Notas iniciais
E aí gente invisível? Tá aí mais um cap.Não que alguem se importe né,mas...

Sinto minha mente me levando de volta a realidade. Me permito ficar mais alguns segundos de olhos fechados, apreciando sonho que tivera. Nele eu estava feliz, andando por um canteiro de flores que minha mãe cuidava com muito carinho. E lá estava meu pai, cantarolando enquanto mexia nas engrenagens do seu velho carro. E mais afastado, estavam todos os meus amigos, professores, e todos de quem eu sentia falta. Eles não podiam se aproximar, mas ficavam acenando e dizendo “Sentimos sua falta”, ou, “Volte logo!”.

Aquilo me deixou feliz. Claro que era só meu subconsciente me dando as imagens que eu queria, mas o sonho me fez lembrar o porquê queria tanto voltar pra casa, pras pessoas que eu amava. E se era pra enfrentar mais problemas, mais seres estranhos,mais loucuras inimagináveis, que seja, eu queria voltar.

Resolvo abrir meus olhos, me espreguiçando e encarando o teto por alguns segundos. Olho para o chão, onde Carter tinha se deitado algumas horas antes.Estava vazio.Eu levanto bruscamente da cama, o que faz minha cabeça girar,mas não paro.Olho ao redor de cada centímetro da cela.Procuro debaixo da cama,atrás da nossa cortina improvisada que dá para a privada fedorenta .Droga, eu olho até embaixo dos lençóis, revirando o colchão.Estou tremendo, e desejando que seja apenas alguma outra alucinação dos remédios,mas parece real demais.Minha garganta está se fechando num nó,meus olhos ardem por eu tentar não piscar,e minhas mãos tremem enquanto as esfrego no que fora outrora minha calça jeans favorita.Olho ao redor de novo, buscando algo diferente.Fecho e abro os olhos freneticamente, deixando que finalmente minhas lágrimas me vençam. Limpo o rosto desajeitadamente e me encosto-me à parede mais próxima, temendo cair. Passo a mão na cabeça, e ela está sem o curativo, que devo ter derrubado enquanto revirava a cama.

“Talvez, tenham o mudado de cela”, penso ”Talvez, tenham entrado em contato com sua família, e pagaram seu resgate”. Não ousei dizer uma palavra até então.Mas do nó que existe em minha garganta, um grito se forma, me sufocando, até que eu reúna a coragem necessária pra encarar a verdade: Carter não está aqui.Ele se foi, e eu estou aqui sozinha.

— Carter... — digo, sentindo meus lábios trêmulos, e percebo minha voz baixa demais —Carter! — falo mais alto, tentando não soluçar ao fim da sentença — Carter! — começo a gritar, alto suficiente pra ecoar na cela, e entrar nos meus ouvidos como o som de um trovão — Você esta aí?! Por favor, responda! — eu me obrigo a ir para a porta da cela — Carter! — começo a gritar com todo meu fôlego.

Longos minutos, talvez horas se passaram antes que eu perdesse a voz. Eu ainda estava á porta da cela, sentada, posicionando a cabeça onde o som seria melhor propagado. Comecei a querer chamar por outras pessoas: mãe, pai, Stiles, Scott, Allison, Isaac, Lydia, qualquer um. Mas das minhas pregas vocais, só saiam um som — Carter.

Eu tinha tantas perguntas! “Quem são vocês?”, “O que querem?”, “O que fizeram com ele?” “O que vão fazer comigo?”, mas repetia em um tom esganiçado de uma garganta dolorida, como em uma procissão, o nome do rapaz que eu conhecera nesta cela.

Não sei quanto tempo se passou desde que minha voz morreu completamente em minha garganta, até o momento que a bandeja entrou na cela. Eu estava exatamente embaixo dela, e fiquei por um bom tempo só encarando a forma que ela produzia sombras na parede, como ela ficava um pouco inclinada para a esquerda, e como eu estava me sentindo desgraçada na vida.

Tento levantar ,temendo que minhas pernas tremam e eu fique condenada a passar a eternidade sentada nessa canto, encarando a janela falsa hora após hora, dia após dia, ano após ano.Mas me levanto desajeitadamente, e pego toda a bandeja,que agora só contem refeição para uma pessoa.Os mesmos legumes, o mesmo arroz, a mesma água.Tudo cuidadosamente cheio de dopantes que me fariam dormir,dormir de novo, e dormir mais uma vez,até que façam comigo o que me capturaram pra fazer.

Desta vez, não nego ao meu corpo o alimento que ele tanto deseja, e como com ferocidade,parando apenas para respirar quando necessário.Bebo metade da água na garrafa, e coloco a bandeja no lugar.Minha vontade é bater com ela na porta, nas paredes, fazer o máximo de barulho que conseguir.Mas coloco a bandeja no lugar e me deito no chão, onde Carter estivera pela última vez.Tento lembrar de suas últimas palavras mas não consigo, os remédios fazem efeito antes que eu consiga vasculhar melhor minha mente.

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—Eles não estão te procurando, sabe? — uma voz feminina diz com tom desdenhoso — Seus amigos, seu pais, já têm os próprios problemas, não tem tempo pra te procurar. A polícia acha que você fugiu,estão encerrando as investigações.Logo você não passará de uma lembrança desagradável...

— Lembrança... Desagradável... — eu repetia, como um eco lento daquelas palavras. Tudo era escuro,e só existiam as vozes.

— Carter está morto, e você sabe disso. Ele teve seu fim, e logo virá o seu... Todo o seu sofrimento vai acabar. Não devia lutar contra o que está por vir — a voz que parecia vir de todo lugar continuava.

— Não lutar.... — eu repetia, e podia sentir minha cabeça, seja lá onde estivesse, assentindo.

— Então, o que você vai fazer a partir de agora?— a voz pergunta, e posso sentir um toque frio, mas carinhoso em minha pele.

— Desistir... Ser apenas... Uma lembrança — meu corpo se arrepia de um jeito agradável com cada centímetro do meu corpo que era percorrido.

— E o que você vai fazer quando a hora chegar? — a voz pergunta num tom doce, quase preocupado, enquanto interrompe o toque.

Sinto que vou enlouquecer. Meu corpo implora pela volta do toque frio.Eu quero dizer que vou sim continuar a lutar , que pretendo lutar até o último segundo.Mas sinto cada célula do meu corpo se agitar, pedindo o toque novamente.Sinto que estico meus braços, procurando a quem aquele toque pertence,mas não acho.Resolvo me render.

— Não vou lutar... — digo, e imediatamente o toque volta, me fazendo gemer de prazer.

Notas finais
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