Lost Angel
2 Orange Smile
Notas iniciais
ah por favor, essa historia surgiu tão bonitinha em minha cabeça, e eu não posso deixa-la de lado D:
Alguns dias se passaram. Eu estava tão feliz quando os treinos oficiais da Raimon começaram, que limpei todo o resto de minha mente. Chutar a bola era tudo o que eu me concentrava em fazer. Eu pensava comigo mesmo que era assim que deveria ser. Meu amor pelo futebol devia ser maior do que qualquer outra coisa.
Estava tudo bem, até que o diretor da escola apareceu certa manhã, trazendo consigo seu fiel conselheiro e um rapaz rebelde do primeiro ano.
Quando a porta se abriu e eles entraram, todos do clube se viraram instantaneamente. Pude ver os olhos da maioria se arregalarem a desgosto com a visão que surgira para eles.
– Treinador Kudou – chamou o presidente.
Kudou se levantou de sua mesa e se dirigiu ate eles. Ele olhou de loslaio para o garoto de cabelos azuis, que lhe vera um sorriso sugestivo e provocador.
– De agora em diante, Tsurugi fará parte do time da Raimon – anunciou o diretor.
Os rugidos de desaprovação foram em massa. Apenas eu – já que até mesmo Shinsuke parecia saber mais sobre aquele incidente do que eu – fiquei o fitando sem saber se isso era algo bom ou ruim.
– Mas... – Shindou se aproximou – Senhor, não podemos jogar com ele..
O diretor o encarou, um tanto impaciente.
– Vocês não terão escolha. Se querem que o clube de Futebol continue, vão ter que superar isso, é uma ordem lá de cima – disse o diretor, dando as costas e sumindo pela porta.
Tsurugi, o garoto de cabelos azulados e olhos âmbar, cruzou os braços e olhou para todos, um por um, como se esperasse por alguma reclamação. Quando seus olhos encontraram os meus, não pude enfrenta-los e virei o rosto.
– Tecnico – chamou Shindou, em tom alto – não... não tem outro jeito?
– Shindou, você gosta de futebol? – perguntou o técnico.
– Sim..
– Então você deve enfrentar o que ele lhe der como desafio.
Shindou olhou para os outros veteranos, que pareciam realmente perturbados, e depois para Tsurugi, como se pretendesse ameaça-lo.
– Certo, senhor – falou finalmente, voltando para seu grupo de amigos mais próximos – ao lado de Kirino e Sangoku.
Eu estava confuso. Não havia entendido muito bem o que acontecera entre eles, mas, era inegável para mim o quanto a presença se Tsurugi Kyousuke me deixava nervoso. Eu não podia encara-lo nos olhos aquela manha, por algum motivo. Eu tive medo.
Mesmo se tornado um membro do clube, Tsurugi raramente aparecia. Nunca treinava, estava sempre apenas observando pelos cantos, como se seu dever fosse examinar a todos. Ou, eu poderia compara-lo a uma espécie de caçador. Ele estava sempre a espreita, analisando cada movimento de suas presas, estudando seus pontos forte e fracos, para usa-los contra os mesmos no momento certo.
O momento certo seria as partidas em que ele nos levava a derrota.
Foi então que eu entendi o que Tsurugi era.
Seu único papel no time era fazer com que todos seguissem as regras, usando força bruta se necessário – algo que ele parecia ter de sobra. Nós éramos os rebeldes o tempo todo. Ou pelo menos, eu era, mais um pequeno grupo que não aceitava perder sem lutar.
Havia um “Quinto Setor”, que distribuía as vitórias e as derrotas para todas as escolas – com clube de futebol – igualmente, para nenhuma delas serem prejudicadas. A Raimon nem sempre seguia o plano do Quinto Setor, então o mesmo mandou Tsurugi Kyousuke para os corrigir. E todos o odiavam por isso, e também pelo fato dele ser capaz de fazer isso, sem parecer usar muitos esforços.
Ele era incrível, inegavelmente incrível. E eu era incapaz de sentir qualquer raiva por ele, por mais gols contra que ele se obrigava a fazer, ou por mais jogadas que ele fazia questão de atrapalhar. Pelas boladas que ele chutava diretamente contra mim, me desafiando a sempre me levantar para receber mais e mais.
Eu erguia minha cabeça e sorria para ele, num pedido silencioso de compaixão e compreensão. Mas Tsurugi não queria compreender nada. Ele seguia em frente com o seu trabalho, ele o fazia tão bem, que era quase um pecado se voltar contra ele.
Mas, as coisas só ficaram realmente preocupantes, quando Kudou foi demitido da Raimon.
Nós não havíamos seguido as regras. Tsurugi sorriu para a gente enquanto assistia nossa derrota.
Não a derrota do jogo em si – que devíamos perder de 2 a 0 – mas o nosso rendimento ao Quinto Setor. Como nosso time se obrigava a parar em frente ao gol adversário e chutar errado, sabendo que poderíamos ganhar. O que ele não esperava, era que mesmo em meio a tudo isso, Shindou marcasse um gol, quebrando as regras.
É claro que eu jamais permitiria que meu amado futebol fosse manipulado, eu era o único – junto com Shinsuke – que pretendia jogar. E quando minha bola finalmente alcançou o capitão, o mesmo a chutou com tanta raiva e paixão, que o gol foi marcado sem que o outro time tivesse qualquer chance de defende-lo.
Naquele momento, eu explodi de alegria. Sorri para Tsurugi, que nos observava, mas ele parecia tão frustrado, que se recusou a continuar assistindo os 3 minutos seguintes de jogo.
O time inteiro parecia de luto.
Kudou foi embora na noite seguinte.
Aquilo me abalou. A culpa era minha, de um jeito ou de outro. Era eu quem havia persuadido Shindou a marcar. E o que ganhamos com isso, no final?
Um esforço completamente em vão.
Havia decidido caminhar para relaxar a cabeça, no dia seguinte a demissão do técnico. Era um dia muito bonito, mas eu não me sentia nada animado para ele. Tudo o que eu pensava era em como o time reagiria quando eu surgisse na manha seguinte perante a eles. Eu não estava pronto para ser odiado por ninguém.
Tudo. Exatamente tudo, o que eu realmente temia, até então, era dar motivos para qualquer pessoa no mundo me odiar. E o time não gostava de mim, por 2 razões.
Eu estava disposto a quebrar as regras;
Eu estava disposto a carregar o time inteiro comigo.
Estava passando pelo campo ao lado do lago quando notei uma figura familiar não muito distante de mim.
Eu não sei dizer se fora a jaqueta roxa jogada sobre seu ombro ou seu cabelo em pé que me fizeram reconhecê-lo quase imediatamente. Eu só sabia que Tsurugi Kyousuke jamais passaria despercebido sobre meu campo de visão, em qualquer hipótese.
Ele caminhava pensativo, pelo campo.
O sol estava prestes a se por, e a paisagem do campo em si estava bonita o bastante para acalmar até mesmo o coração daquele jovem tão cheio de raiva. Eu podia ver isso apenas de olha-lo dali.
E eu juro que tentei me conter, mas quando me dei conta, já estava me aproximando dele. O mais sorrateiramente possível.
Mas ele notou minha presença e me lançou um olhar incomodado, virando a cara rapidamente para não olhar para mim.
– Tsurugi – chamei-o, me postando ao seu lado quando ele parou.
Ele me olhou novamente. Seus olhos queriam me dizer “cai fora”.
– Esse lugar é bonito, não é? – perguntei, dando um sorriso.
Tsurugi fez uma careta, e sua expressão poderia tentar me dizer “mas o que diabos você esta querendo dizer?”. Oh, sim, ele era tão transparente. E o mais bonito nisso, talvez, fosse o fato de ele achar que era frio, e que ninguém nunca veria através dele.
Eu observava o céu, tentando não olhar para ele. Por algum momento, eu o imaginei indo embora enquanto eu estava distraído, mas, felizmente, eu acho, ele não o fez.
Ficamos um bom tempo olhando a paisagem em silencio.
– Hei, Tsurugi, você... você gosta de futebol, certo? – perguntei, sem o olhar.
Ele não respondeu.
– Sabe, eu acho que alguém que chuta com tanta paixão só pode realmente amar o futebol – comentei. Futebol era a única coisa que me vinha a cabeça para começar um dialogo com aquele cara, ou pelo menos tentar.
Percebi que ele virou a cara, olhando em direção oposta a qual eu estava.
– Eu o odeio – respondeu finalmente – é por isso que vou acabar com ele.
Mesmo suas palavras terem sido tidas de forma tão firme e determinada, algo me dizia que escondiam um segredo.
Eu olhei para ele, com os olhos brilhantes.
– Boa sorte! – disse, sorrindo – Mas saiba que eu não vou deixar você fazer isso.
Ele finalmente olhou para mim. Seus olhos eram simplesmente lindos aquela iluminação. Era como se houvessem se fundido ao pôr-do-sol. Tsurugi deu um sorriso de leve, aceitando meu desafio.
– Veremos então – falou ele – o que um garotinho como você pode fazer.
– É Tenma, Matsukaze Tenma – anunciei.
Ele deu um risinho abafado.
– Certo, Matsukaze, me prove que você pode proteger seu amado futebol – tornou a dizer, dando as costas para mim – mas saiba, que não vou pegar leve.
Sorri para ele, o vendo se distanciar.
– Eu também não vou, Tsurugi! Vamos jogar juntos um dia – gritei.
Ele foi embora sem olhar para trás.
E eu apenas o observei indo, com o coração aquecido.
Eu estava feliz.
Todas as preocupações haviam desaparecido, junto com o dia. A noite chegou logo em seguida, e eu corri para casa sem conseguir conter um sorrido estampado em meu rosto.
“Porque eu estou tão feliz?” me perguntava, “Tsurugi pode acabar comigo, mas.. eu estou tão feliz por ter falado com ele..qual é o meu problema?”
As perguntas não deixaram minha cabeça o resto da noite. Eu dormi com elas me cutucando e perturbando meus sonhos. Eu fechava os olhos e o que eu via era o rosto pálido de Tsurugi, me olhando em tom de desafio, com aquele brilho laranja de um fim de dia.
E por alguma razão, era isso que manteve meu sorrido estampado no rosto até a manha seguinte.
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