Lose My Mind
14 Between Heaven and Hell.
Notas iniciais
A maciez da cama contra meu corpo era confortável, porém, o que me mantinha ainda deitado – num estado meio sonolento – era o calor humano que afastava o frio que começava a fazer naquele fim de tarde. Aproximei-me mais da fonte de minha relutância em levantar, envolvendo-a por meus braços enquanto sentia o remanescente aroma do shampoo que lavara aqueles cabelos de manhã.
Abri lentamente os olhos, os quais inicialmente se incomodaram com a claridade causada pelas luzes que haviam ficado acesas. Grudado ao meu peito, Lovino Vargas dormia, sua respiração tranquila e compassada. Meu coração bateu mais rápido ao ver que eu o tinha tão perto. Simultaneamente, as lembranças do ocorrido há poucas horas vieram à tona: meu tom preocupado enquanto eu o levava até seu quarto para que descansasse um pouco, a maneira como ele segurara em minha blusa para que eu não partisse e a forma como uma única frase me fez deitar ao seu lado, apesar da tentação que isso me causava.
"Onde você vai? Você disse que ia ficar comigo..."
Um sorriso se desenhou em meus lábios, enquanto eu me lembrava de sua voz manhosa. Plantei um beijo no topo de sua cabeça, mas sentindo vontade de ir mais longe que isso. Em resposta, ele se remexeu um pouco e também acordou. Seus olhos, que tinham um brilho reconfortante, buscaram os meus quase que imediatamente. Suas expressões eram as de uma criança que acabara de ser tirada da cama.
– Desculpe, te acordei? – Perguntei, num murmuro.
Ele bocejou e se grudou mais ao meu corpo, provavelmente fugindo da claridade que incomodava seus olhos de um castanho claro. Acolhi o menor, apertando-o com mais força.
– Tudo bem – respondeu, por fim.
– Está se sentindo melhor?
– Sim.
Levei minha mão aos seus cabelos, brincando com os fios. Eu sentia um aperto no peito e a face quente, mas esse sentimento era inevitável. Meu coração batia acelerado pela proximidade, mas não é como se ela me incomodasse. Tampouco me incomodava o coração que batia contra o meu, num ritmo diferente e ainda mais rápido; muito pelo contrário, fazia-me feliz e satisfeito.
Sentindo-me cada vez mais tentado a fazer alguma bobagem, afastei-me do menor, que me olhou desagradado. Eu sentei na beirada da cama de solteiro, que só agora me parecia pequena para nós dois, e o jovem me imitou pouco depois. Seus cabelos jaziam bagunçados, os fios sempre comportados dançavam para todas as direções; se os dele estavam nesse estado, em já até imaginava os meus. Passei os dedos por meus cabelos, ajeitando-os um pouco. O italiano, por outro lado, não parecia muito preocupado. Pus-me em pé e estendi minha mão em sua direção. Lovino a aceitou, erguendo-se e me seguindo até a sala.
– Está com fome? – Perguntei enquanto o fazia sentar no sofá. Ele balançou a cabeça de um lado ao outro, mantendo-se em silêncio. – Nem eu… Mas já são quase sete horas, seria bom enganar o estômago um pouco.
Ele deu de ombros, suas expressões impassíveis. Cocei a cabeça por um momento e então tive uma ideia.
– Já volto. Espere aí.
Dei-o as costas, antes que ele sequer pudesse pestanejar, e caminhei até a cozinha. Apressei-me pelos armários, pegando os itens que eu buscava. Nem cinco minutos depois eu já retornava ao lado do italiano, duas canecas esfumaçantes em mãos.
Sentei ao lado do menor no sofá e imediatamente ofereci uma das bebidas. Ele a aceitou, mas não a tomou. Ficou a encará-la, como se esperasse maiores instruções.
– Chocolate quente – informei. – Melhor beber enquanto está quente.
Ele levou os olhos da bebida a mim e então de volta à bebida, e só então tomou um pequeno gole. Eu o observava, os meus olhos verdes preocupados com o comportamento estranho do rapaz. Claro, era compreensível; seria demais pedir para que ele agisse como normalmente, tendo em vista o ocorrido.
– Lovi…
– Você não vai rir? – Ele me interrompeu, suas palavras me surpreendendo. Ele deslizava o dedo pela superfície da caneca, inquieto. – Pode rir. Eu sei que é ridículo.
– O quê?...
Ele virou os olhos de volta a mim, logo depois de pousar a caneca na mesa. Os seus orbes castanhos brilhavam por culpa das poucas lágrimas que começavam a se formar em suas bordas, porém transmitiam sobretudo raiva e revolta; eram lágrimas de rancor.
– O meu problema com meu irmão. A maneira exagerada como reajo a um simples complexo de inferioridade.
– Lovino, eu nunca riria de você! E de uma coisa dessas ainda por cima! Pode até me parecer exagerado e totalmente sem base, mas rir eu nunca riria! – Repliquei, pousando também minha caneca antes que acontecesse algum acidente.
– Diz isso porque prefere ser gentil a ser honesto!
– Não! Digo isso porque me importo com você e essa é uma questão que muito te preocupa! Mas eu quero que você entenda que não está sozinho como pensa que está e que tem pessoas que te amam muito! Não é como se todos preferissem o seu irmão! Eu… – Dei uma breve pausa, minha face se esquentando ao que eu percebia o que dizia. – Lovi, você… Você é importante pra mim e ninguém nunca vai te substituir, muito menos o seu irmão – terminei, minha voz mais calma; muito diferente de meu coração, que batia acelerado.
Lovino Vargas abaixou a cabeça, escondendo parte do rosto atrás de sua franja. Antes que eu pudesse sequer reagir, ele se atirou em minha direção, enterrando a face em minha camisa social, que ficava cada vez mais amarrotada.
– Lovi! – Encarei o topo de sua cabeça, um pouco incerto sobre o que fazer, um pouco perdido. – Você não está chorando, né?
– Não – sua voz era abafada pelo tecido. – Você faz parecer que eu sou um chorão.
Inclinei levemente a cabeça, sorrido torto. Segurei-o pelos ombros e o fiz se distanciar; tanto por ele, quanto por mim – eu não sabia se ia conseguir me comportar por muito mais tempo, com todo esse contato que o italiano insistia em iniciar ultimamente. Porém, o resultado de minhas ações não foram tão boas para meu autocontrole quanto eu pensei que seriam.
O menor encarava-me com os orbes grandes e envergonhados, a sua face corada como nunca antes. Seus lábios entreabertos talvez desejassem se pronunciar, mas nada parecia vir a mente do jovens naquele momento. Meus olhos miravam os seus, sem saber o que fazer. Os segundos passaram silenciosos e demorou consideravelmente até que um de nós mostrasse qualquer reação.
Deslizei as mãos que permaneciam até então em seus ombros, até alcançar seus braços, que estavam quentes – ou seriam as minhas mãos? –, e os segurei com delicadeza. Minhas costas começaram a se mover e eu me sentia aproximar de meu amigo de infância, pouco a pouco. Seus lábios pareciam macios; eu me perguntava se seriam tão macios quanto da última vez que eu conseguira arrancar um selinho deles.
Enquanto isso, o italiano de forma alguma reagia, apenas esperava quieto enquanto eu me aproveitava de seu estado fragilizado.
Eu estava perto, cada vez mais e mais perto… Até que o telefone tocou, e me senti paralisar a poucos centímetros. O toque, que não se poderia traduzir como qualquer outra coisa além que barulho, repetia-se indesejavelmente. Depois de pestanejar um pouco, afastei-me e, sem olhar sequer uma vez para trás – por não saber como encarar o italiano –, fui em busca do aparelho. Quando eu já o pegava em mãos, ameacei uma bisbilhotada, vendo-o se ajeitar no sofá, seus olhos presos no chão e sua face extremamente vermelha. Mordi os lábios levemente, temendo ter cometido um erro que, desta vez, não teria uma desculpa para encobrí-lo.
– Alô? – Perguntei, enfim, dando-o novamente as costas. Eu ia dar um jeito, de alguma forma por enquanto desconhecida, e ficar pensando muito sobre o assunto só me daria dores de cabeça. Um chiado em meu ouvido trouxe-me de volta, e só então notei que eu ignorava completamente a pessoa ao telefone. – Ah! Lo siento! Quem é, quem deseja?
Uma breve pausa passou até que eu voltasse a me pronunciar, e, ao que o fiz, atraí de volta a atenção do italiano imediatamente.
– Eh?! Ludwig?! Olá, há quanto tempo! Como vão as coisas?... Ah, aqui anda tudo bem… Não se preocupe. Não vejo problema em Gil ter te passado meu telefone – apesar de que você tenha ligado num momento bem inoportuno, pensei. – O que posso fazer por você?... Hum, entendo. Sei o que quer dizer. Essa situação também não me agrada, e acho que seria bom pra eles… Amanhã? Sem problemas por mim. Ah! Mas preciso ver com Lovino, para ver se tudo bem pra ele. Sabe como é, não quero que ele passe por maus pocados… Certo, falarei com ele e mais tarde eu confirmo. Posso ligar neste mesmo telefone?... Ok, então até mais – e desliguei.
Girei em meus calcanhares e voltei para o lado do italiano, sentando de volta no sofá. Eu buscava as palavras certas, apreensivo de que estas pudessem causar alguma reação negativa a ele. Bem, pelo menos a questão do quase-beijo havia sido esquecida, ou pelo menos adiada por tempo indeterminado. Por outro lado, o italiano aguardava ansiosamente meu pronunciamento, sobretudo depois de ouvir seu nome ser mencionado. Claro que ele estava também apreensivo; mas o jovem sempre fora bem mais curioso que qualquer outra coisa, isso desde pequeno.
Quando percebeu que o silêncio ainda continuaria por um bom tempo se dependesse de mim, ele tomou a iniciativa:
– Era o batat… Digo, Ludwig?
– Sim… – Eu outras situações, eu riria do fato dele ainda o chamar assim. No entanto, agora o meu nervosismo era tamanho que não permitia que eu me desfocasse do assunto.
– O que ele queria?
Antes de responder, observei bem o italiano. Ele tinha os olhos decididos e fortes, mal pareciam os do um garoto mimado que chorara já tantas vezes desde que viera morar comigo.
– Ele queria saber se eles podiam dar uma passada aqui amanhã. Ele e o Feliciano.
Ele virou o rosto e suspirou. Eu observava cada reação sua com grande apreensão, mas ele parecia razoavelmente bem com tudo aquilo. Quando se virou e decidiu por enfim se proclamar, tinha os lábios tão trêmulos que não pude me impedir de interrompê-lo.
– Eu acho que você devia dar uma chance a ele, e a si mesmo. Qualquer coisa, eles sabem da situação, e tenho certeza de que não vão forçar a barra.
Ele mordeu o lábio por um momento e contraiu os músculos da face, enquanto encarava-me desagradado.
– Eu sei disso! Sei melhor que qualquer um, melhor que você! Também sei que fugir não vai resolver o problema, e sei que machuco meu irmão toda vez que entro em crise por causa dele. Por isso mesmo que tenho medo de vê-lo. E se eu o ferir novamente? Eu me sinto mal por desprezar sua presença, mesmo que inconsientemente. Eu sei que a culpa não é dele, nunca foi... A culpa é minha, por ter esse estúpido complexo de inferioridade!
Ao que terminou de dizer o que pensava, seu corpo tremia por inteiro. Senti-me culpado por ter sido, desta vez, a causa de sua situação.
– Lovi… Desculpa, eu falei sem pensar – abracei-o, a fim de o acalmar. – Você sempre adorou ele; ele sempre foi importante pra você. Por isso mesmo que eu queria que vocês se dessem bem. Eu queria que você pudesse amar ele sem se odiar no processo. Eu queria tanto que vocês voltassem a se dar bem, como quando éramos pequenos; bem pequenos. Eu gosto tanto de te ver feliz que acabo me metendo muito no assunto. Lo siento.
– Você não tem culpa, stupido… – ele balbuciou em meu ouvido, antes de se afastar. Seu gesto me surpreendeu, mas não o impedi. – E eu gosto que você se preocupe comigo... Grazie.
Ele tinha novamente as maças do rosto coradas, daquela forma tão adorável e tão dele. Eu simplesmente não conseguia desviar os olhos, ou fazer meu coração parar de bater acelerado. Ele se ergueu, levando consigo a sua caneca, cujo conteúdo, àquela altura, já esfriara.
– Vou pro meu quarto. Quero revisar uma parte da matéria ainda hoje a noite. – anunciou, sua voz calma. – E diga para eles virem pro almoço, que eu irei cozinhar.
Sorri ao jovem, que respondeu igualmente com um sorriso antes de se recolher. Depois de um tempo sentado, me levantei e caminhei ao telefone, buscando então o número de Ludwig na listagem.
Encarei o aparelho por um momento, temeroso quanto às consequências daquele ato. Todavia, não era meu o direito de decidir se aquela era realmente uma boa ideia, ou se não era muito cedo para um passo tão grande. Se Lovino dizia querer ver o Feliciano, eu não poderia o impedir – não que eu o fosse, de qualquer forma. Eu queria tanto que eles se dessem bem… Porém, mais que isso, eu queria que Lovino fosse feliz, e felicidade não era bem o que ele sentia quando via o irmão.
Suspirei, fechando os olhos por um momento. Quando os abri novamente, estava decidido. Disquei o número da pequena tela eletrônica, aguardando com o coração na boca até que eu conseguisse uma resposta do outro lado da linha.
– Alô, Ludwig? Então, sobre amanhã… Meio dia e meio está bom para vocês?
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