Loren, The Strange
4 Parte 3 - Acusações
Loren, the Strange
Parte 3 – Acusações
- Órfão? – assustou-se a garota – Sério mesmo?
Ross concordou com cabeça. Seus olhos se perdiam em algum ponto qualquer a sua frente.
- Eu morava num orfanato; não faço idéia de quem são meus pais verdadeiros. Mas eu detestava aquele lugar mais do que qualquer coisa.
- Por que? – perguntou a garota, tentando imaginar algo pior do que a sua casa.
- Lá eu via crianças chegando, sendo adotadas e indo embora com suas novas famílias. Anos e anos a mesma coisa...
- Não entendo – cortou a garota, colocando uma mecha de seu cabelo negro atrás da orelha – por que não te adotavam?
- Eu sou doente, Loren. Os casais que chegavam lá passavam reto por mim, como se eu não existisse. E como se não bastasse, as crianças também não aproximavam de mim.
Os olhos azuis pousaram sob o rapaz, analisando-o: “Pra mim, ele parece absolutamente saudável... Ainda não entendo!” – pensava.
- Antes que você pergunte – disse diante da expressão interrogativa da garota — o que eu tenho é epilepsia.
- Que droga é essa? – perguntou, franzindo a testa e apertando os olhos.
- Você nunca ouviu falar? Ah, bem...a epilepsia provoca convulsões e perda de consciência, sem contar as mudanças de temperamento e crises psicológicas...quando não somos tratados. Lá no orfanato eu não tomava medicamentos fortes o suficiente, e por isso as crises eram constantes – ele olhou para a garota – Todo mundo tinha medo de mim.
- Que doideira! – exclamou Loren, abraçando os joelhos – e depois, o que aconteceu?
- Ah, eu tinha sete anos... E você sabe, os casais preferem bebês e crianças pequenas... Saudáveis – acrescentou, e com um sorriso mínimo ele disse – Mas um dia apareceu um casal estranho lá, pois eles não eram jovens como os outros e deveriam ter uns quarentas e poucos anos.
- Eles te adotaram – arriscou.
Ross confirmou com a cabeça.
- É. Eles tinham grana, eram legais e até pagaram um tratamento bacana pra mim – o garoto mordeu os lábios – mas morreram antes mesmo do meu aniversário de oito anos – Loren arregalou os olhos – Foram assassinados; assalto.
- Sinto muito – disse, meio sem jeito.
- Eu senti muito mesmo quando vi com quem eu ficaria: meu tio.
- Que tem ele?
- Ah, ele não é normal, sabe? Tem síndrome do pânico e outras coisas que eu não faço idéia do que seja – ele suspirou pesadamente antes de continuar – na época, eu nem sabia que tinha um “tio”, e ele por sua vez, também não sabia da minha existência.
- Bizarro – ela disse, achando tudo uma grande loucura – e então?
- Atualmente vivemos da minha herança; eu e ele.
- Ele é um tremendo vagabundo, então.
- Mais ou menos assim – ele gesticulou balançando a mãos — pois qualquer coisa ele põe a culpa na síndrome do pânico; nem quer saber de trabalhar. E também, ele não é a melhor companhia pra mim, sabe?
- Por quê?
- Mesmo com os remédios, eu ainda tenho algumas crises e convulsões. Mas ele não sabe lidar com elas e acaba se desesperando... É horrível!
- Meu Deus, cara! E eu achando que a minha vida era ruim – exclamou a garota.
- Espera só, eu ainda não terminei.
- Tem mais? – perguntou incrédula, pegando um chiclete.
- Pois é, o cara tem trinta e poucos anos... E recentemente, descobri que nas minhas ausências ele se fica de drogando em casa.
- Puta merda! – exclamou Loren.
- Achei umas seringas no banheiro, e ele diz pra mim não me intrometer, que sabe o que está fazendo – Ross sorriu, travesso – Ele fica dias fora de casa – e acrescentou – não que eu me importe, é claro.
- Agora eu entendo porque você usa esse cabelo estranho – disse sem tom de ofensa.
- Verdade – ele passou os dedos sob as mechas escarlates – ele não liga pra nada do que faça. Sorte dele que não sou marginal, nem vândalo.
- Sei... – ironizou.
- Tá falando o que? Você que tem cara daquelas que apronta... Não duvido nada se não foi você quem pichou esses muros – disse apontando para uma imensidão de rabiscos que se estendiam sob a maioria das paredes do pátio sujo.
- Não seja bobo – disse cruzando os braços – se eu tivesse uma gangue, quem sabe. Mas sozinha eu não faço nada.
- Sorte a sua que eu entrei em campo, agora somos dois – disse cruzando os braços, e virando a cabeça para o lado contrário – podíamos ser amigos; matar aula e pichar muros – sugeriu.
- Você é louco.
- Oficialmente sim; tomo quase tarja preta – ele virou para a garota e disse – se quiser eu trago um pouco para você.
- Não precisa, tô feliz com o meu gardenal.
Os dois riram, riram muito. Loren não se lembrava da última vez em que havia gargalhado. Mas tão rápido quanto começou, o riso da garota foi sendo substituído por uma expressão séria, quando, atrás de Ross, surgiu uma figura misteriosa, olhando fixamente para o garoto, que ainda ria.
- O que você quer? – ralhou a garota ao se levantar bruscamente, mirando o homem de vestes negras.
O homem a olhou, com um breve espanto na face, que logo foi sendo substituído por um sorriso enigmático e maligno. Ele nada disse, apenas foi se aproximando cada vez mais de Ross.
- Afaste-se dele! – gritou ao se lembrar das inúmeras vezes em que espíritos malignos haviam aparecido para ela, em ônibus, metrôs, na escola e na rua. Eles a deixavam com raiva sem motivo e a mandavam fazer coisas ruins com outras pessoas.
Mas aquele não parecia estar interessado nela, e sim em Ross.
- Loren, achei que aquela história do gardenal fosse brincadeira – disse rindo.
A garota olhou do homem para Ross, espantada.
- Ross, saia daí – ela o puxou com força do banco, mas ele não se mexeu, seus olhos haviam se fixado num ponto a sua frente, inertes; sem vida.
O homem riu do desespero da garota; um riso maligno e estridente. O negro de suas roupas foi se transformando em sombras, e tão rápido que os olhos de Loren mal puderam assimilar, ele entrou no corpo do rapaz, deixando um rastro negro em volta dele.
Ross arregalou os olhos e caiu de frente no chão, tremendo compulsivamente. A saliva escorria de sua boca para o queixo e seus olhos negros viravam para trás. Ele se debatia violentamente no chão, e Loren mal conseguia se aproximar.
Lágrimas escorriam de seus olhos; era uma tortura ver o garoto naquele estado e nada poder fazer. Quando uma batida forte fez sua cabeça sangrar, ela entrou em pânico.
- O que está havendo aqui? – berrou um dos inspetores, com um tom acusatório a Loren. Atrás dele, alguns alunos olhavam Ross se debatendo, mas era para A estranha que a atenção era dobrada.
- Ross está tendo uma convulsão – disse a garota em desespero – ajude-o, por favor!
- Você que fez isso a ele? – indagou a voz feminina, cheia de veneno – está passando dos limites, hein? Ficou meia hora com o garoto novo e olha só o que fez... – disse apontando para o rapaz que salivava, e tinha os olhos brancos virados para dentro.
- Eu não fiz nada! Por favor, ajude-o!
O inspetor se abaixou, tentando segurar o garoto que se debatia freneticamente, mas foi em vão. Num gesto violento e desajeitado, ele puxou o corpo de Ross e imobilizou seus braços e pernas, mas a cabeça do garoto pendeu para trás. A batida foi forte o suficiente para fazê-lo desmaiar na hora, deixando uma mancha de sangue no lugar onde estava sua cabeça.
- Você, garota – ralhou a voz grossa – vá para a diretoria, agora!
O inspetor segurou o corpo desfalecido de Ross e caminhou até a enfermaria, deixando as garotas – que vieram correndo feito formigas para ver o acontecido – acusando Loren, como se ela tivesse feito aquilo ao garoto.
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Diretoria? O cacete que eu ia pra lá! Mandei todas as garotas irem a merda e corri para a enfermaria, ficando escondida ali por perto.
Depois de um entra e sai infernal, eu finalmente pude entrar lá para ver Ross. Ele tinha um curativo na cabeça, e se não fosse o que tinha acontecido a pouco, eu diria que ele estava apenas dormindo.
Senti um estalo em minha mente e lembrei-me de Emmanuele. Será que ele é a tal pessoa que precisaria da minha ajuda? Eu gelei. Aquele espírito havia entrado em seu corpo, e somente eu sabia disso; esse era o motivo de suas convulsões. Mas, o que eu faço?
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A garota fechou os olhos com força e cerrou os punhos.
“O que eu faço? O que faço?” – disse mentalmente.
“Meus anjos, o que eu faço?”
Um farfalhar de asas fez Loren abrir os olhos instantaneamente, ela olhou para cima e viu as criaturas mais belas que já havia visto –tão belas quanto Ross.
- Me ajudem – ela sussurrou.
Quando Loren olhou para o corpo do rapaz, ele estava envolvido por uma luz branca, com manchas negras se alastrando lentamente, consumindo a luz que aos poucos ia sumindo.
“ Tire-o de lá... Tire-o de dentro de Ross” – sussurrou uma voz não humana dentro da mente de Loren. Ela deu uma última olhada para cima, e se sentou ao lado de Ross, pegando em sua mão com firmeza.
No mesmo instante ela sentiu uma energia ruim e pesada; fechou os olhos. Concentrando toda a energia em seu interior, Loren a drenava para Ross, diminuindo, aos poucos a energia pesada que possuía o corpo do rapaz. Ela sabia o que estava fazendo, mesmo nunca o tendo feito.
A garota sentiu uma brisa leve ao seu lado. Quando abriu os olhos, a criatura iluminada sorriu para ela, tocando levemente na face do rapaz desacordado. O anjo batia suas asas com uma suavidade sobre-humana, e quando partiu, deixou no ar uma mensagem que somente Loren pode ouvir.
- Loren? – perguntou a voz rouca do rapaz, que ainda de olhos cerrado, apertava a mão da garota – o que houve?
- Você teve uma convulsão, só isso – disse tentando disfarçar o repentino cansaço que se apossara dela – Está melhor?
- Minha cabeça dói – disse franzindo a testa.
Ela apertou a mão dele entre as suas – Foi só uma pancadinha de leve – e então acrescentou, se aproximando – você me deu um baita susto, hein? Quase morri do coração vendo você daquele jeito.
- Ah – ele fechou os olhos, mordendo os lábios – estava tudo indo tão bem... Eu achei que mudando de escola eu ia me livrar um pouco do povo que me acha louco. Mas veja só: logo de cara já acontece isso comigo!
- Não foi sua culpa! – afirmou a garota, com convicção.
- Ah é? E foi de quem?
Mas Ross não teve tempo de ouvir a reposta de Loren, pois a diretora entrou violentamente na enfermaria, junto com um bando de professores.
- Essa é a ultima vez em que aturei essas suas esquisitices, garota! Como se não bastasse andar pela escola falando sozinha, e agindo feito louca, agora faz um aluno parar na enfermaria – ralhou a mulher – Isso é inadmissível!
- Ela não tem culpa! – Ross a defendeu — Eu sou epiléptico, eu tenho convulsões. Loren não tem nada a ver com isso.
- Ora, garoto, já tivemos vários alunos epilépticos nessa escola, sabemos com é – ela arqueou uma sobrancelha, sarcasticamente — Mas o problema é ela, é sempre ela! Tudo de estranho que acontece nessa escola sempre tem essa garota metida no meio.
Loren mordeu o lábio inferior com força.
- Vou expulsa-la hoje mesmo! – afirmou a mulher.
- Não, não vai – cortou o garoto – A senhora não tem provas de nada disso do que está falando – disse com firmeza – eu sei que não.
- Como ousa...
- Ouso sim, pois sei que tudo isso é uma tamanha injustiça contra ela – ele olhou para a garota de soslaio, mas a menina permanecia apreensiva – Vocês não sabem como ela é de verdade, vocês só sabem criticá-la.
A diretora abriu a boca e tornou a fechá-la.
- Desde que cheguei aqui, o tempo todo eu só vi pessoas a destratando sem motivo. O que ela fez afinal? São as roupas que ela usa? O jeito excêntrico dela? O que?
- Ela é estranha – disse a diretora com convicção, e sussurrou algo como “diferente”. Mas essa foi a gota d’água para Ross.
- O que? Vai expulsar uma aluna por ela ser... diferente? – exaltou-se o garoto – Isso é sério mesmo? E eu achando que bullying era só entre alunos!
A face da diretora ficou vermelha, ela tentou arriscar algumas palavras mas se rendeu, deixando a enfermaria rapidamente, com os professores no seu encalço.
- Obrigada – sussurrou a garota, sem encontrar palavras melhores para agradecê-lo.
- De nada – ele sorriu suavemente, e então disse – Agora, me conte tudo.
- Tudo o que?
- Eu sei que você está me escondendo coisas – afirmou – a pouco, antes do meu ataque, você estava falando com alguém. Eu não vi nada, mas você parecia estar vendo.
- Ross...
- Aquela megera disse que você fala sozinha...
- Ross...
- ...e naquela hora você...
- Ross, eu vejo espíritos.
- Você... O que?
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