Lorena

20 A volta para casa


Notas iniciais
"Mas eles não necessariamente pareceriam de algum modo diferente de nós. Talvez eles viessem todo o tempo - fizessem uns poucos trocados e então voltariam para o futuro. Claro, você teria o Efeito Ray Bradbury. Mesmo uma pequenita mudança aqui poderia afetar profundamente o futuro. Não pise numa borboleta." A máquina do tempo acidental por Joe Hadelman.



A cena na TV era eletrizante. Um grupo de assaltantes de carros estava dirigindo em alta velocidade pelas ruas do Rio de janeiro, enquanto detonavam os carros da polícia local. Dominic Toretto e sua gang estavam levando a melhor.


O celular tocou. Devlin fez um ar de enfado. Espreguiçou-se e atendeu ao telefone.


– Alô! Devlin falando.


– Dr. Devlin, aqui é a enfermeira Eunice. Há um novo paciente em sua enfermaria. Veio transferida esta noite. Desculpe incomodá-lo em sua folga, mas o senhor deixou ordens expressas para avisá-lo de novos pacientes.


– Tudo bem, enfermeira. Já estou indo.


O médico virou-se para a tela, a tempo de ver o sucesso de Dom Toretto, ao som de Kuduro.


Mais tarde, já no hospital, o Dr. Devlin leu o prontuário de Lorena Cross, a nova paciente no leito 143. Glioblastoma. Um diagnóstico simples e um tratamento simples. Ainda bem que ela procurou ajuda médica a tempo. Logo, logo, ela voltaria para casa curada. Foi vê-la na enfermaria.


Encontrou-a no leito de hospital, cercada pela família. Haviam enfeitado seu pedacinho de enfermaria com balões, flores, e ursinhos de pelúcia. Tudo era muito festivo, como se estivessem na ala pediátrica. A paciente sorria, corada e com ar jovial.


– Como vai, senhora Lorena?


– Estou bem, doutor. Desculpe pela presença de minha família. Eu sei que não é horário de visitas, mas ao saberem que o senhor viria me ver, eles quiseram estar presente.


– Tudo bem, é vom ver que a família dá todo o suporte ao doente. Estou disponível para lhe dar todas as informações necessárias.


– Então, doutor, nossa Lorena ficará curada? — O marido da paciente perguntou.


– Completamente. O tumor está em fase inicial. Temos tido alta porcentagem de cura após a cirurgia.


– Então, quer dizer que não terei mais crises de ausência? — Lorena perguntou ansiosa.


– Não mais. — O médico respondeu tranquilo.


– Oh, que pena! — Lorena lamentou.


– Mamãe! — Sua filha a censurou.


– Oh, filha! Sabe que tenho sonhos maravilhosos durante essas crises. Não imagina as aventuras fantásticas que eu vivo nesses momentos, doutor. — Lorena falou entusiasmada, dirigindo-se tanto à filha, quanto ao médico.


– Não me lembro de ter lido sobre terapia com maconha no seu prontuário.


Todos olharam o médico surpresos.


– Brincadeirinha! Na verdade essas crises de ausência e delírios oníricos fazem parte da sua doença. Sinto muito, mas após a cirurgia não mais os terá.


– É o que queremos. Nada de aventuras no mundo dos sonhos; não é, Lorena? — Seu marido a inquiriu.


– Claro querido. Ficar curada é o que eu mais quero. — Ela deu um selinho no marido.


– Bem, se não tiverem mais perguntas, eu já vou indo. Conversaremos mais, amanhã, Senhora Cross. Até logo!


O Dr. Devlin se retirou e fez algumas anotações no prontuário da paciente. Riu para si mesmo ao lembrar-se da piada sobre maconha. Então foi para casa.

Muito longe dali, precisamente em 1950, numa cidade chamada Princeton, um carro Tucker 48 surgiu do nada, próximo à calçada. Lorena suspirou de alívio. Ela estava cansada de viagens no tempo e queria muito voltar pra casa. Ela saiu do carro e procurou se situar. Não estava no quintal dos Einstein, nem próxima a sua casa. Na verdade estava próxima ao centro comercial. Não tinha mais vontade de dirigir aquele carro, por isso teria que andar até sua casa. Tirou as chaves da ignição e se afastou dali.


Andou por muito tempo até que reconheceu sua vizinhança. Caminhou até uma casinha sua conhecida. Bateu a porta. Ninguém atendeu. Ela resolveu contornar a casa. Talvez os Einsteins estivessem no quintal. E realmente, lá estava ele, seu mestre e padrinho, o cientista mais famoso do mundo. Lorena aproximou-se calmamente até ficar na sua linha de visão.


– Como vai, padrinho?


Ele não respondeu, e parecia mesmo não vê-la, embora estivesse olhando para ela, melhor dizendo, através dela. Lorena ficou consternada. O velho cientista levantou-se e colocou um chapéu Fedora na cabeça. Ele se dirigiu à Lorena e a atravessou, como se ela fosse fumaça. Lorena compreendeu, com um aperto no peito, que não tinha corpo físico, naquela realidade. Havia voltado para casa, mas em uma outra realidade. A segunda alternativa do gato de Schrödinger. Duas lágrimas rolaram por sua face.


Então o velho homem saiu. Havia um carro esperando por ele na frente de sua casa. Ele entrou, e Lorena resolveu acompanhá-lo, por isso entrou também. O carro seguiu para o cemitério municipal. Seu padrinho saiu do carro e caminhou tropegamente em direção a uma lápide em particular. Lá estava escrito "Amada esposa e amiga. Elsa Einstein. 1876 — 1936".


Lorena não conseguiu conter um soluço. Colocou uma das mãos sobre o coração e a outra sobre a boca. O idoso tocou a lápide e pronunciou algumas palavras baixinho, então apanhou algumas pedras e colocou sobre o túmulo. O homem que dirigia o carro aproximou-se e colocou a mão sobre o ombro dele, como uma espécie de consolo ou tentativa de conforto.


– Ok! Vamos embora! Auf Wiedersehen, meine lieben! Sie bald zu treffen. — O cientista beijou o nó dos dedos e depois tocou a lápide de sua esposa uma última vez. Então ele se foi.


Lorena também se afastou, mas não quis compartilhar do carro de seu padrinho. A tristeza dele a fazia sentir-se mal. Seguiu a pé, por mais cansada e faminta que estivesse. Dirigiu-se a sua casa, embora já adivinhasse o que iria acontecer.


Não se incomodou em bater, apenas entrou em casa. Todos estavam na sala de jantar. Seus pais e seus dois irmãos. Não faltava nenhum lugar à mesa, pois ela tinha apenas quatro cadeiras. Todos conversavam animadamente, sem notar sua presença, ou lamentar sua ausência, como se ela não existisse. Ela chorou mais um pouco, pois nunca se dera conta de que tinha uma família maravilhosa. E agora ela a perdera.


Deitou-se no sofá da sala e dormiu, ainda escutando as vozes de seus parentes, como a recordação de uma música predileta, conhecida e repetitiva. Fez planos de ao acordar, procurar pela máquina do tempo e tentar voltar pra casa. Se ela tivesse sorte, talvez voltasse para o local certo, com a família certa, e com a realidade que ela conhecia e estava acostumada. Esse fio de esperança a confortou e ela dormiu em paz. Quem sabia o que aconteceria quando abrisse os olhos?

Fim

Notas finais
Gostaria de dizer, que apesar da trabalheira, foi um prazer participar desse desafio. Se não ganho nada material escrevendo para este site, ao menos ganhei o conhecimento deste gênero, ficção científica. Não li todos os livros que citei nas notas iniciais, exceto a saga Harry Potter, o gibi do Sandman e o conto do Ray Bradbury. Ainda vasculhei na internet todas as referências citadas e até andei comprando livros de FC na Saraiva. Surpreendentemente, não consegui encaixar os livros comprados nas notas iniciais. lol. Tudo bem! Enfim, não escrevi nada muito científico, porquê não entendo mesmo do assunto, mas espero que a presença de Einstein na fic compense essa minha falha. Obrigada a quem leu e a quem se interessou pelo desafio do Nyah! Valeu! Beijos!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!