Lost Boy

1 Garoto Perfeito


Notas iniciais
Também conhecido como o prólogo do prólogo.

— Nessa terça-feira, 27 de setembro, o estudante de direito da Weston University foi dado como desaparecido. — O rosto penetrante da repórter foi substituído por uma foto do desaparecido. Um garoto na faixa dos vintes, bonito e com um sorriso aberto mostrando a perfeita fileira de dentes brancos. -Sebastian Michaelis, 24 anos, foi visto pela última vez na quarta-feira por volta das cinco da tarde na universidade. Seu carro foi achado estacionado no meio da estrada principal. O carro ainda está sendo analisado pela perícia. A foto de Sebastian Michaelis diminui na tela e passou a compartilhar espaço com a repórter.

Ela continuou falando como não havia sinal de violência no apartamento, como nenhum de seus pertences haviam sumido e como Sebastian era um jovem com um futuro brilhante pela frente e sem nenhum motivo para fugir. Ciel parou de ouvir quando a namorada chorosa de Sebastian deu uma entrevista, seguida pela mãe dele com um rosto pálido e o pai silencioso. Um detetive respondeu de forma breve à jornalistas sedentos.

— Sim.... Nós não podemos.... Não. Sim. -Ele dizia, o homem parecia não ter dormido a dias.

— Você acha que isso pode ter alguma conexão com o caso das garotas desaparecidas do começo do ano? — Um jornalista particularmente ousado perguntou, surpreendendo Ciel.

Ninguém realmente deu muita mídia ao caso das garotas. As garotas em questão tinham alguns empregos considerados... duvidosos. Strippers, prostitutas, nada que a polícia local passasse batendo muito batendo a cabeça, mesmo que onze delas tivessem simplesmente sumido entre janeiro e julho deste ano. Nenhum corpo. Nada. Assim como Sebastian Michaelis.

O detetive também se surpreendeu, ele piscou algumas vezes antes de limpar a garganta e dizer:

— Nós consideramos a hipótese, mas não temos nenhuma prova ainda. Agora vocês têm que me dar licença, como veem, temos muito trabalho à frente. — O detetive saiu do foco das câmaras sendo seguido pelo eco de jornalistas insatisfeitos.

Sua guardiã legal fez algum comentário, mas Ciel não a ouviu, ele estava encarando a mesa de madeira, o jornalista que citou os sequestros estava mais do que certo. Mas não da maneira que ele imaginava.

— Ciel? Ciel!

Ele levantou o olhar para sua mãe adotiva, que estava na frente da televisão, atrás dela dava para ver que o noticiário deu uma pausa no desaparecimento do jovem para falar sobre o clima da próxima semana.

— Ciel, você ouviu o que eu disse? — Angelina indagou, as mãos na cintura, modo mãe-repreendendo ativado.

Ciel escolheu não dizer nada e só a encarou com uma expressão vaga. Angelina suspirou e fechou os olhos, as mãos ainda na cintura, mas a postura de repreensão desmanchada. Por um momento ela pareceu bem mais velha do que ela era. Ciel pensou que ele deveria se levantar e ir abraçar ela, dizer que o que a aflitava -seja lá o que fosse- iria passar. Mas Ciel não era bom em contatos físicos, muito menos em confortar pessoas. Então ele só continuou olhando para a guardiã e se sentindo desconfortável. Foi a mãe adotiva que abriu os olhos e foi para perto de Ciel -para a cadeira onde ele estava sentado na mesa de jantar- e colocou uma mão em seu ombro.

Ele ficou esperando para ela dizer algo como para ele tomar cuidado nas ruas, só sair acompanhado e sempre ter o celular em mãos para atender às ligações que ela fazia em uma em uma hora. Mas ao invés de tudo isso ela só ficou lá parada, com a mão quente no ombro dele, olhando para nada em particular.

— Ann? — Foi ele que perguntou, se obrigando a dizer o apelido de infância para tentar trazer pelo menos um pouco de afetividade — Você tá bem?

Ela de repente pareceu notar o que ela estava fazendo, piscou e olhou para Ciel com um sorriso carinhoso, mas Ciel conseguiu ver como seus olhos estavam cheios de cautela.

— Não é nada, meu querido. Só um mau pressentimento. Besteira minha. Ela apertou de leve o ombro do sobrinho antes de se virar. — Bem, eu tenho que ir, vidas não se salvam sozinhas. — Ela entrou na cozinha e saiu com a bolsa em uma das mãos e a chaves do carro na outra. — Hoje é meu plantão então eu só volto amanhã à noite. Tem comida na geladeira, me ligue qualquer emergência. — ela sumiu por outra porta da casa e voltou com um jaleco branco sob o ombro. Angelina era médica no maior hospital da cidade. — Você não vai sair esta noite, não é? — Ela olhou para Ciel com um olhar que dizia "não, você não vai sair essa noite".

— Não, eu não vou sair. — Ela sorriu. — Mas o Alois disse que poderia passar aqui daqui a pouco.

— Ah, que ótimo. — Ela disse ainda sorrindo — Eu adoro o Alois. — Lógico, você não sabe nem da metade das coisas que ele faz, pensou — Ele vai ficar para dormir? — Ciel deu de ombros, sua tutora assentiu. — Bem, isso é esplêndido, vocês podem pedir pizza se quiserem tem dinheiro na gaveta. — Ela deu uma olhada no relógio dourado no pulso. — É oficial, eu preciso estar no caminho para o hospital em um minuto. Ela deu um beijo na testa de Ciel. — Até, meu amor. Eu te amo.

— Até. — Respondeu Ciel e observou ela se virar e sair de casa.

Ele não se moveu até ouvir o carro dar partida, sair da garagem e o som dele diminuir até se tornar inexistente. Ele se levantou então com um pulo. Em questão de segundos ele estava em seu quarto, em pé, encarando seu armário.

Ele o abriu, empurrou cabides para fora do caminho até conseguir ver o fundo de madeira dele. Alguém que não soubesse para onde olhar não o veria.

Mas Ciel sabia.

Ele puxou a pequena ponta branca presa no fundo do armário e a libertou, mostrando um papel quadrado, uma foto. Na foto haviam dois garotos. Eles estavam na beira de um rio, verde os cercando. O garoto menor tinha 16 anos e sorria para câmera de um jeito tímido, um simples puxar de lábios. Mas a pessoa certa veria o brilho em seus olhos azuis. E a pessoa certa estava do lado dele. Olhos castanhos que lembravam vermelho do jeito que o sol batia neles na foto, cabelos escuros brilhando e aquele sorriso que poderia encantar qualquer um. Ele era perfeito, Ciel pensou sentindo um aperto na barriga, perfeito, perfeito. Garotas suspiravam por ele, garotos queriam ser ele e todo esse tipo de baboseira. Ele era perfeito e era de Ciel.

Do lado de trás da folha, poucas palavras escritas com caneta preta com uma caligrafia impecável.

Um homem muito mais esperto do que eu uma vez disse: omnia vincit amor; et nos cedamus amori. O amor conquista tudo, por isso devemos nos render ao amor. Nunca gostei de perder, Ciel. Mas por você eu me rendo. Eu me rendo. – Sebastian

Fazia pouco mais de um dia desde que Sebastian Michaelis foi visto. A namorada dele prestou queixa na polícia naquela manhã e acidade inteira já estava mobilizada. A polícia reviraria tudo para achá-lo. O segredo de Ciel nunca esteve tão perto de ser descoberto.

Ele fechou os olhos e tentou controlar a respiração. Esse era o fim dele.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.