Lorena
4 O Mestre
Notas iniciais
Lorena andava apressadamente. O dia estava maravilhoso, com o sol no firmamento e passarinhos chilreando acolá, no parque da cidade. Em outro dia, com um outro objetivo em mente, ela simplesmente aproveitaria esse dia abençoado, e iria deitar-se sob uma árvore frondosa, até que o sol se escondesse ou seu corpo pedisse por comida. Oh, hoje seria um excelente dia para nadar no lago.
Infelizmente ela tinha coisas mais importantes em mente. Não era todo dia que ela poderia passar boa parte da manhã conversando com seu padrinho. E ele era um homem tão importante, tão famoso. Ela deveria agarrar com unhas e dentes essa chance; talvez menos, pois violência não ficava bem numa mocinha naquela época.
Ela rapidamente chegou até sua residência e bateu na porta. Segurou com cuidado o prato coberto que trouxera. Era uma apfelstrudel. Demorara dois dias para aprender aquela receita e preparar a iguaria decentemente, mas sua mãe a aprovara, e mesmo seus irmãos traquinas haviam devorado as primeiras amostras que saíram imperfeitas. Esta ao menos estava passável. Será que ele gostaria dela?
A porta se abriu.
– Oh, como vai, Lorena? — A matrona abriu a porta para lhe dar passagem, falando com seu forte sotaque alemão.
– Vou bem, Frau Einstein. — Lorena respondeu polidamente.
– Isto é para mim? — A matrona segurou o prato com a torta de maçã.
– Oh... Sim! É sim. Não sei se estará de seu agrado, afinal eu sou apenas uma pirralha americana tentando aprender uma receita alemã. — Lorena se desculpou, aceitando o fato de que a torta para seu padrinho seria comida pela esposa dele.
– Obrigada! Isso é muito gentil. Tenho certeza que está adorável. Se procura meu marido, ele está no quintal. E, Lorena, eu levarei uma fatia para ele provar. — A matrona disse isso com um olhar compreensivo.
Lorena corou e baixou os olhos envergonhada. Frau Einstein sempre tinha esse efeito sobre ela, como nenhuma outra pessoa em sua curta vida. Ela tratou de afastar esses pensamentos e foi procurar por seu padrinho no quintal. Ao chegar lá, passou as mãos para ajeitar os cabelos cacheados e as invisíveis pregas e inexistentes amassados em sua roupa.
Aproximou-se calma e silenciosamente até entrar no campo de visão do velho cientista.
– Oh, você está aí? Não tinha percebido. Então, veio admirar esse belo dia de sol? — O bom velhinho, vestido num bonito sueter azul-bebê, estava sentado em uma cadeira de balanço sob a sompra do alpendre no quintal.
– Cheguei agora mesmo, e sim, o sol está esplendoroso hoje. — Lorena respondeu com um sorriso tímido.
– Você sabe, cara Lorena, o tempo é uma variável que não podemos modificar. Ele sempre nos leva para o futuro, nunca para trás. E ao acompanhá-lo, nós envelhecemos e ficamos fracos. Isso é inexorável. Seria mais sábio aproveitá-lo bem, fazendo tudo ao nosso alcance para construir nossa felicidade e das pessoas que nos cercam. Em última análise, você deveria aproveitar este lindo dia de sol com seus amigos, porventura no parque da cidade.
– Não sei como lhe explicar, padrinho, mas sinto como se o senhor fosse a chave para a minha felicidade. — Lorena disse isso e sentou-se no chão de madeira, aos pés do idoso.
– Eu sou um velho homem com os dias contados. Daqui a dez anos você terá o que? Vinte e seis anos? Eu já estarei morto, vivo, apenas na lembrança dos amigos. Como poderei influir na sua felicidade?
– As coisas que conversamos. Todas as coisas de ciências que o senhor me ensina. Tudo isso é fantástico e maravilhoso. Sinto como se minha vida dependesse desses ensinamentos. — Ela falou extasiada.
– "Fantástico" vem de fantasia. O meu campo de ação é a ciência pura. Aquilo que pode ser provado e explicado logicamente, mas quem disse que não há uma pitada de razão encoberta pela fantasia? — O mestre sorriu, dando um olhar divertido para Lorena.
– Padrinho, ainda outro dia conversávamos sobre campos gravitacionais, e sobre como eles podem alterar o espaço e o tempo. — Lorena falou emocionada.
– Sim?
– Dependendo da massa e da força gravitacional, o tempo pode ser deformado.
– E?
– É possível graças a essa deformação, fazer o tempo voltar atrás.
O velhinho a olhou bondosamente e ficou silencioso antes de responder.
– Sim.
– Eu sabia! — Lorena rejubilou-se.
– Empiricamente, sob certas condições e somente em nível subatômico, a luz pode voltar no tempo. Nunca um objeto e nunca uma pessoa.
– Talvez não agora em 1950, mas no futuro. Quem sabe? Talvez em 2050 alguém invente uma máquina do tempo.
– Oh, minha cara Lorena, você anda lendo muito H.G.Wells. Não deveriam permitir essas leituras para jovens impressionáveis de dezesseis anos. — O idoso riu divertido.
Lorena riu também. Ela ainda tinha outra carta na manga e não deixaria a oportunidade passar.
– Segundo Schrodinger, um suposto gato em uma caixa poderia exprimir duas realidades conflitantes ao mesmo tempo. — Lorena falou séria.
– Isso é uma teoria, não algo que possa ser demonstrado.
– Sim, mas ainda assim... em teoria... duas realidades diferentes podem existir ao mesmo tempo. Apenas uma não sabe da existência da outra... porque não é perceptível aos sentidos de uma dada realidade.
– Oh, querida! C. S. Lewis queria apenas uma válvula de escape para os horrores da guerra. Nárnia só existia na cabeça dele. — O mestre sorriu bonachão.
Lorena baixou a cabeça e a balançou em negação. Não sabia o que a decepcionava mais: que seu famoso padrinho não a levasse a sério, ou que ele a considerasse uma adolescente estúpida e deslumbrada. Talvez as duas coisas a irritassem com a mesma intensidade.
– Não se apoquente cara Lorena. Existem mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia. — O cientista falou sonhadoramente.
– Eu ... eu apenas fiquei... esperançosa... — Lorena esfregou os olhos e tratou de morder os lábios para se controlar. A última coisa que ela queria era chorar na frente do mestre famoso. Ou que ele a considerasse chorona e mimada.
– Tome! — Ele lhe entregou o lenço de cambraia para que enxugasse as lágrimas teimosas.
– Obrigada!
– Agora, que tal me contar o que a atormenta de verdade? — Ele perguntou preocupado, mas ainda calmo e plácido.
– Eu... huh... eu sinto uma espécie de opressão, como se ... como se um cataclisma fosse ocorrer, e eu fosse a única capaz de impedir. É só... é só uma apreensão. O Senhor tem razão. Eu sou muito impressionável. Tenho ido às matinês do cinema e visto aqueles filmes de monstros e alienígenas...
– Oh, o cinema... — Ele fez um gesto com a mão, como quem diz "conheço essa estória".
– Desculpe-me, padrinho, por vir aqui conversar... idiotices e depois chorar como uma menina embirrada.
– Não se desculpe. Adoro sua companhia. Quem mais em Princeton colocaria Schrodinger e seu gato em uma viagem no tempo em universos paralelos? — O mestre riu.
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