Lost
4 Capítulo 3
Notas iniciais
Sirius não disse uma única palavra até me acalmar. Apenas mantinha os seus braços em torno de mim e uma das mãos sobre o meu cabelo.
Ele já tinha passado isto comigo, na primeira vez. Também Sirius acalmou-me há oito anos atrás. Quando ele foi embora.
—Eu sou tão estúpida. – comecei quando finalmente me acalmei – Depois destes anos todos, aquele idiota ainda consegue que eu chore por ele. Como é que é possível?
—Queres a resposta sincera ou a que te faça mais feliz? – perguntou Sirius sabendo perfeitamente qual seria a minha resposta à pergunta dele. Ele sabia perfeitamente que eu não queria a resposta sincera porque já sabia qual era – Pronto, aqui vai. Amanhã vai ser um dia novo e isto não passará de um pesadelo. Vamos ao Três Vassouras afogar as nossas mágoas e amanhã não falaremos desta noite. Será como se ela não existisse.
Era por isso que eu amava Sirius. Ele sabia o momento certo para dizer as coisas. E sabia que a resposta sincera não era o ideal para aquele momento. Aliás, a resposta sincera provavelmente nunca será ideal para nenhum momento.
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Naquela noite, o Três Vassouras estava lotado. A dona Hannah não parava um único segundo. Não sei como é que ela aguentava todo este trabalho sozinho.
—Vamos até ali. O Nico e a Marine guardaram-nos lugar. – disse Sirius arrastando-me para uma mesa perto de uma das janelas.
—Em que momento falaste com eles? – perguntei.
—Eu já estava de vir ter com eles. – contou Sirius – Mas depois a minha priminha favorita apareceu. Não tive coragem de dizer que tinha coisas combinadas.
—Sabes que se a Domi sabe disto, vai-te matar. – observei.
—Não foi o que ela queria fazer hoje? – perguntou Sirius – Vamos aproveitar hoje. Amanhã falo com a Domi. E vou seguir o teu conselho.
—Já não era sem tempo. – declarei.
—Mas agora vamos tratar de ti. – completou Sirius – Olá pessoas. Com saudades minhas?
—Com mais saudades da tua prima. – respondeu Nico dando-me dois beijos no rosto. Tenho de admitir, ele é mesmo giro. Aquele cabelo loiro, a pequena barba por fazer e aqueles olhos verde-água deixavam qualquer uma de queixo caído – Olá, Rose.
—Olá Nico. – cumprimentei – Continua assim e qualquer dia conquistas-me. – brinquei – Olá, sou a Rose. Tu deves ser a Marine.
—Sim. – respondeu Marine dando-me dois beijos – E tu és a Rose. O meu irmão está sempre a falar de ti.
—Não digas isso que fico envergonhado. – disse Nico em tom de brincadeira – Dona Hannah, quatro whisky de fogo, por favor.
Como Sirius tinha dito, Marine tinha acabado de se mudar para Londres. Era um ano mais nova do que eu e tinha sido a mais nova de sempre a estar numa posição tão importante do Ministério de França.
Marine tinha namorado, Adrien Lamartine. Era francês. Jogava na mesma equipa que Sirius e Nico. Foi assim que ela o conheceu. Nico apresentou-o.
Ali estava mais uma razão para Dominique não ter razão para ciúmes. Para além de ser incrível, Marine tinha namorado. Aposto que a Domi a vai adorar quando a conhecer.
—Vamos casar-nos no próximo mês. Em Paris. – contava Marine no nosso terceiro whisky de fogo – Decidimos que fosse lá porque foi o local onde o meu irmão nos apresentou. Como não haveria de me apaixonar por alguém que conheci em Paris.
—Parece que o teu irmão já estava a organizar o casamento quando vos apresentou. – brinquei arrancando risadas dos restantes.
—E tu, Rose? Onde anda o teu namorado? – perguntou Marine.
—Fugiu. – respondi em tom de brincadeira. O que me lembrei a seguir que, o que eu tinha acabado de dizer, era a mais pura verdade. Sirius encarava-me. Tinha medo que eu tivesse outro ataque de choro.
—E como é que o Nico ainda não te apanhou? – perguntou Marine.
—A Rose gosta de ser uma rapariga difícil. – respondeu Nico encarando-me.
Eu e Nico tínhamos estado assim a noite toda. Esta troca de olhares. Esta troca de bocas. Algo me dizia que não dormiria sozinha, naquela noite.
—Ei, ela é minha prima. – protestou Sirius – É como se fosse tua prima também.
—Não és tu que praticamente namoras com a tua prima? – perguntou Nico arrancando risadas minhas e de Marine.
—Está calado. – respondeu Sirius, emburrado – Mais quatro whisky de fogo, por favor. Eu tenho de falar com ela. Eu tenho de falar com a Dominique.
—Não tínhamos deixado isso para amanhã, Sirius? – perguntei. Eu sabia que, naquele momento, era o álcool a falar pelo Sirius. Ele tinha consciência que não devia de falar com a Domi naquele estado – Acho que está na hora de ires para casa.
Já estava a preparar-me para levantar-me mas Marine impediu-me.
—Eu levo-o. – disse Marine – Também tenho de ir porque o Adrien está à minha espera. Aproveitem o resto da noite.
Sirius realmente já não aguentava a bebida como antes. O que era inesperado. Quem o conhecia de Hogwarts sabia do que eu estava a falar.
A minha capacidade de raciocínio também já não era a mesma de à cinco whisky de fogo atrás. Mas estava claramente melhor que Sirius.
—Pedimos mais dois? – perguntou Nico – Ou queres ir já embora?
—Esta é a parte que te ofereces para me levares a casa? – perguntei – Porque neste estado, eu vou dizer que sim. – respondi, sorrindo.
—Não era essa a minha intenção quando fiz a pergunta. – respondeu Nico fazendo com que eu ficasse corada. Porquê que eu tinha de ficar corada – Mas fico feliz em saber que aceitas a minha companhia até casa.
Sorri para Nico. Ele era realmente incrível. Ele percebeu que eu tinha ficado envergonhada, algo um pouco raro depois destes anos todos, e deu a volta de maneira a deixar-me confortável. Agradeci-lhe mentalmente por isso.
O meu sorriso desvaneceu-se no segundo a seguir. Liam acabara de entrar no Três Vassouras.
O seu olhar cruzou o meu. Ele sorriu. Mas rapidamente ficou sério. Ele tinha visto o Nico e estava a vir em nossa direção. Isto não ia correr bem.
—Então era por isso que não querias nada de sério comigo? Porque já tinha outro na jogada? Nunca esperei isso de ti. – resmungou Liam. Todas as pessoas presentes no Três Vassouras se calaram. Isto ia dar uma grande fofoca no dia seguinte.
—Como te atreves a falar assim com ela? – perguntou Nico não me deixando responder.
—Nico, deixa-me resolver isto. – pedi a Nico – Por favor.
—Agora sou um isto? – perguntou Liam continuando a elevar o tom de voz – Não era isso que dizia de mim à duas noites atrás?
Agora ele tinha ultrapassado os limites. Ele não tinha o direito de falar aquilo em frente aquela gente toda.
—Vamos lá fora. – disse – Agora.
Liam seguiu-me perante os olhares atentos dos clientes do Três Vassouras. Ele sabia que tinha abusado e que não lhe restava outra alternativa a não ser seguir-me até ao exterior.
—Podes explicar-me o que se passou ali dentro? – perguntei – Não tens o direito de entrar por locais públicos e tratar assim as pessoas. Há um mínimo de respeito.
—Como aquele que tiveste por mim quando te encontraste com aquele? – perguntou Liam – Passaram dois dias.
—Liam, nós não temos nada. Eu não te devo explicações. – comecei a explicar pela milésima – Era apenas físico, Liam. Apenas isso. Eu sei que ultrapassaste essa barreira, por isso o ideal é afastarmo-nos. Para o bem dos dois. Eu nunca vou querer nada de sério contigo.
—Por isso é que andas a saltar de um homem para outro? Para não teres nada sério? – perguntou Liam.
Eu dei-lhe um estalo. Ele não tinha o direito. O que eu fazia da minha vida apenas a mim dizia respeito.
—Neste momento, a única coisa que eu vejo é um homem ressabiado à minha frente. – disse com o maior tom de desprezo que conseguia – Se eu quiser andar a saltar de homem para homem, o problema é meu. Boa noite.
Voltei a entrar no Três Vassouras, agarrei na mão de Nico e voltei a sair. Toda a gente manteve o olhar em nós durante todo o nosso percurso. Não me importei. Estava farta de pessoas intrometidas.
—Vejo que res… — não deixei o Nico terminar a frase. Beijei-o ali mesmo. Não queria saber se alguém estava ou não a ver. Não queria saber de mais nada. Naquele momento, a única coisa que queria era chegar a minha casa, com o Nico.
—A minha casa fica a duzentos metros daqui. – disse entre beijos – Vamos até lá?
Nico não precisou de dizer nada. No mesmo instante que acenou, eu desaparatei em frente a minha casa. Era verdade que ficava relativamente perto, mas eu não queria perder tempo.
Nico pensava da mesma maneira que eu. Ainda não tinha acabado de abrir a porta e ele começava a levantar-me a camisa.
—Boa noite, meninos. – disse Astoria em alto e bom som.
Separei-me imediatamente de Nico e encarei a minha colega de casa. Não esperava vê-la ali, naquela noite. Não depois do seu filho ter regressado e de eu ter quase a certeza que ela e Draco se tinham reconciliado.
—Olá Astoria. – cumprimentei – Este é o Nico.
Astoria acenou. Nada mais. Ela continuava séria. O clima tenso mantinha-se. Nenhum de nós se pronunciava.
—Eu vou andando. – disse Nico quebrando o silêncio – Vemo-nos depois.
Nico despediu-se de mim com um beijo casto nos meus lábios. Voltou a acenar para Astoria e saiu deixando-me com a minha colega de casa.
—Pensei que andavas a sair com o Liam. – comentou Astoria quando me sentei no sofá. Decidi ignorar o comentário dela.
—Pensei que ias ficar mais esta noite com o Draco. – observei – E as outras. – provoquei.
—Como sabes que… — começou Astoria mas interrompi-a.
—Eu conheço-te, Astoria. – respondi – E vi-vos durante toda a cerimónia. Fico muito feliz que vocês se tenham resolvido. Com pena de perder a minha companhia dos serões, mas feliz. – concluí abraçando-a.
—Estiveste a beber? – perguntou Astoria com cara séria. Quando queria, ela conseguia ser pior que a minha mãe.
—Fui sair com o Sirius e mais uns amigos. – respondi – Nada demais.
—No entanto, apareces aqui em casa com outro rapaz sem ser o Liam. – observou Astoria.
—Podemos não falar sobre ele? Ou sobre o Nico? Eu realmente não estou com cabeça. – pedi.
—Podemos. – concordou Astoria – Mas eu preciso de te contar algo antes de ires dormir. Apareceu no funeral alguém que eu não estava à espera mas que me deixou feliz.
—Eu sei. – respondi surpreendendo Astoria – Eu vi-o. E antes que perguntes, eu estou bem. Aliás, mais que bem. Até amanhã, Astoria.
—Até amanhã. – respondeu Astoria.
Eu conseguia sentir o olhar de Astoria em mim a cada passo que dava até ao quarto. Ela conhecia-me. Ela sabia que eu não estava bem. Ela sabia que a presença do filho dela me tinha afetado.
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A primeira coisa a ser feita naquela manhã era tomar a poção para a dor de cabeça. O whisky de fogo tinha-me posto daquela maneira.
Astoria já tinha o pequeno-almoço preparado. O meu preferido. Panquecas e sumo de laranja.
—Bom dia. – disse Astoria.
—Bom dia. – respondi – Já disse que te adoro? Panquecas!
—Eu sabia que ias adorar. – respondeu Astoria – Como está a cabeça?
—Quase não dói. – respondi.
—E já podemos falar dos assuntos que não querias falar ontem? – perguntou Astoria.
—A tua maneira de persuasão foi fazer panquecas? – perguntei com um sorriso de lado – Tu conheces-me tão bem. Resumo da situação. Com o Nico simplesmente aconteceu. O Liam é a situação que te expliquei.
—Assim do nada? – perguntou Astoria.
—Eu já o conheço há algum tempo. – contei – O Liam apareceu ontem e fez uma cena de ciúmes em pleno Três Vassouras.
—Tens de compreender a situação dele. Ele apaixonou-se por ti.
—Ele acha que se apaixonou. – respondi – Vamos? Não podemos chegar atrasadas. – disse terminando o assunto.
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Georgiana estava estranha, naquela manhã. As respostas dela, para mim, era apenas monossíbalos. Alguma coisa se passava. Alguma coisa que tinha acontecido mas ela não queria que eu notasse.
—Está tudo bem? – perguntei pela centésima vez naquela manhã.
—Está, Rose. Não te preocupes. – respondeu Georgiana sem me encarar – Eu vou chamar a próxima paciente.
—Mas já não há mais ninguém. – observei vendo que não tinha mais nenhum dossiê à minha frente.
—Mas ainda há. – respondeu Georgiana – Devo-me ter esquecido do dossiê. – disse saindo do meu gabinete.
Estranhei, mais uma vez, a atitude de Georgiana. Ela nunca se esquecia de nada. Qualquer pormenor mínimo, ela fazia tudo. Apesar de ter pertencido aos Hufflepuff, Georgiana era perfecionista como um Ravenclaw. Ou seja, alguma coisa realmente se passava.
Alguém bateu à porta. Devia ser a paciente que Georgiana falava e da qual eu não sabia o nome.
—Pode entrar. – disse esperando ver alguém aparecer.
A primeira coisa que vi foram os seus cabelos loiros. Os cabelos loiros rebeldes que tantas vezes acariciei. O meu estado era de completo choque. Ele estava ali, no meu gabinete. Scorpius Malfoy estava ali. E à sua frente estava uma pequena criança loira.
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