Lorena

17 A briga


Notas iniciais
"Droga, cuidado!" Renfrew gritou. "Tire esse papel do meu mingau, faça o favor? Marjorie, por que os malditos cachorros estão na cozinha enquanto tomamos café da manhã?" Três figuras em animação suspensa o encararam. Marjorie, voltando do fogão com a espátula em sua mão. Nicky erguendo a colher para a boca que formava um O de surpresa. Johnny ao lado dele, segurando um papel escolar, sua face começando a entristecer. Renfrew sabia o que passava pela cabeça de sua esposa. 'John deve estar realmente irritado. Ele nunca fica zangado'." Timescape por Gregory Benford.

– Quero que me conte aqui e agora do seu caso com sua secretária. Estou cansada de ser feita de boba, e de ser a esposa enganada, enquanto todos cochicham nas minhas costas, com pena, ou rindo de mim. — Ela falou grave e comovida.


– Do que que você está falando? — Ele perguntou confuso e algo ofendido.


– Não minta pra mim! Todos já sabem que você me trai com aquela mulher. Você mente pra mim, dizendo que está trabalhando até tarde no escritório, mas na verdade, está com ela, desfrutando da boa vida, fornicando e se arrastando na lama.


– Você está louca? Está imaginando coisas? Deu pra acreditar em histórias de fofoqueiras? — Ele se irritou com a esposa.


– Você pensa que eu sou idiota? Que não entendi os olhares, os toques e as insinuações subliminares? — Ela gritou descontrolada e com a face avermelhada.


– O que? De onde você tirou essa ideia fantasiosa e descabida? Você só pode ser mesmo idiota por acreditar que isso seja possível. — Ele retrucou elevando a voz.


– Fantasiosa? Você não me respeita. Você me compara com aquela mulher de vida duvidosa. Uma sem vergonha que não merece o convívio de pessoas decentes ...


– Morda sua língua antes de falar mal dela. Você não a conhece o suficiente para julgá ... — Ele foi interrompido por sua esposa que avançou sobre si e o esbofeteou.


O homem colocou sua mão sobre a face ardendo e fulminou a esposa com um olhar. Como ela se atrevia a levantar a mão contra ele. Como ela ousava desrespeitá-lo? De que espécie de tribo selvagem ela havia saído? Como ela achava que sairia impune desse mal comportamento e tamanha baixeza? Ela iria apanhar para aprender que o marido é o rei e senhor de seu lar, seu castelo. E ela, a esposa, lhe devia submissão e cega obediência. Não era importante, nem exigido que ele lhe fosse fiel, embora ele fosse inocente do que ela o acusava. Ela deveria aprender qual era o seu lugar, e ele a ensinaria naquele momento.


Então, saída não se sabe de onde, a pequena Lorena, de apenas 2 anos de idade, arrastou-se até ficar entre eles e começou a gritar. Ao avanço do pai, ela se abraçou às pernas da mãe, não a permitindo se movimentar.


– Mas o que essa menina está fazendo aqui? Você não deve ficar aqui, Lorena, Cadê sua babá? — O pai gritou.


Como não obtivesse resposta, ele repetiu a pergunta, dessa vez mais alto.


–Pare! Você a está assustando! — A mãe o alertou, enquanto se abaixava para pegar a pequena chorosa no colo.


A mãe saiu do recinto com sua bebê no colo. Foi até à cozinha e tentou depositá-la no chão, mas a menina prendeu-se a ela e não queria largá-la, chorando ainda mais alto e sentida, como se fosse morrer se se separasse dela. A mãe ficou segurando a menina para que a mesma se acalmasse e parasse de chorar. Então ela viu uma cadeira de balanço e se dirigiu pra lá. Sentou-se e aconchegou a menina. Esperou que ela se acalmasse, mas era só parar o balanço da cadeira, para o berro recomeçar. Passou a cantar uma canção de ninar, mais para acalmar a filha, do que para fazê-la dormir. A menina ainda chorou um pouco, mas foi adormecendo aos pouquinhos, até que tudo voltou à santa paz.


A mãe de Lorena levantou-se segurando a filha com cuidado e levou-a para seu berço no segundo andar, depositando-a lá. A babá a seguiu durante todo o trajeto, mas não ousou falar nada, visto que se considerava culpada pelo mal comportamento da menina. Ao sair do quarto a moça começou a se desculpar lamuriosa, mas calou-se após a mãe de Lorena colocar um dedo sobre os lábios em sinal de silêncio.


Algo no seu íntimo lhe avisava que estivera diante do abismo, mas fora salva por sua filha. Não sabia explicar como, nem porque, mas era assim que se sentia. Resolveu orar para seu santo de devoção. Foi até o oratório na sala de visitas, ajoelhou-se e rezou, conforme sua fé católica-cristã.


Quanto ao marido, esse estava tão transtornado que decidiu se retirar um pouco de casa e esfriar a cabeça. Pegou as chaves do carro e saiu. Andou de carro por 2 horas, então embebedou-se e dormiu fora, em um motel de beira de estrada. Acordou no dia seguinte, com um gosto amargo na boca. Vomitou as tripas. Tomou um banho e tomou café. Só então retornou para casa. Cansara-se de ser um autoritário e marido odioso, que só causava dor e revolta na mulher e filha. Resolveu pedir desculpas.


Ao chegar em casa, procurou a esposa que estava cerzindo roupas velhas, enquanto a bebê brincava a seus pés. Sua cônjuge parecia serena e calma.


– Ah ... Eu quero ... Eu preciso falar com você. — Ele gaguejou.

Ela olhou para ele e parou o que estava fazendo.

– Eu quero pedir desculpas. Pelo meu comportamento e por brigar com você e com nossa filha. Eu ... eu acho que agi muito mal, ontem. — Ele começou a chorar, embora não soubesse exatamente por que.


Sua esposa se levantou e o abraçou apertado. Ela o cobriu de beijos e chorou um pouquinho também.


– Está desculpado. Eu também tenho que te pedir desculpas por ter me descontrolado e perdido a cabeça. Eu devia confiar mais em você e não me deixar levar pelo ciúme. Perdão! Mil vezes perdão!

Ela o abraçou mais uma vez, e fechou os olhos, enquanto deixava que o calor do corpo do marido a aquecesse. Inspirou profundamente seu aroma másculo e animal.

– Acho que você precisa de um banho quente com essência de rosas. E deixe-me levar estas roupas para lavar. Sei que são suas preferidas. — Ela disse com um sorriso.


Ele sorriu também e se deixou ser conduzido como um menininho traquinas.


Mais tarde jantaram Gnocchi alla romana e vinho tinto. Combinaram de passar o fim de semana na praia, para que a bebê se divertisse nas ondas do mar. Queriam que sua filha tivesse o melhor da vida, e que seus dias sempre fossem cheios de sorrisos, bondade e felicidade. No que dependesse deles, isso estava garantido.


Mais tarde naquela noite, o marido desceu as escadas, vestido em pijamas. Ele se dirigiu à sala de estudos, onde estivera discutindo com sua esposa, no dia anterior. Foi até uma escrivaninha no canto e abriu uma gaveta. Retirou de lá uma pistola. Sentiu o peso da arma em sua mão. Lembrou-se da discussão daquela manhã, e de como o conhecimento da existência daquela arma infiltrou-se em seu subconsciente, quando estava transtornado com a agressão da esposa. Ele chegara a pensar ... ele chegara a pensar em matá-la. Esse pensamento agora o enchia de repulsa e auto-depreciação. Que espécie de homem era ele que pensava em matar uma mulher honesta e dedicada ao lar, além de mãe de sua filha? Ele a amava. Casara-se por amor, e jurara devoção a ela diante de Deus. Como poderia pensar em cometer semelhante desgraça que destruiria sua vida e a sua família?


Ele saiu da sala com a arma na mão. Abriu a porta da cozinha e foi até o quintal. Cavou um buraco bem fundo e enterrou aquilo que considerava ser um objeto do diabo, mensageiro da morte e da desgraça. Então voltou para seu quarto e dormiu o sono dos justos. E nunca mais pensou no assunto.