Loren, The Strange
8 Parte 7 -Final - Traga-me de volta à vida
Notas iniciais
Loren The Strange
-Final-
Parte 7 – Traga-me de volta à vida
Fuja Loren! Saia daqui... Para longe! Não deixe eles te pegarem, querida. Rápido!
Em meu sonho eu via uma moça, com seu vestido branquíssimo de renda esvoaçando numa brisa inexistente; Emmanuela parecia aflita. Aos poucos sua voz foi se tornando audível, e aquilo não mais parecia um sonho.
- Loren! – chamou Ross ao meu lado, recém desperto – Acho que tem alguém tentando arrombar a porta.
Ele se levantou num pulo, enfiando a camiseta de qualquer jeito pela cabeça, mas antes mesmo de sair do quarto, a porta se abriu e um grupo de homens de roupas brancas entrou no local. Atrás deles vinha uma mulher de aspecto carrancudo, com longas unhas compridas pintadas de vermelho e dois adolescentes no seu encalço. Ela olhava para tudo ao seu redor com nítido nojo.
Loren olhava assustada “que droga toda é essa? Ela não ia ficar duas semanas? Pra que todos esses caras?”
- É ela, senhora? – perguntou um dos homens de branco, todos os outros olharam para a menina sentada na cama.
- É ela sim. Podem levar! – consentiu a mulher, mirando a filha como desdém. Atrás dela, Loren podia ver o sorriso torto e maldoso nos lábios cheios de gloss da irmã.
- Para onde vocês pensam que vão levá-la? – disse Ross, postando-se na frente da garota.
- Então você é o tal Ross? Até que foi fácil de encontrar essa menina, sabe. Na escola dela, a única pista que tivemos de seu paradeiro foi que ela estava aqui, na sua casa. Devemos te agradecer por isso, garoto – provocou sarcástica, enrolado uma mecha de seu longo cabelo loiro nos dedos.
- Não me obrigue a perguntar mais uma vez – ele franziu a testa, deixando a raiva aflorar em sua face.
- Ela vai se tratar numa clínica; todos que conhecem essa menina me deram esse conselho. Na verdade, eu demorei até demais pra mandar-la pra lá.
- Não! Vocês não vão levar Loren pra um hospício! – gritou Ross, quando os homens começaram a se aproximar da garota, que instintivamente se encolheu no canto da cama. Mas os quatro enfermeiros eram muito mais forte do que Ross.
- Não nos atrapalhe. Se não te levamos junto! – ameaçou um dos homens, segurando firme no pulso do garoto.
- Pois então me levem, podem me levar à vontade, seus imbecis!
- Não! Quero esse marginal o mais longe possível dessa garota!
- Ross... — um dos homens a puxou com força, e mesmo ela se debatendo, ele a colocou sob seu ombro – ROSS! – conforme ele caminha para fora do quarto, Loren podia ver outros dois homens segurando Ross, que gritava feito louco, tentando se soltar. Ela passou por Daisy, que lhe deu um “thauzinho” e um “até nunca mais, esquisita!”, por sua mãe, que nada disse, entretida em arrumar seu próprio cabelo no espelho sujo da sala, e então, por Dan.
- NÃO! LARGE O BAD, SEU FILHO DA PU...
- Fique quieta, garota! – brandiu o homem.
Mas Loren não ficou. Daniel segurava Bad pelo pescoço, sacudindo-o freneticamente, como um bichinho de pelúcia qualquer. O gato tentava desesperadamente se soltar das mãos do garoto, que ria de forma diabólica. Quando finalmente conseguiu acertar uma unhada no braço de seu agressor, Bad soltou um miado rouco e alto; Dan apertou seu pescoço com tanta força que começou a sufocá-lo.
- BAD! BAD...NÃO! LARGUE-O! – as lágrimas de Loren pingavam no chão. Ela segurava com força nas costas do homem para poder ver a cena e gritar.
Ele se contorcia de forma desesperada e louca, batendo suas pequenas patinhas no ar, quando, num momento longo e doloroso, seu corpo amoleceu e ficou pendurado nas mãos frias do garoto.
- SEUS LOUCOS MALDITOS! VOCÊS É QUE DEVEM IR PARA O HOSPICIO! ROSS... BAD! NÃAO!
Na porta da casa, outro homem estava à espera. Ele amarrou o corpo esguio de Loren, a imobilizando, e então a jogou dentro de um carro branco semelhante a uma ambulância. Antes da porta se fechar, ela ainda pode ver Ross, com o rosto vermelho de lágrimas, tentando fugir das mãos dos enfermeiros. Quando ele chegou ao jardim, foi novamente apanhado.
Em seus lábios, Loren pode ler “Eu vou te trazer de volta”, e logo em seguida, com um golpe no meio do estomago, Ross desmaiou. Loren gritava; ao lado do corpo desfalecido do namorado, Dan jogou o cadáver pequeno de Bad, rindo ainda mais diabólico.
- VOCÊS... VÃO TODOS PARA O INFERNO!
Diante dos ataques de Loren, os enfermeiros injetaram alguns líquidos em seu corpo, e logo a fizeram engolir alguns comprimidos.
Quando a porta do carro se fechou, todos sabiam: a garota estranha nunca mais iria voltar.
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Não sei o que injetaram em mim, só sei que desmaiei na hora. Quando acordei eu ainda estava amarrada, dentro de um quarto todo branco e deitada numa cama dura e desconfortável. Meu corpo todo estava dormente e minha cabeça latejava. Aos poucos as lembranças de Bad e Ross voltavam em minha mente, mas tudo parecia tão distante...
Eu me sentia vazia por dentro, e aqueles gritos, gemidos e lamúrias que ecoavam do corredor deixavam o clima ainda mais infernal.
Ali tudo era sempre igual: frio, branco, vazio, melancólico. Eu via enfermeiros indo e vindo, mas meus olhos mal conseguiam diferenciar seus rostos. Tudo era distorcido e embaçado, eu não tinha vontade de me mexer. Eu sentia ânsia.
Assim foram os primeiros dias, até eu me ligar de que tudo era culpa dos remédios que eles infetavam em mim, e dos comprimidos que me obrigavam a engolir.
Todos os dias eles me levavam até uma sala grande, fria e suja, onde havia um tanque de água amarelada no centro, com uma cadeira presa em cima. Sentada ali, amarrada, ele mexiam num mecanismo que fazia a cadeira virar de ponta-cabeça. Aquela água gelada parecia entrar no fundo de meu cérebro, e poucos segundos antes de eu me afogar, eles me puxavam de volta e faziam tudo de novo.
A comida era uma coisa gosmenta e que me dava ânsia só de ver. Com o tempo, as drogas que injetavam em mim começaram a substituir qualquer tipo de alimento – e eu não precisava mais comer.
Na primeira vez que pude sair do prédio, fui escoltada até um campo feio, com árvores secas e mortas, onde o céu cinzento parecia rir da minha desgraça. Os outros pacientes riam abobados, gritavam e gemiam, e eu, no auge da minha apatia, me destacava entre tantos loucos. Por isso, assim como na escola, em casa e em qualquer lugar que eu fosse, todos olhavam para mim como se eu fosse a mais estranha, mesmo que todos ali nem soubessem mais o significado de tal palavra.
Eu sentei ao pé de uma árvore morta e ali fiquei. Eu não tinha mais noção de tempo, parecia que eu estava a meses naquele inferno. Minha pele estava mais pálida do que o normal, e cheia de cicatrizes arroxeadas, minhas costelas já estavam saltadas também. Sorte que não havia espelhos por ali, eu não suportaria me ver com aquele vestido branco que me cobria até os pés.
Às vezes os enfermeiros nos batiam com tanta força que chegávamos a desmaiar, os banhos eram sempre com água fria e quando fazíamos alguma coisa errada, éramos punidos com choques. O hospício tinha vários andares, e no topo, diziam que ficava o quarto de segurança máxima, onde apenas os psicóticos mais pirados iam parar.
Ross parecia tão distante que eu mal me lembrava de seu rosto. Às vezes, dormindo eu ouvia os ronronados de Bad e os sussurros de Emmanuela, me dizendo para ter paciência e não sentir ira. Mas eu sentia raiva de Ross, porque eu sabia que ele nunca iria me tirar dali.
Passando a mão sob as raízes expostas da árvore, eu senti uma coisa pontuda raspar entre meus dedos. Fincando as unhas na terra, aos poucos eu fui cavando até um pequeno objeto. Quando finalmente o tirei, sorri diante da faca em minhas mãos.
Eu a mantive escondida entre o pano de meu vestido enquanto voltava para o quarto. No corredor, eu via garotos se jogando no chão e batendo a própria cabeça na parede, velhas soltando urros melancólicos e enfermeiros socando meninas mais novas do que eu.
Num acesso de raiva e loucura, eu segurei a faca e a finquei no estomago do primeiro enfermeiro que apareceu, puxando-a de volta e a forçando contra seu coração. Repeti os movimentos no segundo, aceitei sem querer no garoto que se debatia e fiz um corte feio no braço da velha.
Não sei o que aconteceu comigo ali, pois algo fora do normal controlava meus movimentos. Eu tinha mais força do que o normal, e todos que se metiam no corredor, acabavam esfaqueados por minhas mãos. Logo, o chão estava repleto de sangue. Loucos e enfermeiros de rastejavam entre as poças, feito vermes, a meu ver.
Eu não precisava de um espelho para saber que aquele horrível vestido branco estava todo rasgado e cheio de sangue, assim como minha face deveria ter um aspecto diabólico. Minha vida não mais me importava.
Senti um choque em minhas costas e meu corpo foi ao chão, ficando cara a cara com uma garotinha que possuía um corte aberto na face e uma mancha vermelha da barriga; ela não respirava.
Meu corpo foi perdendo os sentidos quando alguém começou a me carregar para longe daqui, entre sussurros e lamúrias, subindo uma longa escadaria. Sangue escorria nas paredes e todos apontavam para mim.
Eu acordei e não estava mais no quarto branco, estava num quarto escuro e sujo, silencioso e frio. Da janela de vidro eu via o campo morto, tão distante. Mesmo que olhassem para cima, ninguém poderia me ver, afinal, eu estava no último andar do hospício.
Eu sabia que estava morta, eu sempre estive, e somente Ross poderia me salvar da escuridão. Mesmo que seu rosto estivesse distorcido em minha mente, eu ainda podia ouvir suas gargalhadas ecoando no quarto.
Congelada por dentro, sem seu toque, eu me sentia cada vez mais morta. Eu estava vivendo uma mentira ali. Fashs se passavam em minha mente e as vozes me deixavam atordoada, louca.
Abri a janela do quarto, sentindo a brisa noturna e fria arrepiar toda a minha pele. Olhando para baixo, eu queria me libertar, Olhando para cima, eu via Ross. Ele sorria, com o brilho da lua iluminando a sua face.
Traga-me de volta à vida
Novamente olhando para baixo, eu senti meu corpo perder as forças. Caindo lentamente, com o vestido branco esvoaçando em meu corpo, eu podia ver o sorriso de Ross se afastando de mim. Eu já estava morta antes mesmo de cair.
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Alguma coisa suave e macia roçava em meu braço, mas eu tinha preguiça de abrir os olhos para ver; estava tão macia e quentinha aquela cama. Fazia muito tempo que eu não sentia calor, e mesmo de olhos fechados, eu sabia que a claridade do sol batia no meu rosto. Mas, quando senti uma coisa molhada na minha bochecha, eu arregalei meus olhos na hora.
- BAD?
Ele pulou em meu colo, ainda ronronando e ficou em pé, apoiado com as patinhas dianteiras em meu peito, enquanto lambia meu rosto. Não podia ser um sonho, porque eu podia sentir muito bem o pêlo de Bad em minhas mãos.
Num arrepio estranho, eu senti duas mãos segurando em minha cintura, e logo em seguida, senti um beijo em meu pescoço. Tremendo, eu me virei de dei de cara com Ross, sorrindo para mim. Ele me abraçou e assim ficamos; eu, ele e Bad.
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- Onde estamos afinal? – perguntou a garota, que pela primeira vez tinha parado para olhar ao redor.
- Bom, nós morremos.
A garota arqueou a sobrancelha.
- Tá, sem brincadeiras, Ross.
- Sério – ele riu – eu estou a um bom tempo te esperando. E Bad também – acrescentou, acariciando a cabeça do gato preto.
- Não pode ser... – disse incrédula – eu vim para o céu? Eu?
- Aqui não é o céu, Loren. É uma... bem, outra dimensão.
- Você tá só piorando as coisas, sabia?
Ross caiu na gargalhada.
- Eu não sei como te explicar, acho que não sou a pessoa certa. Apenas entenda que depois de um tempo poderemos voltar, juntos, para a vida.
- Ah, bom... então por que não fui para o inferno? – perguntou, acrescentando logo em seguida – eu matei pessoas.
- Você foi para o inferno – disse sério, passando as mãos nos cabelos negros da garota.
- Fui?
- Pois é... Naquela hora, quando você entrou no carro, seu corpo não agüentou às drogas e remédios que ele te fizeram engolir. Você morreu ali mesmo.
- Mas e o hospício?
- O inferno, você quis dizer.
A garota parou por alguns instantes, pensativa.
- Mas – ela olhou para Ross, que parou imediatamente o toque em seu cabelo – como você veio para cá?
- Eu me matei em frente ao seu túmulo; não suportei tamanha dor. Eu fui parar num lugar escuro e com a faca ainda cravada em meu peito. Acho que passei anos lá, me corroendo de dor e tristeza. Até que um dia eles vieram me buscar.
- Eles quem?
- Você vai conhecê-los logo... Mas o que importa é que você finalmente conseguiu se libertar – disse, segurando em seu rosto e dando-lhe um beijo nos lábios – Eu prometo que nunca mais vou me separar de você, nunca. Nós vamos voltar à vida juntos.
- Você já me trouxe à vida – ela sorriu, tendo os lábios novamente roubados num beijo.
Do outro lado do campo de flores onde estavam, Emmanuela sorria. Finalmente sua filha estava liberta.
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