Lost

1 Capítulo único


Alice,

Você se lembra de quando nos conhecemos naquele lago verde gigantesco – contudo não éramos fortes o suficiente para mover aqueles pedalinhos estúpidos (cujos amigos tinham nos forçado a embarcar) e ficamos flutuando durante duas horas e meia até o próprio “veículo” decidir nos levar até a borda?

Eu presumo que você se lembra.

Você mesma sabe que talvez – se um de nós tivesse pedalado – as coisas teriam sido totalmente diferentes. Eu teria pedalado – e continuado – no meu silêncio; eu teria alcançado a superfície... eu teria ido embora. Você teria pedalado – ou esperado o garoto caipira do teu lado gentilmente pedalar até a borda do lago – pois como o cavalheiro abandonado que ele aparentava ser – aí você pularia de volta para a terra firme – que é onde você se sente segura.

Você sempre preferiu a terra. Eu dizia a mesma coisa – mas na verdade eu mentia só para você não discutir comigo – eu prefiro o vento.

Bom, eu te digo, nas últimas semanas eu voltei para o lago. Eles removeram os pedalinhos — acho que esse é um detalhe que você gostaria de saber. As árvores se transformaram em postes de energia elétrica, as flores desapareceram num mar de plantações cujos frutos eu sequer fui capaz de identificar. Mas a água – droga – a água está mais verde do que nunca.

Entendi que ela ainda não amadureceu. Assim como nós.

Eu gostaria de estar usando mais adjetivos nisso aqui, mas você sabe que – mesmo (aparentemente) sendo um escritor – um dicionário extenso nunca foi o meu forte – isso explica o motivo do meu salário como bancário ser muito melhor. Você provavelmente lerá isso arquitetando as centenas de palavras que eu poderia ter suprido a favor de diminuir o tamanho dessa carta – conto – crônica ou nota – e subsequentemente – termos que eu poderia ter usado em que – sozinhos –expressam o significado de frases inteiras.

E como um escritor, eu fui bom em omitir a verdade usando poucos adjetivos.

Lembra-se da noite em que eu acordei de um pesadelo – gritando?

Claro que você lembra. Você nunca tinha visto algo do tipo. Eu te dei um susto do caralho. E naquela madrugada – gelada – eu vi o medo real em seus olhos. Eu só não consigo explicar – eu apenas vi. Eu era o louco com a faca e você – você era a vítima.

E foi por esse mesmo olhar que eu decidi omitir a verdade. Eu me calei.

Bom, na verdade eu sonhei com o dia em que um cara atirou nos meus colegas de trabalho. Eu o vi entrar no banco – aquelas botas pesadas e barulhentas – aquele som horrível e grotesco da sola de couro molhado tocando – grudando e descolando do chão. Eu o vi tirar aquela pistola da jaqueta de couro – uma bela jaqueta de couro – e apontar na cabeça do meu estagiário. Eu vi o sangue girar em jatos pelo ar – uma sincronia engraçada – gente caindo. Então eu me vi preso naquele massacre – entre gritos e flashes – de sangue e vidro chovendo – eu me vi afogando naquela merda e senti – eu senti – o bocal ainda quente da pistola na minha nuca.

E eu acordei – gritando — com o disparo.

Foi exatamente por isso que eu tirei férias – tão tão de repente — por um mês. Eu troquei a localização da minha mesa. Eu troquei o meu carro — eu despedi meu estagiário, eu pedi para trocarem a porra da câmera de segurança – eu fiz de tudo e, acima de tudo – eu nunca mais te deixei ir até o meu trabalho. Eu pedi pra você cuidar da Jenni ao invés de... ir me buscar.

E meu Deus do céu, você me ouviu.

E naquela noite de julho – fim do expediente e eu e Jimmy serelepemente tagarelávamos sobre as taxas de juros que subiriam em 0.8% naquela semana – eu senti o cheiro. O mesmo do meu sonho. E então eu pensei: relaxe, você está nervoso. Esse tipo de coisa não acontece em bancos – não desse lado da cidade. Você está sendo um covarde cagão como seu pai costumava dizer.

E um segundo depois eu estava abaixado, escondido no armário de metal – minha cabeça enfiada entre a lata de lixo e a CPU enquanto os tiros devoravam a agência. O vidro explodindo acompanhava os disparos – quase como tivessem ensaiado aquele tipo de sincronismo horrível. O sangue jorrava enquanto eu encarava através dos furos de metais do meu armário – meu armário de metal que repentinamente era grande o suficiente para meu corpo – e pequeno para caber o Jimmy – que já jazia sangrando e lamentando sobre uma das mesas – incapaz de se mover – muito menos o covarde cagão que agora lê essa carta em voz alta dentro de seus pensamentos.

E eu vi a bota pesada e barulhenta, fazendo aquele som nojento enquanto grudava e descolava do chão. E o bocal da pistola – quentíssimo – foi parar na nuca do meu melhor amigo. E o grito não veio do meu melhor amigo – muito menos de mim – veio da própria pistola. O grito era um lamento de quem apenas faz o trabalho para seu senhor – sem sentimentos sem dor.

Eu te contei tudo isso. Eu aposto que você se lembra. Mas eu não tive coragem de contar sobre o sonho, pois – droga – tudo foi minha grande culpa. Se eu tivesse me manifestado antes – eu poderia ter evitado. Eu poderia ter evitado a porcariada toda e não fiz.

Pois achei que era um maldito de um sonho.

Então eu estava preso. O pessoal da polícia, segurança nacional, seja quem for, eles me encontraram vivo e encaixotado num armário. Aí eu fui jogado numa cela enquanto eles limpavam a caca toda. E dentre todas as pós-reações mais adversas que um recém-detento é capaz de ter, qual foi a minha? Eu dormi. Sim – na luz de merda da cela da delegacia – eu dormi. Uma vez eu te contei que quando eu me machucava quando criança, minha mãe me dava remédio para dormir. E a dor ia embora. Bom, naquela mesma noite, meu corpo entendeu o recado – a dor precisava ir — e eu dormi. E eu sonhei.

No sonho, eu estava correndo, de volta na rua da agência. Havia um carro preto me seguindo. E em toda maldita porta que eu entrava – eu voltava para o início da rua. E lá estava eu correndo novamente, uma sequência incrível totalmente Freddy Krueger demais para mim. Meu peito parecia prestes a explodir – minha mente girava e girava e girava até que algo estalou no meu cérebro. Eu entendi – era a culpa. Ela estava me perseguindo de carro no meu pesadelo em frente à agência.

Eu sou um cara fácil. Eu me dou bem com essas coisas que não fazem sentido para a maioria das pessoas. Então eu parei no meio da correria, me virei para o carro, abri os braços e fechei os olhos. E quando eu esperava a culpa me atropelar, eu ouvi um estampido e fui sugado.

E de repente eu estava sentado na frente do banco de madeira, na praça em frente à nossa casa. Philip, meu estagiário, estava sentado ao meu lado. Ele me perguntou o motivo da demissão, e mais honesto impossível, expliquei que tinha o visto morrer – simples e direto. E que minha ordem de demissão tinha o salvado. E então ele me agradeceu, afirmando que ao tirá-lo do caminho “dela”, eu coloquei Jimmy, meu melhor amigo na linha de tiro. Eu saquei que Philip estava jogando. Eu disse a ele que eu sequer tinha certeza de que aquilo realmente iria acontecer e ele me deu um soco.

Enquanto me chutava, ele dizia – sem fazer sentido — que ainda era o mesmo fracassado de antes. E eu gritei que ele era um fracassado desgraçado, mas não no sentido dele realmente ser um, mas sim, pois nenhum dos chutes me machucava. Eu não sentia nada. E eu sorri com aquele delírio – as doces vantagens que sonhos podem trazer. Ele ficou puto e começou a gritar, dizendo que ninguém entenderia e sim, “ele estava sendo forçado” a acabar com tudo. Aí ele tirou uma arma da cintura e atirou na própria cabeça. E o gatilho – mais uma vez – serviu como uma ignição para o mundo dos sonhos e o mundo real – eu acordei.

É claro que eu não te contei sobre o sonho esquisito mais tarde, quando estávamos em casa. A culpa me esfoliava vivo, esfaqueando e enterrando qualquer pedacinho de esperança que minha mente fosse capaz de renderizar naquele estado de torpor. A culpa pesa e eu aposto querida, eu aposto que você nunca a sentiu da maneira com que eu senti.

E no jornal da manhã seguinte, no mesmo folheto das manchetes dos “mortos na agência bancária”, um rosto conhecido na última página me dizia bom dia. Era a foto de Philip – e ele tinha dado um tiro na própria cabeça – num carro preto, esquecido na rua da agência bancária. Philip se matou e a polícia soube que eu tinha o demitido – e ele, já morto – também foi tachado como um dos criminosos. Philip sabia como o banco funcionava. E eu me lembrei de Philip me dizendo que “estava sendo forçado”.

Aí eu formulei que Philip estava sendo usado pelos bandidos. Eles pegaram o cartão chave do bendito estagiário que eu demiti — invadiram a agência na área dos funcionários, exterminaram vidas e roubaram a porra do dinheiro. O pobre Philip que já não era muito bem da cabeça chegou ao overclock cerebral. E mais uma vez a culpa era minha.

Você sabe como eu passei os dias seguintes. Dobrando a polícia – que ligava de vinte em vinte minutos atrás de informações — e andando pela casa como um zumbi – atendendo aos seus chamados da maneira mais mórbida e infeliz possível. A introversão do meu passado estava voltando num nível deliberadamente alto.

Eu sou o culpado. Eu poderia ter evitado tudo isso. Eu poderia ter tomado às decisões certas e não, eu caguei com tudo.

Os dias se passaram e você me viu empenhar na continuação de Inside the Wake. Às vezes eu consigo converter culpa e tristeza em palavras, mas tenho problemas em retirar a essência real da sensação original. O editor vai passar quatro semanas com um manuscrito realmente triste.

Era fim de setembro. Eu tinha acabado de terminar o epílogo. Eu precisava tomar um café mais fraco do que o de casa – e consequentemente eu precisava respirar. Aquela coisa toda dos incidentes já tinha ido embora – e nesse ponto tudo que eu tinha presumido em relação ao suicídio de Philip tinha sido comprovado.

Eu estava indo para o centro naquele fatídico dia. Eu estava no metrô, como você sabe, eu ainda tava batido pra pegar o carro. E naquele vagão quase vazio, uma meia-dúzia de pessoas distribuídas em vinte assentos, uma garota de uns 17 anos se senta bem ao meu lado.

Eu talvez tenha franzido o cenho com o fato da garota resolver pegar o mesmo assento do quarentão barbudo – sendo que muitos bancos estavam livres. Eu permaneci em silêncio e percebi que ela começou a me encarar, curiosa. Ela percebeu meu desconforto e sorriu, em seguida abriu a mochila e tirou um exemplar muito batido de Inside the Wake.

Ela me disse que não esperava que grandes escritores pegassem metrô. Ela me disse que se chamava Lana. Eu disse que eu não era um grande escritor, mas que ela provavelmente conhecia meu nome.

Lana é aquele tipo de garota individual, moderna demais. Cabelos curtos e mechas coloridas, iguais os seus quando nos conhecemos. Ela se revelou inteligente e sensata e — em 15 minutos ao meu lado, eu senti como se fosse um professor próximo, quase como um grande amigo. E a partir desses 15 minutos, eu comecei a me lembrar.

Ela falava animadamente enquanto balançava o livro desgastado nas mãos. Primeiramente eu achei engraçado o livro devorado, em seguida eu me dei conta que conhecia aquele exato exemplar – os mesmos rabiscos – as mesmas ranhuras. Porém não era na realidade, era de um sonho. Outro sonho.

Aí – ao lado dela – eu comecei a suar frio. Ela percebeu. E num súbito golpe, eu revi um sonho de noites anteriores – cujo final eu tinha me esquecido. Eu já tinha estado naquele metrô. Eu já tinha visto Lana. E o livro na mão dela, bom, eu tinha visto-o se despedaçar no ar e ser devorado por uma parede de fogo.

A mesma sensação de quando aquela porcaria aconteceu na agência – bom, ela estava de volta. E quase deixando a garota para trás, eu desci na estação seguinte. E ela me seguiu, dizendo que queria tirar uma foto comigo. E naquele momento estranho, eu comecei a rir. Não entendia o motivo de tudo aquilo, mas eu – sofrendo – e ela – só queria uma foto. Ninguém sequer pede fotos comigo.

Lana me contou que gostava de escrever e eu dei meu e-mail pessoal para ela me mandar alguns de seus escritos. Se seus escritos fossem tão bons quanto à maneira com que ela se comunicava, eu apostei que ela seria uma boa escritora.

E ao se despedir de Lana, percebi o movimento. Celulares tocando – meus olhos pegaram algo no noticiário local – numa TV num bar local. O metrô, um dos vagões — o que tínhamos deixado momentos antes — tinha descarrilado e colidido numa parede de concreto – em seguida explodido – tudo isso na estação ao lado. Aí – praticamente desmaiando — eu me lembrei do sonho.

No sonho eu me via morrer mais uma vez. As luzes piscariam, um estalo, um solavanco e um impacto – seguido da explosão.

Foi esse o dia que cheguei bêbado em casa.

Voltando, eu me lembro de ter entrado – chorando – no bar em que o noticiário estava passando. O atendente – que deveria estar acostumado com cornos chorando na bancada – me confundiu com um deles e me trouxe pinga. E eu bebi pra caralho. Mais tarde eu pensei que tinha falado alguma coisa ruim para a pobre Lana, pois ela já tinha ido embora quando eu me dei conta.

Eu sabia que meus sonhos estavam se tornando reais – de algum jeito. Eles sempre acontecem, não importa o que seja feito.

E já sóbrio no dia seguinte, ainda não consegui te contar o resto da história – além de que tinha saído do amaldiçoado vagão que matara seis pessoas. Pois eu ia soar tão louco como sempre fui. Como sempre. E você – eu sentia o teu olhar de ódio com o meu comportamento. Milhares de coisas passaram pela sua mente e você sequer disse alguma coisa. Eu não te culpo por nada – mas se você tivesse se manifestado ao invés de ir escrever o teu livro – você conseguiria invadir algumas das brechas soltas nas minhas histórias alcóolicas de bêbado. Você resolveria tudo.

Eu tinha salvado Lana. Eu poderia ter feito o mesmo – não teria me custado dois minutos – salvar todas aquelas outras pessoas que continuaram no vagão do metrô. Uma idosa. Duas crianças. E o rosto deles – impávidos – gelados – carbonizados, amargurados e mortos — perseguiram meus pesadelos pela semana que se seguiu. Tanta gente morrendo por minha culpa. Eu nunca fiz algo que pudesse me manter abaixo de um fardo tão grande. Eu sentia o peso de todas as almas flutuando ao meu redor – esperando que eu desse a explicação. Esperando que, de alguma maneira – eu os trouxesse de volta – da mesma maneira com que os deixei ir.

Encontrei Lana na semana seguinte. Eu me desculpei, perguntei se tinha a ofendido, e ela me disse que eu tinha dito a ela para ir embora. Mais uma vez estávamos sugados num tipo de espaço onde todos os diálogos se batem. Lana sempre tinha uma bela resposta na ponta da língua – e isso me impressionou. E naquela confusão de pensamentos – eu me peguei imaginando que – dependendo de eu e você Alice – Lana é o que Jenni um dia pode ser. Se Jenni carregar esse tom peculiar de Lana, então nós vamos saber que fizemos bem.

Ela me perguntou sobre o que tinha acontecido no metrô. Ela tinha se assustado comigo – e claro, o fato de que o metrô colidiu mais tarde. Ela disse que poderia ter uma ideia sutil do fardo que eu estava carregando. E então – eu me senti aberto a falar sobre tudo que estava acontecendo. Aquela garota– bom, ela poderia entender. Ela não me conhecia do jeito que você conhece – para afirmar com tanta certeza que eu estava perdendo a porra da mente. E não foi o que aconteceu.

Eu comecei a contar minha história e logo os olhos da garota lacrimejaram. Eu me perguntei o motivo daquilo, mas continuei. E enquanto mais palavras saíam da minha boca – mais ela tremia. Então ela explodiu.

Aquela garota estava com ódio de mim. E na saraivada seguinte de uma crise adolescente – o que eu captei em seus consecutivos gritos de tristeza e lamento, fora: eu estava trazendo a tona; recontando exatamente a mesma história que seus pais haviam contado cinco anos mais cedo, antes de morrer.

Ela me deixou sem palavras. Mais uma vez eu não tinha nada a dizer. Eu não faria isso numa situação normal – mas repentinamente eu me vi maravilhado com a ideia de que eu não era o único. Isso tinha acontecido. E se ambos os pais dela haviam morrido – então eu poderia saber onde eles tinham errado! Minha esperança havia voltado!

Eu até acho que sorri.

Lana nunca entendeu minha reação feliz com a crise dela. Eu não entenderia. E naquela dose repentina de adrenalina – de esperança — em meu sangue, eu não fui capaz de absorver nenhuma das bênçãos que meus sonhos haviam trazido nos últimos dias. A garota grudou na sua mochila e disparou na rua – ao mesmo tempo em que um ônibus vinha em alta velocidade.

Pela segunda vez naquele dia, Lana explodiu. E a explosão levou um pedaço pequeno da minha alma – mesmo com essa garota que eu mal conhecia.

E no asfalto, bom, lá estava o exemplar corroído de Inside the Wake – no meu sonho envolto por fogo – no real, coberto de sangue. Você sabe, foi aí que eu pirei.

Nem mesmo um milhão de páginas iriam te fazer entender o porque eu desapareci. Nem todas as flores, nem todos os presentes, muito menos os lagos e os pedalinhos “inpedaláveis” iriam compensar esses quatro meses que te fiz sofrer – mandando cartas sem remetente.

O problema é que eu sei muito bem disso e droga – eu poderia ter melhorado essa situação para você e não fiz.

Eu tenho tentado encontrar um padrão nesses sonhos que eu estou tendo. Eu não tenho obtido as respostas necessárias – e isso acaba comigo.

Eu tenho lutado.

Desde então, toda maldita noite nesse quarto de hotel, eu tenho sonhado. Eu sonho com pessoas morrendo. Eu sonho com pessoas nascendo. Eu sonho com conversas aleatórias; risadas; outros idiomas, eu sonho com gritos. Eu não posso identificar a origem – eu não posso evitar – eu não consigo acabar com esses sonhos. Essa série filha da puta nunca acaba. Se pelo menos eu fosse capaz de esquecer todos esses episódios prontos e desconexos que aparecem – ao menos apagar, como fazemos com os sonhos normais que temos.

É surpreendente que – eu sei – assim como eu sabia do que ia acontecer no assalto, assim como eu sonhei com uma distopia envolvendo meu estagiário, assim como no metrô, bom eu tenho a porra da certeza que tudo isso está acontecendo – em algum lugar.

Entre os limites, no fio das divisórias de um sonho e outro, eu te ouvia me chamando. Eu ouvia Jenni chorando – mas eu não posso voltar. Eu sou uma bomba-relógio. Os sonhos estão começando a surgir quando estou acordado. E eles estão me levando junto para o mundo deles.

E é por isso que – eu sei que você virá. Daqui a uma semana, você vai descobrir onde eu estou e virá me buscar, sua desconfiança feroz e assassina, seu radar de marido – e um detetive particular – ambos vão funcionar.

Nas primeiras semanas em que estive isolado – eu clamava por um sonho incluindo você e Jenni. Agora eu rezaria para – se pelo menos – eu pudesse mantê-las longe da minha mente.

No primeiro sonho, vocês me deixam no carro enquanto vão a uma loja de conveniência — num posto de gasolina. Um idiota explode tudo e fim. Então – enquanto acordado – eu tracei outro caminho para pegarmos – sonhei com o nosso fim mais uma vez. E então eu tracei outro e outro e outro e no fim nós três sempre morremos. Não importa o quanto eu mude a nossa rota, o quanto eu quebre minha linha de raciocínio, o fim é inevitável.

Não achei um padrão nisso. Para variar. Então eu me toquei – que a única coisa que desencadeia tudo isso – sou eu mesmo. Eu sou o ceifador idiota.

Você merece explicações.

É quinta-feira, 22 de janeiro de 2003. Você receberá essa carta amanhã de manhã. Provavelmente você vai ter certeza sobre o meu suicídio no sábado. E a partir daí, por favor, não venha para Seattle. É minha vontade e você precisa respeitar. E eu sei que você vai.

Não acredite em nada do que eles vão dizer. Eles estão mentindo. A verdade está aqui.

É a única maneira de salvar vocês, então eu faço de bom grado. Se houvesse uma maneira mais fácil, eu já teria tentado.

Cuide da Jenni. Cuide de si mesma. Mantenha-me como um de seus personagens, um rosto — uma imagem escrita e esquecida no passado. E isso, no fim, isso é tudo o que temos.

Meu último desejo é o teu perdão. E é algo que dolorosamente, eu sei que nunca vai acontecer.

E caso você esteja chorando – o que eu presumo, saiba que eu tenho a certeza de que estou fazendo a coisa certa. Tenha certeza de que quando minha visão escurecer e um último balde de sanidade súbita surgir no fundo do meu cérebro — eu continuarei sem arrependimentos.

Pra finalizar, vou te confessar algo. Eu costumava acreditar que preferia o vento. Desde o primeiro dia em que estive ao seu lado, isso começou a mudar. E hoje eu tenho a certeza que, se existiu um lugar seguro para mim, foi ao teu lado. Então eu faço da sua escolha a minha.



Notas finais
Comentem :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!