Losing my Humanity
32 Cap. 31 ─ Ulterior motives
Notas iniciais

"Não há mais gasolina no tanque
Não consigo nem dar a partida
Nada ouvido, nada dito.
Não se pode falar sobre isso.
Toda a minha vida está passando na minha cabeça
Não quero pensar sobre isso
Sinto como se estivesse ficando louca."
Parei de correr no instante em que percebi que eu não queria ir pra lugar algum.
Nada de ir pra casa e fingir uma rotina perfeita, nada de Scott ou Stiles, nada de Parrish e a velha historia do “Depois conversamos”. Pela primeira vez em muito tempo eu apenas queria ficar um pouco sozinha.
Olho o relógio antigo preso em meu pulso, e percebo que tenho algum tempo antes de meu horário de recolher, então caminho calmamente até um dos bancos da praça da cidade que se encontra praticamente deserta a esta hora.
Tiro minha velha jaqueta verde estilo militar e a dobro, usando-a como um travesseiro improvisado ao deitar no banco mais afastado da rua. Os botões machucam um pouco minha cabeça ,mas apenas os ignoro. O vento frio que arrepia meus braços chega a quase ser agradável.
Eu não estou zangada. Nem triste, nem me sentindo culpada. É quase como um estado de dormência total, apenas eu num banco de concreto frio, encarando o grande véu azul escuro acima, enevoado, anunciando a vinda de chuva.
Afinal, eu sabia que isso ia acontecer, certo?! Era apenas uma questão de tempo até os garotos perceberem o que realmente significava eu ser uma Wendigo, e sentirem nojo. Talvez não nojo exatamente de mim, mas do que eu me tornara.
Quanto a mim, já estou ficando completamente farta de me odiar. Afinal, eu não posso mudar o acontecido. Essa é minha realidade agora, está fora do meu alcance voltar no tempo, ou mudar meus extintos. E pensando bem, o poder que eu disponho é no mínimo interessante.
─ Deitada na praça como um mendigo. ─ ouço uma voz masculina debochada e conhecida chamar ─ É patético demais até pra você.
“Obrigada universo, por não me dar o que eu quero mais uma vez”, tenho vontade de gritar por um momento.
─ Então talvez seja melhor se afastar, pode ser contagioso. ─ respondo sem lhe dirigir o olhar ─ O que você quer Peter?
─ Eu estava apenas de passagem, e pensei em te avisar que está assustando as pessoas.
Finalmente nossos olhos se encontram. Ele está parado a menos de um metro de onde estou, vestido como de costume, com exceção de uma jaqueta de couro preta sobre a camisa de gola V. Peter tem um leve sorriso de canto, aquele extremamente irritante que parece nunca deixar seus lábios.
─ Obrigada. Agora já pode voltar pra seja lá onde você pertence.
Ele se aproxima, se agachando para ficar na altura de meu rosto, e a distância curta entre nós me deixa desconfortável.
─ Moro apenas a alguns metros daqui, pode ser patética lá se quiser. Ao menos tem aquecedor.
Pensei em apenas manda-lo ir pro inferno, mas ponderei por um segundo. Peter Hale querendo minha companhia?! Isso é no mínimo curioso...
Levanto-me e visto a jaqueta. Ele entende o gesto e começamos a caminhar, apenas alguns passos de distancia entre nós.
─ Achei que morava com o Derek. ─ digo, tentando exterminar o silencio desconfortável.
─ E por que eu iria querer morar com ele? ─ ele chega a parecer ofendido.
─ Não sei, acho que pensei assim porque você estava sempre lá. ─ respondo.
─ Seus poderes de percepção são horríveis. ─ ele para em frente a um pequeno prédio escondido ─ Você nunca visita familiares?
─ Minha única família sanguínea mora comigo. Então não, eu não visito familiares. ─ começamos a subir degraus de metal.
─ Por falar nisso, como vão seus pais? ─ ele tem um tom malicioso.
─ Fique longe deles. ─ respondo rispidamente sem mesmo processar a frase ─ É pro seu próprio bem.
─ Ah pequena Julie! ─ ele ri enquanto abre uma porta de madeira escura ─ Sempre tão paranoica.
─ Toda paranoia com é pouca quando se trata de você Peter. ─ digo enquanto entramos no apartamento.
É um lugar enorme, que deve ocupar o andar inteiro. Não é muito luxuoso pra uma pessoa que já frequentou a casa de pessoas como Lydia Martin e Jackson Whittemore, mas mesmo assim é de um bom gosto impressionante.
Peter percebe que estou olhando para todos os cantos, analisando minuciosamente sua mobília aparentemente cara com uma expressão retardada no rosto.
─ Fique a vontade ─ ele se vira e caminha em direção a sua geladeira que mais parece um robô futurístico, completamente saturada com botões, tirando uma garrafa escura de lá ─ Eu lhe ofereceria alguma coisa para comer, mas duvido que tenha algo do seu gosto aqui.
─ Talvez não, mas você me parece apetitoso. ─ uso meu melhor tom malicioso enquanto sento-me no sofá, fazendo questão de por as botas no tecido exótico ─ Vou perguntar mais uma vez: O que você quer Peter?
─ E eu tenho que querer alguma coisa? ─ ele faz um gesto exagerado de indignação.
─ Não acho que você tenha feito algo sem segundas intenções desde que nasceu. Agora, por favor, pare de enrolação e diga logo o que está planejando.
Ele sorri, e toma um longo gole do conteúdo da garrafa em suas mãos.
─ Sua relação com Scott McCall anda tento verdadeiros altos e baixos, não?! E pelo modo que aquele garoto Stiles estava verde quando vomitou, presumo que já saibam de seu segredinho sujo. ─ ele se senta numa poltrona em frente ao sofá.
─ Quer dizer que agora anda nos seguindo? ─ rio e balanço a cabeça ─ Você precisa de um hobby.
─ Acredito também ─ ele continua sem me dar atenção ─ que finalmente você tenha percebido que não pode continuar tendo uma vida normal como antes.
─ Minha vida nunca foi das mais normais. E o que você espera, que eu compre um loft como você ou o Derek, e me torne uma reclusa?! Eu sequer tenho um nono do dinheiro necessário pra fazer algo parecido, e particularmente acho que não levo jeito pra antissocial. ─ suspiro transtornada ─ Essa conversa não faz sentindo nenhum! Quer ir direto ao ponto?
─ Você vai continuar no colégio então? ─ ele se inclina e apoia os cotovelos nos joelhos, estragando um pouco sua pose desinteressada.
─ É claro que sim! ─ respondo rapidamente ─ Você é mais louco que parece!
─ Então gostaria de pedir um favor.
─ Posso considerar pensar no seu caso.
─ Mantenha um olho na minha filha por mim. ─ ele hesita ao pronunciar as últimas palavras.
─ Sua... ─ penso não ter ouvido corretamente ─ Sua filha?
─ Como eu suspeitava. ─ ele se afunda no sofá ao meu lado, um sorriso triunfante emoldurando seu rosto ─ Seus amigos guardam segredos de você enquanto você se abre completamente pra eles. Eles não te contaram, não é?! Malia é minha filha, mas seus Scott e Stiles não se preocuparam em te manter informada.
─ Depois de alguns anos você se acostuma. ─ respondo, tentando não transparecer minha surpresa e chateação ─ Mas a verdadeira questão aqui é: Quem foi louca o suficiente pra se relacionar com você? E por que Malia foi parar com os Tate?
─ Eu não sei, ─ ele parece frustrado ─ porque a minha “querida” irmã Talia fez o favor de apagar minhas memórias relacionadas a isso. Minha descoberta é tão recente quanto a sua.
─ Então se quer ter uma relação com ela, apenas conte a verdade ─ sugiro.
─ Seus amigos se encarregam de vigiar ela a todo o momento, e tenho certeza que fizeram má fama sobre mim.
─ Sua fama se faz sozinha. ─ respondo, dando mais alguns centímetros de distância entre nós ─ E então, quer que eu espione sua própria filha?
─ Apenas cuide dela. ─ ele parece realmente preocupado com a garota, um excelente ator ─ Me traga notícias, e eu poderei saber quando entrar em sua vida.
─ Não. ─ falo com convicção ─ Eu não vou espionar Malia, eu não vou trazer noticias dela pra você. Ela já tem um pai, uma família que a ama, e está melhor sendo apenas uma Tate. É melhor que fique longe dela.
─ Se acha tão superior, não é? ─ ele sorri, como se já esperasse minha reação ─ Acha que eu sou um monstro, e você não. Que eu sou o vilão e você a mocinha. Pois saiba minha querida, não somos tão diferentes.
─ Não sou nada como você!─ a raiva toma conta de mim violentamente, fazendo minha garganta doer.
─ Tudo bem, continue a se enganar. Verá que estou certo,, mais cedo ou mais tarde. ─ ele põe a garrafa no chão cuidadosamente, parecendo ter sido tomado por uma súbita onda de tédio ─ Agora, saia.
─ Não precisa pedir duas vezes.. ─ me encaminho para a porta, e antes de fecha-la atrás de mim, o chamo ─ E, Peter? Malia é uma garota forte e decidida, mas não precisa da bagunça dos Hale perto dela. Eu me importo com ela, ficarei por perto e cuidarei dela sempre que necessário. Mas não farei por segundas intenções, e muito menos por você. Pode se achar o pai dela, mas você é só um estranho qualquer.
Ele não me encara, preferindo analisar a garrafa novamente entre seus dedos.
─ Eu não sabia sobre sua existência. ─ ele esmaga a garrafa e vidro se espalha pelo chão junto com o líquido, suas próximas palavras são praticmente cuspidas em mim ─ Ela foi tirada de mim. Não é minha culpa, Julie. Você melhor que qualquer um devia entender que certas coisas são feitas conosco e não há como contornar. Estão fora do nosso alcance.
─ Espero que toda essa preocupação seja real Hale. ─ falo sinceramente, me surpreendendo com a aparente franqueza ─ Provaria que você não é tão cretino afinal.
Bato a porta atrás de mim e desço os degraus, esperando chegar em casa antes de receber mais um sermão.
Fale com o autor