There's a tear in the fabric of your favorite dress

and I'm sneaking glances


–


Ela tem um sorriso bonito.

É o que Ben nota quando o sol brilha devagar em seu cabelo no fim de tarde envolto em vermelho e laranja, fundindo-se no horizonte. Está sentada sob uma árvore no parque, com a saia vermelha cheia esparramada pela grama e um livro no colo. Um olhar mais atento faz com que ele veja que é o seu livro. Aquele mesmo que escreveu por motivos não melhores do que precisar quitar as contas no fim do mês e não ser apto a arrumar um emprego de verdade.

Ela se volta para ele. O vento de meados de outono faz o cabelo preso serpentear para trás e ela sorri. Parece feliz de verdade naquele cenário que ele só consegue descrever como tranqüilo e, àquela altura, Ben nem imagina como ela ainda irá sorrir tantas e tantas vezes para ele daquela maneira, ou como ele a fará feliz, ou como eles serão felizes, mas também não poderia. Ela é "a-linda-garota-do-parque" e ele é o "fracassado-escritor-viajante". Nos seus cálculos não há resposta que ignore a lógica da situação, mas ele nunca fora bom com equações mesmo.

Tempos depois, quando fosse apresentado à família de Susan, ainda não saberia como pudera estar tão errado sobre aquele relacionamento no começo e sobre todas as coisas que estavam certas agora, mas as certezas não mudariam. Não mudaria a certeza de que o sorriso dela era bonito. E de que a primeira vez em que a viu sentiu um arrepio funesto na espinha. Um vento estranho soprando sobre a cidade. "As engrenagens do destino", algo assim.

(Ben nunca esqueceria)


–

Quando Ben o vê pela primeira vez a sensação que tem é a de ter caído inadvertidamente em um ilusório túnel do tempo e estar encarando seu reflexo no espelho com os mesmos olhos que tinha quando era criança. Eles não se parecem, então Ben não consegue entender porque pensa assim, mas a verdade é que pensa. E existe um silêncio tenso no modo como aqueles olhos azuis o encaram por trás dos aros quadrados dos óculos e sobre uma montanha de sardas castanhas. Existe algo de solene, de vazio, de amedrontador. E Ben pensa em Susan. Pensa no parque, no livro, no sol, mas, principalmente, pensa no arrepio. O mesmo arrepio percorrendo sua espinha agora. O mesmo prenúncio de tragédia. O mesmo vento.

– Senhor Mears. – Voz de vento.

Ben treme.

Existe algo de errado no modo como o garoto o chama. Um formalismo que não deveria existir na voz de uma criança, uma seriedade complacente demais em seu rosto, um pesar em sua postura.

Existe algo de errado com o menino.

Engole em seco e sente a garganta bloquear-se, a saliva rasgá-la, uma pontada na boca do estômago que dói como andar descalço na neve.

– Sou.

E não é sobre o tempo que o garoto quer conversar.

–


(Ben sempre foi um perdedor)



Notas finais
Okay, esse final foi "what the fuck", mas eu não sabia como terminar essa fanfic. Realmente.
O que eu quis dizer foi que, bem, o Ben é uma pessoa azarada. Ele perdeu a esposa, perdeu a Susan, perdeu os amigos, perdeu o Mark.
Perdeu o Mark? Perdeu o Mark. Porque, pra mim, depois do final do livro o Mark também roda, enfim. -q E é isso. Talvez um dia eu ainda escreva uma fanfic sobre esse momento. :DD'
Amo vocês. :D
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!