água e, de costas para ele... Estava uma garota.
Ela usava um simples kimono branco de treinamento. Os longos cabelos negros estavam presos em um rabo de cavalo alto. Permanecia completamente imóvel. Observando apenas as pequenas ondas do lago.
Byakuya lembrou-se imediatamente dos treinamentos com Yoruichi.
“Controle sua presença. Mesmo andando sobre folhas secas, ninguém deve perceber que você chegou.”
Ele reduziu ainda mais sua reiatsu. Respirou lentamente. Deu um passo. Depois outro. Mais um. Estava a poucos metros. Então...
-Pode parar por aí.
Byakuya congelou. A garota sequer havia olhado para trás. Continuava observando o lago como se soubesse exatamente onde ele estava desde o primeiro instante.
-O que veio fazer aqui? – perguntou. A voz era calma, mas havia uma autoridade inesperada para alguém daquela idade.
Byakuya recompôs imediatamente a postura.
-Vim me apresentar. Sou Kuchiki Bya- antes que pudesse terminar ela virou apenas o rosto.
Olhos violeta. Brilhantes. Expressivos. Hipnotizantes. Havia algo extremamente vivo naquele olhar.
Ela analisou Byakuya de cima a baixo. Demoradamente. Depois suspirou.
-Ah... Mais um engomadinho.
Byakuya piscou. Confuso.
-Perdão?
Ela finalmente virou o corpo inteiro. Cruzou os braços.
-Outro riquinho metido à besta. – suspira novamente. – Não precisa se apresentar. Já conheço o tipo.
Pela primeira vez em muito tempo... Byakuya perdeu completamente a resposta. Permaneceu alguns segundos sem responder.
Não porque não pudesse formular uma resposta, mas porque jamais imaginara ouvir aquelas palavras. Engomadinho? Ninguém jamais ousaria dirigir-se a ele daquela maneira. Muito menos uma garota que acabara de conhecer.
Endireitou a postura.
-Tem noção de com quem está falando? – ele perguntou levemente irritado.
Ela arqueou uma sobrancelha. Depois inclinou levemente a cabeça, como se realmente estivesse pensando.
-Tenho. – respondeu.
Silêncio.
-Um engomadinho. – ela completou.
Byakuya sentiu o canto do olho tremer. Aquilo definitivamente não fazia parte de nenhum dos ensinamentos de Yoruichi.
A garota então suspirou dramaticamente.
-Você vai ficar bravo toda vez que eu falar isso?
-Não estou bravo. – respondeu.
Ela sorriu.
-Tá sim.
-Não.
-Tá.
-Não.
Ela levou uma das mãos aos queixo, como se analisasse algo profundamente.
-Hum...
-O quê? – o jovem perguntou.
-Você faz uma cara engraçada quando mente.
Byakuya respirou fundo.
“Controle suas emoções. Jamais permita que o adversário perceba seu estado emocional.”
Yoruichi repetia aquilo todos os dias. Ele fechou os olhos por um instante. Inspirou. Expirou. Quando voltou a abri-los... A garota havia desaparecido.
...
Seus instintos reagiram imediatamente. Virou o corpo. Tarde demais.
-Procurando isso? – ela estava atrás dele segurando a fita preta que prendia seus cabelos.
Byakuya levou a mão à cabeça por puro reflexo. Ela realmente havia conseguido. Sem que percebesse os cabelos negros caíram sobre seus ombros. Ela girava a fita entre os dedos como um troféu.
-Não acredito... – ele deixou escapar.
Ela aproximou o rosto, observando-o atentamente.
-Você é até bonito sem isso.
Byakuya arregalou discretamente os olhos. Corou. Muito pouco, mas corou.
Ela abriu um sorriso vitorioso.
-Agora eu consegui!
-Devolva.
Ela levantou a mão.
-Pega.
Num único impulso, Byakuya desapareceu usando shunpou. Apareceu exatamente diante dela, estendeu a mão para pegar a fita, mas Akane já não estava mais ali. Ela reapareceu em cima de uma pedra alguns metros atrás.
-Muito lento.
Ele virou imediatamente. Ela lançou a fita para o alto. Byakuya alcançou o objeto antes que tocasse o chão. Prendeu novamente os cabelos. Respirou. Inspirou. Expirou. Quando terminou... Akane estava observando tudo com os braços cruzados.
-Você realmente demora um tempão pra arrumar esse cabelo.
-Aparência também demonstra disciplina.
-Nossa – ela fez uma careta. – Você fala igual um livro.
-Chama-se educação.
-Chama-se chatice.
Silêncio.
Akane começou a andar ao redor dele. Devagar. Como quem analisa um oponente. Ou um quebra-cabeça.
Byakuya permaneceu imóvel.
Ela parou bem na sua frente. Bem perto. Olhou diretamente em seus olhos. Ele sustentou o olhar. Nenhum dos dois desviou. Depois de alguns segundos... Ela sorriu.
-Você não faz ideia do quanto isso vai ser divertido
-Do que está falando?
-De fazer você perder essa pose.
-Isso não acontecerá.
Ela deu um passo para trás e cruzou os braços.
-Aposta?
-Não faço apostas. – o jovem respondeu prontamente.
-Porque sabe que vai perder? – ela arqueou uma das sobrancelhas em provocação.
-Porque são inúteis.
-Orgulhoso. – ela apontou para ele.
-Disciplinado.
-Teimoso.
-Persistente.
-Metido.
-Confiante.
Ela ficou alguns segundos olhando para o céu e depois concluiu:
-Vai dar trabalho.
-Concordo. – Byakuya respondeu imediatamente.
-Finalmente falou uma coisa inteligente. – ela sorriu.
O vento voltou a atravessar o jardim. Algumas pétalas de cerejeira caíram lentamente sobre o lago. Por alguns segundos nenhum dos dois falou.
Byakuya observava discretamente o lugar. Era um jardim simples. Sem a imponência dos jardins do clã Kuchiki, mas havia algo... Vivo. As árvores cresciam sem uma simetria perfeita. As pedras pareciam colocadas mais pela natureza do que por jardineiros. Não existia a necessidade de controlar tudo. Aquilo o intrigava.
Akane percebeu seu olhar.
-Gostou?
Ele demorou alguns segundos para responder.
-É diferente.
-Meu pai odeia quando mexem nas árvores. – ela caminhou até uma das cerejeiras. Passou a mão delicadamente pelo tronco. – Diz que elas sabem crescer sozinhas.
Byakuya olhou para ela e depois para a árvore. Era uma resposta inesperada. Não combinava com a imagem severa do Capitão-Comandante.
Akane riu.
-Todo mundo faz essa cara quando descobre que ele não passa o dia inteiro brigando com as pessoas.
-Ele parece...
-Asssustador? – ela completou.
Byakuya assentiu discretamente. Ela sorriu.
-Às vezes ele é. – concordou, depois olhou novamente para a árvore. – Mas também é o homem mais gentil que eu conheço.
Byakuya permaneceu em silêncio. Aquela frase ficou ecoando dentro dele. Ele próprio jamais usaria a palavra “gentil” para descrever Yamamoto. Nem em pensamento.
Akane se virou novamente para ele e bateu as mãos uma na outra.
-Chega de conversa. – ela caminhou até um suporte de madeira próximo ao lago. Duas espadas de treino repousavam ali. Pegou uma e depois lançou a outra na direção dele.
Byakuya segurou-a no ar quase por reflexo. Ela girou a própria espada sobre os ombros.
-Vamos lutar.
Ele olhou para a espada e depois para ela.
-Acabamos de nos conhecer. Eu sequer sei seu nome.
-Justamente. E o nome é Akane.
-Isso não faz sentido.
-Faz. – ela apontou a espada para ele. O sorriso desapareceu. Pela primeira vez seu olhar mudou completamente. A brincadeira havia acabado. – Quero saber se você é tão bom quanto acha que é.
O vento soprou novamente. As pétalas atravessaram o espaço entre os dois.
Byakuya sentiu algo mudar no ambiente. A garota brincalhona havia desaparecido. Em seu lugar... restava apenas uma espadachim.
Ele segurou a bokken com as duas mãos. Assumiu postura. Respirou.
Akane sorriu outra vez, mas dessa vez era diferente. Não era um sorriso de quem provocava, era o sorriso de alguém que simplesmente... Adorava lutar.
Byakuya deslizou lentamente o pé direito para trás. A espada de madeira repousava firme entre as mãos. A postura era impecável. Sem abertura. Sem movimentos desnecessários. Tudo exatamente como aprendera.
Akane observava. Os olhos violetas percorriam cada detalhe.
Os pés. A posição dos ombros. A respiração. A forma como ele distribuía o peso do corpo.
Riu. Baixinho.
-O quê? – perguntou Byakuya.
Ela girou a espada nos dedos.
-Você parece um manual de esgrima.
-Isso é um elogio? – ele franziu a testa.
-Ainda não decidi.
Silêncio.
Uma pétala caiu entre os dois. Nenhum deles se moveu. Foi Akane quem quebrou o silêncio.
-Posso fazer uma pergunta?
-Faça.
-Você sempre pensa tanto antes de agir?
-Sim.
-Deve ser cansativo.
Byakuya ergueu discretamente a espada.
-Terminou?
-Agora sim. – ela sorriu.
Num único impulso, desapareceu. O som do shunpo ecoou pelo jardim.
Byakuya moveu apenas os olhos.
“... Pela direita.”
Girou a espada.
Tac!
As bokkens se encontraram. O impacto espalhou pequenas lascas de madeira pelo chão.
Akane arqueou as sobrancelhas.
-Boa.
Empurrou a espada dele para o lado. Tentou girar o corpo.
Byakuya já havia dado um passo para trás. Mantinha a distância perfeita.
Ela sorriu novamente.
-Você foge bastante.
-Chama-se manter vantagem.
-Eu chamo de fugir. – ela avançou outra vez.
Agora mais rápida. Um golpe horizontal. Outro na sequência. Mais um.
Byakuya defendia todos. Cada movimento era mínimo. Precisão absoluta. Nada sobrava. Nada faltava.
-Você realmente treina desse jeito?
Tac
-Sim.
Tac
-Todos os dias?
Tac
-Sim.
Ela girou o corpo. Tentou acertar suas pernas.
Ele saltou. Pousou exatamente onde queria.
-Nossa... – ela apoiou a espada sobre o ombro. – Você é chato até lutando.
Byakuya finalmente atacou. Um único golpe. Reto. Preciso. Sem floreios.
Akane bloqueou. Sentiu os pés deslizarem alguns centímetros. Os olhos brilharam.
“Ele é forte”, constatou em silêncio. Não apenas habilidoso. Forte. Ela sorriu ainda mais. Agora parecia realmente feliz.
-Finalmente!
Byakuya inclinou levemente a cabeça.
-Finalmente o quê? – questionou.
-Achei alguém que consegue acompanhar meu ritmo.
Ela desapareceu outra vez. Desta vez, não reapareceu imediatamente.
Byakuya fechou os olhos. Yoruichi lhe ensinara algo: “Nem tudo pode ser visto. Aprenda a ouvir.”
Respirou.
O vento.
As folhas.
A água do lago.
Passos.
Atrás.
Virou o corpo.
Tac!
As espadas voltaram a se encontrar. Akane arregalou discretamente os olhos.
-Você ouviu...
-Seus passos.
-Que sem graça. – ela fez um bico.
-Não achei.
Ela afastou a espada. Caminhou alguns passos. Coçou a nuca.
-Tá bom... Agora fiquei curiosa.
Byakuya permaneceu atento.
-Curiosa?
Ela voltou a sorrir, daquele jeito travesso.
-Quero descobrir como fazer você perder a calma.
-Não vai conseguir. – ele respondeu imediatamente.
-Hum... – ela levou um dedo aos lábios. Pensando. Depois abriu um sorriso enorme. – Já sei.
Byakuya sentiu um arrepio. Não sabia por quê. Mas tinha certeza de que aquela expressão significava problema.
Ela começou a andar lentamente ao redor dele outra vez. Sem atacar. Sem levantar a espada. Só observando.
-Você é filho único?
Ele hesitou por um instante.
-Sou.
-Nunca brigou com irmãos?
-Não.
-Dá pra perceber.
Byakuya franziu a testa.
-O que quer dizer?
Ela parou bem na frente dele. Sorriu.
-Você nunca precisou dividir nada.
-Está errada.
-Ah, é?
-Divido responsabilidades com todo meu clã.
Akane ficou olhando para ele.
-Você respondeu igual um adulto. – suspirou.
Silêncio.
Então perguntou baixinho.
-Você sabe responder como uma criança?
A pergunta atingiu Byakuya de um jeito estranho. Ele... Não sabia. Ou talvez nunca tivesse pensado nisso.
Akane percebeu e, pela primeira vez desde que começaram a conversar... O sorriso desapareceu. Ela não debochou. Não provocou. Apenas olhou pra ele com uma curiosidade sincera.
“Ele realmente não sabe...”
Naquele instante Akane compreendeu algo que jamais imaginara. O garoto a sua frente não era arrogante. Era solitário. Sua postura impecável não escondia orgulho. Escondia anos tentando corresponder às expectativas de um sobrenome grande demais para uma criança.
Ela sentiu uma pontada estranha no peito. Como se tivesse descoberto um segredo que nem o próprio Byakuya conhecia. Então... Fez a única coisa que lhe pareceu natural. Abaixou completamente a espada. Sentou-se na grama. Assim. No meio da luta.
Byakuya piscou. Confuso.
-O que está fazendo?
Ela apontou para o chão ao lado dela.
-Senta.
-Ainda estamos lutando.
-Estamos? – ela olhou ao redor. – Achei que estivéssemos conversando.
-Você me chamou para um duelo.
-Chamei.
-Então?
-Cansei. – ela deu de ombros.
Byakuya permaneceu parado. Com a espada em mãos. Sem entender absolutamente nada.
Akane cruzou as pernas. Pegou uma pequena pedra no chão e começou a girá-la entre os dedos.
-Você leva tudo muito a sério.
-Porque é importante.
-É. – assentiu. Silêncio. Depois olhou novamente para ele. – Mas sabe... Às vezes é bom só sentar um pouquinho.
O vento voltou a soprar. As cerejeiras balançaram suavemente.
Byakuya permaneceu em pé durante alguns segundos. Depois cravou a espada de madeira no chão. Caminhou até ela e sentou-se ao seu lado. Sem dizer uma palavra.
Akane sorriu de canto. Não porque havia vencido, mas porque pela primeira vez naquele dia o garoto que carregava o nome Kuchiki simplesmente havia se permitido ser Byakuya.
Os dois permaneceram em silêncio.
A água do lago ondulava lentamente sempre que uma brisa atravessava o jardim.
Akane apoiou as duas mãos para trás do corpo. Ergueu o rosto e fechou os olhos.
-Escuta.
Byakuya olhou ao redor.
-O quê?
-O silêncio.
Ele permaneceu imóvel. Silêncio.
Alguns pássaros cantavam ao longe. As folhas de cerejeiras balançavam suavemente. O som da água encontrando as pedras da margem preenchia o jardim.
Depois de alguns segundos Byakuya respondeu.
-Há muito barulho.
Ela abriu um dos olhos e sorriu.
-Exatamente. – disse.
Ele franziu a testa.
-Você chamou isso de silêncio.
-Porque é. – pegou outra pequena pedra do chão e girou-a entre os dedos. – O silêncio não é quando não existe som. – ela lançou a pedra. A pequena superfície do lago ondulou. – É quando a cabeça para de fazer barulho.
Byakuya ficou olhando para as ondas se espalhando. Não respondeu. Porque... Não entendia.

Akane percebeu. Sorriu novamente.
-Você pensa demais.
-Isso é ruim?
-Não. – ela deu de ombros. – Mas deve cansar.
Os dois voltaram a ficar em silêncio.
Akane passou alguns segundos apenas observando as carpas até que perguntou, sem desviar os olhos da água:
-Você tem amigos?
A pergunta pegou Byakuya desprevenido. Ele demorou para responder.
-Tenho.
-Quem?
Silêncio. Mais alguns segundos antes de responder.
-Minha instrutora.
Akane virou a cabeça lentamente para ele.
-Sua instrutora?
-Shihoin Yoruichi.
Ela sorriu.
-Ela é sua amiga?
Byakuya pensou. Muito. Depois respondeu:
-Acho que sim.
-“Acho?” – ela sorriu. – Você realmente não sabe?
Ele desviou o olhar.
-Nunca pensei nisso.
-Então deixa eu reformular. – ela apontou pra ele. – Se você estivesse triste... Iria procurar por ela?
Byakuya respondeu imediatamente:
-Sim.
-Então ela é sua amiga. – sorriu. – É simples. – disse como se aquilo fosse óbvio.
Byakuya ficou olhando para ela. Era curioso. Ela enxergava resposta em perguntas que ele nunca havia feito.
Akane levantou novamente os olhos para o céu.
-Eu também não tenho muitos amigos.
Byakuya a olhou, surpreso.
-Achei que tivesse.
-As pessoas têm um pouco de medo do meu pai. – ela sorriu de lado.
-Imagino.
Ela riu.
-Um pouco é jeito de falar. – disse ainda sorrindo. Depois ficou pensativa. – Quando eu era menor... Todo mundo era educado comigo, mas... – ela apertou a pedrinha na mão. – Sempre porque eu era filha do Capitão-Comandante. Nunca porque era só a Akane.
Byakuya sentiu algo estranho ao ouvir aquilo. Era... Igual.
-Você já reparou? – ela continuou.
Ele permaneceu em silêncio.
-Quando os adultos falam com você... Eles nunca dizem “Byakuya”. Eles dizem “O jovem Kuchiki. – fez uma voz grave, imitando os mais velhos. -Comigo é igual. – ela voltou à própria voz. – Acho que somos duas crianças que nasceram velhas.
Byakuya baixou discretamente os olhos. Aquela frase doeu porque era verdade.
Depois de mais um tempo em completo silêncio, Akane deu um leve empurrão em seu ombro.
-Ei.
Ele olhou pra ela.
-Posso fazer mais uma pergunta?
-Você já fez várias.
-Essa é importante.
Ele suspirou.
-Faça.
Ela inclinou um pouco o corpo, como se fosse contar um segredo.
-Você sorri?
Silêncio.
-Como? – Byakuya piscou.
-Sorri. – ela apontou para o próprio rosto. – Assim. – abriu um sorriso enorme, daqueles que iluminavam completamente sua expressão. – Você sabe fazer isso?
Byakuya permaneceu olhando para ela. Depois respondeu, completamente sério:
-Claro.
-Então faz.
Mais alguns segundos. Ele tentou. Muito. Os músculos do rosto pareciam simplesmente... Não obedecerem.
Akane observava atentamente. Esperando. Até que...
Ele conseguiu levantar muito discretamente o canto da boca. Foi um movimento tão pequeno que quase passou despercebido.
Akane arregalou os olhos.
-Isso foi um sorriso?
-Foi. – Byakuya assentiu.
Ela caiu na gargalhada. Livre. Sincera. Daquelas que faziam o corpo inteiro balançar.
Byakuya a observava completamente sem entender.
Ela tentava parar. Não conseguia. Enxugou até uma lágrima do canto do olho.
-Desculpa. – respirou fundo. – Mas... – ela voltou a rir. – Pareceu que seu rosto estava doendo.
Byakuya cruzou os braços.
-Não achei engraçado.
-Tá bom... – ela respirou fundo novamente, tentando recuperar a compostura. – Tá bom... Prometo que não rio mais.
Silêncio.
Ela olhou para ele. Os dois se encararam.
Byakuya permaneceu sério.
Ela tentou segurar. Tentou muito. Cinco segundos. Seis. Sete. Então começou a rir outra vez. Mais alto ainda.
Byakuya soltou um longo suspiro.
-Você é impossível. – levou a mão ao rosto.
-Desculpa... – Akane respirava com dificuldade de tanto rir. – É que... – ela tentou imitá-lo e fez exatamente o mesmo “sorriso”.
A expressão ficou tão exageradamente séria que agora era Byakuya quem precisava fazer força para não rir.
Akane percebeu. Parou imediatamente. Aproximou o rosto. Os olhos brilhavam.
-Espera... – apontou para ele. – Você quase sorriu.
-Não sorri. – ele desviou o olhar.
-Quase.
-Não.
-Quase.
Silêncio.
Akane abriu um sorriso vitorioso. Um sorriso pequeno, mas muito satisfeito. Ela não precisava fazê-lo rir naquele dia. Bastava saber que era possível.
Nesse exato instante, atrás de uma das cerejeiras do jardim, duas figuras observavam a cena em absoluto silêncio.
Ginrei cruzou os braços lentamente.
-Eu não esperava isso.
Yamamoto permaneceu imóvel.
-Nem eu.
Os dois voltaram os olhares para as crianças. Akane continuava falando sem parar, Byakuya respondia apenas o necessário, porém ele já não parecia desconfortável nem distante. Pela primeira vez Ginrei viu o neto agir como alguém da própria idade. Não havia o futuro líder do clã Kuchiki sentado à beira daquele lago.
Havia apenas um menino tentando entender uma garota completamente diferente de qualquer pessoa que conhecera.
-Ela tem um dom curioso. – Ginrei sorriu discretamente.
Yamamoto não respondeu. Seus olhos permaneciam fixos na filha. Sabia exatamente o que era aquele dom.
Desde pequena, Akane possuía uma habilidade rara que nada tinha a ver com reiatsu, espada ou talento. Ela fazia as pessoas baixarem a guarda. Sem perceber. Sem esforço. Como se, por alguns instantes, elas se lembrassem de quem eram antes do peso de seus nomes.
Yamamoto fechou os olhos por um breve momento e, pela primeira vez naquele dia, permitiu-se desejar uma única coisa: Que aquela primavera durasse para sempre. Mesmo sabendo que algumas estações jamais obedecem ao desejo dos homens.
O jardim voltou a ficar silencioso.
Byakuya e Akane continuavam sentados à beira do lago enquanto o sol avançava lentamente pelo céu.
Ao longe, Ginrei chamou o neto.
-Byakuya.
O garoto levantou imediatamente.
-Sim, senhor.
-Já? – Akane fez uma careta.
-Receio que sim. – o velho sorriu discretamente.
Byakuya recolheu a espada de madeira. Antes de partir, voltou-se para Akane. Os dois permaneceram alguns segundos sem dizer nada.
-Então.... – ela foi a primeira a quebrar o silêncio.
Ele esperou.
-Você perdeu.
Byakuya piscou.
-Perdão?
-Eu consegui fazer você quase sorrir. – ela abriu um sorriso travesso.
-Quase não conta. – ele respondeu quase que imediatamente.
-Conta sim.
-Não.
-Conta.
-Não.
Ela estendeu a mão.
-Então faz uma aposta comigo.
Ele arqueou uma sobrancelha e depois suspirou.
-Da próxima vez que vier aqui... – ela continuou. – Vou fazer você rir.
-Isso não acontecerá. – ele respondeu com a serenidade de sempre.
-Você fala isso pra tudo. – ela sorri.
-Porque é verdade.
-Então estamos combinados. – Akane cruzou os braços e depois apontou pra ele. – Até a próxima, engomadinho.
Byakuya respirou fundo.
-Até a próxima... Akane.
Ela congelou. Por um instante. Apenas um instante. Depois sorriu. Um sorriso diferente de todos os outros daquele dia. Pequeno. Quase tímido. Porque percebeu algo. Ele não a chamara de “filha do Capitão-Comandante” nem de “Senhorita Genryusai”. Sequer usou qualquer formalidade. Apenas... Akane.
Ela levantou a mão em despedida.
-Até logo, Byakuya.
Pela primeira vez... Os dois haviam dito apenas os nomes um do outro. Nada mais.
Naquela madrugada...
Enquanto todo o Seireitei dormia... Uma pequena luz permanecia acesa no dojô Genryusai. O sol sequer havia despontado no horizonte. O jardim ainda estava coberto pela névoa da madrugada e o som de madeira ecoava sozinho.
Tac.
Uma espada de madeira desceu.
Tac.
Mais um golpe.
Tac.
Outro.
Akane respirava pesadamente. Os cabelos pretos estavam presos de qualquer maneira. Algumas mechas já grudavam em seu rosto por causa do suor. Ela repetia exatamente o mesmo movimento. Sem parar. Sem reclamar. Sem hesitar.
A sua frente, Yamamoto permanecia sentado em posição de meditação. Os olhos fechados. Parecia sequer observar.
-Seu cotovelo.
Akane corrigiu imediatamente. Sem responder. Mais cinquenta golpes. Mais cinquenta. Mais cinquenta. O peso da espada parecia aumentar a cada minuto. As mãos pequenas já estavam vermelhas. Pequenas rachaduras começavam a surgir entre os dedos. Ela apertou ainda mais o cabo.
Continuou.
O céu começou a lentamente clarear. Os pássaros cantavam. Mas ela não diminuía o ritmo.
-Respiração. – Yamamoto voltou a falar.
Ela ajustou o corpo. Outro golpe.
Outro.
Outro.
Até que... A espada escapou de sua mão e caiu sobre a terra úmida.
Akane permaneceu parada, respirando com dificuldade. Olhava para a própria mão. Pegou novamente a espada.
Yamamoto abriu lentamente os olhos.
-Já chega por hoje.
Ela balançou a cabeça.
-Mais um pouco.
-Amanhã continuará.
-Só mais cem.
Silêncio.
Yamamoto observou a filha. Ela tremia de cansaço, mas seus olhos permaneciam determinados. Por fim ele fez um gesto afirmativo com a cabeça.
Akane sorriu. Não aquele sorriso travesso ou o que provocava Byakuya. Era um sorriso de satisfação, como uma criança que acabara de receber o melhor presente do mundo.
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